sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Fragmentação florestal acelera extinção de faunas autóctones

Artigo publicado pelo jornal Público em 26/09/2013
As espécies que vivem em “ilhas” de floresta tropical poderão desaparecer muito mais depressa do que se pensava.
 

Uma das ilhas do reservatório de Chiew Larn, na Tailândia
Os resultados de um estudo realizado por uma equipa internacional de cientistas e publicado nesta quinta-feira pela revista Science são peremptórios: bastaram pouco mais de duas décadas para ver desaparecer quase todos os pequenos mamíferos que viviam em fragmentos de floresta tropical na Tailândia.
 
Luke Gibson, da Universidade Nacional de Singapura, e colegas, queriam perceber se as espécies autóctones desses habitats conseguiriam sobreviver o tempo suficiente – digamos, muitas décadas – para permitir a criação de corredores entre os fragmentos e compensar assim os efeitos nefastos do isolamento ecológico. A conclusão parece ser que não há tempo nenhum.
 
No estudo, os cientistas utilizaram como laboratório natural o reservatório hidroeléctrico de água de Chiew Larn, cuja inundação em finais dos anos 1980 deu origem a mais de 100 ilhas de floresta tropical. Por duas vezes, realizaram um inventário da fauna em 16 desses fragmentos florestais.
 
Puderam assim constatar, explica a Science, que nos fragmentos com menos de 10 hectares todos os pequenos mamíferos estavam extintos passados cinco anos – e que, nos fragmentos com 10 a 56 hectares, o mesmo acontecera ao fim de 25 anos.
 
“Foi um Armagedão ecológico”, diz Gibson em comunicado da sua universidade. “Ninguém imaginava que iria haver este tipo de extinções catastróficas locais.”
 
A fragmentação favoreceu porém uma espécie não autóctone invasora: o rato da Malásia (Rattus tiomanicus). “Isto sugere fortemente que a fragmentação do habitat aliada à presença de espécies invasoras pode ser fatal para a fauna autóctone”, diz por seu lado Antony Lynam, da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem norte-americana, citado pelo mesmo comunicado.
 
As florestas tropicais são uma grande fonte de biodiversidade e estão a sofrer uma fragmentação em todo o mundo devido à captação de terras pela agricultura e outras utilizações não florestais. Com base nestes resultados, os autores concluem que os esforços de conservação da biodiversidade deveriam passar pela preservação de grandes extensões de floresta tropical.

Este pequeno peixe viveu há 419 milhões de anos e tinha uma cara (quase) igual à nossa

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 26/09/2013
Descoberta de fóssil muito bem conservado de peixe primitivo pode obrigar a rever a história dos vertebrados.
Visão artística do peixe primitivo agora descoberto
 


Duas vistas da sua cabeça fóssil
 
Parece um capitel medieval, finamente esculpido na pedra no mais puro estilo naturalista. Mas é na realidade a cabeça fossilizada - e excepcionalmente bem preservada - de um peixe que viveu há 419 milhões de anos, durante o período Silúrico. Descoberto em 2010 nas rochas sedimentares marinhas da Formação Kuanti, no Sul da China, esta primitiva criatura é descrita hoje, na revista Nature, pela equipa internacional que a achou e que agora analisou as suas surpreendentes características anatómicas.
 
Segundo estes cientistas, trata-se do mais antigo animal com uma mandíbula moderna - ou seja, dono de uma cara muito parecida com a dos vertebrados actuais, entre os quais se incluem os seres humanos. Se assim for, esta descoberta contradiz uma ideia há muito enraizada em paleontologia: a de que o antepassado comum a todos os vertebrados modernos (que era um peixe) era fisicamente parecido com os tubarões actuais.
 
A equipa, liderada por Min Zhu, do Instituto de Paleontologia e de Paleoantropologia dos Vertebrados em Pequim, baptizou o novo animal Entelognathus primordialis, o que significa "mandíbula completa primordial".
 
O Entelognathus tinha cerca de 20 cm de comprimento (o tamanho de uma sardinha). Era um peixe da classe dos já extintos placodermos, cuja cabeça e ombros estavam cobertos por placas ósseas e que são considerados como o tipo mais primitivo de peixes com maxilares. Mas - e é aí que está a novidade -, embora à primeira vista os maxilares de Entelognathus parecessem bastante banais, afinal não eram. Tinham a estrutura dos nossos próprios maxilares, algo inédito num peixe como este. "É a primeira vez que vemos ossos [faciais] deste tipo num placodermo. Até aqui, os placodermos conhecidos tinham maxilares essencialmente feitos de cartilagem", explicou ao PÚBLICO Min Zhu num email.
 
Ora, se o antepassado de todos os vertebrados com maxilares era um placodermo, o seu aspecto não podia ter nada a ver com o dos tubarões, que possuem quanto a eles um esqueleto cartilaginoso e uma "couraça" de pequenas escamas a cobrir a totalidade do corpo. Resumindo, a confirmarem-se os resultados, o novo fóssil poderá vir a pôr em causa a história natural dos vertebrados tal como ela é contada há mais de cem anos.
 
"Esta é de facto uma descoberta surpreendente!", diz-nos Philippe Janvier, paleontólogo do Museu Nacional de História Natural de Paris. "A ideia de que o antepassado comum a todos os vertebrados com maxilares era parecido com os tubarões, com um exosqueleto formado por pequenas escamas, estava fortemente enraizada entre os especialistas de peixes desde o século XIX, sendo confortada pelo facto que todos os vertebrados conhecidos do Silúrico com maxilares eram "pequenos tubarões com espinhas", e portanto prováveis precursores dos tubarões", salienta este cientista. "Aqui, a grande novidade é a presença, no mesmo animal, de uma estrutura bastante típica dos placodermos associada a mandíbulas com um maxilar, um premaxilar, um jugal, etc., o que permite concluir que os primeiros vertebrados com maxilares possuíam uma organização corporal mais próxima dos placodermos e dos peixes com esqueleto ósseo do que dos tubarões."
 
Philippe Janvier disse-nos ainda que já estava a par do achado "através do seu colega Min Zhu" e que ficara "impacientemente" à espera da publicação do artigo. "Há muito tempo, eu também encontrei placas isoladas de placodermos do Silúrico, deste mesmo tipo, no Vietname (e até publiquei os resultados). Mas não conseguia imaginar o aspecto do animal inteiro. Agora, tudo se ilumina!"

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Corte e colagem de cromossomas é uma das chaves para a evolução dos organismos

Texto de Nicolau Ferreira publicado pelo jornal Público em 26/08/2013
Como é que chimpanzés e humanos são tão parecidos e tão diferentes? Estudos de equipa portuguesa numa espécie de levedura, só com uma célula, dão algumas respostas.
 
Já foram documentados rearranjos cromossómicos em humanos
Os cromossomas são os moldes originais da informação genética. Alojados no núcleo das células, são um conjunto de moléculas e ADN constantemente requisitados para a produção de proteínas a partir dos genes codificantes nesse ADN. A evolução tornou os cromossomas como caixas-fortes para proteger a informação genética, evitando ao máximo as mutações, que podem ser prejudiciais para os organismos. Mesmo assim, essas mutações ocorrem e, às vezes, não se limitam a um tijolo do ADN, num determinado gene, mas dão-se em porções significativas de um cromossoma. A essas alterações chamam-se rearranjos cromossómicos.
 
As translocações são uma classe de rearranjos cromossómicos, em que dois cromossomas de tamanhos diferentes trocam uma porção dos braços. Estes rearranjos podem causar o aborto de um embrião, quando ocorrem nas células sexuais. Mas, se acontecem numa célula de um indivíduo adulto, poderão estar na origem de cancros.
 
Para avaliar as consequências deste fenómeno e investigar se estas alterações nos cromossomas também poderão ser motores da adaptação e evolução dos organismos, uma equipa de investigadores portugueses do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, provocou translocações e inversões (outro tipo de rearranjo cromossómico) na Schizosaccharomyces pombe, uma levedura unicelular muito usada nos laboratórios.
 
O resultado mostrou que algumas mutações podiam originar células com um metabolismo mais rápido, que prevaleciam. Noutros casos, as células passavam a dividir-se mais lentamente, mostrando que o rearranjo cromossómico não era positivo. Mas, uma célula mutada que se dividia menos podia adaptar-se melhor quando os investigadores a punham noutro ambiente, conclui o artigo da equipa publicado na última edição da revista Nature Communications.
 
“As nossas estirpes de levedura têm exactamente a mesma sequência de ADN. Nós apenas mudámos a localização das sequências dos cromossomas. Deste modo, as nossas experiências mostram pela primeira vez os efeitos originados por alterações na arquitectura dos cromossomas”, diz em comunicado Ana Teresa Avelar, uma das autoras do artigo.
 
Efeitos variados
Já foram documentados rearranjos cromossómicos em várias espécies animais, como nas moscas drosófilas, no parasita da malária ou em humanos. Alguns podem ser silenciosos e passarem despercebidos de pais para filhos, sem efeitos negativos. Mas, segundo a equipa, esses rearranjos cromossómicos que se encontram na natureza já sobreviveram ao teste da evolução e muitos outros não terão sobrevivido.
 
Os investigadores queriam, assim, criar novos rearranjos para verificar se essas alterações eram rapidamente adoptadas e influenciavam a evolução ou se, na maioria dos casos, eram preteridas. Os cromossomas só ficam bem visíveis na altura das células se dividirem, quando a longa molécula de ADN fica enroladinha e apertada entre muitas proteínas, que se agregam, formando um icónico X. Enquanto os seres humanos têm 23 pares de cromossomas, incluindo o par de cromossomas sexuais, a espécie de levedura utilizada pela equipa do IGC só tem três cromossomas durante a maior parte da vida.
 
Na experiência, o grupo liderado por Miguel Godinho Ferreira e Isabel Gordo criou oito translocações diferentes entre cromossomas e mais duas inversões. Imaginando que um cromossoma tem o formato de uma pessoa, uma inversão é como cortar o pescoço e inverter a posição da cabeça, pondo-a ao contrário por cima dos ombros.
 
A subtileza daqueles dez rearranjos cromossómicos feitos no laboratório é que, apesar de ter havido cortes nas longas moléculas de ADN para se rearranjar os cromossomas, os cientistas quiseram garantir que a sequência de ADN resultante mantinha toda a integridade dos genes. Isto para que os moldes das proteínas não ficassem potencialmente estragados. Desta forma, tinham a certeza de que todas as consequências nas células alteradas se deviam unicamente a uma nova estrutura destes cromossomas e não a mutações específicas no ADN.
 
Os resultados foram variados. Os cientistas observaram que, num ambiente perfeito para o crescimento destas leveduras, alguns rearranjos cromossómicos produziram células que cresciam 3% mais do que a variedade de leveduras-mãe. Mas outras tornaram-se mais lentas, tendo uma desvantagem de 1,5% no crescimento. Este tipo de resposta mudava, contudo, noutros ambientes, mostrando que as leveduras mais adaptadas variavam de acordo com o meio.
 
Adaptação: das células cancerosas até à evolução humana
“Podemos agora inferir como as células cancerosas, com rearranjos cromossómicos, conseguem adaptar-se e crescer mais depressa do que as células normais; ou como pessoas com diferentes cromossomas podem ter problemas de infertilidade sem se aperceberem disso; e como estes rearranjos cromossómicos podem ser mantidos na população sem serem eliminados”, diz Miguel Godinho Ferreira no comunicado.
 
Por outro lado, a equipa identificou uma alteração na actividade (expressão) dos genes que tinham mudado de sítio após os rearranjos feitos nos cromossomas. Nalguns casos, havia um efeito em cadeia, em que esta mudança de expressão genética afectou os três cromossomas. Para equipa, esta descoberta é importante. Se duas células têm um padrão de expressão genética diferente apenas por haver no cromossoma uma nova localização dos mesmos genes, então os rearranjos cromossómicos que acontecem na natureza podem desempenhar um papel na evolução dos seres vivos.
 
“Os estudos que comparam humanos e chimpanzés mostram que mudanças de blocos de genes [nos cromossomas] são importantes para que os genes tenham expressões diferentes. Efeitos posicionais como estes podem traduzir-se em variações morfológicas e fisiológicas com implicações importantes na evolução”, escrevem os cientistas no artigo.

Duas novas espécies animais descobertas na Mata do Buçaco

Artigo publicado pelo jornal Público em 19/09/2013
Uma equipa da Universidade de Aveiro descobriu o morcego-de-ferradura-mediterrânico e o musaranho-de-água nesta mata.
 
O morcego-de-ferradura-mediterrânico está criticamente em perigo

O musaranho-de-água é uma espécie pouco conhecida
Duas novas espécies animais, um morcego e um pequeno mamífero, foram descobertas, nas últimas semanas, na Mata do Buçaco, por investigadores da Universidade de Aveiro (UA), informou nesta quinta-feira a fundação que gere aquele espaço natural.
 
De acordo com uma nota da Fundação Mata do Bussaco (FMB), os investigadores do departamento de Biologia da UA registaram “pela primeira vez” a presença do morcego-de-ferradura-mediterrânico, uma espécie em vias de extinção, e ainda o musaranho-de-água, “um mamífero sobre o qual existe muito pouca informação”.
 
O morcego-de-ferradura-mediterrânico (Rhinolophus euryale) está classificado no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal como “criticamente em perigo” e a mesma obra “atesta a raridade da espécie”, indicando, de acordo com a nota da FMB, que no território continental deverão existir menos de mil exemplares.
 
“Este morcego é maioritariamente cavernícola, podendo, no entanto, também abrigar-se em edifício. Alimenta-se em áreas de floresta de folhosas e autóctone, motivo que o terá atraído à Mata do Buçaco”, refere.
 
Com a confirmação da existência do morcego-de-ferradura-mediterrânico, o número de espécies de morcegos naquela mata nacional atinge as 15, “número bastante impressionante, atendendo a que em Portugal continental ocorrem 25 espécies”, assinala a Fundação.
 
Já o musaranho-de-água (Neomys anomalus), um pequeno mamífero semelhante a um roedor, com pelagem escura e ventre branco, é uma espécie “muito pouco conhecida” e “muito tímida”, cujo estatuto de conservação em Portugal aponta para “informação insuficiente”, por ser de difícil observação e captura “e assim existir muito pouca informação sobre a sua abundância e requisitos ecológicos”, adianta a nota.
 
“Estas duas descobertas vêm mais uma vez demonstrar o oásis de biodiversidade que é a Mata Nacional do Buçaco”, refere a Fundação, aludindo ao espaço natural que se estende por 105 hectares e providencia alimento, abrigo e refúgio para mais de 150 espécies de vertebrados.

Cientistas finalizam relatório que reafirma culpa humana no aquecimento global

Texto de Ricardo Garcia publicado pelo jornal Público em 23/09/2013
Painel da ONU iniciou reunião final para concluir a mais recente avaliação sobre a ciência das alterações climáticas.
 

O aquecimento global tem efeitos nos glaciares e no nível da água do mar
Os cientistas estão mais seguros do que nunca de que o ser humano é o maior responsável pelo aumento recente da temperatura da Terra, segundo o último relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que será aprovado no final desta semana.
 
Numa reunião iniciada nesta segunda-feira em Estocolmo, cientistas e representantes governamentais vão discutir, linha a linha, a redacção final do relatório sobre o que se sabe hoje acerca das alterações climáticas. Versões preliminares do documento classificam como “extremamente provável” (95% de certeza) que mais de metade da subida do termómetro global desde 1950 se deve às actividades humanas.
 
“As provas científicas das alterações climáticas são reforçadas ano após ano, deixando poucas incertezas quanto às suas graves consequências”, disse o presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, na sessão de abertura da reunião de Estocolmo.
 
O que está sobre a mesa agora é a avaliação da base científica sobre as alterações climáticas. Dois outros relatórios – sobre os impactos e sobre a redução das causas do aquecimento global – serão publicados mais tarde, em Março e Abril de 2014.
 
Neste primeiro relatório, 259 autores principais, secundados por centenas de outros cientistas, passaram a pente fino toda a produção académica desde a última avaliação do IPCC, em 2007. Cerca de 55 mil comentários foram recebidos e avaliados.
 
Segundo versões recentes do relatório, o termómetro global poderá subir até 4,8 graus Celsius até 2100, no pior cenário, ou apenas 0,2 graus Celius, no mais favorável. A subida no nível do mar é estimada num intervalo entre 26 a 81 centímetros.
 
No relatório de 2007, os cenários de aumento de temperatura estavam entre 1,1 e 6,4 graus Celsius e a subida do nível do mar entre 18 e 59 centímetros. Em 2007, havia 90% de confiança na culpa humana sobre a maior parte do aquecimento desde 1950.
 
Um tema que vai ser abordado no relatório agora é a relativa estabilização da temperatura média global na última década e meia. Esta tendência tem sido utilizada como argumento de sectores que contestam a tese da culpa humana nas alterações climáticas.
 
A Organização Meteorológica Mundial – que fundou o IPCC juntamente com o Programa das Nações Unidas para o Ambiente, em 1988 – tem chamado à atenção, no entanto, para o facto de a Terra estar a passar pelo seu período mais quente do último século e meio, desde que há registos fiáveis.
 
Entre as explicações possíveis dadas por cientistas para a subida menor da temperatura nos últimos anos estão variações na actividade solar e a absorção de calor pelos oceanos.
 
Durante quatro dias, o relatório do IPCC vai ser discutido, ponto a ponto, não só por cientistas, mas também por representantes governamentais – que têm assento no painel climático da ONU. Na sexta-feira, o IPCC deverá divulgar uma síntese do relatório, com cerca de três dezenas de páginas.
 
Esta é a quinta avaliação climática do IPCC, desde a sua a criação. A organização foi galardoada com Prémio Nobel da Paz em 2007, juntamente com o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore. Nos últimos anos, tem sido alvo de críticas, devido a erros encontrados no seu último relatório, em particular sobre o possível derretimento dos glaciares no futuro.

Em 2050, o Árctico não deverá ter gelo no Verão, diz relatório das Nações Unidas

Artigo publicado pelo jornal Público em 19/09/2013
O rascunho do relatório da próxima avaliação do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas antecipa para o meio do século verões quase sem gelo no Pólo Norte, revela o Financial Times. Apesar de 2013 não atingir o recorde do ano passado, este ano é o sexto com menos área de gelo no Árctico no final da época estival.
 

Em 2012, a área de gelo mínima foi de 3,5 milhões de quilómetros quadrados, o maior recorde desde que há monitorização no Árctico
Nas contas oficiais, o fim do gelo no Árctico durante o Verão está mais perto do que se esperava. Um rascunho do relatório da quinta avaliação do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, sigla em inglês), avança que “é provável um oceano Árctico quase sem gelo antes do meio do século”, cita o Financial Times, esta quinta-feira.
 
O jornal britânico teve acesso ao rascunho do relatório do organismo das Nações Unidas. O IPCC lança, com alguns anos de distância, avaliações com vários relatórios sobre as alterações climáticas causadas pela actividade humana, os impactos dessas alterações, e medidas que sirvam de adaptação.
Previamente, na quarta avaliação do IPCC, publicada em 2007, esse momento – que se prevê vir a ser um testemunho definidor das alterações climáticas – estava estimado para o final deste século. Mas o rascunho do relatório da nova avaliação, que vai começar a ser publicada a 27 de Setembro mas que só deverá ser totalmente concluída no início do próximo ano, antecipa o fim de gelo no Pólo Norte. As estimativas dependem da quantidade de gases com efeito de estufa que poderão ser emitidos para a atmosfera nas décadas futuras.
 
“Esta nova avaliação do Árctico é um dos mais notáveis aspectos do relatório”, considera o Financial Times. O documento é o produto do trabalho de 800 cientistas de 200 países do mundo que pertencem ao IPCC, um organismo com 25 anos de idade. Um Árctico sem gelo oferece ao tráfego comercial novas rotas, mas o documento descreve o fenómeno como uma “bomba-relógio económica”, já que uma subida de temperatura pode ajudar a libertar o metano contido no permafrost, os solos gelados que existem nas latitudes mais a norte. Este metano pode acelerar as alterações climáticas.
 
Outra conclusão central do rascunho, diz o jornal britânico, é a de que os cientistas estão mais certos do que nunca que a causa das alterações climáticas é devido à libertação de gases com efeitos de estufa nas actividades humanas.
 
"É extremamente provável que a influência humana no clima seja a causa de mais de metade da subida das temperaturas médias globais observadas à superfície para o período de tempo entre 1951-2010", lê-se no rascunho do relatório transcrito pelo Financial Times. De acordo com o documento, esta actividade humana causou o aquecimento dos oceanos, o degelo, o aumento do nível médio do mar e mudou alguns extremos climáticos durante a segunda metade do século XX.
 
Mais um ano de mínimos no Pólo Norte
O fim da época de 2013 da recessão do gelo do Árctico está a poucos dias de ser oficializada pelo Centro Nacional de Dados de Neve e do Gelo dos Estados Unidos, em Boulder, no Colorado. A partir desta semana, a área de gelo começará a aumentar, à medida que as temperaturas arrefecem no Pólo Norte e a água congela, até se formar a área máxima de gelo, que será algures em Março de 2014.
 
Este ano não se testemunhou o recorde de degelo que aconteceu em 2012, desde que se monitoriza o gelo do Árctico. Mesmo assim, este foi o sexto ano com menos área de gelo no Pólo Norte – apenas cinco milhões de quilómetros quadrados, mais de um milhão de quilómetros quadrados abaixo da média mínima quando se considera o período de 30 anos entre 1981 e 2010. “É certamente uma continuação do declínio a longo prazo”, diz Julienne Stroeve, uma cientista do centro, citada pelo jornal britânico The Guardian. “Estamos a olhar para as mudanças a longo termo, e vão haver solavancos [ano após ano], mas todos os modelos climáticos mostram que vamos perder todo o gelo marinho durante o Verão.”
 
Em 2012, a área de gelo mínima foi de 3,5 milhões de quilómetros quadrados. “Tivemos um Verão bastante frio [no Árctico] mas mesmo assim o gelo não recuperou as proporções das décadas de 1970 ou 1980”, refere a cientista.
 
Mas se olharmos para a questão do ponto de vista tridimensional, 2013 já ganhou um recorde. O satélite CryoSat, que desde 2010 avalia a quantidade de gelo que existe em profundidade nos dois pólos da Terra, revelou que em Março este volume atingiu um mínimo nos três anos.
 
“A partir das medições do satélite, podemos ver que algumas partes da camada de gelo diminuíram mais rapidamente do que outras, mas tem havido uma diminuição do volume de gelo de Inverno e de Verão ao longo dos últimos três anos”, diz Andrew Shepherd, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, citado num comunicado de há uma semana no site do CryoSat, um satélite que pertence à Agência Espacial Europeia.
 
“O volume de gelo foi, no final do último Inverno, de menos de 15.000 quilómetros cúbicos, o que é menor do que qualquer outro ano e indica menos crescimento de gelo durante o Inverno do que o costume”, refere o investigador.
 
 

Resíduos das vindimas transformados em papel e cartão

Artigo publicado pelo jornal Público em 21/09/2013
Projecto de Pedro Teixeira aproveita vides para a elaboração de um papel "resistente" e com "menor impacto ambiental".
 

Resíduos de vides das vindimas do Douro dariam para mil toneladas de papel
O projeto Da_Vide apresenta este domingo, em Matosinhos, vários tipos de papel e cartão constituídos exclusivamente por fibras de vides, cujos resíduos queimados anualmente no Douro poderiam resultar em aproximadamente mil toneladas de papel. A apresentação destes materiais vai ser feita no “Mercado Consciente e Saudável”.
Esta iniciativa marca também o primeiro aniversário do projecto que está a ser desenvolvido por Pedro Teixeira, a residir em Peso da Régua, e que se propõe aproveitar as vides. Trata-se de resíduos resultantes da limpeza das videiras após as vindimas, e que, até agora, estavam a ser desperdiçados. Teixeira estima que as vides produzidas e queimadas todos os anos na Região Demarcada do Douro poderiam resultar em aproximadamente mil toneladas de papel.

Segundo o investigador, as aplicações para estes materiais vão desde o artesanato, à produção energética, indústria, componentes e acessórios, engenharia e tecnologia e ainda ‘design’, decoração e moda. Agora, Pedro Teixeira avança com o papel e cartão 100% ecológico, que tem como “vantagem importante o facto de ser obtido a partir de resíduos, não implicando o abate de árvores”.

“A utilização de vides evita ainda que as mesmas sejam queimadas reduzindo-se as emissões de CO2”, salientou o investigador referindo ainda a “não utilização de químicos na produção” do papel como um “aspecto muito relevante do ponto de vista ambiental”. E, segundo acrescentou, as características “muito especiais das fibras utilizadas permitem a obtenção de papéis que apresentam uma suavidade invulgar”.

Pedro Teixeira disse que foram desenvolvidos processos de produção que diferem significativamente dos habitualmente utilizados neste tipo de materiais. Destaca o processo de “extracção e selecção de fibras”, sendo, na sua opinião, “a mais relevante inovação a utilização de campos magnéticos, sem consumo energético, que geram uma distribuição espacial e temporal de forças que garante uma ligação mais eficiente das fibras”. O resultado é, segundo Pedro Teixeira, um papel “mais resistente sem recorrer a colas ou outros aglomerantes”.

O desenvolvimento destes materiais constitui também, para Pedro Teixeira, um “passo importante” no projecto “Vinho do Porto com ciclo fechado na vinha”, uma vez que “já torna possível a produção eficiente de rótulos e das caixas das garrafas de vinho”. Até ao final do ano serão apresentados vários tipos de madeira, assim como materiais semelhantes à cortiça, também construídos com fibras de videira. Desta forma, para o investigador, será possível produzir de forma eficiente as caixas em madeira e as rolhas.

No âmbito do “Da_vide” foi criado o “combustível sólido inteligente”, que queima à medida, com mais chama ou mais brasa, quer seja para um assador ou para uma lareira, e a “super madeira”, um material cuja matéria base é igual às madeiras naturais, mas em que as fibras de vide são estruturadas de forma diferente, permitindo, por exemplo, obter uma resistência mecânica muito superior em todas as direcções, num aglomerado mais leve e facilmente moldável, na fase de produção.