sábado, 16 de junho de 2012

Neil Harbisson vê as cores como sons: "Sou um ciborgue"

Artigo escrito por Nicolau Ferreira, jornalista do Público.

"As cores são interferências visuais, diz-nos Neil Harbisson. São ondas de luz reflectidas pelos objectos. "A luz move-se de forma tão rápida que não consigo ver as cores", conta ao PÚBLICO. O britânico descobriu aos 11 anos que só via cinzentos, tinha uma síndrome visual chamada acromatopsia, que o impede de ver as cores. Terá herdado este problema do avô, que, tal como ele, tinha problemas com as cores.
Neil Harbisson faz arte com sons e cores: o som de Lisboa é azul-pastel e creme, diz


Durante anos, lutou para compreender as cores, até assistir a uma palestra sobre cibernética, onde interpelou o orador e falou-lhe do seu problema. Nasceu uma solução: uma câmara que lê os raios luminosos e transforma as cores em sons. Harbisson chama-lhe eyeborg. Quando utilizou o dispositivo pela primeira vez, as cores transformaram-se em sons e o mundo mudou. "É um novo sentido, não um substituto. Para mim, a cor é um som", explica Harbisson, 29 anos, que veio ontem dar uma conferência na Fundação Champalimaud, em Lisboa, juntamente com o investigador Domingos Henrique, do Programa Champalimaud de Neurociências, e o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que trabalha nos Estados Unidos.

Harbisson dizpor que é que este eyeborg o transforma num ciborgue. "À medida que o tempo passou, senti que deixou de ser um dispositivo e passou a ser a extensão dos meus sentidos", explica. "A maior mudança aconteceu quando comecei a ouvir cores em frequências diferentes nos meus sonhos. O meu cérebro criou sons electrónicos e entendeu-os como cores. O organismo e a cibernética unem-se. É por isso que a palavra "ciborgue" define o meu ser."

Desde 2004 que Neil Harbisson não tira o aparelho que traz na cabeça. Utiliza-o a dormir, a tomar banho. É um elemento do seu corpo: o eyeborg, atento por cima dos seus olhos azuis, está ligado à parte de trás da cabeça, onde umchip, colado ao crânio pressionando-o, emite sons. Harbisson ouve as cores, não directamente pelos ouvidos, mas através do som que percorre os seus ossos.

Foi esta situação que o ciborgue explicou às autoridades britânicas em 2004, que desde então o reconhecem como ciborgue. Agora, a sua fotografia do passaporte tem lá a câmara - ela faz parte do corpo.

O novo sentido, ao contrário da visão, dá um som geral das cores dos lugares. "Agora estou a apontar lá para fora e detecto um som entre o verde e o amarelo", diz, sentado num cadeirão, no enorme hallda fundação. Um dos projectos do ciborgue foi andar pelas capitais europeias a ouvir as cores das cidades. Lisboa é azul-pastel e creme. Mas se Harbisson quiser ouvir a cor de um objecto, então tem de se aproximar muito dele, para que o eyeborg não receba raios reflectidos de outros locais.

O que sentiu a primeira vez que pôs o eyeborg? "Tudo mudou, porque a cor está em todo o lado. Por exemplo, quando me visto. Hoje estou vestido todo com a mesma cor [T-shirt e calças vermelhas, antes vestia-se a preto e branco]. A alimentação também mudou. Os alimentos têm cores e, quando se come, pode compor-se música. Mudou a forma como vejo arte visual ou as caras das pessoas. Pessoas que conhecia antes, agora que oiço as suas cores vejo-as de uma forma diferente", descreve.

Os primeiros tempos foram os mais difíceis. O cérebro de Neil Harbisson teve de se habituar a uma quantidade enorme de informação que antes não recebia. Mas, passadas cinco semanas, já se tinha habituado ao dispositivo e tinha memorizado o som de todas as cores. Hoje, gosta de andar pelos supermercados e ouvir as harmonias das cores nas várias secções. Elegeu o som da beringela como a sua cor favorita: "Tem um tom muito alto, no supermercado sobressai." No seu trabalho artístico, dá concertos utilizando o som das caras das pessoas que estão na plateia e transforma ainda os discursos de políticos famosos em cores.

Como ciborgue, Harbisson diz que é o primeiro de muitos. "As crianças que nascem agora não vão usar a tecnologia como uma ferramenta, mas como parte do corpo. As pessoas que nasceram no século XX vêem essa junção como negativa, mas isso está a mudar", defende, acrescentando que vão surgir novos sentidos e que isso vai ajudar-nos a compreender a realidade. "Há tantas coisas em que podemos evoluir, aplicando a tecnologia no nosso corpo.""

Vasos sanguíneos humanos a três dimensões criados em laboratório

Artigo escrito por Nicolau Ferreira, jornalista do Público.

O sistema circulatório estende-se por todo o corpo, com o sangue a movimentar-se numa rede de veias, artérias, capilares. Leva oxigénio e nutrientes às células, transporta moléculas tóxicas que têm de ser expelidas e serve de meio de comunicação hormonal. É uma rede tridimensional que não pode falhar, mas que ainda não se compreende totalmente como funciona. Uma equipa de cientistas conseguiu agora criar uma rede de capilares humanos num suporte tridimensional, com sangue a fluir. Além de permitir estudar estes processos, os vasos podem servir para testar novas terapias.

Microvasos sanguíneos formados num molde, no qual se tinham colocado células endoteliais humanas (a vermelho)

“Podemos dissecar realmente o que acontece na ligação entre o sangue e o tecido, e olhar como é que as doenças [do sangue] começam a progredir e desenvolver terapias eficientes”, disse Ying Zheng, uma das autoras do trabalho, da Universidade de Washington, nos EUA.

O trabalho, publicado ontem na revista norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences, começa por explicar que os capilares — os vasos mais pequenos de transporte circulatório — são “um órgão extenso que medeia as interacções entre os tecidos e o sangue”. Antes, já se tinha produzido este sistema vascular numa estrutura bidimensional, mas esse modelo está longe da estrutura tridimensional e complexa que existe nos organismos vivos.

Ying Zheng e colegas tentaram, por isso, produzir um sistema tridimensional de capilares sanguíneos com a espessura de um fio de cabelo. Para tal, a equipa utilizou um molde de colagénio, uma proteína que existe na matriz extracelular de muitos tecidos, como a cartilagem e os tendões. Nos espaços dentro desta matriz, foram introduzidas células humanas endoteliais, que formam a parede interna dos vasos sanguíneos. Ao fim de duas semanas, estas células organizaram-se e criaram uma rede de canais da espessura de um fio de cabelo (100 micrómetros) no molde rectangular.

No corpo, os capilares estendem-se até ao extremo dos tecidos. As células endoteliais que formam a parede destes vasos têm ligações especiais entre elas, que permitem manter a estrutura do tubo, mas também deixam que o oxigénio e outras moléculas atravessem as paredes. Este fenómeno é necessário para que haja comunicação entre os tecidos e o sangue.

Os cientistas verificaram que nos vasos sanguíneos, produzidos in vitro, as ligações entre as células endoteliais eram equivalentes às que existem no corpo humano. Mais, conseguiram promover a formação de novos vasos, injectando no colagénio células nervosas que produzem substâncias que promovem este crescimento.

Quando colocaram sangue dentro dos vasos, verificaram que as células sanguíneas eram transportadas sem entraves, até pelos cantos da estrutura de colagénio. Testaram ainda compostos inflamatórios, produzidos quando há ferimentos, e viram que o sangue in vitro entra num processo de coagulação, tal como no corpo.

“Com este sistema podemos dissecar cada componente ou colocar todos os componentes da circulação juntos. É uma coisa boa, pois permite isolar os componentes biofísicos, bioquímicos e celulares. Como é que as células endoteliais respondem ao fluxo de sangue ou a diferentes químicos? Como é que interagem com os tecidos envolventes e como é que esta interacção afecta a barreira que as células endoteliais formam?”, questiona Ying Zheng.

A investigação também é importante para o estudo do cancro. Um dos passos fundamentais para um tumor se alastrar envolve a circulação. À medida que o tumor aumenta, promove o crescimento de vasos que trazem sangue e nutrientes, que alimentam o cancro. Mas que também possibilitam que células cancerosas entrem na circulação e se alojem noutros locais do corpo, provocando metástases. A equipa injectou no molde proteínas que os tumores produzem e verificou que a parede dos capilares se tornou mais permeável, como ocorre nos cancros.

Além do estudo de doenças e do teste de fármacos, este modelo pode vir ainda a ser desenvolvido para produzir transplantes médicos do sistema circulatório. "

Genoma mais antigo de sempre de um vírus extraído de uma múmia coreana do século XVI

Artigo escrito por Teresa Firmino, jornalista do Público
"Tinha quatro a seis anos de idade, quando morreu no século XVI, e tinham-na descoberto num túmulo na cidade de Yangju, perto de Seul, na Coreia do Sul. Os seus restos mortais, que chegaram até nós mumificados de forma natural, têm sido submetidos a vários estudos — num deles, procurou-se ver como estavam os seus órgãos internos através de pequenos furos, por onde também se extraíram amostras de tecidos. Agora, uma equipa internacional anuncia que as amostras do fígado retiradas revelam que a criança estava infectada com o vírus da hepatite B.

Mas não foi fácil detectar a presença de ADN do vírus, uma vez que se encontrava degradado por ser tão antigo: só depois de isso ter sido conseguido em laboratórios de três países (Coreia do Sul, Reino Unido e Israel) a equipa avançou para a sequenciação do genoma completo deste vírus antigo da hepatite B. Nisto tudo, e na comparação do genoma entretanto obtido com sequências genéticas de vírus que infectaram ocidentais nos últimos 60 anos, a equipa levou três anos.

Resultado: este genoma é o mais antigo alguma vez obtido de um vírus, sublinha a equipa, composta por investigadores de Israel e da Coreia do Sul, entre outros, que publicou as conclusões do trabalho na revista Hepathology, da Associação Americana para o Estudo das Doenças do Fígado.

“Apesar dos grandes progressos na área do ADN, até agora só tinha sido descrito na íntegra um genoma viral antigo, o da gripe espanhola de 1918”, diz o artigo de Gila Kahila Bar-Gal, da Universidade Hebraica de Jerusalém, e colegas.

Este genoma permite contar mais pormenorizadamente a história de um vírus que infecta hoje, segundo a Organização Mundial de Saúde, 400 milhões de pessoas em todo o mundo, sobretudo em África, na China e Coreia do Sul, apesar de existir uma vacina que permite evitar a infecção. Transmitido pelo sangue e outros fluidos corporais, como saliva e esperma, nomeadamente por material não esterilizado como seringas, o vírus da hepatite B está na origem da cirrose e do cancro do fígado, doenças que matam cerca de 700 mil pessoas por ano.

A comparação entre partes do genoma do vírus antigo e dos vírus modernos da hepatite B permitiu calcular o ritmo das suas mutações, ocorridas ao longo dos últimos quatro séculos. Uma vez na posse dessa informação, os cientistas puderam então andar para trás no tempo, para tentar descobrir quando surgiu o antepassado da estirpe do vírus que infectou a criança (a estirpe é a C2).

“Pensa-se que as mudanças genéticas resultaram de mutações espontâneas e, possivelmente, de pressões ambientais ocorridas durante o processo evolutivo do vírus. Tendo em conta a taxa de mutações observadas, a análise do ADN do vírus da múmia sugere que ele teve origem há pelo menos 3000 e talvez até há 100 mil anos”, refere um comunicado da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Migrações de uma doença

A idade da múmia, que mantém os órgãos internos relativamente bem preservados, foi confirmada por datação por carbono 14 quer das suas roupas, quer dos pedaços de fígado. Por isso, a sua idade e, por conseguinte, a do vírus da hepatite B que transportava dão ainda pistas sobre a forma como a doença se disseminou pelo planeta.

Supõe-se que viajou de África para o Sudeste asiático, refere o comunicado. “Pode-se ainda clarificar as vias migratórias da hepatite B no extremo asiático, desde a China e Japão até à Coreia, bem como para outras regiões na Ásia e na Austrália”, explica-se no comunicado.

No artigo científico, os cientistas consideram mesmo que os vestígios do vírus encontrados na múmia constituem um dos primeiros exemplos da sua chegada ao Sudeste da Ásia através de migração humana.

O genoma antigo agora obtido também pode servir como modelo no estudo de como vai evoluir a infecção crónica da hepatite B, explicou ao jornal Haaretz um dos elementos da equipa, Daniel Shouval, também da Universidade Hebraica: “Este resultado vai permitir-nos determinar o ritmo das mutações do vírus no futuro.” "

Regeneração da medula espinal - Tratamento fez ratos paraplégicos andarem por vontade própria

Artigo escrito por Ana Gerschenfeld, jornalista do Público.
"O sonho de Christopher Reeve (1952-2004), que depois de ter protagonizado o regresso do Super-Homem aos ecrãs de cinema ficou tetraplégico devido a uma lesão da medula espinal, na sequência de uma queda de cavalo, poderá estar mais perto da concretização, a acreditar nos espectaculares resultados a publicar nesta sexta-feira na revista Science. (01 de junho de 2012)

O cérebro e a medula espinal são capazes de uma certa recuperação após lesões de gravidade moderada — graças à “neuroplasticidade” do sistema nervoso, cujos circuitos são capazes de se adaptar e regenerar, restabelecendo as funções afectadas. Mas pensava-se até aqui, que em caso de lesões muito graves, em particular da medula espinal, essa recuperação era impossível. O trabalho que Grégoire Courtine e colegas, da Universidade de Zurique e do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, têm vindo a fazer nos últimos cinco anos está a alterar profundamente a compreensão das capacidades regenerativas do sistema nervoso central.

Os resultados agora obtidos — em ratos cuja medula espinal fora seccionada quase na totalidade, paralisando por completo as suas patas traseiras —, mostram que, em certas condições, é possível estimular a neuroplasticidade e a recuperação motora ao ponto de os animais voltarem a ser capazes de mexer voluntariamente as extremidades paralisadas. Para isso, afirmam os cientistas, é preciso “acordar” primeiro os neurónios da medula espinal, que ficaram “dormentes” ao serem desligados do cérebro devido à lesão.

Combinaram um tratamento de estimulação química e eléctrica com um treino num sistema robótico de reabilitação motora. Primeiro, injectaram nos ratos um cocktail de substâncias químicas que imitam a acção de neurotransmissores como a dopamina, a adrenalina ou a serotonina — ou seja, que imitam os efeitos dos sinais químicos que o cérebro envia normalmente à medula espinal. As substâncias excitaram os neurónios da medula que controlam os movimentos das patas, preparando-os para coordenar, nas fases seguintes da experiência, os movimentos voluntários da parte inferior do corpo.

Verdadeiros atletas

Cinco a dez minutos após a injecção, os cientistas estimulavam electricamente a medula espinal dos animais via uma série de eléctrodos implantados no espaço epidural (a camada mais exterior do canal espinal). Enviavam assim sinais eléctricos contínuos até aos neurónios previamente excitados pelo cocktail químico. “Restava agora iniciar o movimento”, explica Rubia van den Brand, co-autora, em comunicado.

Nesta terceira fase, graças a pequenos coletes, os cientistas “penduraram” os animais a um dispositivo robótico que os mantinha erguidos sobre uma plataforma, com o peso totalmente suportado pelas patas traseiras, e que só se activava para os manter de pé se eles perdessem o equilíbrio. O sistema permitia ainda que os animais pudessem andar para frente de sua livre vontade. E de facto, quando os cientistas colocaram bocadinhos de chocolate na outra ponta da plataforma, os ratos começaram a querer andar — e a andar mesmo.

“Após umas semanas de neurorreabilitação com essa combinação de arreio robótico e estimulação electroquímica”, explica Grégoire Courtine, “os nossos ratos não só iniciavam voluntariamente a marcha, como depressa começaram a correr, a subir escadas e a evitar obstáculos”.

Quando os cientistas examinaram o que tinha acontecido ao nível microscópico no sistema nervoso dos animais, constataram “que as fibras nervosas na medula espinal e no cérebro tinham quadruplicado”, diz Janine Heutschi, outra co-autora. E mais: as novas fibras tinham contornado a lesão medular, permitindo que os sinais vindos do cérebro atingissem a zona da medula espinal onde estavam situados os neurónios previamente excitados. Para Courtine, este crescimento nervoso reproduz, de certa maneira, o que acontece na infância durante o desenvolvimento dos animais.

“Isto é um campeonato da reabilitação!”, exclama este cientista. “Os nossos ratos, que poucas semanas antes estavam completamente paralisados, tornaram-se atletas. E estou a falar em 100 % de recuperação do movimento voluntário.”

Há razões, afirmam, para acreditar que as pessoas paralisadas devido a lesões da medula espinal possam vir um dia a beneficiar destes resultados. Courtine estima que os ensaios clínicos de eficácia em seres humanos poderão começar dentro de um ou dois anos."

Encontrada a química do tomate mais saboroso

Artigo escrito por Nicolau Ferreira, jornalista do Público.
"Vegetais e frutos com um aspecto perfeito só no supermercado? Talvez, mas isso não quer dizer que sejam os mais saborosos. Uma investigação comparou várias substâncias de variedades nativas de tomate com as que existem no supermercado e descobriu compostos químicos importantes que tornam este vegetal agradável ao paladar. O estudo foi publicado na revista Current Biology.














"Sabemos agora do que é que precisamos para melhorar um tomate sem sabor", declara Harry Klee, da Universidade da Florida, Estados Unidos, líder do projecto.

Se tudo o que é necessário para um tomate é ser vermelho, redondo, brilhante e cheirar bem, então as variedades comerciais estariam no pódio. Mas há variedades não comercializadas, com formas e cores diferentes, cada vez mais apreciadas pelo sabor.

A equipa de Klee foi verificar que compostos eram responsáveis por esta preferência das pessoas. Analisou a quantidade de glicose, frutose, citrato, malato e de 28 compostos voláteis - que se evaporam quando estão em contacto com o ar - em 152 variedades nativas. Ao compararem estas variedades com aquelas que são comercializadas, os cientistas descobriram que alguns compostos estão presentes vários milhares de vezes a mais em variedades diferentes.

Para terem uma correspondência entre os compostos nas variedades e o sabor de cada uma delas, convidaram 170 voluntários a prová-las e a dar-lhes notas. A equipa verificou que a intensidade do sabor se devia a 12 compostos e que outras 12 substâncias eram responsáveis por otomate ser mais ou menos doce.

A equipa verificou ainda que uma classe de compostos, que existe em grande quantidade e que se pensava ser importante para o paladar do tomate, afinal não o era. Enquanto outra, o geranial, tornava o tomate muito mais saboroso e existia em pouca quantidade nas variedades do supermercado. "Isto pode ser o primeiro passo para dar um bom sabor ao tomate comercial", diz Klee."



                       

Fibras vegetais utilizadas para criar suportes publicitários biodegradáveis

Artigo escrito por Samuel Silva, jornalista do Público.

"Fibras de milho, soja e bambu constituem os têxteis utilizados por duas universidades portuguesas para criar o primeiro outdoor publicitário biodegradável a nível mundial. A inovação está agora pronta para chegar ao mercado e cria condições para que a lei da publicidade passe a ser cumprida. É que desde o ano 2000 que o Estado português exige que as mensagens publicitárias sejam impressas em materiais "verdes", o que não está a ser cumprido.

A alteração feita há 12 anos à Lei 97/88, que regula a "a fixação e inscrição de mensagens de publicidade e propaganda", "proíbe a utilização, em qualquer caso, de materiais não biodegradáveis na fixação e inscrição" dessas mensagens. Mas essa é uma determinação que "ninguém cumpre", denuncia a investigadora Fernanda Viana, que desenvolveu nos novos outdoors. Quase todos os suportes publicitários utilizados têm por base materiais sintéticos, especialmente poliéster e polivinilcloreto (PVC), que não são biodegradáveis.

Foi ao cruzar-se com esta norma da lei que Fernanda Viana descobriu o caminho que queria dar à investigação para o seu doutoramento. Professora de Publicidade da Universidade Fernando Pessoa (UFP), ela procurou na Universidade do Minho (UM) os meios para a investigação e deste cruzamento nasceu esta inovação.

Feitos em fibras de milho, soja e bambu, materiais naturais, os novos outdoors têm a biodegrabilidade facilitada. Isso foi comprovado durante a investigação e os têxteis decompuseram-se em matéria orgânica, inclusivamente em compostagem caseira, ao fim de 28 semanas.

Além disso, o uso destes componentes não põe em causa a fiabilidade dos suportes publicitários. "O protótipo que desenvolvemos mostra que tem uma resistência tão grande como os outros", sublinha Jorge Neves, da UM, que orientou o projecto.

 A UM e a UFP já pediram a patente em Portugal da inovação, que será partilhada em 50% pelas duas instituições. Só depois de oficializado o registo é que os investigadores avançarão com os contactos com o mercado para perceber a abertura das empresas à adopção desta solução. "Quisemos jogar pelo seguro e manter o segredo à volta do produto", diz Fernanda Viana.

Os têxteis biodegradáveis são "ligeiramente mais caros" do que os sintéticos, mas a diferença de custo tem-se esbatido ao longo dos últimos anos, à medida que os novos tecidos vão sendo aperfeiçoados. Por isso, a alternativa "verde" tem condições para ser "perfeitamente competitiva" no mercado publicitário, considera a investigadora. Até porque, na produção de um outdoor, o principal custo é o do design, mais do que o suporte ou a sua impressão.

Como forma de atrair o mercado, os investigadores acrescentaram outra inovação aos outdoors que desenvolveram: o uso de cristais líquidos. Este material, que nunca tinha sido usado antes em têxteis, é incorporado no tecido através de microcápsulas, que permitem criar uma película preta sobre o placard impresso.

A inovação deste outdoor resulta assim do uso, num suporte publicitário, de fibras biodegradáveis, às quais se juntaram ainda cristais líquidos.

Os cristais são termossensíveis e respondem à variação de apenas meio grau Celsius. Por isso, mudam de cor em função da temperatura e das condições meteorológicas, o que permitirá aos anunciantes transmitir diferentes mensagens no mesmo suporte e usar a mudança do tempo como elemento das suas campanhas. "Pode-se ir despindo um modelo à medida que o tempo fica mais quente durante o ano, passando de roupas de Inverno a fatos de banho", exemplifica Jorge Neves.

Misterioso evento cósmico do século VIII ficou gravado

Artigo escrito por Ana Gerschenfeld, jornalista do Público.

"Cientistas da Universidade de Nagóia, Japão, descobriram, nos anéis de crescimento correspondentes aos anos 774 e 775 d.C. de dois cedros históricos, um aumento excepcional da concentração de carbono 14. Excepcional pela rapidez - ocorreu em apenas um ano - e por ter sido de 1,2%, quando a variação anual deste isótopo do carbono não costuma ultrapassar os 0,05%.
Fusa Miyake e colegas atribuem, na revista Nature, o fenómeno gravado nos troncos dessas árvores a um aumento espectacular dos raios cósmicos que atingiram a Terra naquela altura. Os raios cósmicos são partículas subatómicas que vêm do espaço e que, ao interagirem com a atmosfera terrestre, produzem, entre outros elementos, carbono 14. Este, ao ser absorvido pelas árvores durante a fotossíntese, deposita-se nos anéis de crescimento.

O hipotético fenómeno cósmico, argumentam estes cientistas, terá sido global, uma vez que também houve, na mesma altura e ao longo de dez anos (de 775 a 785 d.C.), aumento do carbono 14 nos Estados Unidos e na Europa - e aumento de berílio 10 (um outro subproduto da interacção dos raios cósmicos com a atmosfera) no gelo antárctico.

Os cedros agora estudados provêm da ilha de Yaku, no Sul do Japão. "Uma das árvores foi abatida em 1956 pelos serviços florestais da ilha e, em 1995, eles forneceram-nos o tronco que temos no nosso laboratório", explicou Miyake ao PÚBLICO. O outro foi obtido por um colega, no ano passado, junto dos mesmos serviços.

Uma superincógnita

Só uma supernova (a explosão cataclísmica de uma estrela que morre) ou uma supererupção solar poderiam ter produzido uma chuva de raios cósmicos tão intensa, dizem os cientistas. Mas essas explicações não os satisfazem. "Se tivesse havido uma supernova em 775 d.C., há relativamente pouco tempo e perto da Terra, ela ainda seria tremendamente brilhante (em ondas de rádio, raios X e titânio 44), diz-nos Miyake. "Mas não foi observado nada do género."

E a possibilidade de ter havido uma supererupção solar também não a convence: "Até agora, pensava-se que nunca tinha havido uma supererupção, uma vez que não existem registos históricos indicadores de um tal evento, por exemplo de extinções maciças [de espécies vivas], que a destruição da camada de ozono produzida por um tal acontecimento não teria deixado de acarretar", frisa Miyake, que especula que se possa ter tratado de um evento do qual "ainda desconhecemos a existência". Mas acrescenta: "Se, contudo, o evento foi mesmo causado por uma supererupção, o desafio vai agora consistir em estudar o mecanismo de produção destes eventos solares e a possibilidade de existirem supererupções sem efeitos adversos para a matéria viva."

Igor Moskalenko, astrofísico da Universidade de Stanford, nos EUA, citado pela revista New Scientist, diz que "não consegue imaginar que uma única erupção solar possa ser tão brilhante", contrapondo que se poderá ter tratado de "uma série de erupções mais fracas ao longo de um a três anos". Miyake concorda.

Mike Baillie, da Queen"s University, no Reino Unido, também citado pela New Scientist, encontrou entretanto um documento histórico que sugere que algo de extraordinário poderá ter acontecido naqueles anos do século VIII. Roger de Wendover, cronista inglês do século XIII, escreveu: "No Ano do Senhor 776, sinais de fogo assustadores foram vistos nos céus após o pôr do Sol; e apareceram serpentes em Sussex, como se brotassem do chão, para o grande espanto de todos.""