terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Portugal é o primeiro país mediterrânico com mexilhões sustentáveis



Certificação internacional pioneira obtida por empresa do Algarve é a segunda no país, depois da sardinha.
 
Sabem bem os mexilhões do Algarve? Então agora saberão melhor: a sua produção acaba de ser declarada sustentável pela mais importante organização internacional da área. Ou seja, em tese, podemos comê-los com a certeza de que a sua cultura não está a poluir o mar ou a dar cabo da própria espécie.
 
 
Mexilhões em cordas, criados em mar aberto: "É um processo completamente natural"
É a segunda pescaria portuguesa a ser certificada com o selo do Marine Stewardship Council (MSC), uma organização sem fins lucrativos. Os mexilhões seguem os passos da sardinha, que obteve a mesma certificação em 2010, mas agora suspensa.

A iniciativa partiu da Companhia de Pescarias do Algarve, uma empresa que está prestes a completar 150 anos de existência. “É uma certificação que achamos que valia a pena”, afirma António Farinha, presidente do conselho de administração. O selo de sustentabilidade, explica António Farinha, é importante para se conquistar mercados exigentes, como os do Norte da Europa e América do Norte.
 
E a empresa quer precisamente tornar-se no maior fornecedor de mexilhões para a Europa e num dos maiores exportadores do mundo.
 
O que faz do mexilhão do Algarve sustentável é sobretudo a forma como é criado. As “sementes” – como são conhecidos os juvenis de bivalves – foram recolhidas manualmente nas rochas do litoral da região. O processo é feito uma só vez.
 
Os juvenis são então largados sobre linhas que pendem de longas cordas, às quais os mexilhões agarram-se e se desenvolvem. Submersas, ocupam uma área de cerca de mil hectares em mar aberto, uma milha marítima (cerca de 1,8 quilómetros) ao largo da ilha da Armona, em Olhão.
 
À parte a manutenção diária da própria estrutura, não é preciso fazer mais nada. “É um processo completamente natural, não damos qualquer alimento, qualquer antibiótico”, explica António Farinha. “A qualidade da água é tal que permite ter mexilhões em cinco a seis meses”, completa o responsável da empresa.
 
Os animais reproduzem-se naturalmente, não é preciso voltar a “semeá-los”. E as próprias cordas acabam por funcionar como uma espécie de recife de coral, onde outras espécies marinhas vão-se alimentar, incluindo peixes com interesse comercial como douradas e gorazes.
 
O processo parece ser simples, mas conseguir o selo de sustentabilidade não foi fácil. O processo implica garantir que o stock do recurso permanece estável, que não há impacto no ecossistema e que a pescaria é gerida com as melhores técnicas ambientais. E tudo tem de ser confirmado por auditorias independentes do MSC, já que a entidade apenas fixa as normas. “O processo de certificação levou um ano”, diz António Farinha. O resultado é hoje celebrado numa cerimónia em Olhão.
 
Com várias delegações em todo o mundo, o MSC já certificou até agora 246 formas de pesca e tem mais 106 em avaliação. O foco são as artes de captura de animais em meio natural. Os mexilhões são um caso particular, pois podem ser criados praticamente sem intervenção humana, a não ser associá-los a um suporte. “É uma pescaria que está entre a aquacultura e a pesca selvagem”, afirma Laura Rodríguez, responsável do MSC para Portugal e Espanha.
 
Além das pescarias em si, o selo pode ser usado nos produtos que dela resultam. Na prática, o rótulo significa que aquele produto – uma conserva, por exemplo – provém de uma pescaria certificada e seguiu uma cadeia também alvo de certificação até chegar ao consumidor final.
 
“O objectivo da certificação é ambiental. Mas é também um incentivo comercial para os produtores”, explica Laura Rodríguez.
 
A Companhia de Pescarias do Algarve espera, por exemplo, utilizar o selo em patês e conservas de mexilhão, bem como no mexilhão congelado, com o qual quer competir no mercado internacional, dominado por países como Nova Zelândia, Espanha e Chile.
 
Em Portugal, há 39 empresas – sobretudo conserveiras, que processam pescado certificado como sustentável – autorizadas a utilizar o selo do MSC. No mundo todo, são mais de 25 mil produtos comercializados com o selo.
 
Pescarias em si, são apenas duas no país. A pesca do cerco à sardinha foi a primeira a obter a certificação, em 2010. Mas a espécie tem sofrido altos e baixos na sua população reprodutora. Em Janeiro de 2012, a certificação foi suspensa, porque não havia sardinhas suficientes para garantir a sustentabilidade do recurso a longo prazo. Retomada um ano depois, a certificação voltou a ser suspensa em Agosto passado, pelo mesmo motivo.
 
Os mexilhões do Algarve são os primeiros da espécie Mytilus galloprovincialis – comum nas águas dos países mediterrânicos – a serem certificados em todo o mundo. Outras espécies já estão certificadas no Norte da Europa (Mytilus edulis) e no Chile (Mytilus chilensis).

O objectivo último da certificação é permitir que o consumidor opte por produtos mais sustentáveis, garantindo assim a saúde dos oceanos. Mas o próprio sistema tem um limite: quando a maioria das pescarias tiver o rótulo, o incentivo comercial para enfrentar o processo deixará de existir.
 
“Oxalá cheguemos a este ponto”, exclama Laura Rodríguez. “Mas ainda estamos longe desta situação”. Neste momento, apenas 10 em cada 100 quilos de peixe capturados nos oceanos ostentam o selo de sustentabilidade.

Primeiros linces vão ser libertados em Mértola na próxima semana



Programa de reintrodução do lince ibérico em Portugal entra em fase decisiva, com dois animais soltos numa grande área cercada, onde permanecerão durante algumas semanas.
 
Depois de anos de esforços e de avanços e recuos, os primeiros linces ibéricos criados em cativeiro a serem reintroduzidos em Portugal deverão ser libertados dentro de uma semana, no concelho de Mértola. É o primeiro passo de um plano para soltar oito animais em território nacional, de onde o lince tinha praticamente desaparecido ao longo do século XX.

O lince ibérico está em "perigo crítico" de extinção
A espécie Lynx pardinus é endémica da Península Ibérica – ou seja, só existe em Portugal e Espanha e em mais lugar nenhum do mundo. Mas a sua população foi minguando até restarem pouco mais de uma centena em Espanha e quase nenhum em Portugal no princípio década passada. É um animal considerado em “perigo crítico” de extinção, segundo a União Internacional para Conservação da Natureza.

Nos últimos anos, vários linces criados em cativeiro em Espanha e Portugal foram libertados em território espanhol. Agora é a vez de Portugal, que pela primeira vez o fará em solo nacional. Se tudo correr como o previsto, no próximo dia 16 de Dezembro, terça-feira, dois linces serão alvo de uma “soltura branda”, ou seja, serão libertados numa zona cercada, com cerca de dois hectares.
 
Aí permanecerão durante algumas semanas, para se adaptarem à vida selvagem. Quando os técnicos que os irão monitorizar estiverem seguros de que os animais estão prontos para uma vida completamente independente, então serão por fim soltos na natureza.
 
O principal elemento necessário para o sucesso da reintrodução do lince é o coelho bravo, o seu principal alimento. Uma variante da doença hemorrágica viral, que afecta ciclicamente os coelhos, provocou drástica redução da sua população nos últimos anos. Sem coelhos, não há hipótese de os linces se fixarem em território nacional.
 
O Ministério do Ambiente sempre garantiu que os linces só seriam libertados quando a situação dos coelhos fosse comprovadamente favorável. O PÚBLICO solicitou mais detalhes, mas o ministério remeteu quaisquer esclarecimentos para um momento mais próximo do dia da libertação, argumentando que a data poderia ser alterada.
 
Em Mértola, porém, há sinais de que a situação melhorou. “A percepção que temos é a de que houve uma ligeira recuperação em relação ao ano passado”, afirma António Paula Soares, presidente da Associação Nacional de Proprietários Rurais, Gestão Cinegética e Biodiversidade, que representa os donos de zonas de caça.
 
Quercus pede "justificação técnica"

Em 2013, praticamente não houve caça ao coelho na região. A doença hemorrágica viral dizimou os animais. Mas este ano tem havido uma maior actividade cinegética, embora a população de coelho bravo esteja ainda longe dos números de há dois anos. António Soares acredita que “as coisas estão bem encaminhadas”.
 
A associação ambientalista Quercus estranha que a libertação ocorra agora. “Gostaríamos de conhecer a justificação técnica”, afirma Paulo Lucas, dirigente da Quercus. “Estava prevista para Janeiro ou Fevereiro, estranhamos a pressa”, completa.
 
O que mais preocupa a Quercus é haver poucos incentivos para que os proprietários melhorarem o habitat do lince. Os prémios anuais de 10 a 100 euros por hectare, conforme o tamanho da propriedade, não são atractivos, segundo a associação. “A libertação em si do lince é um fogacho. A reintrodução de uma espécie é uma corrida de longo prazo”, diz Paulo Lucas.
 
Outras associações têm manifestado preocupações quanto à libertação dos linces. Em Julho, a Federação Portuguesa de Caça e a Confederação Nacional de Caçadores Portugueses criticaram vários aspectos do processo, manifestando o temor de que haja uma espécie de competição com o lince pelo coelho bravo e maior ingerência do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) em matérias de gestão que estão hoje na esfera dos gestores cinegéticos.
 
O período de caça ao coelho termina no final do ano. O Ministério do Ambiente, segundo António Soares, comprometeu-se a avançar com a libertação dos linces apenas após o fim do período das montarias, que se estende até Fevereiro. Isto significa que os primeiros linces deverão permanecer dois meses na área cercada, que fica numa zona de caça turística de Mértola.
 
A Secretaria de Estado do Ordenamento do Território e da Conservação da Natureza garantiu dois mil hectares de terrenos favoráveis para os linces, através de contratos com proprietários da região. Foi também lançado um “pacto” para a preservação da espécie, envolvendo gestores de caça, investigadores, organizações não-governamentais, representantes da agricultura e instituições oficiais, no qual diz-se que “a presença do lince ibérico não implicará a criação de limitações ou proibições” nos sectores cinegético, agrícola e florestal.
 

Sonda japonesa já vai a caminho de um asteróide

AFP

Em 2020, sonda vai trazer para a Terra amostras de um asteróide para se analisar matéria orgânica e água.
A partida do foguetão com a sonda japonesa a bordo
A sonda japonesa Hayabusa-2, que se encontrará com um asteróide em 2018, foi colocada no espaço pelo foguetão japonês H-2A nesta quarta-feira, de acordo com a agência espacial japonesa (JAXA).
 
O foguetão descolou às 13h22 (4h22, hora de Lisboa) da base espacial de Tanegashima, com um céu azul com algumas nuvens ao fundo. Desde domingo que o lançamento foi adiado duas vezes devido às más condições meteorológicas. “A trajectória seguida pelo foguetão está de acordo com o plano de voo”, assegurou um comentador da JAXA alguns minutos após a descolagem.
 
No entanto, foi necessário esperar 1h47 para que a sonda Hayabusa-2 se separasse do foguetão. “A separação da Hayabusa-2 foi confirmada”, declarou uma comentadora da agência, ao mesmo tempo que o canal público de televisão japonês NHK exibiu imagens da equipa da JAXA, felicitando o seu trabalho.
 
A Hayabusa -2 irá agora dirigir-se ao 1999 JU3, um asteróide antigo, com uma forma mais ou menos esférica e com menos de um quilómetro de diâmetro. Espera-se que a sonda atinja o objecto em meados de 2018.
 
O objectivo da missão é descer com um aparelho até ao chão do asteróide para recolher uma amostra e trazê-la para a Terra em 2020. Os cientistas querem procurar água e matéria orgânica nas amostras vindas deste antigo asteróide que, se forem encontradas, poderão dar informações sobre a composição original do nosso sistema solar. Com esta informação espera-se compreender melhor a formação dos planetas e as condições que permitiram o aparecimento de vida na Terra.
 
“Esta missão de recolha de matéria primitiva tem o potencial de revolucionar a nossa compreensão das condições de formação dos planetas”, escreveu a equipa da JAXA que lidera o projecto.
 
A missão Hayabusa-2 segue-se à missão similar Hayabusa, de 2003, e beneficia de tecnologias que foram melhoradas depois das lições tiradas da primeira missão, que teve vários problemas. A sonda Hayabusa só voltou à Terra em 2010, depois de uma epopeia de sete anos no espaço.

Universidade do Algarve está a criar pepinos-do-mar em terra



Os chineses correm meio mundo em busca de uns animais, com o corpo em forma de chouriço, que fazem as delícias à mesa dos orientais – são os pepinos-do-mar, desprezados pelos portugueses. No mercado asiático, depois de secos, chegam a custar 150 a 200 euros por quilo
 

Um dos pepinos-do-mar estudados na estação-piloto do Ramalhete, Algarve
Qual a diferença entre os pepinos produzidos em terra ou no mar? Só existe semelhança na forma e no facto de ambos serem comestíveis e de agrado popular – mas um é vegetal e o outro não. O preço de um pepino dos oceanos – animal da família dos ouriços-do-mar e das estrelas-do-mar – pode chegar aos 150 a 200 euros por quilo seco. Os chineses correm o mundo em busca destes animais, atribuindo-lhes propriedades singulares na alimentação e, na medicina popular, dizem ter poderes afrodisíacos. No Norte da Turquia, nos últimos dois anos, foram pescados 700 mil a um milhão de indivíduos por dia – uma razia que se está a repetir no Norte de África.
No Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, a investigadora espanhola Mercedes González Wangüemert, está a investigar há cinco anos aos pepinos-do-mar. Antes, esteve em Girona e Múrcia, Espanha, a estudar a genética de populações marinhas de outros animais, como pargos e lesmas-do-mar. Está preocupada com a inexistência de legislação que proteja estes invertebrados marinhos em risco de extinção nalguns pontos do globo e defende a monitorização das capturas. “Não existe legislação que regule a pescaria. A zona Norte da Turquia foi dizimada, e agora viraram-se para sul, colocando em perigo a sobrevivência das espécies.”

A partir do Norte de Marrocos estão agora a ser exportadas “toneladas de pepinos-do-mar” para São Francisco, nos Estados Unidos, onde há uma importante comunidade chinesa. A informação sobre o que se está a passar nesses mares tem-lhe chegado através de um investigador local que colabora com a equipa da Universidade do Algarve.
 
Nos mares do Índico e Pacífico, devido à procura desenfreada, há zonas onde estes animais quase desapareceram por completo. Por isso, uma vez esgotados os recursos nas zonas dos trópicos, as capturas passaram a fazer-se no Mediterrâneo e no Atlântico europeu. Além do valor nutricional (possíveis antioxidantes e ácido gordo ómega-3), pode ainda ser utilizado na obtenção de substâncias para fins terapêuticos. Na ausência de normas que protejam estes animais, as capturas são livres.
 
No Algarve, entre a comunidade piscatória, os pepinos-do-mar são conhecidos pelo nome popular que deriva da sua forma fálica. O tamanho médio da espécie Holothuria arguinensis oscila entre 15 a 20 centímetros, mas na ilha da Culatra, na ria Formosa, já foi encontrado um exemplar com 65 centímetros.
 
A equipa do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, que inclui dez investigadores, conseguiu entretanto reproduzir pepinos-do-mar em sistema de aquacultura, na estação-piloto do Ramalhete, na ria Formosa. Nasceram há cerca de três meses as primeiras crias de uma das espécies de pepinos-do-mar de maior valor comercial – precisamente a Holothuria arguinensis, existente no Algarve, na costa ocidental de Portugal até Peniche, nas ilhas Canárias e no Noroeste de África.
 
“Isto é como cuidar de uma criança”, comenta Mercedes González Wangüemert, a coordenadora do projecto, ao observar o aquário os 40 juvenis, com 1,5 centímetros de comprimento.
 
É neste mundo aquático da Estação Experimental do Ramalhete – instalada num velho armazém de apoio às antigas armações de atum da Companhia de Pescarias do Algarve, perto de Faro, e rodeada de salinas – que a vida corre numa aparente tranquilidade. Jorge Domínguez Godino, um jovem biólogo espanhol com um doutoramento nesta área, recorda o momento em que, através de um choque térmico, na última Primavera, promoveu a reprodução induzida da Holothuria arguinensis – os machos lançaram o esperma na água, as fêmeas os óvulos e natureza fez o resto. O resultado não podia ser melhor. “Um êxito”, enfatiza.
 
Na fase seguinte, para o próximo ano, espera que não faltem apoios financeiros para levar a cabo o estudo noutras latitudes. “Ainda falta saber muito sobre estes animais”, comenta Jorge Domínguez Godino, lembrando que há 66 espécies comestíveis de pepinos-do-mar.
 
Próximo passo: a produção em escala

O CumFish, como se chama este projecto de investigação iniciado em 2012 e a terminar no próximo mês de Janeiro, permitiu estudar as cinco espécies de pepinos-do-mar sobre as quais se exerce a maior pressão a nível mundial: além da Holothuria arguinensis, a Holothuria polii e Holothuria tubulosa (que se encontram só no Mediterrâneo) e a Holothuria mammata e Parastichopus regalis (que se encontram Mediterrâneo e Atlântico).
 
A reprodução conseguida no Algarve revestiu-se de particular significado por ser de uma das espécies de pepinos-do-mar mais cobiçadas, e não se conheciam as formas de a fazer multiplicar fora do seu habitat. O sucesso, explicou a coordenadora do projecto, foi conseguir fazer a passagem da fase de larva para juvenil, que é marcada pela “ocorrência de muitas mortes”, tanto em meio natural como em aquacultura. Por outro lado, salienta que, em paralelo, a equipa do Centro de Ciências do Mar “fabricou” as microalgas para alimentar as crias.
 
Entretanto, o Outono foi trazendo o frio e a temperatura da água dos tanques e do mar baixou. E os pepinos-do-mar mudaram de hábitos. Para se protegerem do frio, agruparam-se como se estivessem à lareira. “Muito interessante”, observa Mercedes González Wangüemert.
 
Centrado na estação do Ramalhete, o trabalho contou com uma vasta rede internacional de parcerias, de que se destaca a Universidade de Ordu, na Turquia, a Universidade de Reunião, na Polinésia Francesa, Museu de História Natural de Paris, o Instituto de Ciências Marinhas da Austrália e o Instituto de Investigações Marinhas e Costeiras, na Colômbia. “Juntámos esforços e unimos os conhecimentos”, observa Mercedes González Wangüemert, sublinhando ainda contributos de cientistas no Irão, Grécia, Itália, Holanda, Panamá e Reino Unido.
 
Para o avanço deste projecto, a investigadora considera que foram determinantes os 163 mil euros da Fundação para Ciência e a Tecnologia, além de outros 88 mil euros de outras entidades. “Não me posso queixar”, diz. “Em tempo de dificuldades, é importante valorizar a transferência de conhecimento para a investigação aplicada”, observa, sublinhando a necessidade de dar seguimento ao projecto, com vista a produzir pepinos-do-mar em aquacultura.
 
Nesse sentido, a equipa ultima uma proposta em que prevê um investimento de 250 a 300 mil euros, nos próximos três anos, para saltar da fase de laboratorial para a produção na escala das toneladas.
 
É certo que os chineses já cultivam pepinos-do-mar em aquacultura há décadas. Mas são espécies da região, diz Mercedes González Wangüemert. A maior parte da produção, cerca de 80%, é obtida em sistema de aquacultura (100 mil hectares), na província chinesa de Shandong. Em 2010, a China produziu 100 mil toneladas de pepinos-do-mar, mas a produção não chega para as encomendas. É por isso que ter conseguido reproduzir em aquacultura uma espécie de grande valor comercial como a Holothuria arguinensis é importante.
 
Da Turquia, em 2012, a China importou mais de 600 toneladas de pepinos-do-mar. Mas as suas importações globais vão para além disso: por exemplo, em 2011 importou 6000 toneladas, sendo o país com a maior fatia de importações destes animais (Singapura ou a Malásia também os importam, mas em quantidades muito mais pequenas).
 
"Cozinhei-os com cerveja e é muito bom”

Em Portugal, não existe sequer tradição no consumo destes bichos, mas as coisas poderão estar a mudar. “Já encontrámos duas ou três pessoas a pescar na ria Formosa. Julgamos que será apenas para consumo local, nos restaurantes chineses”, refere Jorge Domínguez Godino.
 
Em Quarteira, o mestre da pesca do polvo José Agostinho fala do lado não científico do seu contacto com os pepinos-do-mar. “Quando apanhamos esses bichos – e durante o Verão aparecem com frequência nos covos –, devolvemo-los ao mar, porque ninguém lhes dá valor”. Do que se recorda, José Agostinho diz que “só há dois ou três anos é que apareceu um indivíduo a dizer que pagava entre 70 a 90 cêntimos por quilo”.
 
O pepino-do-mar, depois de capturado, é submetido a uma operação de limpeza em que lhe é retirado todo o aparelho digestivo e fica a secar. Quando chega à cozinha, é confeccionado como se fosse polvo. Apesar da falta de hábitos de consumo destas espécies em Portugal, José Agostinho garante: “Cozinhei pepinos-do-mar com cerveja, e é muito bom.”
 
Em Sesimbra, há cerca de sete meses, instalou-se uma empresa de capitais da Malásia para começar a exportar este produto. Mas não foi bem-sucedida. Ao fim de dois meses, cancelou o contrato de aluguer do armazém à empresa Docapesca, porque as capturas feitas pelos pescadores da zona não terão obtido a quantidade e a qualidade que esperariam. “Provavelmente, faltou-lhes o conhecimento”, observa Mercedes González Wangüemert, que gosta de meter os pés e as mãos nos sapais da ria Formosa para estudar a morfologia destes animais – bonitos aos olhos dos cientistas, mas não de toda a gente.
 

Choques das enguias eléctricas controlam à distância as suas presas

Will Dunham /Reuters

Como se tivessem um controlo remoto, as enguias eléctricas conseguem activar à distância neurónios dos peixes que estão perto de si, fazendo-os contorcer-se e revelar a sua presença.
A enguia eléctrica vive nas bacias hidrográficas de rios da América do Sul
 
Já se sabe que as enguias eléctricas podem disparar uma potente descarga eléctrica para atordoar as suas presas. Mas este choque pode ser também usado para obrigar os peixes que estão escondidos a denunciarem-se a si próprios, revela um novo artigo na última edição da revista Science.


Enguia a atacar um peixe depois de o ter imobilizado com um choque eléctrico
Este novo estudo mostra que as enguias usam os choques para controlarem remotamente as suas vítimas, fazendo com que peixes que estão escondidos se contorçam, denunciando assim a sua localização.

“Aparentemente, as enguias inventaram as armas de electrochoque muito antes dos humanos”, diz o biólogo Keneth Catania, único autor do artigo, da Universidade de Vanderbilt, em Nashville, no Tennessee, Estados Unidos.
O estudo revela precisamente o que o choque da enguia faz às suas vítimas. Em experiências de laboratório, o cientista mostrou como as descargas eléctricas das enguias activam à distância os neurónios das presas, que por sua vez activam os seus músculos.
Enquanto anda à caça, uma enguia dá periodicamente dois choques eléctricos de grande voltagem, separados por dois milissegundos. Dessa forma, provoca a contorção involuntária nas presas que estão por ali. Como é muito sensível aos movimentos na água, a enguia pode então detectar as contorções dos peixes, ficando a saber a localização dos que estão escondidos.
Depois, a enguia dá um choque eléctrico muito forte e prolongado para imobilizar completamente a presa, que sofre uma contracção muscular – tal como as contracções provocadas pelos aparelhos de electrochoques. Isto permite a captura fácil da presa.
“Passei uma grande parte da minha carreira a examinar as adaptações extremas dos animais e as suas habilidades. Já vi muita coisa interessante, mas as capacidades das enguias são espantosas, talvez a coisa mais surpreendente que já observei”, enfatiza Keneth Catania. “Afinal, elas podem gerar centenas de volts – que, só por si, já é incrível. Mas usar essa habilidade essencialmente para atingir [à distância] o sistema nervoso de outro animal e activar os seus músculos é um belo truque.”
As enguias eléctricas (Electrophorus electricus) têm um corpo em forma de serpente e cabeças achatadas, e podem chegar a medir entre 1,8 e 2,5 metros. Estes peixes vivem nas bacias hidrográficas dos rios Amazonas e Orinoco, na América do Sul.
As enguias têm órgãos eléctricos compostos por células especializadas chamadas precisamente “células eléctricas”, que funcionam como baterias e podem gerar uma descarga até aos 600 volts.
“Apesar de não se ter conhecimento de casos de mortes de pessoas devido aos choques eléctricos de enguias, elas são capazes de incapacitar humanos, cavalos e, obviamente, peixes com as suas descargas”, diz o biólogo.
Segundo o cientista, as enguias ainda usam esta capacidade com um terceiro objectivo: periodicamente, fazem descargas de baixa voltagem que funcionam como um radar para navegar em águas escuras e turvas.
 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Telescópio ALMA revela nascimento de planetas

Texto de Virgílio Azevedo publicado pelo jornal Expresso em 06/11/2014
 
Uma nova imagem do supertelescópio internacional localizado no Chile, revela com um detalhe nunca antes conseguido um disco de formação de planetas em volta de uma estrela.
Esta é a imagem mais nítida de sempre de um disco de formação de planetas em torno de uma estrela, a HL Tauri, que fica a 450 anos-luz da Terra. Foi obtida pelo supertelescópio internacional ALMA, localizado no deserto de Atacama, no Chile. / ALMA (ESO/NAOJ/NRAO)
A imagem de um disco de formação planetária em torno de uma estrela jovem, com uma resolução nunca antes alcançada, acaba de ser revelada pelo telescópio ALMA, localizado no deserto de Atacama, no Chile.
 
"É um enorme passo em frente no estudo do desenvolvimento de discos protoplanetários e formação de planetas", afirma um comunicado do Observatório Europeu do Sul (ESO).
 
Os astrofísicos apontaram as 66 grandes antenas parabólicas do ALMA para a estrela jovem HL Tauri, situada a 450 anos-luz da Terra, na Via Láctea, que se encontra rodeada por um disco de poeira.
 
Exceder as expectativas
A imagem resultante excedeu todas as expectativas, já que revela um detalhe inesperado no disco de material que sobrou da formação da estrela, mostrando uma série de anéis brilhantes concêntricos separados por espaços.
"Estas estruturas são quase de certeza o resultado de jovens corpos do tipo planetário a formarem-se no disco. Este facto é algo surpreendente já que não se espera que tais estrelas jovens possuam na sua órbita corpos planetários suficientemente grandes, capazes de produzir as estruturas observadas na imagem", afirma Stuartt Corder, diretor adjunto do ALMA.

"Assim que vimos esta imagem ficámos estupefactos, sem palavras, com o nível de detalhe espectacular alcançado. A HL Tauri não tem mais do que um milhão de anos e, no entanto, parece que o seu disco está já repleto de planetas em formação. Só esta imagem já é suficiente para revolucionar as teorias de formação planetária", confessa por sua vez Catherine Vlahakis, da equipa de investigadores ligada ao supertelescópio.
 
Formação de planetas mais rápida do que se pensava
O disco da HL Tauri parece estar muito mais desenvolvido do que seria de esperar de um sistema com esta idade. Ou seja, a imagem ALMA sugere que o processo de formação planetária deve ser muito mais rápido do que o que os astrofísicos pensavam até agora.

 Estrelas jovens como a HL Tauri nascem em nuvens de gás e poeira fina, em regiões que colapsaram devido ao efeito da gravidade e formaram núcleos densos e quentes, que eventualmente incendiar-se-ão dando origem a jovens estrelas.
 
Estas estrelas estão inicialmente embebidas num casulo do gás e da poeira que restou da sua formação. É este material que dá origem ao chamado disco protoplanetário.
 
É devido às muitas colisões que sofrem, que as partículas de poeira vão-se juntando, crescendo em nodos do tamanho de grãos de areia e pedrinhas. Finalmente, asteróides, cometas e até planetas formar-se-ão no disco. Os jovens planetas quebram o disco, dando origem a anéis, espaços e buracos vazios, tais como os que se observaram agora nas estruturas vistas pelo ALMA.
 
Saber como se formou a Terra
A investigação destes discos protoplanetários é crucial para saber como é que a Terra se formou no Sistema Solar. Observar os primeiros estádios de formação planetária em torno da HL Tauri pode mostrar como é que o nosso próprio sistema planetário seria há mais de quatro mil milhões de anos atrás, aquando da sua formação.

 "A maior parte do que sabemos hoje acerca da formação planetária baseia-se na teoria. Imagens com este nível de detalhe têm sido, até agora, relegadas para simulações de computador e impressões artísticas. Esta imagem de alta resolução da HL Tauri mostra-nos até onde o ALMA pode chegar e dá início a uma nova era na exploração da formação de estrelas e planetas," sublinha Tim de Zeeuw, diretor-geral do ESO.
 
O Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) é um supertelescópio internacional que resulta de uma parceria entre a Europa, a América do Norte e o Leste Asiático, em cooperação com o Chile. É financiado pelo Observatório Europeu do Sul (ESO), Fundação Nacional para a Ciência dos EUA (NSF) em cooperação com o Conselho Nacional de Investigação do Canadá (NRC), e os Institutos Nacionais de Ciências da Natureza (NINS) do Japão em cooperação com a Academia Sínica de Taiwan.
 
 

 

domingo, 2 de novembro de 2014

Novo teste deteta doenças raras


Pais&filhos
Novo teste deteta doenças raras      

No campo das doenças raras, uma das primeiras grandes dificuldades é diagnosticar a patologia exata, dado que muitos sinais e sintomas são comuns a várias situações. Mas este obstáculo pode estar prestes a ser ultrapassado, se um novo teste genético desenvolvido nos Estados Unidos passar a ser utilizado regularmente.
 
O exame denomina-se “sequenciação exomática” e não é mais que a comparação simultânea do código genético da pessoa suspeita de padecer de uma doença rara e dos seus pais. A análise, criada pela Universidade da Califórnia, é tão precisa que consegue detetar uma única mutação genética e, daí, proceder ao respetivo diagnóstico. No caso das crianças, esta precocidade é determinante para o acompanhamento clínico adequado, uma vez que quanto mais cedo as terapias começarem, melhores perspetivas de gestão da patologia e bem-estar existem.
 
A primeira criança a beneficiar do teste foi um bebé que, aos dez meses, apresentava graves problemas digestivos e de mobilidade. Após um conjunto de outras análises darem resultados inconclusivos, os pais foram desafiados a submeterem-se, e ao filho, à “sequenciação exomática”. O teste genético revelou uma mutação no 18.º cromossoma e o diagnóstico foi Síndrome de Pitt-Hopkins, uma doença raríssima que atinge apenas 250 crianças em todo o mundo.
 
A rapidez na deteção da doença permitiu à família iniciar um tratamento específico, de acordo com o artigo publicado na edição de outubro do “Journal of the American Medical Association”. O novo exame consegue rever os cerca de 20 mil genes de cada pessoa em minutos e centra-se no exoma, a parte do ADN responsável por 85% dos erros genéticos.
 
“O nosso estudo é o primeiro a demonstrar que sequenciar o genoma de uma criança ao mesmo tempo dos dois genomas dos pais aumenta dramaticamente as hipóteses dos geneticistas chegarem a um diagnóstico rigoroso das síndromes raras”, garantiu Stan Nelson, professor catedrático da Universidade da Califórnia. O mesmo investigador defende que a “sequenciação exomática” deveria ser vista como uma ferramenta de rotina, a utilizar quando outros testes são inconclusivos e a criança apresenta sinais de debilidades ou atrasos no desenvolvimento esperado.

Cientistas descobrem fruto que pode curar cancro

TSF

É um fruto que só existe na floresta do norte de Queensland, na Austrália, proveniente de uma árvore a que chamam "blushwood". O componente que revela eficácia contra o cancro estará nas sementes desse fruto.
A investigação está a ser feita pelos cientistas do Instituto Berghofer (QIMR Berghofer Medical Research Institute), que conseguiram curar tumores malígnos com uma injeção de EBC-46, um composto extraído a partir desse fruto.

Já foram feitos com sucesso vários testes com animais que comprovaram a eficácia científica do composto, conforme avança a revista científica PLOS One.

A nova droga foi descoberta pelo laboratório de biotecnologia EcoBiotics e, em breve, deve ser iniciada uma fase experimental com aplicação a humanos.

© The Australian
No entanto, de acordo com o The Guardian, mesmo que essas experiências em humanos venham a revelar sucesso, não é provável que esta droga possa substituir a quimioterapia.

Um ivestigador do Instituto Berghofer sublinha, contudo, que a EBC-46 «pode vir a ser eventualmente usada nalgumas pessoas nas quais, por alguma razão, a quimioterapia não resulte ou em doentes idosos que já não consigam suportar esse processo de tratamento.

ONU: Lixo eletrónico já atingiu os 500 milhões de toneladas

TSF
 
As Nações Unidas advertem para o impacto ecológico negativo de milhões de telemóveis, máquinas digitais, computadores, tablets e demais artigos eletrónicos que, anualmente, acabam no lixo comum.
De acordo com a ONU, se no ano 2000 foram produzidas cerca de dez milhões de toneladas de desperdícios eletrónicos, esse número ascende agora aos 500 milhões de toneladas de desperdícios, o equivalente a oito vezes o peso da pirâmide egípcia de Gizé.

Este número significa que cada habitante do planeta gera uma média de sete quilogramas de lixo tecnológico e os cálculos efetuados pelas Nações Unidas preveem que nos próximos três anos esses resíduos aumentem em um terço.

© Reuters/Kc Alfred
A produção de lixo 'per capita' varia segundo a riqueza e a consciência ambiental de cada país: entre os 63 quilogramas [de lixo] gerados por um habitante do Qatar, passando pelos quase 30 quilogramas de um norte-americano, 23 quilogramas de um alemão, 18 quilogramas de um espanhol, nove de um mexicano, sete de um brasileiro ou 620 gramas de um habitante do Mali.

A ONU adverte que a maioria dos parelhos eletrónicos, que têm uma vida cada vez mais curta, estão carregados de metais pesados e são muito prejudiciais para a saúde.

O gabinete das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI), com sede em Viena, estima que em 2016 os países em desenvolvimento vão produzir mais lixo eletrónico do que os países industrializados.

Segundo estimativas da Agência Europeia do Meio Ambiente, pelo menos 25 mil toneladas de desperdício eletrónico saem por ano, e de forma ilegal, da União Europeia como bens em segunda mão, embora se trate de produtos inutilizados.

sábado, 18 de outubro de 2014

Microscopia pontilhística: ver para além dos limites

Texto de Mariana G. Pinho, Professora associada no Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa e coordenadora do projecto Protein Localization, financiado pelo European Research Council, publicado pelo jornal Público em 17/10/2014.
 
 O primeiro microscópio comercial de microscopia de super-resolução em Portugal está no Instituto de Tecnologia Química e Biológica, em Oeiras, há cerca de um ano.
 
Com a invenção do microscópio, no final do século XVI, descobriram-se novos mundos à nossa volta e dentro de nós próprios. Desde então, a microscopia óptica tornou-se instrumental para o conhecer o funcionamento das células, com crescente nível de detalhe. Já no século XX, a combinação da microscopia óptica com técnicas de fluorescência, permitiu distinguir moléculas específicas (uma proteína, um gene, etc.) de todos os outros componentes celulares, através de marcação com proteínas ou corantes que emitem fluorescência.
 
Mas a microscopia óptica tem uma grande limitação: a sua capacidade de resolução, ou seja, a distância mínima a que dois objetos têm de estar para serem identificados como dois pontos distintos no microscópio, é de cerca de 0,25 micrómetros (ou 0,25 milésimos de milímetro). Se pensarmos que várias estruturas nas nossas células são dez vezes mais pequenas ou que uma bactéria pode ter apenas um micrómetro de diâmetro, rapidamente percebemos que esta limitação constitui um enorme obstáculo.
 
O limite da resolução da microscopia óptica resulta diretamente da difração da luz quando esta passa por uma pequena abertura, como a objectiva de um microscópio, pelo que foi considerado intransponível até à investigação de Stefan Hell, Eric Betzig e William Moerner, galardoados com o prémio Nobel da Química de 2014. Os dois últimos, trabalhando independentemente, estabeleceram os princípios da single-molecule microscopy, ou microscopia de localização, uma técnica de super-resolução que permite, literalmente, determinar a localização e dinâmica de moléculas individuais, mesmo quando muito próximas, dentro de células vivas.
 
Mas como foi possível ultrapassar o limite de resolução do microscópio? A solução engenhosa consistiu, não em tentar separar os pontos muito próximos no espaço, mas em separá-los no tempo. Olhando para o céu, não conseguimos distinguir duas estrelas muito próximas, mas se fosse possível acender uma estrela de cada vez, seria fácil distingui-las.
 
Em microscopia de localização, utilizamos proteínas ou corantes fotoactiváveis, cuja emissão de luz pode ser ligada e desligada. Assim, em vez de visualizarmos simultaneamente todas as moléculas proteicas que constituem uma estrutura celular, visualizamos uma molécula de cada vez e matematicamente calculamos com grande precisão (dez vezes superior à microscopia óptica convencional) a posição de cada molécula que emite luz.
 
Para reconstituirmos a estrutura celular completa é depois necessário justapor todos os pontos originários de milhares de imagens adquiridas. No fundo, é como se tirássemos uma sucessão de fotografias a uma árvore de Natal em que as luzes se acendessem uma de cada vez. Da sobreposição de todas as fotografias seria possível determinar a estrutura que ilumina a árvore.
 
A microscopia de localização é também conhecida por pointillistic microscopy, ou microscopia pontilhística, por analogia à técnica de pintura de pontilhismo usada pelos artistas neo-impressionistas, em que pequenos pontos de cor são dispostos na tela em padrões que formam uma imagem. A super-resolução equivale a termos na mão um pincel fino, com o qual podemos pintar cada detalhe, cada pestana, cada fio de cabelo.
 
Este método foi usado pela primeira vez por Betzig em 2006 e desde então tem sido aplicado em áreas muito diferentes das ciências da vida, por exemplo para medir a velocidade de proteínas que reparam mutações no ADN, para perceber o efeito do colesterol em membranas, determinar a estrutura do núcleo das nossas células ou como é que os neurónios comunicam entre si.
 
O primeiro microscópio comercial de microscopia de super-resolução em Portugal foi adquirido no âmbito de um projecto financiado pelo European Research Council e está há cerca de um ano no Instituto de Tecnologia Química e Biológica (em Oeiras), da Universidade Nova de Lisboa. Desde então tem sido usado intensamente para visualizar os detalhes e a dinâmica das estruturas responsáveis pela divisão celular e pela síntese da parede celular na bactéria patogénica Staphylococcus aureus. Este processo de síntese da parede é o alvo de vários dos antibióticos mais úteis do ponto de vista clínico, cuja utilização está cada vez mais ameaçada pelo aparecimento de bactérias resistentes à sua acção. Podemos agora visualizar, com um grau inédito de detalhe, o que acontece às células bacterianas durante o processo de divisão, de morte ou de resistência aos antibióticos.

Maior “crocodilo” do Jurássico viveu nas águas costeiras e estuários de Portugal

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 15/10/2014.
Há uns 150 milhões de anos, existiam pelo menos quatro espécies de grandes carnívoros parecidos com os crocodilos actuais, conclui um estudo. Uma delas nunca fora descrita até aqui.
 

De cima para baixo: Machimosaurus hugii, Machimosaurus mosae, Machimosaurus buffetauti
Eram répteis marinhos, alguns com quase dez metros de comprimento, capazes de esmagar a carapaça das tartarugas e os ossos dos grandes peixes dos quais se alimentavam. Caracterizavam-se, tal como os crocodilos actuais, pelo seu corpo alongado, curtas patas, focinho pontiagudo e temíveis dentes.
 
Os especialistas designam este género de animais com o nome científico de Machimosaurus. Restos fósseis destes predadores já foram encontrados na Europa – da Inglaterra à Alemanha e à Polónia, passando por Portugal, Espanha, França e Suíça –, bem como em África, mais precisamente na Etiópia.
 
Porém, existia uma certa confusão quanto ao número de espécies conhecidas, lê-se num artigo publicado esta terça-feira na revista Royal Society Open Science. E por isso, a equipa internacional de cientistas (incluindo um português) que assina este trabalho decidiu reavaliar a classificação destes “crocodilos” ancestrais, que viveram no nosso planeta no Jurássico Superior, há entre 161 e 145 milhões de anos.
 
“Embora aparentados com os crocodilos, tecnicamente os Machimosaurus não são verdadeiros crocodilos. São crocodilomorfos, ou seja pertencem a um grupo que inclui os crocodilos actuais e também espécies mais primitivas”, começa por esclarecer ao PÚBLICO o co-autor Octávio Mateus, conhecido paleontólogo da Universidade Nova de Lisboa e do Museu da Lourinhã.
 
Seja como for, neste estudo, salienta o cientista, “é apresentado o ponto da situação, o estado da arte, relativamente a este género de crocodilomorfo, que era conhecido desde há muito, mas mal compreendido”.
 
O que é que a equipa descobriu concretamente? Que as diversas espécies de Machimosaurus “evoluíram numa sucessão cronológica e geográfica, num processo semelhante ao género Crocodylus actual. Ou seja, cada espécie do género Machimosaurus viveu num território e numa idade ligeiramente distinta”.
 
De facto, este trabalho apresenta, diz Octávio Mateus, “uma nova ‘arrumação’ taxonómica das espécies conhecidas dentro do género Machimosaurus, com novas caracterizações e detalhes”.
 
Os autores concluem que os fósseis revelam a existência de quatro espécies destes animais, respectivamente, Machimosaurus hugii (os maiores animais)¸ Machimosaurus mosae, Machimosaurus nowackianus e ainda uma nova espécie: Machimosaurus buffetauti.
 
Machimosaurus mosae, que até aqui se pensava que poderia não ser uma espécie distinta – mas que o estudo agora confirma como tal – viveu no Nordeste da actual França; Machimosaurus nowackianus é a espécie localizada na Etiópia; e a recém-reclassificada Machimosaurus buffetauti provém de França e Alemanha, “bem como, provavelmente, de Inglaterra e Polónia”, escrevem ainda os autores.
Quanto a Machimosaurus hugii, que podia atingir nove metros de comprimento, viveu na Suíça, Portugal e Espanha – e “em Portugal, temos os mais antigos e os maiores espécimes deste género”, salienta Octávio Mateus.
 
Em Portugal, refere ainda o artigo, um dente de Machimosaurus foi encontrado em 1943 pelo geólogo Carlos Teixeira em Lagares (Colmeias, perto de Leiria) – mas o mais completo espécime conhecido provém da mina de Guimarota, um autêntico ecossistema do Jurássico perto de Leiria e inclui um crânio e várias vértebras.
 
Ao contrário de estudos anteriores, explicam ainda os autores, “a nossa reavaliação não se baseia apenas em contagens de dentes e em proporções de biometria craniana. A nossa revisão utiliza estas características, mas vai mais além, incluindo também aspectos de anatomia comparada, de tamanho corporal, de hipotético estilo de vida, de idade geológica e de extensão territorial”.
 
E é essa “abordagem holística”, argumentam, que permite “facilmente identificar três espécies europeias e revela que estes grupos, potencialmente contemporâneos, estavam adaptados a ecossistemas muito diferentes”. Contudo, o que segundo estes cientistas é o mais “surpreendente” é que grande parte do raciocínio que delineiam no artigo “era conhecido há muito tempo, mas que a sua síntese nunca tinha sido feita.”
 
Os cientistas concluem que, à medida que os espécimes de Machimosaurus se forem tornando mais abundantes, será interessante saber se também existiram outros grupos de Machimosaurus, limitados do ponto de vista geográfico, noutras regiões do mundo – e em particular fora da Europa. “Isso permitiria esclarecer ainda mais a evolução desta notável família de crocodilomorfos marinhos.”

28 sinais de que o Planeta está em perigo

Artigo publicado por GREEN SAVERS em 18 de outubro de 2014.
Foto: Nicolas Raymond / Creative Commons
Se é um pessimista por natureza, evite olhar para este artigo. Ele traz-lhe um cenário negro para o futuro – um Planeta super-povoado, com megacidades dependentes de alimentos que vêm de regiões cada vez mais poluídas, com níveis muito elevados de insegurança alimentar.
 
Este Planeta, provavelmente, estará longe do que ele virá realmente a ser. Mas essa realidade paralela não deixa de ser um fantasma na evolução global, cuja aparecimento está apenas dependente de nós – e da forma como gerimos a nossa própria sobrevivência e ligação às boas práticas ambientais.
 
Estes 28 sinais de como o Planeta está em perigo foram retirados do Planeta Sustentável e, ainda que o texto tenha sido escrito há já alguns meses, não perdeu a actualidade. Infelizmente, não a perderá tão cedo.
 
1.Vivemos num século quente
Treze dos 14 anos mais quentes registados na história ocorreram no século XXI. O ano de 2013 foi o sexto mais quente desde que os registos modernos começaram, em 1850, segundo os dados da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Os recordes anuais são de 2010 e de 2005, com temperaturas globais cerca de 0,55° C acima da média.
 
2.O solo está cada vez piorA degradação e a desertificação ameaçam as terras férteis do mundo, com consequências alarmantes: insegurança alimentar, pobreza, escassez hídrica e maior vulnerabilidade às mudanças do clima. Segundo a ONU, 24% das terras produtivas do mundo estão degradadas, enquanto 168 países sofrem com a desertificação.
 
3. A vida marinha está a sufocarActualmente, existem cerca de 500 zonas mortas no mundo, que cobrem mais de 245 mil quilómetros quadrados, quase a superfície inteira do Reino Unido. São zonas litorais onde a vida marinha foi praticamente sufocada pela poluição.
 
4. Respiramos mal e cada vez piorA poluição do ar nas grandes cidades tem alcançado níveis nada seguros para a saúde humana. Apenas 12% de todas as pessoas do planeta respiram um ar de boa qualidade, segundo um estudo recente da Organização Mundial de Saúde (OMS).
 
5. Diarreia mata uma criança a cada 20 segundosA cada 20 segundos, uma criança morre de doenças ligadas à diarreia, em grande parte evitáveis com saneamento adequado, melhor higiene e acesso a água segura. Todos os anos, 3,5 milhões de pessoas morrem no mundo por problemas relacionados com o fornecimento inadequado da água, a falta de saneamento e ausência de políticas de higiene, segundo a ONU.
 
6. Águas subterrâneas também matamPara além da poluição atmosférica, a China enfrenta outra crise ambiental silenciosa e, muitas vezes, invisível: a contaminação das águas subterrâneas. Quase 60% delas estão poluídas, segundo estudo estatal divulgado pela agência Xinhua. A qualidade da água subterrânea foi classificada como relativamente pobre em 43,9% das regiões analisadas e muito má noutras 15,7%.
 
7. É para beber ou gerar energia?Os recursos hídricos estão sob pressão para atender a crescente procura global por energia. No total, a produção de energia é responsável por 15% de retirada de água do Planeta. Mas este número está a aumentar e, em 2035, o crescimento populacional, a urbanização e o aumento do consumo prometem empurrar o consumo de água para geração de energia até 20%. Recursos hídricos em declínio já estão a afetar muitas partes do mundo e 20% de todos os aquíferos já são considerados sobre-explorados.
 
8. Batemos recordes perigososPela primeira vez, a concentração mensal de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera superou o nível de 400 partes por milhão (ppm), no mês de Abril, em todo o hemisfério norte, segundo dados da Organização Mundial de Meteorologia (OMM). Este limiar é de importância simbólica e científica e reforça a evidência de que a queima de combustíveis fósseis e outras actividades humanas poluentes são responsáveis pelo contínuo aumento de gases do efeito estufa.
 
9. Sofremos desastres históricosEventos extremos, como secas e cheias, mostram-se cada vez mais recorrentes e violentos, quebrando todos os recordes. Há ano e meio, a Europa Central enfrentava a pior cheia da sua história, enquanto o Nordeste brasileiro e Califórnia norte-americano sofria com a pior seca em mais de meio século. Já viu que, nos media, a expressão “pior de sempre” está cada vez mais associada às notícias climáticas?
 
10. Perdem os ricosOs países ricos e emergentes acumulam €1,1 biliões em perdas económicas e danos provocados por desastres naturais na última década, segundo um relatório da OCDE. Sem uma acção imediata, estes custos podem subir ainda mais devido às mudanças climáticas. Para reduzir as perdas no futuro, os países precisam de investir em resiliência e aumentar sua capacidade de resistir a choques e estresses.
 
11. Perde-se produção agrícolaUm estudo feito pelo Grupo Internacional de Consulta em Pesquisa Agrícola (CGIAR, na sigla em inglês) para as Nações Unidas sugere que o aquecimento global pode comprometer, até 2050, cerca de 20% da produção trigo, arroz e milho – as três commodities agrícolas mais importantes e que estão na base de metade das calorias consumidas por um ser humano.
 
12. Perdem os pobres e com fomeA escalada dos preços dos alimentos é uma questão de vida e morte para as populações que vivem em países em desenvolvimento e que gastam até 75% do seu rendimento para conseguir comer. Como se não bastasse, os mais pobres também são os mais afectados pelos extremos do clima, uma vez que seus países estão menos preparados para lidar com essas alterações.
 
13. Enquanto 1/3 da comida via para o lixoUm terço dos alimentos produzidos no mundo não são consumidos, o que se traduz no desperdício de até 2 mil milhões de toneladas de comida por ano. Segundo o relatório “Global Food; Waste not, Want not”, o desperdício é fruto de condições inadequadas de armazenamento e transporte, adopção de prazos de validade curtos, ou compra excessiva por parte dos consumidores. Outro problema é a preferência dos supermercados por alimentos “perfeitos” em termos de formato, cor e tamanho.
 
14. Geramos sucata pós-modernaO acesso fácil às tecnologias modernas tem um efeito colateral difícil de se digerir. Anualmente, segundo dados da ONU, o mundo gera em média 40 milhões de toneladas de lixo eletrónico por ano. A maior parte vem de países emergentes, como o Brasil, que ainda não possuem um sistema de gestão eficiente para lidar com esse tipo de material. Artefactos electrónicos contêm materiais que se demoram a decompor – plástico, metal e vidro – e outros altamente prejudiciais à saúde, como mercúrio, chumbo, cádmio, manganês e níquel.
 
15. E criamos moradas tóxicasActualmente, mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo estão expostas à poluição tóxica em níveis superiores aos tolerados pelas organizações internacionais de saúde. Essas populações vivem em regiões contaminadas por metais pesados, pesticidas e até por substâncias radioativas, como o césio. Agbogbloshie, no Gana, é a segunda maior área de processamento de lixo eletrónico na África Ocidental. Através de processos de reciclagem informais, o chumbo é frequentemente libertado no meio ambiente sem controlo de segurança ambiental.
 
16. Os gigantes de gelo colapsamDois novos estudos, um realizado por pesquisadores da NASA em parceria com a Universidade da Califórnia, em Irvine, e outro pela Universidade de Washington, indicam que o derretimento do manto de gelo da Antártida Ocidental atingiu um estado irreversível. Segundo os pesquisadores, esse processo “poderia triplicar sua contribuição ao nível dos oceanos”.
 
17. E accionam uma bomba relógioO derretimento de gelo no Ártico é uma verdadeira “bomba relógio económica”, segundo os cientistas, que mediram, pela primeira vez, os custos do degelo. A conta é astronômica, algo próximo de €47,3 biliões, quase o Produto Interno Bruto (PIB) mundial, de €55,2 biliões. O degelo intensifica as mudanças climáticas com a libertação de toneladas de gás metano, um gás efeito estufa 20 vezes mais potente que o dióxido de carbono (CO2). O derretimento dos subsolos árticos congelados, o chamado permafrost, por sua vez contribuiria para o aquecimento adicional do planeta.
 
18. O degelo reduz o albedoO degelo tem reduzido o factor de refletividade da região polar, levando a uma maior absorção de energia. Esse poder de reflexão de uma superfície é conhecido como “albedo”, uma das forças motrizes para o tempo e o clima. Se a quantidade de energia absorvida muda, isso tem um efeito sobre o balanço de energia da Terra e, finalmente, afecta o nosso tempo e o clima, reforçando os fenómenos das mudanças climáticas.
 
19. A biodiversidade fica à derivaAproximadamente um terço da biodiversidade dos leitos marítimos polares estão ameaçados de extinção como consequência da mudança climática. A perda progressiva das calotas polares poderá gerar resultados nefastos para o ecossistema das regiões ao permitir uma maior penetração dos raios solares no leito marinho.
 
20. Os oceanos pedem ajudaOs oceanos são os maiores aliados da Terra para a manutenção do seu equilíbrio climático. Eles absorvem grande parte da radiação solar que atinge o Planeta e também funcionam como sumidouros de dióxido de carbono (CO2). Mas esses heróis do clima já se revelam vítimas do aquecimento global. A mudança no PH da água acontece à medida que o CO2 emitido pela actividade humana – originada fundamentalmente pela queima de combustíveis fósseis – é absorvido pelos oceanos. Várias formas de vida marinhas podem ser prejudicadas. Inúmeros estudos mostram que a acidificação interfere principalmente no desenvolvimento das espécies com carapaça ou esqueleto de carbonato cálcico, como corais e moluscos.
 
21. Os corais perdem a forçaA maior barreira de corais do planeta vive uma crise ambiental sem precedentes. Um relatório recente mostra que a Grande Barreira de Corais Australiana já perdeu mais da metade da sua cobertura (50,7%) nos últimos 27 anos. E, se nada for feito na próxima década, podem restar apenas 5% da formação no ano de 2022. Não pára aí. Segundo uma pesquisa global com mais de 700 espécies de corais, aproximadamente 33% delas estão ameaçadas de extinção com o crescente aumento de temperatura do planeta.
 
22. Espécies perdem o rumoA elevação das temperaturas tem causado o que os cientistas chamam de “stress térmico” no mundo animal. Durante vinte anos, pesquisadores europeus vêm estudando o movimento de populações de aves e borboletas no continente frente às mudanças cada vez mais constantes no clima. O resultado preocupa: os animais simplesmente não conseguem migrar na velocidade necessária para habitats com condições propícias para a alimentação e procriação e correm riscos de desaparecer ao se concentrarem em regiões com clima mais hostil. Ou seja, as aves e borboletas europeias estão a voar para longe dos seus habitats mais adequados, sofrendo com o tal “stress térmico”.
 
23. As mudanças são lentas demaisO desenvolvimento mundial das tecnologias de energia limpa continua bem abaixo do nível necessário para evitar os piores impactos das mudanças climáticas. Com a predominância do carvão na geração de energia global, especialmente nos países emergentes, como China e Índia, parece cada vez mais improvável que a meta internacional para limitar o aumento da temperatura média em 2ºC seja atendida, segundo a Agência Internacional de Energia.
 
24. O mar sobe e oprimeQuem disse que a elevação do nível do mar é um problema distante? Estudos já relacionam a elevação do Pacífico às mudanças climáticas. As águas subiram cerca de 20 centímetros nos últimos 200 anos. Segundo os pesquisadores, os maiores picos na elevação do nível do mar aconteceram entre 1910 e 1990, o que pode estar vinculado a intensificação das atividades industriais.
 
25. Os ventos enfurecem-seEntre 2001 e 2010, houve 511 eventos relacionados com o ciclone tropical, que resultou em um total de quase 170 mil mortos, mais de 250 milhões de pessoas afetadas e prejuízos económicos estimados de €300 mil milhões. De acordo com o NOAA, centro de furacões dos EUA, 2001-2010 foi a década mais ativa desde 1855 em termos de ciclones tropicais na bacia do Atlântico Norte. Uma média de 15 tempestades por ano foi registrada, bem acima da média de longo prazo de 12 anos.
 
26. Pragas avançamA segurança alimentar global está ameaçada pelo surgimento e disseminação de pragas e doenças, um fenómeno estimulado pelo aquecimento global, sugere um novo estudo publicado no periódico científico Nature Climate Change. Segundo os pesquisadores das universidades de Exeter e Oxford, as pragas e patógenos estão a mover-se a uma média de 3 quilômetros (Km) por ano. Tal fenómeno, dizem os pesquisadores, constitui mais uma ameaça à produção de alimentos. Actualmente, estima-se que entre 10% e 16% das culturas globais são perdidas devido às pragas e surtos de doenças na agricultura.
 
27. Tornámo-nos insaciáveisJá somos sete mil milhões de pessoas no mundo, comendo, usando energia, poluindo e consumindo cada vez mais produtos num planeta finito. A pressão sobre os recursos naturais só aumenta. Segundo o Global Footprint Network, uma organização de pesquisa que mede a pegada ecológica do homem no Planeta, a diferença entre a capacidade de regeneração da natureza e o consumo humano gera um saldo ecológico negativo que vem-se acumulando desde a década de 80, também estimulado pelo crescimento populacional.
 
28. E o mundo fica mais violentoÀ extensa lista de efeitos relacionados ao aquecimento global, adicione mais um: a raiva. Um estudo publicado na revista Science diz que à medida que as temperaturas globais aumentam, o nosso temperamento também esquenta. A conclusão foi de que a incidência de guerra e distúrbios civis pode aumentar entre 28% e 56% até 2050. De acordo com o estudo, o aquecimento torna regiões vulneráveis do mundo mais susceptíveis a problemas relacionados com o clima, o que estimularia o deslocamento de pessoas para áreas vizinhas, levando a conflitos.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Dieta Mediterrânica reduz risco de doença cardiovascular


Num ano em que a agricultura familiar está na vanguarda, nunca é demais realçar as virtudes da dieta mediterrânica.
Esta é o pilar da alimentação do pequeno agricultor português!

"Um estudo realizado em Espanha, envolvendo 7447 participantes, revelou que a adoção de uma alimentação próxima da dieta mediterrânica, caraterizada por baixo consumo de carne vermelha, mais rica em peixe e legumes, inclusão de frutos secos, utilização do azeite em substituição de outras gorduras menos saudáveis e vinho em pequenas quantidades, levou a uma redução de 30% do risco de acidentes cardiovasculares em pessoas de alto risco de problemas cardíacos.
O estudo durou quase 5 anos e envolveu uma população entre os 55 e os 80 anos que á data do início da análise, apesar do elevado risco cardiovascular, não apresentava sinais de doença.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente por três grupos de sujeitos a dietas sem restrição calórica: dieta mediterrânica suplementada com azeite extra-virgem, dieta mediterrânica suplementada com frutos secos e dieta de controlo. Trimestralmente foram realizadas sessões educacionais individuais e em agrupo e, anualmente, foi feito um questionário de frequência de consumo de alimentos.
Os participantes foram avaliados em relação ao peso, altura, perímetro abdominal e valores de análises, e foi registada a ocorrência de acidentes cardiovasculares graves.
No fim do estudo, os dois grupos aos quais foi atribuída a dieta mediterrânica tinham mudado significativamente o consumo de peixe e legumes. A prática de exercício físico não sofreu alterações. Os resultados indicam que a dieta mediterrânica é benéfica para a saúde: houve uma redução de cerca de 30% do risco de eventos cardiovasculares junto do grupo que a adotou."
Fonte aqui
Imagem daqui