quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Prémio Nobel da Química 2018 para a evolução no “tubo de ensaio”

Andrea Cunha Freitas, 3 de outubro de 2018

Comité distinguiu trabalhos baseados em experiências que aproveitaram “o poder da evolução”.

O Prémio Nobel da Química de 2018 foi atribuído à norte-americana Frances H. Arnold e, a outra metade, ao norte-americano George P. Smith e ao britânico Gregory P. Winter, anunciou esta quarta-feira o comité do Nobel no Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia). O prémio tem um valor de nove milhões de coroas suecas (cerca de 871 mil euros). “Os laureados de Química deste ano assumiram o controlo da evolução e usaram os mesmos princípios – mudança genética e selecção – para desenvolver proteínas que resolvem os problemas químicos da humanidade.” 

Frances H. Arnold, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena (EUA), recebe o Nobel da Química pelo trabalho desenvolvido com a “evolução dirigida de enzimas”. A outra metade do prémio será dividida entre George P. Smith, da Universidade do Missouri, em Columbia (EUA), e por Sir Gregory P. Winter, do Laboratório de Biologia Molecular do MRC (Medical Research Council), em Cambridge (Reino Unido), pelo trabalho desenvolvido com péptidos (fragmentos de uma proteína) e anticorpos em fagos, minúsculos vírus que apenas infectam bactérias.

Os métodos que os premiados desenvolveram servem para promover uma indústria química mais verde, produzir novos materiais, fabricar biocombustíveis sustentáveis, tratar doenças e, assim, salvar vidas”, referiu o comité do Nobel.

O comunicado de imprensa do comité do Nobel tem o sugestivo título de “A (r)evolução na química” e começa por referir que o poder da evolução é revelado na diversidade da vida. Não é preciso ser prémio Nobel ou sequer cientista para constatar que estamos cercados de vida e que esta assume múltiplas formas em qualquer ambiente, do mais inóspito ao mais fértil. Desde as mais profundas brechas na Terra até ao cume das montanhas mais altas deparamos com vida. Isto acontece porque “a evolução” resolveu uma série de complexos problemas químicos. Exemplos: os peixes nadam nos oceanos polares porque possuem proteínas anticongelantes no seu sangue, os mexilhões conseguem agarrar-se às rochas porque desenvolveram uma cola molecular que funciona na água. O comunicado de imprensa continua esta viagem pela evolução e lembra que a química da vida está nos nossos genes e que uma pequena alteração que mude a equação pode tornar-nos mais fracos ou mais robustos.

“Este processo chegou tão longe que deu origem a três indivíduos tão complexos que conseguiram, eles próprios, dominar a evolução.” Foi através da evolução dirigida, a evolução num tubo de ensaio, que os três laureados revolucionaram a química e o desenvolvimento de novos fármacos, mais eficazes e com menos efeitos secundários, já que são feitos a partir de nós.

Do táxi até ao Nobel

Frances H. Arnold usou a evolução dirigida  parproduzir enzimas, “a mais aguçada ferramenta química da vida”. No início da sua carreira, a engenheira mecânica e aeroespacial investiu nas energias renováveis à procura de uma nova tecnologia. Primeiro trabalhou com energia solar, mas depois acabou por se virar para novas tecnologias de ADN. “Era evidente que era necessário no nosso dia-a-dia uma maneira inteiramente nova de fazer materiais e químicos e que a podíamos alcançar se conseguíssemos reescrever o código da vida”, refere a cientista, citada no comunicado de imprensa.

O plano era usar enzimas, conceber novas enzimas. Uma abordagem arrogante? Sim, a própria cientista admite-o. Era demasiado difícil replicar estas complexas estruturas formadas por milhares de aminoácidos em infinitas combinações possíveis. Restava inspirar-se na natureza e imitar o seu método: a evolução. E assim começou a “brincadeira”. Passo após passo, aperfeiçoou a técnica, substituindo apenas o princípio da evolução apoiado na sobrevivência do mais apto por uma “selecção” neste novo campo da “evolução dirigida”.

Actualmente, as enzimas produzidas no laboratório de Frances Arnold são capazes de catalisar reacções químicas que nem sequer existem na natureza, formando materiais inteiramente novos. Uma das principais aplicações destas enzimas está no desenvolvimento de novos fármacos, mais eficazes e com menos efeitos secundários. Coincidência ou talvez não, a cientista voltou a trabalhar na área das energias renováveis e desenvolveu enzimas que transformam açúcares simples numa substância que pode ser usada para a produção de biocombustíveis usados em carros ou aviões ou de plástico menos prejudicial ao ambiente.

Dos três laureados, apenas se soube esta quarta-feira alguns detalhes da vida pessoal de Frances H. Arnold. Além de ficarmos a saber que é uma sobrevivente de cancro e que é filha do físico nuclear William Howard Arnold e tem três filhos, também foi divulgado que a cientista enquanto jovem trabalhou como empregada num clube de jazz e foi motorista de táxi.

Tirar partido dos fagos

A outra metade do prémio Nobel da Química coloca os fagos debaixo dos holofotes. Neste caso, George P. Smith e Gregory P. Winter usaram um método chamado “phage  display” (apresentação em fagos) para desenvolver novas proteínas. O resultado é a possibilidade de conceber produtos capazes de neutralizar toxinas, combater doenças auto-imunes e, em alguns casos, tratar cancros metastáticos.

Mas vamos por partes. Quando, nos anos 80, George Smith entrou no mundo dos fagos, o objectivo era usá-los para clonar genes. No entanto, nessa altura a tecnologia e o conhecimento na área da genética era muito diferente do que temos hoje. Muitos dos genes que produzem certas proteínas não estavam sequer identificados. Assim, o cientista decidiu usar os fagos para procurar os genes, uma espécie de cana de pesca que com o isco certo conseguia capturar uma “agulha num palheiro”.

Como isco usaram anticorpos. Tal como explica o comunicado de imprensa, os anticorpos possuem essa fantástica capacidade de funcionarem como mísseis direccionados, conseguindo identificar e unir-se a uma única proteína entre milhares com uma precisão incrível. Se os investigadores conseguissem apanhar alguma coisa numa sopa de fagos usando um anticorpo que se associasse a uma conhecida proteína, iam também conseguir chegar, por arrasto, até ao gene que comanda a produção dessa proteína. Em 1985, George Smith produziu um fago com um fragmento de uma proteína, um péptido, na sua superfície e, usando um anticorpo, conseguiu “pescá-lo” de uma sopa com muitos fagos. Estavam assim estabelecidas as bases da técnica de apresentação em fagos, ou phage display. “O método é brilhante na sua simplicidade”, refere o comité do Nobel, acrescentando que se apoia num forte pilar fazendo com que o fago funcione como uma ligação entre a proteína e o seu gene. Nos anos 90, vários grupos de investigação usaram esta técnica para desenvolver novas biomoléculas.

Uma das pessoas que usou a técnica phage display foi o terceiro laureado da edição deste ano do Prémio Nobel da Química, Gregory Winter. O cientista conseguiu usar esta técnica para a produção de anticorpos, concretizando o conceito de uma evolução dirigida, orientada. Aproveitando o modus operandi de fagos e anticorpos, produziu uma biblioteca de fagos com milhões de variedades de anticorpos na sua superfície. Nos anos 90 criou uma empresa farmacêutica baseada na produção de um anticorpo humano, o adalimumab, que foi aprovado em 2002 para o tratamento de artrite reumatóide e também é usado para tratar diferentes tipos de psoríase e doenças inflamatórias do intestino.

O “sucesso” deste primeiro anticorpo inteiramente humano produzido em laboratório empurrou a indústria farmacêutica que está a usar a técnica do phage display para produzir, por exemplo, anticorpos para o cancro. Outro anticorpo farmacêutico aprovado neutraliza a toxina que causa antrax, uma doença infecciosa aguda, e outro novo anticorpo abranda o lúpus, uma doença auto-imune. Em ensaios clínicos há muitos outros anticorpos criados com este método para vários fins, entre os quais combater a doença de Alzheimer.


Resumindo, confirma-se que houve uma (r)evolução na química e que ainda está em curso. E, apesar dos receios de quem antevê uma possibilidade de usarmos esta evolução dirigida pelos humanos para fabricar “coisas más”, para já, o que está a ser feito é “apenas” em benefício da humanidade.





Nobel da Física para uma mulher pela primeira vez em 55 anos

Teresa Firmino 2 de outubro de 2018
Distinguidos trabalhos de três cientistas sobre física dos lasers. As aplicações das tecnologias dos lasers agora premiadas passam por ajudar a desvendar os mistérios de vírus e células e pelo uso em cirurgias oftalmológicas.

O Prémio Nobel da Física de 2018 vai para três investigadores sobre os seus trabalhos na física dos lasers – anunciou esta terça-feira de manhã a Real Academia Sueca das Ciências em Estocolmo. Metade do prémio, no valor monetário de nove milhões de coroas suecas, ou 866 mil euros, vai para o norte-americano Arthur Ashkin e a outra metade para o francês Gérard Mourou e a canadiana Donna Strickland. No anúncio, o comité resumiu que o prémio vai para “as ferramentas feitas de luz” ou, na justificação mais formal, para “invenções revolucionárias no campo da física dos lasers”. 

Até agora, em toda a história dos Prémios Nobel, criados em 1901, apenas duas mulheres tinham recebido o Nobel da Física: Marie Curie em 1903 (também distinguida com o Nobel da Química em 1911) e Maria Goeppert-Mayer em 1963. Portanto, há 55 anos que uma mulher não fazia parte do rol de laureados desta prestigiada distinção. Donna Strickland junta-se agora a este clube muitíssimo restrito.

Arthur Ashkin, dos Laboratórios Bell (em Holmdel, nos EUA), desenvolveu uma técnica de laser descrita como “pinças ópticas”, que é usada para estudar sistemas biológicos e para controlar minúsculos organismos vivos. Já Gérard Mourou, da Escola Politécnica (em Palaiseau, França) e da Universidade do Michigan (EUA), e Donna Strickland, da Universidade de Waterloo (Canadá), desenvolveram novas formas de produzir impulsos de laser de alta intensidade e muito curtos a partir de uma técnica que inventaram chamada chirped pulse amplification (CPA), que em português poderá designar-se como “amplificação de impulsos com dispersão temporal”, ou ainda “amplificação de impulsos com trinado”.

Os avanços dos três laureados ocorreram nos anos 80. Nascido em 1922 em Nova Iorque, Arthur Ashkin inventou as tais pinças ópticas, utilizando luz laser para movimentar pequenas partículas para o centro do feixe de luz e mantê-las aí, explica-se num comunicado da Real Academia Sueca das Ciências – ou seja, utilizando a pressão de um feixe de luz poderiam empurrar-se objectos microscópicos e aprisioná-los numa certa posição. Conseguia assim tornar realidade o que a ficção científica já tinha inventado há muito, acrescenta o comunicado: fazer mexer objectos físicos usando a luz.

As pinças ópticas são capazes de apanhar partículas, átomos, vírus e células vivas. Foi em 1987 que Arthur Ashkin conseguiu um grande avanço científico, ao utilizar as pinças ópticas para capturar bactérias vivas sem que elas ficassem danificadas, como explica o comunicado: “Começou imediatamente a estudar sistemas biológicos e as pinças ópticas são agora largamente utilizadas para investigar a maquinaria da vida.” Pela invenção das “pinças ópticas e a sua aplicação aos sistemas biológicos”, como justifica o comité do Nobel, metade do prémio vai para Arthur Ashkin.

Um primeiro artigo valioso


Quanto a Gérard Mourou e Donna Strickland, trabalharam juntos, tendo lançado as bases para o desenvolvimento dos lasers de menor duração e mais intensos alguma vez criados pela humanidade. Na verdade, Mourou (nascido em 1944 em Albertville) foi o orientador da tese de doutoramento de Donna Strickland (nascida em 1959 em Guelph), como ela destacou na conversa telefónica durante a cerimónia de anúncio do Nobel deste ano. “Gérard foi o meu mentor. Ele fez tantas descobertas anteriores. É fantástico.”


O artigo científico considerado revolucionário de Donna Strickland foi publicado em 1985, vindo a ser o cerne da sua tese de doutoramento. Publicado na revista Optics Communications, Gérard Mourou era o outro autor, ambos então na Universidade de Rochester, nos Estados Unidos. Incrível ainda nesta história científica é que esse artigo científico foi o primeiro que Donna Strickland publicou na vida e que, ao fim de 33 anos, viria a dar-lhe visibilidade mediática mundial com a atribuição do Nobel.

A técnica de CPA consiste na criação de impulsos de laser de duração ultracurta e grande intensidade sem que o material óptico sofra danos. Primeiro, usa-se um impulso de laser de curta duração, depois aumenta-se a sua duração, a seguir esse impulso alargado temporalmente é amplificado e, por fim, é comprimido para uma duração próxima da original. “Se um impulso é comprimido temporalmente e fica com menor duração, então mais luz é empacotada no mesmo espaço minúsculo – a intensidade do impulso aumenta de forma drástica”, nota o comunicado.

A técnica CPA é hoje utilizada, por exemplo, de forma rotineira por todo o mundo em cirurgias oftalmológicas que utilizam lasers.

Na conversa telefónica de Donna Strickland para a Real Academia Sueca das Ciências, onde os jornalistas presentes puderam fazer-lhe algumas perguntas, pediram-lhe um comentário ao facto de ser a terceira mulher desde sempre a receber o Nobel da Física. “Pensei que haveria mais”, começou por responder. “Tenho a honra de ser uma dessas mulheres.” Mais tarde, a falar com Adam Smith, do site do Nobel, disse ainda: “Nunca olhei para estes prémios a perguntar-me por que não havia mulheres. As coisas estão a mudar e vão mudar mais ainda.”

E quando recebeu o tradicional telefonema da academia sueca, pouco tempo antes do anúncio ao mundo do nome dos três premiados, para lhe comunicar a grande novidade? “Pensei que era uma loucura e se seria real”, respondeu. “Primeiro, pensei que podia ser uma partida, mas como era o dia do Nobel seria uma partida cruel”, diria depois a Adam Smith, que também quis saber se ela estaria preparada para ser muito requisitada agora com o prémio Nobel. “Tenho muito medo disso. Há pouco tempo estava a falar com uma pessoa que ganhou um Nobel e ela disse-me que tinha viajado 100 mil quilómetros num ano. Tenho medo disso. Ainda por cima, os cientistas nem sequer podem viajar em primeira classe”, ironizou.

A Göran K. Hansson, secretário-geral da academia sueca, os jornalistas perguntaram ainda se tinha uma ideia da percentagem de mulheres nomeadas para o Nobel da Física (os nomes dos nomeados não são revelados). “Não tenho as estatísticas. Mas é uma percentagem pequena. Por isso, tomámos medidas para encorajar mais nomeações. Não queremos deixar de fora ninguém.” Olga Botner, do comité do Nobel da Física e especialista na área de investigação agora distinguida, acrescentou que o número de nomeadas tem aumentado e que isso reflecte o trabalho que iniciaram há cerca de 30 anos.

Em relação a este assunto, Göran K. Hansson quis deixar claro que o que está em questão não é o facto de os premiados serem homens ou mulheres. “O importante é que o Prémio Nobel é por descobertas e invenções. Aqueles que o receberam fizeram grandes contribuições para a humanidade.” Ainda assim, as estatísticas da história do Nobel da Física mostram que, até agora, só Marie Curie, Maria Goeppert-Mayer e Donna Strickland foram reconhecidas pelos seus feitos em prol da humanidade.

Göran K. Hansson conseguiu contactar os três premiados antes do anúncio. “O dr. Ashkin não podia dar entrevistas porque estava muito ocupado com um artigo científico”, começou por dizer. E na sala ouviram-se risos. Talvez haja uma justificação para usar muito bem o seu tempo. Com 96 anos, Arthur Ashkin é, a partir de agora, o mais velho laureado com o Nobel.

Mas, depois, acabou por dar uma pequena entrevista para o site do Nobel, tendo-lhe sido perguntado se ainda trabalha em casa. “Sim, estou a fazer um artigo que espero que seja aceite para publicação”, referiu, denotando a sua modéstia. Sobre as pinças ópticas, disse ainda: “Previ que seria uma coisa muito importante, com muitas aplicações. Porém, a luz era algo que supostamente devia matar os tecidos. Foi uma grande surpresa ver que era usada para curar e tratar.” E pretende ir a Estocolmo em Dezembro, à cerimónia de entrega do prémio? “Se puder. Estou a escrever um artigo. Acho que tenho aqui uma coisa importante sobre energia solar. E o mundo precisa de alguma coisa para as alterações climáticas.”



Destravar o sistema imunitário para combater cancro dá Nobel da Medicina

Andreia Freitas
James P. Allison e Tasuku Honjo descobriram novas formas de bloquear os travões do nosso sistema imunitário que se revelaram muito eficazes no tratamento do cancro. “Um novo paradigma na luta contra o cancro”, considerou o comité do Nobel.

O Prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia de 2018 foi atribuído aos investigadores James P. Allison e Tasuku Honjo pelas descobertas relacionadas com o papel do sistema imunitário na luta contra o cancro, anunciou esta segunda-feira o comité do Nobel no Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia). O prémio tem um valor de nove milhões de coroas suecas (cerca de 871 mil euros).

 “O Prémio Nobel deste ano assinala um marco na luta contra o cancro”, anunciou o comité do Nobel esta segunda-feira, acrescentando que as investigações dos dois laureados representam uma mudança de paradigma. “É um princípio totalmente novo. Neste caso, em vez de ter como alvo as células cancerosas, estas abordagens usam os travões das células do nosso sistema imunitário para travar o cancro.” A descoberta feita pelos dois laureados do Nobel da Medicina aproveita assim a capacidade do nosso sistema imunitário de atacar as células cancerosas estimulando-o e bloqueando os “travões” das células do sistema imunitário, os linfócitos T. Com esta “avaria” dos travões, o sistema imunitário acelera-se, investindo rapidamente nas células cancerosas. 

O norte-americano James P. Allison, do Centro para o Cancro M.D. Anderson da Universidade do Texas, em Houston, estudou uma proteína, a CTLA-4, que funciona como um travão no sistema imunitário, e o japonês Tasuku Honjo, da Universidade de Quioto, investigou uma outra proteína, a PD1, e mostrou que ela também funciona como um travão, mas com um mecanismo de acção diferente. Usando anticorpos nestas duas moléculas é possível “avariar” os travões e fazer com que o sistema imunitário ganhe em força e velocidade. As duas terapias, que se complementam, mostraram-se surpreendentemente eficazes na luta contra o cancro, com resultados comprovados em tumores como o melanoma, cancro dos pulmões e dos rins.

“Até às descobertas feitas pelos laureados da Medicina de 2018, o progresso no desenvolvimento clínico foi modesto”, considerou o comité, sublinhando que são os “resultados fantásticos” das investigações que justificaram a escolha. A terapia de controlo (checkpoint) imunitário, como é conhecida, revolucionou o tratamento do cancro e mudou fundamentalmente a maneira como encaramos esta doença.

Golfe e blues
Por volta das 9h30 da manhã, foi publicado um tweet na conta do Prémio Nobel que anunciava que o vencedor já tinha sido escolhido. “Alguém está a receber notícias emocionantes de Thomas Perlmann, o secretário-geral do comité do Nobel.” No entanto, a essa hora, apenas Tasuku Honjo recebeu a fantástica notícia. Ao que parece, às 11h, meia hora depois do anuncio oficial, o comité ainda não tinha conseguido contactar James Allison. 

Mais tarde, à margem de uma conferência sobre cancro que decorre em Nova Iorque, James Allison disse: “Sinto-me honrado por receber este prestigioso reconhecimento. Uma motivação inspiradora para os cientistas é simplesmente empurrar as fronteiras do conhecimento. Não comecei a estudar o cancro, mas a tentar entender a biologia dos Linfócitos T, essas células incríveis que viajam pelo nosso corpo e trabalham para nos proteger.” O interesse de James Allison por biologia terá começado quando ainda era uma criança, após receber um kit de química como prenda do seu pai.

Tasuku Honjo, que começou sua investigação nesta área depois da morte por cancro de estômago de um colega seu no curso de Medicina, também reagiu ao prémio: “Quero continuar a minha investigação para que esta terapia imunológica possa salvar mais doentes.”

A notícia do prémio atribuído a James Allison surgiu esta segunda-feira acompanhada por uma banda sonora de música blues. Além do seu trabalho científico, foram divulgados os vídeos que mostram uma faceta interessante deste investigador, que toca harmónica numa banda chamada “The CheckPoints”, composta por médicos imunologistas e oncologistas.
Sobre Tasuku Honjo sabemos que gosta de jogar golfe e é um apreciador de arte. Aliás, citado pelo The Guardian, o cientista japonês contou que já foi abordado num clube de golfe por um colega, que agradeceu as suas descobertas, especificamente relacionadas com o cancro de pulmão e que lhe terá dito que graças a ele podia jogar golfe. “Esse foi um momento feliz. Um comentário como esse faz-me mais feliz do que qualquer prémio.”

O caminho até ao prémio
O cancro mata milhões de pessoas todos os anos e é um dos maiores desafios de saúde da humanidade. Estimulando a capacidade inerente do nosso sistema imunitário de atacar as células tumorais, este ano, os laureados com o Nobel estabeleceram um princípio inteiramente novo para a terapia usada para combater o cancro”, anunciou o comité do Nobel, logo no início da comunicação oficial dos premiados deste ano.

E continuou: “O cancro inclui muitas doenças diferentes, todas caracterizadas pela proliferação descontrolada de células anormais com capacidade de disseminação para órgãos e tecidos saudáveis. Assim, há várias abordagens terapêuticas que estão disponíveis para o tratamento destas doenças, incluindo a cirurgia, radiação e outras estratégias.” Algumas destas estratégias que actualmente são usadas de forma rotineira receberam prémios Nobel em edições anteriores, nomeadamente os métodos para tratamento hormonal para cancro da próstata (Charles Huggins recebeu o Nobel em 1966), quimioterapia (George Hitchings and Gertrude Elion receberam o Nobel em 1988) e transplante de medula óssea para a leucemia (E. Donnall Thomas recebeu o Nobel de 1990). “No entanto, o cancro avançado permanece extremamente difícil de tratar e é necessário encontrar novas estratégias terapêuticas”, constata o comité do Nobel.

Recuando ao final do século XIX e início do século XX, encontramos o aparecimento do conceito de que a activação do sistema imunitário poderia ser uma estratégia para atacar as células tumorais. “Várias tentativas foram feitas para infectar pacientes com bactérias que conseguiriam activar o sistema de defesa do nosso organismo”, diz o comunicado de imprensa sobre a edição de 2018 do Prémio Nobel da Medicina. Porém, “esses esforços só tiveram efeitos modestos, ainda que uma variante dessa estratégia seja usada actualmente no tratamento do cancro de bexiga”. Era então preciso investigar mais e melhor esta frente de batalha. “Muitos cientistas envolveram-se numa intensa investigação e descobriram mecanismos fundamentais que regulam a imunidade e também mostraram como o sistema imunitário pode reconhecer as células cancerosas.” Apesar dos avanços, a descoberta de respostas que pudessem ser usadas de forma generalizada revelou-se muito difícil.

“A propriedade fundamental do nosso sistema imunitário é a capacidade de discriminar o ‘eu’ do ‘não-eu’, de modo a que as bactérias invasoras, vírus e outros perigos possam ser atacados e eliminados”, explica mais uma vez o comité. E os linfócitos T, um tipo de glóbulos brancos, são os principais intervenientes nesta defesa, são os nossos soldados que combatem invasores. “Os linfócitos T mostraram ter receptores que se ligam a estruturas reconhecidas como não próprias e tais interacções fazem com que o sistema imunitário seja activado e entre no modo “defesa”. Por outro lado, há proteínas que também podem actuar como aceleradores dos linfócitos T e que são necessárias para desencadear uma resposta imunitária completa. O equilíbrio entre aceleradores e travões é essencial para um controlo rigoroso e eficaz do sistema imunitário, assegurando que está suficientemente envolvido no ataque contra microrganismos estranhos e, ao mesmo tempo, evitando a activação excessiva que pode levar à destruição auto-imune de células e tecidos saudáveis.

“Um novo princípio”
Durante a década de 1990, no seu laboratório na Universidade da Califórnia, em Berkeley, James P. Allison estudou a proteína CTLA-4 de linfócitos T. Foi um dos vários cientistas que perceberam que a CTLA-4 funciona como um travão nos linfócitos T. O cientista norte-americano desenvolveu depois um anticorpo que poderia ligar-se à CTLA-4 e bloquear sua função. A primeira experiência foi realizada no final de 1994 e os resultados foram “espectaculares”, avalia o comité. “Ratinhos com cancro foram curados pelo tratamento com os anticorpos que inibem o travão e libertam a actividade dos linfócitos T antitumorais.” O comunicado de imprensa acrescenta ainda: “Apesar do pouco interesse da indústria farmacêutica, James Allison continuou os seus esforços para desenvolver a estratégia e a transformar numa terapia para humanos. Os resultados promissores surgiram de vários grupos a trabalhar nesta área, e em 2010 foi publicado um importante estudo clínico que mostrou os seus efeitos notáveis em doentes com melanoma avançado, um tipo de cancro de pele. Em vários doentes, os sinais de cancro desapareceram.”

Em 1992, alguns anos antes da descoberta de James Allison, Tasuku Honjo descobriu a PD-1, realizando uma série de experiências no laboratório da Universidade de Quioto. Também neste caso, os anticorpos contra a PD-1 inibem a função do travão, provocando uma “avaria” neste mecanismo que leva à activação dos linfócitos T e ao ataque “altamente eficiente” das células cancerosas. Os resultados mostraram que a PD-1, tal como a CTLA-4, funciona como um travão, mas através de um mecanismo diferente. “O desenvolvimento clínico para aplicação em humanos prosseguiu e, em 2012, um estudo importante demonstrou eficácia clara no tratamento de doentes com diferentes tipos de cancro. Os resultados foram impressionantes, levando à remissão a longo prazo em vários doentes com cancro metastático.”

Os trabalhos que conseguiram inibir os travões induzidos pela CTLA-4 e pela PD-1 e activar o sistema imunitário na luta contra o cancro também aceleraram a investigação neste campo. Actualmente, este tratamento conhecido como “terapia de checkpoint imunitário” é usado em doentes com vários tipos de cancro avançado. É verdade que, tal como os outros tratamentos disponíveis para o cancro, este não está isento de efeitos secundários, que, nalguns casos, podem ser bastante graves. O pior que pode acontecer é uma resposta imunitária hiperactiva que leva a reacções auto-imunes, descontroladas.

Segundo o comunicado de imprensa do comité do Nobel, das duas estratégias de tratamento, a terapia de checkpoint contra a PD-1 tem mostrado ser mais eficaz e resultados positivos estão a ser observados em vários tipos de cancro, incluindo dos pulmões, rins, linfoma e melanoma. Por outro lado, há novos estudos clínicos que parecem indicar que a terapia combinada, tendo como alvo a CTLA-4 e a PD-1, pode ser ainda mais eficaz. “Esta combinação mostrou bons resultados em doentes com melanoma. Mas há muitos outros testes de terapias de checkpoint imunitário que estão a ser feitos em muitos tipos de cancro e há também novas proteínas que funcionam no controlo do sistema imunitário que estão a ser objecto de investigação como possíveis alvos.”

Em 2017, o Prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia foi atribuído a três cientistas norte-americanos, Michael Rosbash, Jeffrey Connor Hall e Michael Warren Young, por descobertas sobre os mecanismos moleculares que controlam o ritmo circadiano.