quarta-feira, 19 de junho de 2019

Ciência deita por terra desculpa de os "desejos" serem o "corpo a pedir" determinado alimento

Visão

Vários estudos revelam que os famosos "desejos" não se tratam, como muitos pensam (ou preferem pensar...), de uma mensagem do organismo em défice de determinado nutriente ou açúcar nem, no caso das grávidas, de uma carência do bebé. Existem várias razões para nos apetecer determinado alimento mas, na maioria das vezes, é mesmo tudo psicológico 

Em 1900, o cientista russo Ivan Pavlov descobriu que os cães anticipam o desejo de comer em resposta a certos estímulos associados ao momento em que habitualmente são alimentados. Agora, John Apolzan, professor de nutrição clínica e metabolismo no Pennington Biomedical Research Center, acredita que os "desejos" possam ser explicados por uma resposta semelhante do cérebro humano. "Se sempre que vires o teu programa de televisão preferido comeres pipocas, a tua vontade de comer pipocas vai aumentar quando estiveres a ver o programa", diz.
A conhecida como "crise das 15 horas", aquele desejo de algo doce a meio da tarde, é outro exemplo disso. Anna Konova, diretora do Laboratório de Neurociências de Dependência e Decisão da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, considera que estes desejos são mais fortes quando a pessoa está no trabalho porque são fruto de sinais externos a que o cérebro reage e não a uma necessidade interna do organismo.
O chocolate, por exemplo, é um dos alimentos desejados mais frequentemente no Ocidente - o que apoia o argumento de que não existe uma ligação entre deficiências nutricionais e a vontade de comer determinados alimentos, uma vez que, o chocolate não contém níveis elevados de qualquer nutriente. Outro fator apontado é a menstruação, contudo, enquanto a perda de sangue pode aumentar o risco de algumas deficiências nutricionais, como o ferro, os cientistas dizem que o chocolate não restauraria os níveis de ferro tão rapidamente como, por exemplo, a carne vermelha. Pode ainda supor-se que, se houvesse algum efeito hormonal a causar uma necessidade biológica de chocolate durante, ou antes da menstruação, esse desejo aliviaria após a menopausa. Mas os estudos não encontram uma diminuição significativa dos desejos de chocolate depois da menopausa.
No entanto, um estudo revelou que é bem mais provável que os desejos sejam culturais, ao provar que as mulheres fora dos EUA eram significativamente menos propensas a ligar os desejos de chocolate ao ciclo menstrual. Os cientistas explicam esta associação do chocolate à menstruação explica-se pelo facto de, durante e antes do período menstrual, as mulheres sentirem que é mais aceitável que comam determinados alimentos "proibidos" como, no caso do ocidente, o chocolate.
Segundo Anna Konova, há uma falta de consenso em torno do que realmente é um desejo. Isso, argumenta, é uma barreira para entender como superar os desejos, uma vez que, podemos estar a associá-los a várias causas diferentes.
Há dados que sugerem que as bactérias dentro dos nossos intestinos podem manipular-nos para desejar consumir tudo aquilo que elas necessitem, e que isso não é necessariamente o mesmo que o nosso corpo precisa. "Os micróbios intestinais que sobrevivem melhor dentro de nós acabam por ser os mais frequentes na próxima geração. Eles têm a vantagem evolutiva de serem melhores a afetar-nos de maneira a levarem-nos a alimentá-los de acordo com as suas preferências", diz Athena Aktipis, professora no departamento de psicologia da Universidade do Arizona.
Eles podem enviar sinais do intestino para o cérebro para nos fazer sentir como se não estivessemos a consumir o suficiente de um determinado nutriente, ou provocar um sentimento de satisfação quando comemos o que eles necessitavam. Segundo Aktipis, apesar de nenhum estudo ter analisado este fenómeno, isto baseia-se no entendimento da comunidade cientifica do comportamento dos micróbios.
Uma série de estudos confirma que técnicas como estar ciente dos desejos, não os satisfazer mas também não nos sentirmos mal por termos esse tipo de pensamentos, são algumas das maneiras mais eficazes de reduzir a vontade de consumir determinados alimentos.

Sabe aqueles "olhos de cachorrinho"? Os cães têm um músculo só para isso e usam-no "de propósito"

Visão

Um músculo responsável pelos "olhos de cachorrinho" está uniformemente presente nos cães, mas não nos lobos, a espécie a partir da qual estes evoluíram, há mais de 30 mil anos. Uma investigação americana concluiu por isso que o aparecimento deste músculo é um resultado da evolução da espécie durante a domesticação 

Um estudo publicado na revista Procedimentos da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América concluiu que a capacidade dos cães fazerem expressões faciais apelativas ao ser humano é um resultado da evolução da espécie.
Como sabemos, as espécies evoluem ao longo dos tempos. No caso dos cães, estes foram "moldados durante o curso da domesticação, tanto no seu comportamento como nas suas caraterísticas anatómicas", diz o estudo. Uma das mudanças na sua anatomia foi o desenvolvimento de um novo músculo, responsável pelos famosos "olhos de cachorrinho", de modo a facilitar a criação de laços com os humanos.
Já em 2015, cientistas japoneses conseguiram provar que a troca de olhares entre os cães e os donos estimulam, em ambos, a produção de oxitocina, a chamada "hormona do amor". No entanto, agora sabe-se que isso deve-se ao músculo extra, desenvolvido pela espécie, perto dos olhos, que possibilita, através das suas sobrancelhas, que tenham expressões faciais semelhantes às humanas e assim apelem às nossas emoções.
Este músculo faz com que os olhos "parecem maiores, mais infantis e também se assemelham ao movimento que os humanos produzem quando estão tristes", por isso, "quando os cães fazem o movimento, isso parece suscitar um forte desejo nos humanos para cuidar deles", lê-se no relatório do estudo publicado esta semana. Para além disso, o músculo "também pode desempenhar um papel durante as interações comunicativas entre cães e humanos". Os humanos tendem a prestar atenção às áreas faciais superiores enquanto comunicam com os outros, e os cães podem estar a responder a essa dinâmica de interação.
Os cientistas estudaram o comportamento dos cães e dos lobos, e compararam as suas reações quando estavam na presença de seres humanos. Os cães, quando expostos à presença humana, levantavam as sobrancelhas mais vezes e com maior intensidade (graças ao músculo extra). Isto pode ser um resultado de preferências humanas que, ainda que inconscientemente, nos influenciam durante a criação de laços, ou seja, quando os cães se tornam capazes de apelar às emoções humanas, estão em vantagem comparativamente com as gerações anteriores.

Só há uma raça humana, defende investigador, que culpa cientistas por contribuir para o racismo

Visão


Os seres humanos pertencem todos à mesma raça, mas ao longo dos séculos cientistas contribuíram deliberadamente para a ideia de que há várias raças e que a branca europeia é superior, defende um especialista em biologia evolutiva e antropologia.

Rui Diogo, professor e investigador português, vive nos Estados Unidos mas está em Portugal para uma série de conferências sobre evolução e racismo.

Numa conferência organizada pelo Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, em conjunto com o Museu Nacional de História Natural e da Ciência, o professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de Howard e membro do Centro de Estudos Avançados de Paleobiologia dos Hominídeos da Universidade George Washington, Estados Unidos, salientou que "biologicamente não há nenhuma raça humana" e não há raças negras ou brancas.
No entanto, disse, o estudo de primatas e da evolução foram usados ao longo da história para reforçar o preconceito e garantir a distinção de "raças humanas", legitimando a ideia de que há raças superiores e raças inferiores.
Para o investigador, a verdade é que a ciência explica as diferenças de cor da pele como mudanças epigenéticas (mudanças das funções genéticas herdadas, mas que não alteram a sequência de ADN) relacionadas com o clima.
"A cor da pele tem a ver com os raios ultravioleta, não é raça nem é genético", garantiu o especialista, acrescentando que é a ciência que explica que peles mais escuras existem onde há mais sol e as mais claras em países com pouco sol, precisamente para assim absorverem o pouco sol que existe.
E, no entanto, um branco pode ser mais "aparentado geneticamente" com um negro do que um negro com outro negro.
Mas ao longo de muitos anos, alertou, essa ciência foi usada para colocar "o negro ao lado dos macacos" e o "branco europeu" como raça superior.
"Os preconceitos dos cientistas também influenciaram a ciência", frisou.
É por tudo isto que Rui Diogo, como explicou à Lusa, tem, com outros investigadores, vindo a pedir à Sociedade Americana de Antropologia Física e à Sociedade de Anatomia que façam um pedido formal de desculpas.
"Não é fácil, mas temos de chegar lá", disse à Lusa, acrescentando que a ciência, a antropologia e a anatomia, se portaram "muito mal".
"Seria reconhecer que os investigadores promoveram de forma ativa e baseados em agendas políticas o racismo de tipo B durante centenas de anos", disse.
Rui Diogo divide o racismo em tipo A e tipo B, sendo que o primeiro entende outra cultura como diferente, com quem não quer relações, e o segundo que considera a outra cultura inferior.
O especialista cita um artigo científico do século XX que fala da "cara nojenta do negro", diz que Charles Darwin contribuiu para o racismo, e considera que mesmo no filme "King Kong" "há uma agenda" racista, onde se compara o gorila ao negro, que destrói a civilização e rouba as mulheres.
"Muitos cientistas tinham uma agenda política clara", diz Rui Diogo.
O investigador admite que há determinadas características mais comuns em determinados grupos, mas diz que não se relacionam com a cor da pele. E dá um exemplo: no tempo da escravatura um terço dos escravos morria nos navios, os que sobreviviam tinham em comum determinadas capacidades de resistência, mas não por serem negros.
Mas, se hoje a ciência é clara, como há ainda tantas situações de racismo, que parecem estar a aumentar? Rui Diogo responde que essa ciência, esse "fator biológico" é pouco divulgado e diz que em tempos de crise aumenta o estereótipo em relação aos outros, seja por causa da competição no emprego, seja pelo acesso à saúde, seja por outros motivos.
De resto, admite, o racismo é natural e leva à especiação (processo evolutivo). Mas não o racismo de tipo B, mais recente e que considera os outros inferiores, que é mais perigoso e está na origem de genocídios.
Há estudos, acrescenta, que dizem que o racismo de tipo A é intrínseco e natural, e é consensual que existe em todos os continentes.
Autor ou primeiro autor de 14 livros científicos e a preparar um novo livro sobre racismo, Rui Diogo fala ainda de um outro fenómeno, recente, a que chama neocolonialismo científico.
Acontece quando, explica, investigadores brancos descobrem fósseis em países africanos, se fotografam ao lado deles, e os trazem para a Europa para os estudar. Rui Diogo coloca a questão ao contrário: "Imagine-se um grupo de arqueólogos de um país africano a fazer escavações na Lourinhã e a levar os ossos de dinossauro".

 

domingo, 16 de junho de 2019

Novo ADN sintético com oito letras em vez dos “naturais” quatro