quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Quais são os riscos do excesso de proteína?

Nuno de Noronha // Fitness // Ana Rita Lopes, Nutricinista

Nos dias de hoje, é cada vez mais demarcada a procura por um corpo “esteticamente perfeito”, onde diversas pessoas testam dietas e regimes alimentares de múltiplas caraterísticas, na esperança de atingir um novo nível de bem-estar ou desempenho físico, como é o caso dos atletas. E a proteína é ou não uma aliada? As explicações da nutricionista Ana Rita Lopes, do Hospital Lusíadas Lisboa.

Os atletas que se regem por esta procura acabam, em determinadas circunstâncias, por colocar em risco a sua saúde no percurso que o leva à ascensão do seu esperado objetivo, ultrapassando os limites não só nas suas necessidades alimentares, mas também nos exercícios físicos.
A alimentação de um atleta é diferenciada dos outros indivíduos, na medida em que estes dispõem de um gasto energético relativamente superior e de necessidades de macro e micro nutrientes modeladas ao tipo, intensidade e duração da prática desportiva.
A alimentação desempenha, desta forma, um papel fulcral na performance desportiva e no aumento de massa muscular, porém, ainda permanece a dúvida sobre se uma alimentação equilibrada e de qualidade, sem recorrer a suplementação, será suficiente para atingir as necessidades nutricionais dos desportistas, especialmente em atletas de competição.
Os atletas acreditam que a ingestão de proteína adicional aumenta a força e melhora o desempenho, mas estudos comprovam o contrário, observando-se que a pequena quantidade de proteína necessária para o desenvolvimento muscular durante o treino é facilmente atingida através de uma alimentação equilibrada, sem necessitar de recorrer a suplementos.
Para este grupo de pessoas interessadas em aumentar a massa muscular, quer sejam atletas profissionais ou não, existe muitas vezes a perceção de uma necessidade proteica intensamente aumentada, podendo chegar a situações em que o consumo atinge valores compreendidos entre 2,5 a 3,5 g de proteína por quilograma de peso corporal por dia e em que grande parte é ingerida na forma de suplementos.
O objetivo de um atleta de endurance, do ponto de vista proteico, será ingerir uma quantidade suficiente de proteína, que assegure a síntese e regeneração proteicas que decorrem do próprio treino e, compensar a perda de leucina (um aminoácido essencial que é oxidado em quantidades apreciáveis durante exercícios de endurance). As recomendações de ingestão diária de proteína, para um atleta de endurance, são de 1,2 a 2,0 g de proteína/kg de peso corporal, sendo estas recomendações superiores aos valores da população em geral, 0,8 a 1,0 g/kg/dia.
De uma forma sintetizada, os objetivos da ingestão proteica são:
  • Reparar e substituir proteínas danificadas pelo exercício físico ao nível do músculo-esquelético, ossos, tendões e ligamentos;
  • Manter uma função ótima de todas as vias metabólicas que utilizam aminoácidos;
  • Permitir o aumento da massa muscular, através da síntese proteica;
  • Permitir melhorar a função do sistema imunitário;
É importante referir que as recomendações de ingestão proteica em atletas conseguem, de uma forma geral, ser atingidas exclusivamente através da alimentação, ou seja, sem o uso de suplementos de proteínas ou aminoácidos. Devido à elevada ingestão proteica dos praticantes de desporto, muitas vezes de forma indiscriminada e sem acompanhamento por parte de profissionais de saúde, o possível impacto deste comportamento na saúde dos atletas tem sido alvo de estudo, sobretudo ao nível da massa óssea e da função renal.
A ingestão excessiva de proteína pode levar a:
  • Um aumento de produção de ureia, resultando numa maior necessidade de ingestão de água para a sua excreção pela urina;
  • Problemas renais e hepáticos;
  • Osteoporose;
  • Cálculos renais;
Desta forma, antes de adquirir qualquer suplemento é importante considerar os objetivos da prática desportiva, o seu estado de saúde, as exigências da modalidade e o custo-benefício do uso de suplementação. Sobretudo, é importante aconselhar-se com um profissional especializado em nutrição desportiva, que terá em conta todos estes fatores e delineará um plano alimentar adequado aos seus objetivos, sem comprometer o seu estado de saúde e avaliando a necessidade ou não de recorrer a suplementação nutricional.
É de realçar que uma dieta equilibrada e variada com as quantidades adequadas de macronutrientes e micronutrientes é, em muitos casos, suficiente para suprir as necessidades nutricionais, garantir um organismo saudável e um bom desempenho físico.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Os seus espermatozoides estão de boa saúde? Já pode saber a resposta com um teste doméstico

16 Nov 2017 // Nuno Noronha // Notícias

Segundo os resultados clínicos, a fiabilidade de um novo teste já disponível no mercado é de 95%.

Testes clínicos analisaram 323 amostras de sémen de pacientes e determinaram que os resultados de um novo teste doméstico lançado no mercado, chamado SwimCount, correspondia em 95% aos resultados obtidos com o teste microscópico convencional.

"O SwimCount supõe uma revolução para o diagnóstico precoce da infertilidade masculina, que recordamos que é responsável por 40% dos problemas de infertilidade. Os outros 40% devem-se a causas da mulher e os restantes 20% a causas desconhecidas", assegura Marcos Meseguer, supervisor científico da Clínica IVI Valência e colaborador neste estudo.

"Não devemos subestimar a importância do fator masculino na reprodução", comenta, sendo que "um teste como este que permite ao homem obter um diagnóstico com um alto grau de fiabilidade, comodamente em casa, significa um grande avanço”, explica o especialista, que recorda que a idade é um fator que influi na fertilidade também nos homens.

Único teste doméstico que analisa a mobilidade progressiva
Até agora, os testes domésticos de fertilidade masculina só tinham em conta a quantidade de espermatozoides e não a qualidade, ainda que outros fatores como a mobilidade progressiva - a sua capacidade para mover-se em linha reta - são mais importantes para a fecundação.

O novo teste é o único que tem em conta também esta variável e, portanto, oferece um primeiro diagnóstico mais completo. Por este motivo, perante um resultado anómalo, recomenda-se sempre procurar um especialista para realizar uma análise mais completa.

Nas clínicas de procriação medicamente assistida, o teste que se utiliza de forma generalizada para analisar a fertilidade masculina é o espermograma. Consiste numa análise microscópica de uma amostra de sémen e tem em conta parâmetros como a morfologia – que os espermatozoides não sejam bicéfalos ou possuam duas caudas, por exemplo.

Como funciona?
Depois de depositar uma pequena amostra de sémen sobre o dispositivo, aqueles espermatozoides que são capazes de mover-se de forma progressiva (e não em círculos, por exemplo) apresentam uma coloração azul. Desta forma, quantos mais espermatozoides tenham alcançado em relação ao ponto fixo, maior será a intensidade da cor da janela do resultado, que pode ser consultada aos 30 minutos.

O limite inferior de fertilidade masculina utilizado na contagem pelo SwimCount está assente em 10 milhões de espermatozoides móveis por mililitro. Um número inferior implica maiores dificuldades para obter uma gravidez natural num prazo de um ano, pelo que é recomendável consultar um especialista em procriação medicamente assistida.

Comunidade Amish esconde mutação genética que prolonga a vida em 10 anos

16 Nov 2017 // Nuno Noronha // Notícias // Com AFP

Um grupo de cientistas descobriu uma mutação genética na comunidade Amish dos Estados Unidos, que explica porque alguns dos seus membros vivem em média mais dez anos, revela um estudo agora publicado.

Trata-se da última descoberta no amplo estudo da comunidade científica sobre a forma de envelhecer desta pequena comunidade cristã tradicional, que rejeita qualquer tipo de avanço tecnológico.

Especialistas americanos e japoneses estão a testar um medicamento experimental que tenta recriar o efeito da mutação dos Amish, com a esperança de que proteja mais seres humanos de doenças ligadas ao envelhecimento, estimulando assim a longevidade.

"Não só vivem mais, como vivem mais saudáveis", explica Douglas Vaughan, presidente da Faculdade de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern, autor principal do estudo publicado no jornal Science Advances. "É uma forma desejável de longevidade", destacou.

Os cientistas estudaram 177 membros entre os 18 e os 85 anos da comunidade Berne Amish do Indiana, no centro dos Estados Unidos.

Segredo está na proteína PAI-1
Deles, 43 eram portadores da mutação do gene Serpine 1 - que provoca uma forte redução da produção da proteína PAI-1 - e estavam em melhor estado de saúde, para além de viverem, em média, mais dez anos que os restantes membros Amish que não têm esta variação genética.

Por outro lado, o seu perfil metabólico também era mais saudável: sofriam menos de diabetes e de doenças cardiovasculares.

Os especialistas descobriram, por outro lado, que os telómeros das suas células imunitárias eram, em média, 10% mais longos.

O telómero é uma arte do ADN situado nas extremidades de cada cromossoma que o protege e que fica pequeno cada vez que ocorre uma divisão celular, o que contribui para o envelhecimento.

Para já, o remédio experimental superou os testes de segurança (fase 1) e está agora na fase 2 no Japão para comprovação da eficácia em pessoas obesas com diabetes tipo 2.

Por outro lado, a Universidade Northwestern tenta obter permissão científica para iniciar os testes nos Estados Unidos no ano que vem.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Qual o risco real da Legionella?

Farmácias Portuguesas // Saúde e Medicina

O que é a Doença dos Legionários e que riscos representa para a saúde pública.

Em 2014 ocorreu em Portugal um dos maiores surtos de Legionella. Recentemente, a Doença dos Legionários voltou a ser notícia. Mas, afinal, do que é que estamos a falar e qual o risco que representa para a saúde pública?

Legionella é uma bactéria que pode causar a chamada Doença dos Legionários, assim apelidada por o primeiro surto identificado ter ocorrido numa convenção da American Legion, em 1976. Trata-se de uma pneumonia, cujos sintomas iniciais se manifestam dois a dez dias após o contágio.

As principais manifestações são febre alta, dor de cabeça, tosse seca, falta de ar, diarreia, vómitos e dores musculares. Por se tratar de um conjunto de sintomas comum a outras doenças, o diagnóstico correcto carece de confirmação laboratorial. Quando confirmada, e para evitar complicações, esta pneumonia requer, por norma, internamento e é tratada com antibióticos.

Correm maior risco de infecção as pessoas com mais de 50 anos, com doenças crónicas (diabetes, DPOC – Doença pulmonar obstrutiva crónica, entre outras), fumadoras ou alcoólicas.

A Doença dos Legionários transmite-se apenas pela inalação de partículas disseminadas através de sistemas contaminados com a bactéria, de que são exemplo os sistemas de ar condicionado, os chuveiros, as instalações térmicas, entre outros. Isto significa que a doença não é transmitida pela ingestão de água, nem entre pessoas.

Para controlar os surtos da Doença dos Legionários é essencial identificar a fonte de disseminação das bactérias e actuar sobre a mesma, não sendo possível tomar muitas medidas de prevenção individual.

No recente caso, ocorrido no Hospital São Francisco Xavier, a Direcção-Geral da Saúde já tomou as medidas que se prevê serem suficientes para controlar o surto, nomeadamente o choque térmico e químico no sistema de distribuição de água do hospital e o encerramento e tratamento das torres de refrigeração.

Texto de CEDIME
Saiba mais na Revista Saúda

artigo do parceiro:

Diabetes mais controlada

Revista Prevenir // Saúde e Medicina

Novo sensor de monitorização continuada ajuda a evitar situações de hipoglicemia.

Já está disponível em Portugal aquele que é apresentado como o mais recente e avançado sensor para monitorização contínua da glicose.

Destinado a ajudar os diabéticos a controlar a sua doença, o Enlite proporciona, segundo a Medtronic, empresa que o comercializa, «um maior conforto para o doente e uma maior precisão na deteção de hipoglicémias (níveis de glicose baixos)».

Através dos alertas preditivos da bomba de insulina Paradigm VEO com o novo sensor, os doentes com diabetes conseguem detetar até 98 por cento a ocorrência de hipoglicémias, permitindo assim tomar as medidas necessárias para evitar episódios graves de níveis de glicose baixos. «Este novo sistema vai melhorar a capacidade dos doentes para prever e detetar hipoglicémias, um dos aspetos mais preocupantes para quem vive com diabetes tipo 1», refere Bragança Parreira, médico diabetologista e coordenador do GETAD – Grupo de Estudo de Tecnologias Avançadas em Diabetes.

«A monitorização contínua é um elemento fundamental na gestão da diabetes. O estudo STAR 3 demonstrou que os doentes com diabetes conseguem ter um melhor controlo da glicose quando utilizam o sensor integrado com a terapia de bomba infusora de insulina, em comparação com múltiplas injeções diárias de insulina. Além disso, outros estudos recentes sugerem que os doentes que usam uma CGM obtêm um maior controlo da glicose sem aumentar os riscos hipoglicémicos», sublinha este especialista.

Melhorias significativas no design tornam este novo dispositivo, que recebeu a aprovação CE (Conformidade Europeia) em França, mais confortável e fácil de utilizar. Segundo dados de um estudo clínico sobre o Enlite, 85 por cento dos doentes referiram que não sentiram qualquer dor na colocação do sensor e 86 por cento concordaram que o dispositivo é de fácil utilização. O sensor tem uma dimensão significativamente mais reduzida do que o anterior (menos 69 por cento em volume e menos 38 por cento em comprimento) e pode ser utilizado na zona do abdómen e nádegas durante seis dias.

Como funciona a monitorização contínua da glicose
Os doentes com diabetes usam a monitorização contínua da glicose (CGM) pessoal para a monitorização contínua dos níveis de glicose no líquido intersticial (líquido existente entre as células) do tecido subcutâneo.

O doente insere um sensor descartável e, a cada cinco minutos, este transmite para um monitor dados sobre os níveis de glicose. A CGM profissional é um exame de diagnóstico de utilização médica que grava os registos de dados da glicose sem a interação do doente.

Esta avaliação permite ao diabético fazer uma análise retrospetiva da sua doença. A monitorização contínua da glicose fornece uma análise mais completa, pois revela os níveis elevados e baixos de glicose que os testes periódicos através de medições capilares não podem detetar. O estudo STAR 3 mostrou que os doentes que usam a terapia de bomba infusora de insulina integrada com a CGM obtiveram uma redução significativa do A1C quatro vezes maior que doentes com múltiplas injeções diárias de insulina.

Em 2010, a Associação Americana de Endocrinologistas Clínicos (AACE) divulgou uma declaração de consenso sobre a monitorização contínua da glicose, onde afirma que «a tecnologia de CGM não é apenas inovadora como pode melhorar a vida dos doentes que a integrem num plano abrangente de gestão da diabetes».

A declaração recomenda a CGM sobretudo em crianças, adolescentes e adultos com episódios frequentes de hipoglicémia ou desconhecimento da mesma, níveis de A1C demasiado elevados, grande variabilidade dos níveis glicémicos, e com necessidade de reduzir os níveis de A1C sem aumentar os episódios hipoglicémicos, bem como em grávidas ou mulheres que pensam engravidar.

O que origina a diabetes

A diabetes tipo 1 é uma doença crónica provocada pela falta absoluta de insulina devido à destruição de células do pâncreas que produzem esta hormona. A maior parte dos diabéticos tipo 1 são jovens, mas a doença pode também afetar adultos. De acordo com a Federação Internacional da Diabetes estima-se que existam 285 milhões de pessoas com diabetes a nível mundial, 10 por cento dos quais com diabetes tipo 1.

Portugueses descobrem origem do aumento benigno da próstata

15 Nov 2017 // Nuno Noronha

Investigadores do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS), da Universidade do Minho, em parceria com cientistas do Centro Max Delbrück de Medicina Molecular (Alemanha) garantem que "é a primeira vez que se percebe a origem desta doença, chamada hiperplasia benigna da próstata", que afeta mais de um terço dos homens a partir dos 60 anos.

O estudo, publicado na revista "Scientific Reports", do grupo Nature, aponta que "o aumento benigno da próstata deve-se à falta do neurotransmissor serotonina, dificultando o fluxo da urina e o esvaziamento da bexiga".

Os investigadores do ICVS, explana o texto, "analisaram modelos animais e linhas celulares e perceberam que a presença de serotonina inibe o crescimento benigno da próstata" e que "isso sucede porque se diminui a expressão do recetor de hormonas sexuais masculinas, como a testosterona".

Os resultados, salienta o texto, "apontam para novos alvos terapêuticos nesta doença, nomeadamente a aplicação de fármacos que ativem o recetor da serotonina, inibindo o crescimento benigno da próstata".

A experiência com ratinhos demonstrou que, ao ser-lhes retirada a serotonina, a próstata aumentava de tamanho.

O estudo foi realizado por Emanuel Carvalho-Dias, Alice Miranda, Olga Martinho, Paulo Mota, Ângela Costa, Cristina Nogueira-Silva, Rute S. Moura, Riccardo Autorino, Estêvão Lima e Jorge Correia-Pinto, todos do ICVS e Escola de Medicina da UMinho, sendo alguns deles também do Hospital de Braga.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Nobel da Química para novas formas de olhar para as moléculas da vida

A técnica chama-se criomicroscopia electrónica e por causa dela Jacques Dubochet, Joachim Frank e Richard Henderson ganharam o Prémio Nobel da Química 2017.
Jacques Dubochet, Joachim Frank e Richard Henderson Universidades de LAUSANNE, Columbia e Cambridge/EPA
O método desenvolvido – os três cientistas tiveram diferentes participações no processo – torna possível obter imagens detalhadas das complexas máquinas da vida. Numa curta entrevista pelo telefone divulgada no site dos Prémios Nobel, Richard Henderson esclarece que, em relação a outras técnicas de observação, este microscópio é “um método mais directo, fácil e de uso mais generalizado”, ultrapassando alguns obstáculos que impediam a observação de algumas estruturas como, por exemplo, proteínas de membrana.

O desenvolvimento deste tipo de microscopia electrónica, que expõe a amostra biológica a temperaturas muito baixas (criogénicas), “simplifica e melhora a imagem das biomoléculas”, acrescenta o comunicado de imprensa do comité, adiantando ainda que este método permite “visualizar processos que nunca antes foram vistos, o que é decisivo para a compreensão básica da química da vida e para o desenvolvimento de produtos farmacêuticos”.

Não só se consegue obter imagens dos átomos nestas moléculas, como numa fotografia, como também é possível juntar estas imagens e ver “um filme” que nos mostra o que estas moléculas fazem. “Assim, temos as estruturas das moléculas, mas também o processo, como se mexem, interagem e o que fazem”, explicou Sara Snogerup Linse, um dos elementos do comité durante o anúncio do prémio no Instituto Karolinska, na Suécia. Na mesma intervenção declarou: “Em breve, não haverá mais segredos. Agora, podemos ver todos os detalhes nas moléculas, em todos os cantos das nossas células, em todas as gotas dos nossos fluidos. Podemos compreender como se constroem, como se comportam e como agem em comunidades alargadas. Estamos perante uma revolução bioquímica.”

Há já alguns exemplos dos avanços que este novo olhar pode alcançar. Recentemente, esta nova técnica permitiu, por exemplo, olhar de uma forma inédita para o vírus Zika. A estrutura do vírus foi revelada graças à criomicroscopia electrónica e permitiu conhecer as proteínas que compõem o invólucro do vírus a um nível atómico, num trabalho que mereceu um artigo publicado em Abril de 2016 na revista científica Science. Esta reveladora visão do Zika pode ajudar os cientistas a encontrar moléculas para lutar contra o vírus e desenvolver uma vacina.

Pedro Matias, da Unidade de Cristalografia de Macromoléculas, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) da Universidade Nova de Lisboa, em Oeiras, sublinha “a revolução tecnológica que está na base do extraordinário desenvolvimento da criomicroscopia electrónica aplicada a sistemas biológicos”. Lembra que “a utilização de microscópios electrónicos para a visualização de biomoléculas iniciou-se no século passado, com a contribuição fundamental de Richard Hendersen”.

Sublinha ainda que a solução de “congelar a amostra, preservando todas as suas características, usando de arrefecimento ultra-rápido a 196 graus Celsius negativos que impede a formação de cristais de gelo” teve o contributo fundamental de Jacques Dubochet.

Sobre as possíveis aplicações práticas desta técnica, Pedro Matias realça “a sua utilização pelas empresas farmacêuticas na descoberta e desenvolvimento de novos fármacos” e também “ao nível da investigação mais fundamental”, possibilitando “estudos em que se obtêm imagens detalhadas de toda uma célula e seus organelos, o que permite entender melhor aspectos do seu funcionamento”.

O investigador português confirma ainda que “infelizmente” ainda não existem criomicroscópios electrónicos em Portugal. “Existem alguns microscópios electrónicos em Portugal que são utilizados para estudo de amostras biológicas, por exemplo no Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras, no Instituto de Biologia Molecular e Celular no Porto e na Universidade de Coimbra. No entanto, estes instrumentos não têm as potencialidades dos instrumentos de última geração que têm dado origem aos resultados mais excitantes e revolucionários.” São aparelhos exigentes, nota, em termos de espaço e custo. “Um aparelho de última geração para criomicroscopia electrónica pode custar mais de sete milhões de euros. Para além do instrumento, é necessário dispor de uma sala especial com chão antivibrações e atmosfera controlada para impedir as contaminações de poeira e as flutuações de temperatura.”

Na conferência de imprensa, Joachim Frank respondeu a algumas perguntas por telefone e, apesar das más condições da ligação, foi possível ouvi-lo dizer que as moléculas mais fascinantes que já observou com esta técnica foram os ribossomas, as “máquinas” celulares que fabricam as proteínas a partir da informação genética contida no ADN. Apesar de considerar que as inúmeras aplicações e o enorme potencial deste novo método de olhar para as moléculas da vida não serão imediatos e terão de ser explorados nos próximos anos, o investigador sublinhou que “a medicina já não está a olhar só para os órgãos mas para os processos nas células”. E esta ferramenta será decisiva para isso.

O cientista também disse ter sido surpreendido com o telefonema do comité do Nobel, que recebeu durante a noite porque se encontra nos EUA, para lhe anunciar que tinha vencido o Nobel da Química. “Pensei que as minhas hipóteses eram minúsculas. Há tantas inovações e descobertas todos os dias. Mas isto é uma notícia maravilhosa. Foi isso que repeti para mim mesmo. É uma notícia maravilhosa.”

Nas redes sociais, muitos especialistas comentavam a “gaveta” onde o comité Nobel arrumou esta descoberta. Será que a criomicroscopia electrónica é uma “invenção” que pertence ao mundo da biologia pelas suas implicações ou ao da química pelo processo que a tornou possível? É, sem dúvida, um avanço no campo da bioquímica. Hoje, o trabalho de três cientistas que desenvolveram o método foi reconhecido com o Nobel da Química. “Amanhã” é possível que alguma descoberta feita através do uso da (laureada) criomicroscopia electrónica mereça o Nobel da Medicina.
Eles fizeram com que hoje conseguíssemos ver a vida de uma forma mais nítida e detalhada, como nunca antes tínhamos experimentado. Desenvolveram uma tecnologia, que se materializou num poderoso instrumento, que nos deixa olhar para o interior das células, para a estrutura das suas moléculas e até para os seus ínfimos átomos. É a mais íntima perspectiva que temos das moléculas da vida e que nos pode ajudar a saber mais sobre doenças e a desenvolver fármacos. Jacques Dubochet, Joachim Frank e Richard Henderson ganharam esta quarta-feira o Prémio Nobel da Química 2017 pelo desenvolvimento desta técnica chamada criomicroscopia electrónica.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Mensageiras de Einstein, as ondas gravitacionais valem Nobel da Física

A sua existência foi prevista há mais de cem anos por Albert Einstein, mas só em 2015 foram detectadas pela primeira vez. O trio de físicos que há décadas andava atrás das ondas gravitacionais viu agora o seu esforço reconhecido ao mais alto nível.
Albert Einstein, que transformou profundamente a visão que temos do Universo com a sua teoria da relatividade, do início do século XX, acertou outra vez. E tão certo estava que as ondas gravitacionais previstas teoricamente por ele há mais de 100 anos, mas fugidias a qualquer detecção durante décadas e décadas, foram finalmente registadas em Setembro de 2015 por dois grandes detectores nos Estados Unidos. Foi esse extraordinário feito científico, provando que as ondas gravitacionais existiam mesmo, que recebeu o Prémio Nobel da Física de 2017, atribuído esta terça-feira a um trio de investigadores nos Estados Unidos: Rainer Weiss (do Instituto de Tecnologia do Massachusetts), Barry Barish e Kip Thorne (ambos do Instituto de Tecnologia da Califórnia).

Como funciona o nosso relógio biológico? Três cientistas ganharam o Nobel da Medicina com a sua resposta

Cientistas norte-americanos terão sido acordados ao meio da noite para receber a notícia da conquista do Prémio Nobel da Medicina de 2017. Por causa do sono, perderam o sono.
São geneticistas e cronobiólogos. Ou uma espécie de relojoeiros do corpo humano. Michael Rosbash, Jeffrey Connor Hall e Michael Warren Young conquistaram esta segunda-feira o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina por descobertas sobre os mecanismos moleculares que controlam o ritmo circadiano. Os trabalhos com mais de duas décadas nesta área mostraram como funcionam genes que estão ligados ao sono e à forma como regulamos o nosso metabolismo nas diferentes fases do dia. Os três cientistas norte-americanos revelaram alguns dos importantes circuitos e peças que fazem a complexa máquina do nosso relógio biológico funcionar. E, claro, perceberam onde e como pode avariar.

domingo, 24 de setembro de 2017

Elas matarão mais do que o cancro se nada for feito

Diário de Notícias
24/09/2017
As superbactérias são uma perigosa e real ameaça à saúde pública e poderão tornar-se a primeira causa de morte em 2050. Esta «epidemia» poderá tornar-se mais mortal do que o cancro.
A resistência aos antibióticos mata cerca de 700 mil pessoas por ano em todo o mundo. Se nada for feito, as mortes poderão chegar aos 10 milhões em 2050, o que significa que essas bactérias ultrarresistentes poderão matar mais do que o cancro que, neste momento, vitima cerca de oito milhões de pessoas num ano.

O perigo é de tal forma sério que o assunto não é apenas abordado pela comunidade científica, já entrou na agenda política mundial. Na 72.ª assembleia das Nações Unidas, Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), deixou o aviso que o jornal espanhol El País citou. «Esta é uma ameaça terrível com grandes implicações para a saúde humana. Se não a abordamos, o avanço feito nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) perder-se-á e recuaremos ao tempo em que as pessoas arriscavam a sua vida com uma infeção numa pequena cirurgia. É um problema urgente», referiu.

 O uso e abuso de antibióticos tornam as bactérias mais resistentes. Os antibióticos perdem efeito e o organismo pede medicação mais agressiva e tóxica para tentar expulsar as superbactérias. O problema é tão sério que essas bactérias superresistentes poderão tornar-se a primeira causa de morte daqui a 33 anos, mais mortais do que o cancro.

Há várias questões neste problema. O uso abusivo de antibióticos, as tomas que não vão até o fim não eliminado a bactéria do organismo, o uso exagerado de medicamentos em animais que entram na cadeia alimentar do ser humano. O que fazer? O El País avança que está a ser preparada uma campanha de sensibilização para médicos e enfermeiros para que se usem menos medicamentos, em 20 países.

As superbactérias ganham superpoderes, genes de resistência, e ignoram que os antibióticos existem. É como uma seleção natural. «As bactérias que não resistem ao antibiótico morrem, as que resistem continuam a multiplicar-se e a passar os genes de resistência para as gerações seguintes [tornando-se mais fortes e resistentes]», explica à NM Salomé Gomes, investigadora na área de microbiologia e professora do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), no Porto.

«A resistência das bactérias aos antibióticos “de primeira linha”, ou seja, aqueles usados mais habitualmente, aumenta a mortalidade por vários motivos: enquanto não se acerta com o antibiótico, a bactéria está sempre a multiplicar-se e a causar danos (sobretudo se o hospedeiro é frágil) que se podem tornar irreversíveis; os antibióticos de segunda escolha muitas vezes são-no porque têm efeitos secundários negativos (afetam o fígado, os rins, etc.)», acrescenta.

Isabel do Carmo: "Não há vantagens e vai sobrecarregar os rins"

24 DE SETEMBRO DE 2017
Uma questão de moda, que não ajuda nem a emagrecer nem a aumentar a massa muscular, e que pode prejudicar a saúde. É de forma apreensiva que Isabel do Carmo olha para o aumento do consumo dos batidos de proteínas.
Que benefícios têm estes cocktails de proteínas?
Não tem benefício nenhuns e podem ser prejudiciais. Se as pessoas, na sua alimentação ingerem as proteínas suficientes - e no geral comem peixe, carne, ovos, bebem leite, iogurtes, ou seja alimentos fornecedores de proteínas - não há necessidade nenhuma de fazer uma sobrecarga de proteínas que vai sobrecarregar os rins. É claro que os músculos necessitam de proteínas para a sua constituição mas aquelas que comemos na alimentação habitual são suficientes.

Considera então ser desnecessário esse consumo adicional?
Só se houver uma pessoa que tenha um défice alimentar, falo em idosos, doentes que não conseguem comer o suficiente e têm mesmo de ingerir concentrados de proteínas para equilibrar a sua alimentação. De resto, não há nenhuma vantagem, quer para mulheres quer para homens, os produtos que são vendidos, de forma irregular, nos ginásios. E além disso, há produtos que, muitas vezes, têm outras substâncias, que nem são declaradas. Portanto, é bastante prejudicial.

E como é que explica o aumento de venda destes produtos?
É uma questão de modas e de comércio. Não é mais do que uma estratégia de venda, já que benefícios não têm. Dizem que para os homens aumenta a massa muscular, e que para as mulheres faz emagrecer, pois substituem refeições ricas em hidratos de carbono - aliás, esta é outra moda.

Outro dos argumentos é que ajuda a converter a gordura em massa muscular...
Não é correto, a gordura não se transforma em massa muscular. Pode ser queimada, consumida com o exercício físico mais ou menos intenso e com uma dieta hipocalórica mas nunca se transforma em massa muscular. A questão é que, como são ministrados em ginásios onde as pessoas podem fazer um exercício físico intenso é natural que se consiga aumentar a percentagem de massa magra, de músculo. O efeito não é das proteínas mas do exercício físico, digamos que isso prende a pessoa ao ginásio.

Estes produtos também se compram na internet, é um duplo perigo?
Sim. Poderão ter substâncias ocultas, estimulantes. Com os homens há a questão das hormonas sexuais, pois muitas vezes estes produtos têm testosterona, androgénios e aí é grave, sobretudo na adolescência, porque pode provocar efeitos rápidos de inibição das verdadeiras hormonas do homem. Tenho quatro casos destes, de inibição do desenvolvimento genital dos adolescentes. Porque dando ao organismo androgénios exteriores, os próprios do indivíduo ficam inibidos. Isso pode dar resultados muito maus.

Estes quatro casos foram originados por situações de compra de produtos nos ginásios?
Sim claramente, de suplementos nos ginásios.

E como é que essas situações evoluíram?
Há um jovem que se safou, que jura que já não toma nada disso. Os outros três perdi-lhes o rasto. Uns eram gémeos. Há ano e meio encontrei a mãe que estava desesperada porque um deles ainda se mantinha com problemas graves.

Quais as consequências?
Um atraso no desenvolvimento sexual, no pénis e nos testículos nos adolescentes.

Como uma folha de espinafre pode tornar-se um mini-coração



O que os investigadores fizeram foi transformar simples folhas de espinafre numa espécie de mini-corações feitos de células cardíacas humanas que conseguem bombar um fluido através da rede de "veias" da folha vegetal. Um feito que Glenn Gaudette diz ser apenas o princípio.

Demonstrada a possibilidade de produzir tecido cardíaco desta forma, trata-se agora de desenvolver o trabalho no sentido de esse tecido produzido em laboratório poder um dia ser transplantável em doentes para a regeneração deste órgão em pacientes com problemas cardíacos.

A ideia de usar uma estrutura vegetal para construir um simulacro funcional de um dos órgãos humanos mais complexos - como diz Gaudette, "ele tem um pouco de tudo, desde a dinâmica de fluidos, mecânica de sólidos, atividade elétrica, química, biologia, é fantástico" - , foi uma resposta quase natural à enorme dificuldade de reproduzir em laboratório a complexidade do seu sistema vascular.

Na bioengenharia de tecidos humanos funcionais, um campo de investigação que ganhou uma enorme projeção na última década e que é uma das esperanças para o futuro no transplante de órgãos, um dos problemas mais difíceis de resolver tem sido, justamente, a reprodução do sistema de vasos sanguíneos, aquela rede vital de base, que é essencial. Muitos grupos têm utilizado a impressão 3D para produzir os moldes onde são depois implantados e cultivados os tecidos, mas a questão dos vasos sanguíneos é mais complexa.

Foi aí que Joshua Gershlak, um estudante de doutoramento de Glenn Gaudette teve a ideia "ovo de Colombo", quando um dia se deu conta de que as folhas das plantas já têm essa rede vascular. "Eu já tinha feito trabalho de descelularização [retirar as células] em corações humanos e a folha de espinafre fez-me lembrar uma aorta", contou. Então pensou que, se conseguisse retirar todas as células vegetais à folha, deixando apenas a estrutura de base, feita de celulose e portanto biocompatível, se poderiam depois cultivar sobre ela as células do músculo cardíaco. Glenn Gaudette gostou da ideia e contactou colegas das universidades de Wisconsin e do Arkansas para, juntos, lançarem mãos à obra.

O resultado foi o que já se sabe. Tratadas por um processo laboratorial, as folhas, ao fim de sete dias, estavam reduzidas à sua estrutura básica e prontas para receberem as células humanas do tecido cardíacas, que se reproduziram em torno dela. No fim do processo, a equipa conseguiu que um fluido idêntico ao sangue fosse transportado através das "veias" daquela miniatura de coração.

"Este projeto demonstra a importância do trabalho interdisciplinar e abre a porta à possibilidade de utilizar múltiplas folhas de espinafres para produzir várias camadas de tecido do coração para tratar pessoas que sofreram um ataque cardíaco", explicou, por seu turno, Glenn Gaudette.

Além desta possibilidade evidente, o conceito pode agora ser testado com outras plantas para produzir também outros tecidos humanos. "Adaptar a enorme diversidade de plantas a este campo da engenharia de tecidos pode ser a solução para um mundo de problemas", conclui a equipa.