quinta-feira, 16 de maio de 2013

Cientistas clonaram células estaminais embrionárias humanas com a técnica da Dolly

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 15/05/2013.
"Um avanço considerado fundamental para a medicina e cujas potencialidades se espera há anos que se concretizem um dia.
Remoção do núcleo de um ovócito antes da transferência do núcleo de uma célula adulta
A aplicação à medicina humana da técnica que permitiu clonar, em 1996, a célebre ovelha Dolly, tinha ficado quase esquecida. Mas esta quinta-feira, na revista Cell, uma equipa de cientistas norte-americanos volta a pô-la na ordem do dia, revelando ter conseguido, pela primeira vez — e finalmente com sucesso, afirmam — clonar células estaminais embrionárias (CEE) humanas inserindo uma célula humana adulta num ovócito humano e provocando uma “fecundação” artificial.
O objectivo não é clonar seres humanos, mas apenas criar no laboratório, a partir das células do corpo de um doente (da pele, por exemplo), linhagens de CEE que possam ser usadas para gerar tecidos e órgãos em tudo compatíveis com esse doente, eliminando para sempre os problemas de rejeição imunitária associados aos transplantes.
Ao longo dos anos, foram feitos vários anúncios a proclamar o sucesso em humanos, com vista a aplicações terapêuticas, da técnica de clonagem da Dolly, dita de “transferência nuclear de células somáticas”. Mas tratou-se sempre de falsas partidas. Assim, em 2001, a empresa norte-americana Advanced Cell Technology disse tê-lo conseguido — mas os embriões só chegavam a ter quatro e seis células, pelo que ficavam numa fase muito mais precoce do que a do blastocisto, que é a fase em que o embrião já possui 150 células e contém as tão procuradas CEE. Outras empresas também tentariam, mas sem sucesso confirmado. Em 2005, houve mesmo um anúncio, que se revelaria fraudulento, do sul-coreano Hwang Woo-suk.

Entretanto, por causa dos problemas éticos relacionados com os embriões e a clonagem humana, houve cientistas que começaram a explorar outras vias de obtenção de células estaminais que não passassem pelo embrião, investigações que deram lugar às chamadas “células estaminais pluripotentes induzidas”, resultantes de uma reprogramação genética de células humanas adultas que as faz voltar, por assim dizer, à infância. Mas esta via continua ainda hoje a suscitar receios de que a reprogramação celular gere mutações que, se estas células forem introduzidas num doente, possam ser perigosas para a sua saúde.
 
Pelo seu lado, em 2007, os autores dos resultados agora anunciados — Shoukhrat Mitalipov, da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon (EUA), e colegas — conseguiam aperfeiçoar a técnica de clonagem da Dolly e fazê-la funcionar, em poucos meses, nos primatas. Obtiveram então, pela primeira vez, culturas laboratoriais de células estaminais embrionárias a partir de células adultas de macacos Rhesus e de ovócitos desses animais (ver A clonagem chega ao mundo dos primatas e desta vez não é ficção, PÚBLICO de 15/11/2007).
 
São estes cientistas que anunciam agora o resultado com células humanas. “As pessoas perguntam-nos por que é que demoramos seis anos a passar dos macacos aos humanos”, diz Mitalipov, citado numa notícia publicada esta quarta-feira no site da revista Nature. A dificuldade não foi, esclarece, de ordem científica, mas de ordem legislativa, por causa dos obstáculos interpostos pela regulamentação norte-americana à investigação em embriões humanos.
 
Estes cientistas conseguiram ainda um outro avanço, que os faz acreditar que a clonagem possa realmente vir a ter utilidade terapêutica. O facto de terem sido necessários pouquíssimos ovócitos para gerar linhagens de CEE humanas. “Conseguimos produzir uma das linhagens de CEE a partir de apenas dois ovócitos humanos, o que poderá tornar viável a utilização terapêutica generalizada da técnica”, explicou Mitalipov à revista Cell. “Os nossos resultados abrem novas vias para gerar células estaminais para os doentes com tecidos e órgãos disfuncionais ou danificados. Estas células poderão regenerar e substituir aqueles tecidos ou órgãos e lutar contra doenças que afectam milhões de pessoas.”
 
Resta saber qual das duas abordagens — clonagem terapêutica ou reprogramação genética — acabará por prevalecer para obter as tão procuradas células estaminais que muitos acreditam possam revolucionar um dia a medicina. Talvez as duas? Ou talvez outra, ainda desconhecida? "

Vacina contra a heroína testada com sucesso em ratos toxicodependentes

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 06/05/2013.
"Se também funcionar no ser humano, a vacina poderá permitir neutralizar os subprodutos psicoactivos da heroína logo no sangue, antes deles penetrarem no cérebro.
Estima-se em mais de dez milhões o número global de pessoas viciadas na heroína
Uma equipa de cientistas do Instituto de Investigação Scripps (EUA) anuncia esta segunda-feira resultados promissores de um teste pré-clínico, em ratos de laboratório dependentes da heroína, de uma vacina contra esta droga. O estudo é publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
 
Já existem vacinas experimentais contra a cocaína, a nicotina ou a meta-anfetamina, explica aquele instituto em comunicado. E como as moléculas das drogas psicoactivas costumam ser demasiado pequenas para estimular, pela sua simples presença, a produção de anticorpos pelo organismo, essas vacinas são compostas por fragmentos-chave da droga em causa acoplados a proteínas, que são moléculas muito maiores e mais susceptíveis de provocar uma resposta imunitária.
 
No caso da heroína, porém, acrescia uma dificuldade: o facto de esta droga se desintegrar rapidamente no sangue, dando origem a um outro composto – chamado 6-acetilmorfina – que penetra no cérebro e é responsável por grande parte do efeito da heroína.
 
Agora, Joel Schlosburg e colegas parecem ter conseguido ultrapassar esse obstáculo, ao desenvolverem, nos últimos três anos, uma vacina "dinâmica" que estimula a produção de anticorpos dirigidos não apenas contra a heroína, mas também contra a 6-acetilmorfina e a morfina. “A vacina consegue seguir o rasto à droga à medida que ela é metabolizada, mantendo os subprodutos activos fora do cérebro”, diz Kim Janda, um dos co-autores do trabalho, citado pelo mesmo comunicado.
 
Mas os cientistas precisavam de testar efectivamente a eficácia da vacina. Por isso, administraram-na a ratos viciados na droga. "Demos a vacina a ratos que já tinha sido expostos à heroína, o que representa uma situação de evidente relevância para a clínica humana", comenta Schlosburg.
 
E mostraram assim que, mesmo em animais que já eram profundamente dependentes da droga – ao ponto de a auto-administrarem de forma compulsiva e em doses cada vez maiores –, a vacina fazia com que, quando esses animais eram desmamados e a seguir novamente expostos à heroína, já não tornavam a desenvolver esses comportamentos. “Os ratos heroinómanos privados da droga costumam retomar um comportamento compulsivo se voltarem a ter acesso a ela”, diz George Koob, um outro co-autor, “mas a nossa vacina impede que isso aconteça”. E, em grande parte, a vacina experimental também bloqueia, afirmam os autores, as propriedades analgésicas da heroína e os seus efeitos sobre os circuitos de recompensa cerebrais.
 
Mas como, por outro lado, ela não bloqueia os efeitos da metadona nem de outras substâncias utilizadas no tratamento da toxicodependência, “será em princípio possível administrá-la em simultâneo com as terapias convencionais”, salienta, pelo seu lado, Schlosburg.
 
Os cientistas pensam, portanto, que, se a vacina demonstrar eficácia em futuros ensaios clínicos no ser humano, poderá vir um dia a fazer parte da panóplia de tratamentos utilizados contra a dependência da heroína, que se estima afectar mais de 10 milhões de pessoas no mundo."

Alzheimer, retinopatia diabética e cancro na mira dos Prémios Bial

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 29/04/2013.
"Muitas doenças não surgem de repente, mas quando se declaram é tarde para agir. Este ano, a Fundação Bial recompensa trabalhos científicos focados no diagnóstico precoce e na prevenção de doenças devastadoras.
Peter St. George-Hyslop (à esquerda) e José Cunha-Vaz
A doença de Alzheimer, que rouba às vítimas memória e identidade; as retinopatias decorrentes da diabetes, consideradas uma das maiores causas de cegueira no mundo; e o cancro. Todas estas doenças começam por fases “silenciosas”, indetectáveis. Os seus sintomas clínicos podem demorar décadas a manifestarem-se.
Mas existem sinais precursores que, ao serem “apanhados” a tempo, poderiam permitir diagnosticá-las com suficiente antecedência — e, um dia, travá-las e mesmo curá-las. Todos os galardoados da edição 2012 dos prémios da Fundação Bial — um cientista canadiano, um português e dois espanhóis, cujos nomes são hoje divulgados — desbravaram novas abordagens na prevenção e no diagnóstico precoce de uma destas três doenças.

O Grande Prémio Bial de Medicina, no valor de 200 mil euros, vai para Peter St. George-Hyslop, da Universidade de Toronto (Canadá) e da Universidade de Cambridge (Reino Unido), investigador de renome mundial pelas suas descobertas sobre factores de risco genéticos para a doença de Alzheimer e outras doenças degenerativas do cérebro. Com a sua equipa, St. George-Hyslop identificou nomeadamente as primeiras “presenilinas” — uma família de proteínas cujo fabrico é comandado por genes cujas mutações são responsáveis pela maior parte dos casos de doença da Alzheimer familiar precoce.

Mas não só: também descobriu que as doenças neurodegenerativas em geral, e a doença de Alzheimer em particular, apresentam justamente longos períodos assintomáticos que podem ir até aos 15 anos. “Esta descoberta tem duas consequências essenciais”, escreve George-Hyslop na sua candidatura ao prémio. “Primeiro, representam uma oportunidade sem precedentes para detectar e tratar as pessoas em risco muito antes de se verificarem lesões cerebrais permanentes. Segundo, os estudos epidemiológicos revelam que se esta fase pré-sintomática pudesse ser prolongada por apenas mais cinco anos, o resultado seria uma redução de 50% do número de casos.”

O contemplado pelo Prémio Bial de Medicina Clínica, num montante de 100 mil euros, é José Cunha-Vaz, conhecido oftalmologista da Universidade de Coimbra e presidente da Associação para a Investigação Biomédica e Inovação em Luz e Imagem. “É geralmente aceite que muitos doentes diabéticos, mesmo passados muitos anos, nunca desenvolvem alterações da retina que ponham em causa a sua visão, mantendo uma boa acuidade visual”, escreve Cunha-Vaz.

“Mas há também doentes que só uns anos depois de se tornarem diabéticos apresentam uma retinopatia que progride rapidamente e pode não responder aos tratamentos disponíveis.” Era esse o grande desafio e a equipa de Cunha-Vaz conseguiu, nos últimos anos, caracterizar de forma mais precisa as fases iniciais da doença nos diabéticos, identificando diversos padrões de evolução associados a um maior ou menor risco de lesões graves e de cegueira.

Mais precisamente, os cientistas desenvolveram, por um lado, um software de análise de imagens digitais da retina e, por outro, uma técnica de imagem que permite quantificar as alterações da chamada “barreira hemato-retiniana” — alterações essas que a equipa mostrou “serem das mais precoces a ser detectadas na fase pré-clínica” da doença.

Por último, duas menções honrosas, no valor de 20 mil euros cada, foram atribuídas a Manel Esteller e a Pedro Medina, respectivamente do Instituto de Investigações Biomédicas de Bellvitge de Barcelona e da Universidade de Granada (Espanha). Ambos estudam o papel desempenhado no cancro, não pela própria molécula de ADN, mas por substâncias de estrutura semelhante: as pequenas moléculas de ARN, envolvidas na transmissão da informação genética contida no ADN para o local das células onde as proteínas são sintetizadas. E mostraram, cada um por seu lado, que as moléculas de ARN podem ser essenciais à progressão dos tumores cancerosos, ora promovendo o seu crescimento, ora contrariando-o. Estes trabalhos têm potenciais aplicações na detecção, prognóstico e tratamento do cancro.

A cerimónia de entrega dos prémios realizar-se-á no dia 14 de Maio no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto."

Estudo reitera haver consenso científico quanto ao aquecimento global

Texto de Ricardo Garcia publicado pelo jornal Público em 16/05/2013.
"Em 12.000 artigos científicos avaliados, 4000 tomam posição e 97% destes corroboram a tese da culpa humana.
Mais um estudo quantifica o consenso científico quanto à culpa humana no aquecimento global
Na discussão sobre se o aquecimento global está ou não a ser acelerado pelo homem, há um número já quase mítico: 97%. Pela terceira vez, um estudo chegou a esta percentagem para reafirmar que há um largo consenso científico quanto à tese da influência humana.
 
Publicado esta semana na revista Environmental Research Letters, o estudo baseou-se em cerca de 12.000 artigos publicados entre 1991 e 2011 em revistas com arbitragem científica, contendo os termos “aquecimento global” ou “alterações climáticas globais”.
 
Dois terços dos artigos (66%) tratam de temas relacionados com o aquecimento global, mas sem tomar qualquer posição sobre as suas causas. Dos restantes – ou seja, dos que tomam posição – 97% corroboram, directa ou indirectamente, a tese de que as actividades humanas são responsáveis por grande parte das alterações climáticas observadas nas últimas décadas.
 
Um inquérito conduzido em 2009 também chegara a um número semelhante: 97,5% dos climatologistas então ouvidos concordavam que as actividades humanas estavam a mexer com a temperatura média da Terra. Considerando todos os cientistas envolvidos no inquérito – e não só os climatologistas – a taxa caía para 82%.
 
Em 2010, o mesmo número voltou a aparecer noutro estudo: 97 a 98% dos climatologistas que mais publicam na área das alterações climáticas defendem a tese da influência humana.
 
O estudo agora publicado – de autoria de investigadores da Austrália, Estados Unidos, Reino Unido e Canadá – chegou mais uma vez aos 97%, por duas vias. Os cerca de 4000 estudos que tomam posição sobre as causas do aquecimento global foram classificados com base em conteúdos que permitissem dizer se defendem, rejeitam ou relevam dúvidas sobre aquela tese. Cada estudo foi classificado por duas pessoas diferentes.
 
Os próprios autores dos estudos foram também convidados a fazer o mesmo tipo de classificação. Neste caso, obtiveram-se respostas para cerca de 2100 estudos e o resultado foi o mesmo: em 97% dos casos o dedo é apontado às actividades humanas.
 
“Estes resultados são claramente consistentes com investigações anteriores”, afirma John Cook, do Instituto de Alterações Globais da Universidade de Queensland, na Austrália, num vídeo divulgado na Internet.
 
Cook está também à frente do site Skeptical Science, destinado a combater os argumentos dos chamados "cépticos” das alterações climáticas, que defendem posições contrárias às teses científicas vigentes sobre o tema.
 
A resposta dos “cépticos” não se fez esperar. Os populares blogues Watts Up With That? e JunkScience criticaram a ideia do consenso, quando dois terços dos estudos analisados não revelam qualquer opinião, acusando o artigo de praticar uma “matemática nebulosa”.
 
John Cook e os demais autores respondem antecipadamente no próprio artigo, dizendo que o facto de haver tantos estudos científicos que não mencionam as causas do aquecimento global era expectável e significa que esta dúvida não se coloca. “A ciência fundamental das alterações climáticas antropogénicas deixou de ser controversa entre a comunidade científica, e o debate remanescente sobre o tema foi desviado para outros tópicos”, justificam os autores.
 
John Cook acrescenta que é preciso aproximar o consenso científico da opinião pública, que nalguns países, especialmente nos Estados Unidos, ainda está muito dividida quanto ao tema. “Quando as pessoas compreenderem correctamente aquilo em que os cientistas estão de acordo, mais provavelmente apoiarão as políticas de mitigação das alterações climáticas”, afirma, no vídeo publicado no site Skeptical Science.
 
A tese da influência humana sobre o aquecimento global é aceite por praticamente todos os governos e por pelo menos 198 academias científicas, em todo o mundo, segundo uma lista compilada pelo governo do estado norte-americano da Califórnia."

China aprova barragem mais alta do mundo

Artigo publicado pelo jornal Público em 15/05/2013.
"Empreendimento irá produzir electricidade e permitir a construção de mais aproveitamentos hidroeléctricos.
 
As autoridades ambientais da China deram luz verde à construção da barragem mais alta do país e do mundo, apesar de reconhecer possíveis danos para a fauna e flora.
 
A barragem de Shuangjiangkou, na região de Sichuan, no Centro do país, terá 314 metros de altura, produzindo electricidade e regulando os caudais de água do rio Dadu, onde outros empreendimento hidroeléctricos estão previstos.
 
Segundo uma nota do Ministério do Ambiente chinês, citada pela agência Reuters, a avaliação de impacte ambiental do projecto está concluída e reconhece que o projecto terá efeitos negativos sobre plantas e peixes raros que existem na região. Reservas naturais serão também inundadas.
 
Apesar da altura da barragem, a albufeira que será criada não será tão grande. A sua capacidade de armazenamento de água corresponderá a três quartos do volume do Alqueva, em Portugal, e a apenas 8% do da barragem das Três Gargantas, também na China e que é o maior empreendimento hidroeléctrico do mundo.
 
As obras preliminares da barragem de Shuangjiangkou já tiveram início em 2008. A construção do paredão deverá, agora, estender-se por dez anos, custando o equivalente a 3,1 mil milhões de euros.
 
A barragem mais alta do mundo neste momento é a de Nurek, no Tajiquistão, com um paredão de 300 metros de altura.
 
A China está a investir forte na produção hidroeléctrica, num esforço para reduzir a dependência energética dos combustíveis fósseis, especialmente o carvão. As fontes não-fósseis de energia, que representavam 9,4% do bolo energético, deverão subir para 15% até 2020."

Reactor nuclear japonês fica sobre falha geológica activa

Texto de Clara Barata publicado pelo jornal Público em 15/05/2013
"Reveladas as primeiras recomendações sobre a segurança das centrais nucleares japonesas.
Central nuclear de Tsuruga, onde um dos reuters fica sobre uma falha geológica activa
 
Um dos dois reactores da central nuclear de Tsuruga, na costa ocidental do Japão, está sobre uma falha geológica activa e por isso deve ser encerrado definitivamente, recomendou uma comissão de sismólogos. E um reactor onde se fazem experiências de reciclagem de combustível nuclear é tão inseguro que nunca mais deve abrir portas, dizem os peritos. Começam a abrir-se as portas dos primeiros encerramentos definitivos de centrais nucleares no Japão desde a crise em Fukushima, em 2011.
 
Neste momento, apenas dois dos 50 reactores nucleares japoneses estão a funcionar. A indústria nuclear civil está a ser alvo de uma revisão de segurança, depois de o acidente da central de Fukushima ter revelado que havia uma grande falta de vigilância no sector. O encerramento das centrais nucleares, no entanto, pesou de forma inédita na economia japonesa – fez com que o seu habitual superavit passasse a défice, por ter de importar combustíveis fósseis. O actual Governo de Shinzo Abe gostaria de ver as centrais nucleares voltar a funcionar o mais rapidamente possível, e os industriais também.
 
Mas o Japão é um dos países com maior actividade sísmica do mundo. Os primeiros resultados da avaliação de segurança começam a ser divulgados. Nesta quarta-feira, a comissão de sismólogos revelou o seu parecer de que a falha geológica conhecida como D-1, que fica sob a central de Tsuruga, a mais antiga do Japão, está activa.
 
“Os níveis de segurança [em Tsuruga] têm sido baixos. Só por sorte é que não houve um acidente”, disse Kunihiko Shimazaki, o presidente da comissão e comissário da nova Autoridade de Regulação da Energia Atómica japonesa – criada após o acidente de Fukushima em resposta às críticas ao antigo regulador, considerado demasiado próximo da indústria nuclear –, a entidade que deverá aconselhar o Governo a mandar encerrar as centrais que não tiverem condições.
 
A empresa que explora a central, a Japan Atomic Power, reagiu mal e acusou os cientistas de serem preconceituosos. “Lamentamos profundamente que tivessem chegado a essa conclusão, que nos é impossível de aceitar. Pedimos à comissão de peritos que cheguem a uma conclusão diferente depois de reverem os dados existentes com um ponto de vista neutro e uma discussão com base estritamente científica.”

Há outras cinco centrais nucleares que podem estar assentes sobre falhas geológicas activas.
 
Outro grupo de geólogos aconselhou também nesta quarta-feira à nova Autoridade de Regulação da Energia Atómica japonesa a não permitir que seja reactivado o reactor experimental de Monju.
 
Aquele reactor, em utilização há quase 50 anos, segundo a Associated Press, usa plutónio e não urânio como combustível. O objectivo é tentar obter um ciclo de combustível nuclear auto-sustentável. A ideia é reciclar o urânio e o plutónio do combustível já utilizado nos reactores das centrais e juntá-lo num produto híbrido (MOX).
 
Além de poupar dinheiro, evitar-se-ia enviar o combustível nuclear para o estrangeiro, para centrais onde é reciclado ou guardado – em viagens em que pode haver sempre o risco de ser desviado e haver proliferação nuclear, e em que é costume haver protestos de ambientalistas. A central de Rokkasho, no Norte do Japão, foi construída com esse fim e têm lá sido feitos ensaios, tal como em Monju.
 
Mas os ensaios não têm corrido muito bem, e houve acidentes graves em Monju, como em 1995, e problemas técnicos em Rokkasho. Há também suspeitas de que o reactor de Monju esteja situado sobre falhas geológicas activas e que exista o perigo de terramotos, tal como em Tsuruga – que, aliás, não fica longe.
 
Os cinco peritos da comissão de sismólogos que emitiu agora a sua opinião consideram que a operadora da central de Monju, a Agência de Energia Atómica do Japão, “não tem capacidade para garantir de forma suficiente a segurança”. “Apesar das lições que aprendemos após o acidente de Fukushima, parece que a cultura da segurança ainda é insuficiente no Japão”, comentou Shunichi Tanaka, secretário da Autoridade de Regulação da Energia Atómica japonesa, citado pela Associated Press.
 
“Repetiram os mesmos erros, apesar de dizerem que estavam a analisar a raiz dos problemas. Penso que não têm uma compreensão fundamental do que é a segurança”, disse ainda Shunichi Tanaka, secretário da Autoridade de Regulação da Energia Atómica japonesa."

Da bica ao croquete, um exemplo de reciclagem

Texto de Ricardo Garcia publicado pelo jornal Público em 05/05/2013.
"Reaproveitamento da borra de café para produzir cogumelos inspira vários projectos.
 
Da bica ao prato, reutilizando a borra do café
 
Os cogumelos surgem como se brotassem de um tronco de árvore

 
Há um distribuidor de clássicos do cinema norte-americano que, por causa de uma ideia surgida em África, agora transforma bicas em croquetes na Holanda. Estranho? Bem-vindos ao mundo da reciclagem do café.
 
É num armazém meio escondido entre sebes, numa pequena propriedade rural perto de Alkmaar, 60 quilómetros a norte de Amesterdão, que Jan Willem Jansen, dono da distribuidora Ignite Films, põe em prática a sua ideia.
 
Ali dentro, em câmaras especiais que garantem a temperatura e a humidade certas, produzem-se 350 quilos de cogumelos por semana, aproveitando um lixo que qualquer mortal urbano conhece bem: a borra do café.
 
Não é um projecto pioneiro. Há já muitas iniciativas semelhantes, inclusive em Portugal. Mas neste caso, conseguiu-se juntar elos suficientes para se obter um ciclo completo, em que a própria rede de cafés e restaurantes que se quer desfazer daqueles resíduos adquire e revende o produto da sua reciclagem.
 
A ideia nasceu de um problema. Desde 1999 que a mulher de Jan Jansen mantém um orfanato com 72 crianças no Zimbabwe. Confrontada com a dificuldade de acesso a produtos básicos, a instituição começou a plantar parte da sua comida, incluindo cogumelos, cultivados num substrato de palha de café. Numa visita ao local, Jan Jansen imaginou que seria possível adaptar a ideia à realidade da Holanda, onde, como em qualquer país europeu, diariamente são servidos milhões de cafés.
 
Daí nasceu a Green Recycled Organics (GRO), que agora processa semanalmente 2500 quilos de borra de café, recolhidos em restaurantes da rede holandesa La Place, com quem foi estabelecida uma parceria.
 
Os próprios restaurantes separam o material em baldes plásticos, que depois são recolhidos e encaminhados para a GRO, perto de Alkmaar. A partir daí, o processo é simples. Ao pó já usado são adicionados esporos de cogumelo ostra (Pleurotus ostreatus). A mistura fica a incubar durante quatro semanas, em grandes sacos plásticos cilíndricos, pendurados numa espécie de estufa. Depois, passam para outro recinto onde, em dez dias, de cortes feitos nos sacos vão emergindo os cogumelos, como se brotassem de um tronco de árvore.
 
A colheita é vendida a 5-6 euros o quilo para a própria rede La Place, que a utiliza ou revende. A GRO dá ainda um passo suplementar, produzindo croquetes vegetarianos com os cogumelos, com uma marca própria, que também vai parar aos pratos e prateleiras da La Place.
 
Na prática, uma bica tomada num dos seus restaurantes acaba por retornar sob a forma de novo alimento. “Isto é a economia circular”, resume Jan Jansen.
 
70.000 toneladas
A quantidade de pó que sai da máquinas de café e vai normalmente para o lixo não é insignificante. Em Portugal, este tipo de resíduos soma algo entre 65 e 70 mil toneladas por ano, segundo João Cavaleiro, que desde 2012 mantém um projecto semelhante à GRO. Neste caso, são pequenas caixas vendidas em lojas gourmet e outros estabelecimentos, com a borra de café já inoculada com os esporos e pronta a produzir.
 
A ideia é pôr os cidadãos a produzirem os cogumelos em casa. “Serve também para combater uma cerca micofobia [aversão aos fungos] que existe em Portugal”, afirma Cavaleiro, um biólogo de 32 anos que se juntou a mais dois parceiros, Tiago Marques e Rui Apolinário, neste projecto nascido em Almeirim.
 
Por mês são recolhidas cerca de duas toneladas de borra nos restaurantes da região, que resultam em 1500 a 1600 caixas EcoGumelo.
 
Seja em grandes sacos ou pequenas caixas, depois dos cogumelos terem sido colhidos, a borra volta a se transformar num resíduo, que no entanto pode ser utilizado em vasos ou hortas. “É um bom fertilizante”, diz Fernando Castro, de outra empresa portuguesa que produz caixas para a produção doméstica de cogumelos, a CogusBox. São 300 por semana, cada qual contendo um quilo de borra de café, mas também restos de cartão e de rolhas, que também são bons substratos. “Há empresas que pagam para se verem livres do cartão”, afirma Fernando Castro.
 
A reciclagem – ou antes reutilização – dos produtos associados a uma simples bica também se estende às embalagens, como as que Alessandro di Lella, um holandês filho de italiano, recolhe junto de diversos estabelecimentos de restauração em Haia. Uma vez limpas, abertas e alisadas, são costuradas em forma de malas e sacolas, vendidas como artigos de moda, a preços que começam nos 20 euros.
 
“Se enviássemos isso para ser produzida algures na China, custaria menos”, diz Lella. “Mas dessa forma não estaríamos a salvar o ambiente”."