sexta-feira, 30 de março de 2012

Cientistas portugueses criam repelente de mosquitos ativado pela luz do Sol


Samuel Silva, num artigo da edição de 29 de março do jornal Público, dá-nos conta do que por cá se vai fazendo no campo da investigação científica. Os insetos e, em particular os mosquitos, que se cuidem, com a criação de um produto que liberta repelentes e inseticidas por ação da luz solar. E já agora, quando será a vez, de um produto que atue sobre os demagogos da nossa praça...


"Malária, febre de dengue e outras doenças transmitidas por mosquitos podem ter a propagação mais dificultada com um novo material desenvolvido em Portugal. Uma equipa de cientistas, liderada pela Universidade do Minho (UM), criou um material que liberta repelentes e inseticidas por ação da luz solar. Já mereceu atenção no Brasil e é visto como uma forma de combater epidemias nos países em desenvolvimento.


Os cientistas desenvolveram minúsculas cápsulas no interior das quais pode colocar-se praticamente qualquer composto: em contacto com a luz do Sol, libertam-se os repelentes ou inseticidas, de forma controlada. "Deixamos de precisar de eletricidade, que é normalmente utilizada para libertar os repelentes", explica o físico Carlos Tavares, da UM, que coordena o projeto.

A tecnologia pode ser usada em zonas remotas, onde não exista rede elétrica, sobretudo em países em desenvolvimento. O material pode depois ser aplicado a qualquer superfície, seja um vidro de uma casa ou o tecido de uma tenda. As potencialidades desta microcápsula motivaram o interesse de alguns países, nomeadamente do Brasil, onde serão feitos testes aos materiais no terreno (Carlos Tavares prefere não avançar o nome dos interessados, dizendo que o acordo ainda não é concreto).


Desodorizante nas cortinas


No centro desta investigação estão materiais fotocatalíticos, que são ativados pela luz solar, provocando várias reações. Um composto é colocado numa cápsula polimérica, que o sol faz abrir os poros e o químico é libertado. Mas tudo é feito à escala de mícrones (milésimos de milímetro) e os materiais dentro das cápsulas são ainda mais pequenos.


Desde 2004 que a investigação de Carlos Tavares está concentrada nos materiais fotocatalíticos, o que lhe permitiu desenvolver revestimentos que podem aplicar-se a um vidro, para se limpar sozinho. Expostos à luz solar, estes materiais, bastante finos para não interferirem na transparência do vidro, entram em contacto com os poluentes e degradam-nos.


A partir desta inovação, Carlos Tavares começou a pensar noutros usos que poderia dar a estes materiais. Durante uma palestra de um colega da sua universidade, ouviu falar de aromas e pensou em usar a tecnologia que tinha desenvolvido na libertação controlada de aromas.


O projeto integra também cientistas das universidades do Porto e Coimbra e do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, em Lisboa, onde serão feitos os últimos testes ao inseticida, nas colónias de mosquitos deste centro. Nos próximos três anos, os 15 cientistas da equipa vão aperfeiçoar as tecnologias já disponíveis para tornar os produtos mais eficazes, como por exemplo levar os materiais a absorver mais energia solar. Os fotocatalíticos desenvolvidos pela UM só absorvem a luz ultravioleta, que é três a cinco por cento da luz solar. A equipa também trabalha na espessura dos poros das cápsulas, para controlar melhor a quantidade libertada de substâncias.

Além das instituições académicas, há uma empresa no projeto, a Micropolis, nascida na incubadora da UM, que tem desenvolvido cápsulas libertadoras de repelentes para a indústria têxtil, ativadas por ação mecânica, por exemplo através da fricção do corpo num tecido.

A cápsula ativada pela luz solar permitirá reduzir a perda de efeito dos repelentes com as lavagens. Até porque não são só inseticidas e repelentes que podem ser introduzidos nas cápsulas. O composto pode ser aplicado a cortinas e servir como desodorizante de espaços interiores, o que, antecipa Carlos Tavares, até "pode ser mais atrativo do ponto de vista comercial"."

domingo, 25 de março de 2012

Construídos 12 ninhos para o regresso do abutre-preto ao Alentejo


Helena Geraldes, num artigo publicado na secção Ambiente da edição do Público de 24 de março destaca os esforços levados a cabo no Alentejo para facilitar a reprodução do abutre-preto.

"No coração do Alentejo, em pleno habitat mediterrânico onde abundam a urze e o tojo, acabam de ser construídos 12 grandes ninhos de abutre-preto, a maior ave de rapina da Europa e espécie Criticamente em Perigo em Portugal.

Estas 12 estruturas, compostas por varas metálicas e um cesto na ponta, foram colocadas na Herdade da Contenda, propriedade com 5300 hectares da Câmara Municipal de Moura, encostada a Espanha ao longo de 19 quilómetros.

O último ninho foi montado a 14 de Março. Nessa manhã, Alfonso Godino, 39 anos, subiu a um pinheiro, nove metros acima do solo. "A estrutura fica com 80 a 90 quilos, mas pode chegar aos 200. Tem de ser muito resistente, porque o abutre é um animal grande e pesado (três metros de envergadura de asa e 12 quilos) e tem uma época de reprodução muito longa", disse ao PÚBLICO o coordenador da equipa técnica do Centro de Estudos da Avifauna Ibérica (CEAI) e responsável pelas acções de conservação do abutre-preto.

Depois de se prender em segurança no topo do pinheiro, Alfonso ajudou os dois sapadores florestais e o técnico da Liga para a Protecção da Natureza (LPN) que ficaram lá em baixo a içar a vara metálica, deitada no solo, com a ajuda de uma corda, até que esta ficasse na vertical, encostada ao tronco da árvore. "Agora, devagar. Cuidado." Para Alfonso, que já montou em Portugal 22 ninhos de abutre, esta é a parte mais difícil. "É crucial que o ninho fique estável." Mas à primeira tentativa, a vara ficou demasiado curta. "Não está bem, vai ter de descer." À segunda foi de vez. "Perfeito! Bom, fica porreiro." Duas estacas no chão ajudaram a fixar a base e correntes metálicas prenderam a vara à árvore. Nas horas seguintes, paus e troncos foram içados através de um sistema de roldanas para forrar o cesto metálico do ninho. "Um ninho, normalmente, demora um dia a ser instalado, se estiverem a trabalhar quatro pessoas", disse Alfonso.

O esforço faz parte do projecto Life Habitat Lince Abutre (2010-2014), para melhorar as condições de ocorrência destas duas espécies no Alentejo (Mourão, Moura e Barrancos e vale do Guadiana) e Algarve (Caldeirão).

Só três casais

Durante mais de 50 anos, o abutre-preto (Aegypius monachus) não fez ninho em Portugal. Em 2010 e 2011 regressou ao Tejo Internacional onde nidificaram três dos 7200 a 10.000 casais que a Birdlife International estima existirem no planeta.

O declínio em Portugal deveu-se à perda de habitat, incluindo locais para nidificação, ao envenenamento, colisão e electrocussão em linhas eléctricas e à diminuição de alimento disponível, especialmente coelho-bravo e cadáveres de animais. O abutre tem um papel crucial na sanidade do ecossistema mediterrânico, ao actuar como agente de limpeza natural, removendo cadáveres.

A instalação de ninhos na Contenda quer dar uma ajuda. "Os locais escolhidos são pouco perturbados, com muito declive e matos", explicou Alfonso Godino. "A conservação do abutre e de outras espécies ameaçadas é muito compatível com actividades como a caça, a extracção de cortiça, o mel, etc., desde que haja colaboração de todos. O que estamos a fazer na Contenda é um exemplo de que as espécies ameaçadas não são uma chatice nem reduzem os recursos disponíveis.

"A Contenda, onde vive apenas uma família de cinco pessoas que cuida dos rebanhos de cabras, quer ser uma experiência-piloto de como se pode compatibilizar a conservação com o desenvolvimento, disse ao PÚBLICO o presidente da Câmara de Moura, José Maria Pós-de-Mina. "Não nos podemos esquecer que o concelho tem hoje 15.200 habitantes, metade do que tinha nos anos 50, nem que as pessoas ainda consideram a conservação da natureza como uma questão de proibição. Mas a Herdade da Contenda e projectos como este podem dar um contributo para a demonstração e sensibilização.

"Miguel Ramalho - da empresa municipal Herdade da Contenda, que gere o espaço - contou que ali trabalham 14 pessoas e que estas "estão preparadas para ajudar no que for preciso". Nomeadamente, no esforço para aumentar as populações de coelho-bravo, dizimadas por doenças como a mixomatose (nos anos 50) e febre hemorrágica viral (nos anos 80). Eduardo Santos, da LPN e coordenador do projecto Life Habitat Lince Abutre, disse que estão a ser criados marouços (tocas artificiais de coelho) e a ser instalados comedouros e bebedouros, bem como pastagens de cereais e leguminosas para coelho. Especificamente para ajudar o abutre, está a ser criado um campo alimentador, vedado, com cerca de um hectare de extensão.

"A Contenda é um espaço muito especial", contou Eduardo Santos. "É considerada, há muito, uma das melhores áreas de habitat para o lince-ibérico e para o abutre-preto. Está bem conservada e tem uma área com muito boa dimensão." Ali "são observados regularmente, em média, 20 abutres-pretos. A zona é usada por estas aves como área de alimentação e alguns já foram vistos a pernoitar no perímetro da herdade". Esta está localizada a 20 quilómetros de uma colónia de abutre-preto em Espanha com 100 casais.

Por esta altura, as crias de abutre-preto já estão quase a nascer, em Abril. Mas este ano os novos ninhos artificiais da Contenda ainda não serão utilizados. Eduardo Santos acredita que "na próxima época de reprodução, que começará em Dezembro e terminará em Setembro [altura em que as crias abandonam os ninhos], os animais já estejam habituados a estes ninhos e que sejam convencidos a ficar por cá".

sábado, 24 de março de 2012

Há um gene que reage ao calor e faz a Primavera chegar mais cedo


Na secção Ambiente da edição do Público de 22 de março, Nicolau Ferreira destaca um artigo em que a Nature revela a existência de um gene que apressa a floração das plantas em responta ao aumento da temperatura ambiental.

"O tempo aquece e as plantas respondem com flores, mesmo que pelo calendário ainda seja Inverno. O fenómeno é testemunhado há muito, mas agora cientistas conseguiram determinar qual o gene responsável por este gatilho, os resultados foram publicados nesta semana, na Nature, e podem ajudar a prever os efeitos futuros do aumento de calor nos ecossistemas.

As flores podem ser vistas como folhas que foram comandadas para se transformar em sépalas, pétalas, estames e carpelos. Conhecem-se bem os genes que dizem a cada parte de um rebento para se transformar numa das estruturas da flor, e sabe-se que é a activação do gene Floregin que inicia a floração. “Tanto o tamanho do dia como temperaturas mais quentes provocam o funcionamento da Floregin. Algumas plantas, como a rosa, parecem estar mais dependentes do fotoperíodo do que da temperatura, mas isto ainda não é muito bem compreendido”, disse Philip Wigge ao PÚBLICO. O cientista pertence ao Centro John Innes, em Norwich, Reino Unido. É líder da equipa e último autor do artigo.

Apesar de se conhecer fisiologicamente como é que o fotoperíodo e os dias mais prolongados fazem activar a Floregin, ainda não se tinha conseguido desvendar o mesmo processo para a temperatura. Mesmo a forma como o calor afecta e transforma a actividade das plantas é mal compreendido. “Em 2010 publicámos um artigo na revista Cell que mostra que a cromatina (o ADN enrolado dentro [do núcleo] da célula) torna-se mais aberta a temperaturas mais altas”, explicou. Isto poderá tornar os genes mais facilmente utilizáveis.

Mais adaptadas

Além disso, o facto de a temperatura ser muito variável pode fazer adiantar a floração de muitas espécies, uma mudança que já é associada ao aquecimento global. Este aumento de calor pode extinguir umas plantas, melhorar o desempenho de outras, mas irá alterar sempre os ecossistemas. Para perceber este fenómeno, a equipa de Wigge foi estudar a influência da temperatura na floração da Arabidopsis thaliana, a espécie é utilizada por excelência para investigar a fisiologia das plantas. A Arabidopsis cresce cerca de 25 centímetros, dá pequenas flores brancas e foi o primeiro vegetal que viu o seu genoma sequenciado.

Os cientistas avaliaram a actividade do gene chamado PIF 4 na floração. O PIF 4 funciona activando outros genes e já se sabia que está associado a alterações estruturais das plantas em resposta à temperatura. Numa experiência, a equipa testou a capacidade da floração de uma planta mutante da Arabidopsis para o gene PIF 4. A uma temperatura de 27 graus a planta selvagem desenvolvia flores enquanto o mutante não. “As temperaturas mais quentes activam o PIF 4, o que causa a expressão do gene Floregin” e a floração.

Segundo Wigge, as plantas que estão mais dependentes do calor acabam por florir mais rápido se o tempo primaveril se antecipa. “Isto faz com que sejam mais competitivas em relação a outras plantas que utilizam a duração do dia para iniciar o crescimento e a reprodução.” Esta descoberta pode ajudar a perceber como é que os ecossistemas vão evoluir com o aumento das temperaturas. Mais, estes processos são importantes para a protecção das culturas agrícolas. “A maioria das culturas como o trigo ou o arroz já estão a crescer perto do topo do intervalo óptimo de temperaturas. Queremos produzir modificações no mecanismo que reage à temperatura para produzir plantas que possam crescer em climas diferentes.”

Contacto precoce com germes bom para a saúde


Ana Gerschenfeld, num artigo publicado na edição de 23 de março do Público, dá-nos conta de um estudo que parece confirmar a ideia de que o aumento das alergias nas crianças nos dias que correm poderá ser resultado do excesso de assepsia.

"Há anos que se pensa que a exposição das crianças desde cedo aos micróbios que normalmente nos rodeiam é importante para estimular o seu sistema imunitário. Só que até aqui, não havia indícios biológicos nem potenciais mecanismos que sustentassem a ideia, baptizada “hipótese da higiene” e que responsabiliza os elevados níveis de higiene do estilo de vida moderno e urbano (e o recurso precoce aos antibióticos) pelo aumento das alergias, da asma e das doenças auto-imunes. Mas ontem, Richard Blumberg e colegas, do Hospital Brigham and Women’s de Boston, nos EUA, publicaram na revista Science os primeiros resultados susceptíveis de pôr finalmente fim ao debate.

Os cientistas compararam os sistemas imunitários de ratinhos criados para serem “livres de germes” com o de ratinhos que viviam num ambiente normal – ou seja, cujo organismo continha bactérias e outros micróbios. Por um lado, constataram que os ratinhos “sem germes” apresentavam inflamações dos pulmões e do cólon semelhantes à asma e à colite e que esse estado se devia à hiperactividade de um certo tipo de linfócitos T já associados a estas doenças noutros estudos. Mas, mais importante ainda, descobriram que quando expunham os ratinhos sem germes aos micróbios logo durante as primeiras semanas de vida, o seu sistema imunitário normalizava-se e essas doenças não surgiam – o que não acontecia quando os animais só eram expostos aos micróbios já na idade adulta. A protecção imunitária obtida no primeiro caso era, para mais, de longa duração.

“Estes estudos mostram a importância crucial de um condicionamento imunitário adequado por micróbios logo nas primeiras fases da vida”, diz Blumberg. Porém, os cientistas permanecem prudentes, salientando que ainda serão precisos estudos em humanos".

Nasceram sete crias de lince-ibérico no centro de Silves

Na edição do Público de 23 de março, Helena Geraldes, num artigo a seguir transcrito, dá-nos conta do andamento do projeto levado a cabo no Centro de Reprodução de Lince-ibérico em Silves, que tem como objetivo salvar o lince-ibérico da extinção.

"Sete crias de lince-ibérico, uma das espécies-símbolo da luta contra a extinção de animais, nasceram no início de Março no Centro de Reprodução de Lince-ibérico em Silves. Uma acabou por morrer e as outras seis estão bem de saúde.

A época de partos em Portugal foi inaugurada com Biznaga, uma fêmea que deu à luz três crias a 5 de Março, segundo informações do Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB). “Duas das crias foram abandonadas uma hora após o nascimento, pelo que está a ser tentada a sua sobrevivência com amamentação artificial e incubadora”, de acordo com uma nota do instituto. Hoje pesam cerca de 400 gramas cada uma. A terceira cria acabou por morrer passadas 48 horas, apesar de a fêmea ter “demonstrado cuidados parentais normais”.

Biznaga, com seis anos, foi mãe pela primeira no ano passado e deu à luz duas fêmeas, depois de 64 dias de gestação. Mas Biznaga acabou por abandonar as crias poucas horas depois, algo normal para as fêmeas que dão à luz pela primeira vez. Os animais acabaram por não resistir.

Além de Biznaga, outra fêmea foi mãe no início deste mês. A 6 de Março foi a vez de Castañuela dar à luz quatro crias. “Apesar de serem muito raros partos com número tão elevado de crias, esta fêmea mostra grande dedicação e demonstra estar a cuidar adequadamente de toda a sua prole, que segue com actividade e ritmos de lactação normais”.

A temporada de cria 2011/2012 começou em Dezembro e só terminará em Abril. Em Silves foram formados nove casais, pelo que se esperam mais novidades para breve. Além das parelhas Biznaga e Drago e Castañuela e Fado foram formados os casais Fresa e Eon, Flora e Foco, Fruta e Fresco, Era e Fauno, Espiga e Calabacin e Azahar, Enebro, Erica e Gamma. As datas previstas para os partos estendem-se até a primeira semana de Abril, segundo o Programa ibérico de reprodução em cativeiro para esta espécie.

A população residente do Centro de Reprodução de Lince-ibérico em Silves conta, de momento, com 18 linces (nove fêmeas e nove machos): 13 dos que inauguraram o centro em 2009, três foram transferidos no final de 2010 e dois transferidos no final de 2011.

"Este é um projecto muito querido do Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade", disse ao PÚBLICO Paula Sarmento, presidente do Instituto. "O lince-ibérico é uma espécie emblemática para a Península Ibérica, nomeadamente para Portugal", acrescentou.

Este é o segundo ano de reprodução em Silves. Na época 2010/2011 foram registados seis abortos e três crias - das fêmeas Biznaga, Fresa, Fruta e Azahar. Mas nenhuma das três crias sobreviveu.

"Agora, este ano está a correr muito melhor e aguardamos com alguma expectativa" o que se passa em Silves, disse Paula Sarmento. "O centro está a acompanhar as mães e as crias, 24 horas por dia, através de televigilância", acrescentou.

A rede ibérica dos cinco centros de reprodução em cativeiro – Silves, El Acebuche, La Olivilla, Granadilla e Gerez – conta esta época de reprodução com um total de 28 casais. E já há uma história de sucesso para contar. Pela primeira vez, uma equipa de um destes centros (El Acebuche, em Doñana) recuperou uma cria que tinha sido abandonada pela mãe, Boj, através sete dias em cuidados intensivos numa incubadora, e conseguiu que a progenitora a aceitasse de volta.

A reprodução em cativeiro é uma solução de fim de linha para tentar evitar a extinção do lince-ibérico (Lynx pardinus). O objectivo é reforçar com estes animais as duas únicas populações em estado selvagem, em Doñana e na Serra de Andújar, na Andaluzia. Para este ano, o programa de conservação espanhol pretende reintroduzir na natureza entre 14 e 15 linces nascidos em cativeiro, nomeadamente nas populações silvestres de Guadalmellato (Córdova) e Guarrizas (Jaén).
"

As condições difíceis que o país atravessa são indiscutíveis. Mas projectos como este, que contam com patrocínios como medidas de minimização de impactes, podem ser uma mais-valia para o desenvolvimento de uma região, nomeadamente através do turismo de natureza", considerou ainda Paula Sarmento".

sexta-feira, 23 de março de 2012

Hepatite Viral

Dada a importância do tema para a defesa da saúde pública, e dos jovens em particular, fica o registo de uma entrevista efetuada pela SAPO Saúde ao gastroenterologista Dr. José Mendonça Santos.

"ENTREVISTA:
Poderia explicar-nos em que consiste a hepatite viral em oposição a outro tipo de hepatite?

Hepatite, significa “inflamação do fígado”. Vários agentes podem dar origem a uma hepatite, desde a acumulação excessiva de gordura no fígado ou esteatose, numa forma grave, a esteatohepatite, o consumo de álcool em excesso, ou hepatite aguda alcoólica (as lesões mais frequentemente associadas ao álcool são crónicas, como a cirrose hepática), medicamentos vários em pessoas suscetíveis, alguns alimentos, como os cogumelos do género amanita phalloides, plantas, doenças autoimunes, em que o organismo desencadeia a formação de anticorpos para agentes agressores mas que, por razões desconhecidas, acabam por lesar células do próprio organismo, neste caso o fígado, bactérias e alguns vírus, causadores de hepatite chamada, neste caso, hepatite viral.

Qual dos vírus da hepatite é mais perigoso para o homem?

Os principais vírus que causam hepatite são os designados pelas primeiras letras do alfabeto, (as designações foram sendo acrescentadas à medida que foram sendo descobertos novos vírus – A, B, C, D, E, G). A esmagadora maioria das hepatites virais são causadas pelos vírus A, B ou C, sendo que apenas as duas últimas (B e C) são perigosas – a hepatite causada pelo vírus A não evolui para formas crónicas e os casos mortais na fase aguda são verdadeiramente excecionais. Outros vírus, D, E, G, herpes, etc, pela reduzida frequência, não merecem, aqui, menção especial.

Que tipo de cuidados e recomendações devemos seguir para evitar contrair esta infeção?

A prevenção da hepatite A reside em medidas higiénicas – o contacto é feito através de produtos fecais e lavagem inadequada das mãos ou ingestão de alimentos contaminados e não devidamente lavados ou cozinhados – saladas, marisco de viveiros contaminados por água de esgotos, etc.
Em áreas de risco endémico (África, Oriente, Américas Central e do Sul) deve-se evitar o consumo de água de garrafas que já tenham sido abertas, não beber bebidas com gelo, que poderá ter sido feito a partir de água contaminada, não comer marisco (amêijoas, ostras, etc.).
Em relação aos vírus B e C, a sua transmissão faz-se, no mundo ocidental através do contacto com sangue de doentes contaminados – antigamente as transfusões sanguíneas (até ao início da década de 1990), hoje, por partilha de objetos que entrem em contacto com sangue – tatuagens, piercings, acupuntura, escovas de dentes ou material de barbear, etc., mas, sobretudo, partilha de seringas, nos toxicodependentes (60 a 80% dos toxicodependentes são, em Portugal, positivos para o vírus da hepatite C).
No caso da hepatite B, existe também um risco significativo de transmissão sexual, pelo que se devem abster de ter relações de risco e, preferencialmente, usar sempre preservativo. Hoje dispomos de vacinas eficazes para as hepatites A e B, incluídas no Programa Nacional de Vacinação. A vacina da hepatite C, por enquanto está fora do horizonte a curto/médio prazo.
Quanto à vacinação da hepatite A, está aconselhada a pessoas que lidam com alimentos, que trabalham com crianças, em creches e infantários, toxicodependentes, trabalhadores de limpeza de lixo e esgotos e quem queira viajar para zonas de alto risco, como África, América Latina e Oriente, não esquecendo que a vacina necessita de um mês para se tornar eficaz. Certos indivíduos possuem defesas imunitárias capazes de produzir anticorpos que atacam os agentes infeciosos. No entanto, nem todos são capazes de travar por completo o ataque do vírus.

A que se deve o facto de umas pessoas conseguirem expulsar o vírus e outras não?

A capacidade de eliminação espontânea dos vírus causadores de hepatite, excetuando o da hepatite A, é muito baixa; contudo, nem todos os casos tendem a evoluir para formas crónicas – apenas uma minoria de casos de hepatite B tenderão a evoluir para formas crónicas, enquanto que 50 a 85% dos casos de hepatite C evoluirão para a cronicidade.

Em relação à pergunta anterior, existem cuidados a ter em conta para fortalecer o nosso organismo?

As únicas atitudes que podemos tomar com vista a reforçar as nossas defesas em relação aos vírus da hepatite são evitar agressões por outros agentes potencialmente hépato tóxicos, como o álcool, rigorosamente proibido a menores e muito limitado ao sexo feminino que apresenta, geneticamente, uma tolerância muito inferior ao homem, tomar apenas medicação prescrita por médicos – muitos medicamentos, mesmo do dia-a-dia, como o paracetamol são, a partir de certas doses e pessoas mais suscetíveis, agressivos para o fígado, não consumir “drogas de abuso”, etc. Todos estes agentes fragilizam as células do fígado e as defesas do organismo, dum modo geral, e potenciam a agressividade dos vírus, sendo o exemplo mais bem estudado o efeito aditivo do álcool e do vírus C.

Que tipo de cuidados deve ter uma pessoa que contrai Hepatite Viral?

Qualquer pessoa a quem seja diagnosticada uma hepatite deve ser seguida pelo seu médico de família ou especialista – Gastrenterologista ou Hepatologista. No caso da hepatite A, transmissível por via fecal-oral (ingestão de material contaminado por conteúdo fecal), obriga a reforço das medidas normais de higiene, como a lavagem frequente das mão, não só após a utilização dos sanitários, como antes da preparação de alimentos.
Nos casos de hepatites B e C, deve ser estudada a situação de defesa do parceiro(a) sexual relativamente ao vírus em questão e, no caso do vírus B, usar obrigatoriamente preservativo se não houver anticorpos adequados. Por agora só foram desenvolvidas vacinas para a hepatite A e a hepatite B, no entanto, já foram descobertas substâncias que podem travar a multiplicação dos vírus.

Como prevê o futuro da luta contra a doença?

Quanto ao tratamento, a evolução de novas armas terapêuticas tem sido razoavelmente rápida, pelo que as expectativas no que ao tratamento diz respeito, são otimistas; não obstante, atualmente, não devemos contar com percentagens de erradicação do vírus C em mais de 50% e, ainda menos para o vírus B- 15 a 45%. Atualmente, em todo o mundo, estima-se que existam cerca de 350 milhões de portadores do vírus da Hepatite B e 170 milhões portadores da Hepatite C.

A vacinação está a abranger uma grande percentagem da população? Está já a travar o avanço?

A vacinação está a abranger uma diminuta parte da população mundial porque, onde mais falta faria, nos países do terceiro mundo, os locais de maior prevalência, não há dinheiro para campanhas de vacinação ou sequer para educação sanitária, pelo que estas doenças continuarão a ser endémicas, inclusivamente com elevada taxa de transmissão vertical, isto é, de mãe infetada para o filho, aquando do parto".

quinta-feira, 22 de março de 2012

Agência Europeia do Ambiente: Relatório alerta para o uso ineficiente da água

Em 14 de março de 2012, Isabel Palma num artigo a seguir transcrito, alertou para o problema do uso ineficiente da água, por uma sociedade que ainda não interiorizou a ideia de que a água é um bem cada vez mais escasso.

"Um relatório da Agência Europeia do Ambiente alerta que o contínuo uso ineficiente da água pode ameaçar a economia, produtividade e ecossistemas da Europa. Estas conclusões foram apresentadas no 6º Fórum Mundial da Água que está a decorrer em Marselha.

Um relatório da Agência Europeia do Ambiente, intitulado Towards efficient use of water resources in Europe, pretende aumentar a consciência da população e dos decisores políticos sobre a escassez da água e o uso ineficiente deste recurso.

“O crítico para nós é que estamos a ver um número crescente de regiões onde bacias hidrográficas, devido às alterações climáticas, estão a enfrentar a escassez de água”, alertou Jacqueline McGlade, diretora-executiva da Agência Europeia do Ambiente. “Contudo, a mudança de comportamentos (…) ainda não aconteceu realmente.”

“As nações precisam de utilizar diferentes métodos. Em vez de terem apenas uma proibição do uso da mangueira para controlar o problema deste ano, deveriam investir de forma diferente. Os investimentos a longo-prazo precisam de reconhecer os diferentes usos da água, como é usada [e a necessidade] de diferentes qualidades de água.”

O relatório sublinha os diferentes desafios que os países enfrentam à medida que as alterações climáticas alteram os padrões de disponibilidade de água das diferentes regiões.
No seio da União Europeia, a agricultura utiliza cerca de um quarto das reservas de água mas, no sul da Europa, esse valor atinge os 80%.

Contudo, os agricultores estão a reconhecer que a água está a ser utilizada de forma ineficiente. Estão a mudar para “usos mais eficientes, como a irrigação gota-a-gota e [utilização] de outras técnicas avançadas, por causa do custo do tratamento da água.”

Para além dos impactes negativos económicos e sociais, o uso insustentável da água também provocará danos nos ecossistemas.

O relatório da Agência Europeia do Ambiente é o primeiro de cinco relatórios relacionados com a água que a agência planeia publicar em 2012. O último relatório irá agrupar uma série de recomendações para os decisores políticos europeus.

As conclusões deste relatório foram apresentadas no 6º Fórum Mundial da Água que está a decorrer em Marselha, até ao dia 17 de março. O Fórum Mundial da Água é uma conferência internacional que reúne políticos, técnicos e ONG de todo o mundo, de três em três anos.

Na segunda-feira, o presidente fundador da Cruz Verde Internacional e ex-presidente soviético Mikhael Gorbachev referiu que “o défice de água doce está a tornar-se cada vez mais grave e em grande escala” e que ao contrário de outros recursos, “não há substitutos para a água”.

“Já não é possível a continuação do consumo de água às taxas do século XX.” Gorbachev salientou que cinco décadas de experiência na política convenceram-no de que a crise global da água está “diretamente relacionada com as falhas da política e economia contemporâneas.”

“Precisamos de repensar os objetivos do desenvolvimento económico. A economia precisa de ser reorientada para objetivos que incluam os bens públicos como o ambiente sustentável, a saúde humana, a educação, a coesão social e cultural, assim como a ausência de lacunas gritantes entre ricos e pobres.”