domingo, 17 de março de 2013

Cura funcional observada em 14 adultos infectados pelo vírus da sida

Artigo publicado pelo jornal Público em 15/03/2013
"Poucos dias após o anúncio da remissão de longo prazo de um bebé infectado pelo VIH e tratado à nascença, o mesmo efeito de uma terapia anti-sida precoce foi agora anunciado em adultos.
Tratar os adultos temporariamente, logo após a infecção, poderá permitir o controlo do VIH pelo sistema imunitário
Catorze adultos seropositivos residentes em França, que foram tratados com anti-retrovirais nas dez semanas a seguir à infecção, continuam sete anos e meio depois de ter interrompido o tratamento a controlar naturalmente o vírus VIH presente no seu organismo.
 
Os resultados pormenorizados deste estudo, que tinham sido anunciados em Julho passado, durante do congresso internacional da sida nos EUA, pela equipa de Christine Rouzioux, do hospital Necker de Paris, foram publicados esta quinta-feira na revista online de acesso livre PloS Pathogens.
 
Segundo os autores, nos últimos quatro anos, estes 14 adultos, todos eles participantes num estudo conhecido como "estudo de Visconti", viram diminuir o número de células infectadas pelo VIH a circular no seu sangue apesar da ausência de tratamento.
 
Recorde-se que, no início de Março, a equipa de Deborah Persaud, da Universidade Johns Hopkins, EUA tinha revelado, também num congresso, “o primeiro caso bem documentado de cura funcional de uma criança com VIH”. Um bebé norte-americano cuja mãe era seropositiva e que começara a ser tratado com doses terapêuticas de anti-retrovirais contra o VIH, quando tinha apenas 30 horas de vida, encontrava-se em remissão dez meses depois de o tratamento ter sido interrompido (quando a criança tinha 18 meses). No caso do estudo de Visconti, os participantes foram tratados durante três anos.
 
O VIH não foi totalmente erradicado do organismo do bebé nem do dos 14 adultos, mas a sua presença é tão ténue que o próprio sistema imunitário destas pessoas consegue controlá-lo. “O tratamento precoce permitiu provavelmente conter os reservatórios virais, preservando as respostas imunitárias, uma combinação que terá certamente favorecido o controlo da infecção após a interrupção do tratamento”, explica Christine Rouzioux.
 
Embora não se saiba se os participantes em remissão teriam ou não conseguido controlar espontaneamente o VIH sem tratamento, a maior parte dos 14 seropositivos franceses, salientam ainda os cientistas, não tinha o perfil genético nem o tipo de respostas imunitárias característicos das pessoas que são naturalmente imunes ao vírus da sida (e que representam, estima-se, menos de um por cento da população geral).
 
Estes casos [de cura funcional] “permitem esperar a descoberta de novos mecanismos capazes de controlar a infecção”, disse à AFP Laurent Hocqueloux, do hospital Orléans-La Source (França) – e um dos elementos da equipa do estudo de Visconti. Nos próximos meses, deverá arrancar um estudo semelhante à escala europeia, coordenado também pela agência francesa de estudo da sida (ANRS)."

Portugal deverá ter menos 25% de capacidade para produzir energia hídrica após 2070

Artigo publicado pelo jornal Público em 15/03/2013
"Segundo as projecções de modelos do clima, entre 2070 e 2100 Portugal terá meno um quarto da capacidade de produzir energia hídrica devido às alterações climáticas, diz Filipe Duarte Santos.
Poderá haver mais anos seguidos de seca no futuro, diz Filipe Duarte Santos
Portugal deverá ter menos 25% da capacidade de aproveitamento hídrico para produzir electricidade, a partir de 2070, revelou na quinta-feira um especialista em alterações climáticas, que defende a necessidade de uma “gestão adequada” das barragens.
 
O professor universitário Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas, referiu que as consequências das mudanças no clima vão provocar um decréscimo do potencial de produção de energia a partir dos rios, em Portugal e Espanha, entre 2070 e 2100, o que exige cuidados na gestão entre energia e abastecimento de água para consumo directo.
 
Com base nos cenários de previsões de clima para os próximos anos, utilizados no projecto SIAM da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (projecto de estudo de Cenários, Impactos e Medidas de Adaptação), coordenado por Filipe Duarte Santos, “deverá haver uma queda de 25% do potencial, entre 2071 e 2100, em Portugal e Espanha, e as empresas têm de pensar nisso”.
 
O investigador falava à margem do encontro “Alterações Climáticas - Escassez de Água e Eficiências Energética e Hídrica no Ciclo Urbano da Água” que hoje decorre em Lisboa, organizado pela Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas (APDA).
 
“Pode haver anos de precipitação elevada, mas também anos sucessivos de seca e isso é que é preocupante”, alertou o especialista à Lusa. Por isso, apontou a necessidade de “fazer uma gestão adequada da água nas barragens, para produção de energia e para o consumo”.
 
O especialista recordou a subida da temperatura média do planeta, mais pronunciada em algumas regiões, a subida do nível da água, “maior que o previsto”, e a ocorrência mais frequente de eventos meteorológicos extremos, como vagas de calor ou precipitação elevada.
 
“No norte da Europa têm-se registado mais tempestades, no sul, mais secas”, disse, durante a sua intervenção no Encontro, dando o exemplo dos registos a apontar para ocorrência de menos chuva nos invernos mediterrânicos, nos últimos 30 anos."

Tubarões do Mediterrâneo e do Mar Negro em risco de extinção

Artigo publicado pelo jornal Público em 15/03/2013
"A diminuição das populações de tubarões e raias nos mares Mediterrâneo e Negro obrigam a medidas de conservação, mostra relatório da FAO.
Em geral, os tubarões e as raias não têm sido pescados propositadamente no Mediterrâneo e no Mar Negro, mas são capturados acidentalmente
As populações de tubarões nos mares Mediterrâneo e Negro estão em risco de extinção, podendo levar a graves consequências para os ecossistemas marinhos e a cadeia alimentar, adverte um estudo divulgado nesta quinta-feira pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).
 
De acordo com a investigação feita pela organização, o número de tubarões tem vindo a diminuir significativamente ao longo dos últimos dois séculos. O estudo Elasmobrânquios do Mediterrâneo e do Mar Negro: estado, ecologia e biologia, foi realizado pela Comissão Geral das Pescas do Mediterrâneo (CGPM), um dos órgãos regionais da FAO dedicado à indústria da pesca.
 
“O número de tubarões e o peso das capturas no Mediterrâneo diminuíram mais de 97% nos últimos 200 anos. Se a actual pressão da pesca continuar, correm o risco de extinção”, refere o documento. No Mar Negro, embora a informação seja escassa, as capturas das principais espécies de tubarão também diminuíram para quase metade em relação às capturas do início dos anos de 1990.
 
“Esta perda de grandes predadores pode ter implicações graves em todo o ecossistema marinho, afectando substancialmente a cadeia alimentar na região”, de acordo com o estudo.
 
O documento adverte que as espécies de peixes cartilaginosos, como os tubarões e as raias, “são de longe o grupo mais ameaçado de peixes marinhos no Mediterrâneo e no Mar Negro, onde se conhece a existência de até 85 espécies diferentes”. Das 71 espécies estudadas no Mediterrâneo em 2007, constatou-se que 30 (42%) foram consideradas ameaçadas.
 
Os peixes cartilaginosos têm os esqueletos constituídos por cartilagem em vez de ossos e dentro desse grupo, os tubarões e as raias têm o nome científico de elasmobrânquios. As suas características biológicas, incluindo a baixa fecundidade, a maturidade tardia e o lento crescimento, tornam-nos mais vulneráveis do que os peixes ósseos devido às suas taxas de regeneração mais lentas.
 
Em geral, os tubarões e as raias não têm sido pescados propositadamente no Mediterrâneo e no Mar Negro, mas são capturados acidentalmente.
 
Os desembarques totais anuais registados no Mediterrâneo e no Mar Negro são actualmente de cerca de 7000 toneladas, em comparação com as 25.000 toneladas em 1985, uma indicação da gravidade do declínio das espécies. No entanto, tem-se intensificado a captura de tubarões devido à crescente procura por barbatanas, carne e cartilagem.
 
A situação é ainda agravada pelos danos ou alterações aos seus habitats, causados pelo transporte marítimo, pela construção e mineração submarina ou por poluentes químicos, pelo ruído e pela contaminação electromagnética.
 
Entre as medidas mais recentes tomadas pela comissão para proteger os tubarões e as raias encontra-se a proibição da prática de finning (remoção das barbatanas no mar e descarte das carcaças) e limitações à pesca de arrasto a menos de três milhas da costa para aumentar a protecção aos tubarões costeiros.
 
A comissão também recomendou aos países da bacia do Mediterrâneo e pelo Mar Negro que invistam em programas de investigação científica destinados a identificar áreas potenciais de criação e que considerem encerramentos sazonais de certas áreas para proteger os tubarões e as raias juvenis das actividades pesqueiras.
 
 
Outras iniciativas levadas a cabo pela comissão incluem a organização de várias reuniões e cursos que visem uma melhor compreensão destas espécies e dos seus habitats e a criação de uma base de conhecimento regional para orientar os membros da CGPM no desenvolvimento de planos nacionais para proteger as principais espécies."

quarta-feira, 13 de março de 2013

E as antenas apontaram-se ao centro da Via Lactea

Texto de Teresa Firmino publicado pelo jornal Público em 13/03/2013
"O arranque oficial do maior radiotelescópio do planeta contou com um "bailado" das 57 antenas gigantes instaladas no deserto de Atacama, no Chile, ao som da banda sonora do "Cinema Paraíso".

Vista geral do planalto de Chajnantor, com antenas lá em baixo

O céu do Sul rodopia sobre as antenas do radiotelescópio ALMA, no planalto de Chajnantor, a 5000 metros de altitude, no Chile

A banda sonora do filme “Cinema Paraíso” predispôs todos os que nesta quarta-feira estavam na tenda da cerimónia, vindos de muitas partes do mundo, para a beleza do momento que se seguia: o início oficial do arranque do radiotelescópio ALMA, no planalto de Chajnantor, nome que na língua dos povos indígenas significa “o ponto de partida, o ponto de observação”. Sincronizados, os pratos da meia centena de antenas giraram em comunhão com a música, e a plateia aplaudiu.
Segundos antes, o Presidente do Chile, Sebastian Piñera, na tenda no Centro de Operações do ALMA, a 2900 metros de altitude, comunicava com um astrónomo chileno no planalto de Chajnantor, tendo as antenas como cenário. “António, preciso que ponhas em marcha esta grande aventura da humanidade chamada ALMA.” Dali, via rádio, o astrónomo comunicou cá para baixo, com a sala de controlo no Centro de Operações: “Atenção, sala de controlo: apontar o ALMA ao centro galáctico.” E ele, que resultou da junção de 18 países, ficou a escutar o centro da nossa galáxia, a Via Láctea, visto apenas do hemisfério Sul.

Além da parte mais teatral da cerimónia, Piñera deixou claro para uma assistência de astrofísicos de todo o mundo e de ministros de vários países envolvidos no ALMA, incluindo Nuno Crato, ministro português da Educação e Ciência, como a astronomia é importante para o Chile. Aqui estão alguns dos melhores telescópios do mundo, a que o ALMA agora se junta, e os planos futuros incluem mais. “Queremos fazer do Chile a capital mundial da astronomia e um dos pontos de turismo astronómico. O Chile vai concentrar 60% da capacidade de observação do Universo”, referiu Piñera, que começou por se dirigir à plateia como “amigos e amigas da ciência, da astronomia, do progresso”.

O director do Observatório Europeu do Sul (ESO), organização europeia de astronomia que é um dos principais parceiros do ALMA, que custou mil milhões de euros, assinalou o momento com uma referencia a um livro de ficção de Fred Hoyle, o astrofísico britânico que avançou na compreensão de como os elementos pesados (como o carbono e o oxigénio) são formados dentro das estrelas a partir do hidrogénio e hélio; e foi o inventor, já agora, da expressão Big Bang. Mas também escrevia ficção e num dos seus livros, “The Inferno”, de 1973, no qual imaginou uma catástrofe iminente devido a um quasar, fala da instalação de um radiotelescópio na Austrália.

A personagem principal, no entanto, aponta outro local: “Sugere que o telescópio fosse no Chile”, disse o director do ESO. Tudo isso se passa muito antes de se falar sequer em construir o ALMA, o radiotelescópio mais poderoso da Terra, com um “staff” próprio de 45 cientistas. “No dia de hoje, esta visão tornou-se realidade”, rematou Tim de Zeeuw, referindo-se ‘a imaginação de Fred Hoyle. "

NASA afirma que o planeta Marte já foi propício à vida

Artigo publicado pelo jornal Público em 13/03/2013
O pó cinzento recolhido pelo robô da NASA há umas semanas
"A análise de uma amostra de rocha recentemente recolhida pelo robô Curiosity mostra, segundo a agência espacial norte-americana, que o planeta vermelho poderá ter sustentado vida microbiana no passado.
 
A amostra de solo marciano, recolhida pelo Curiosity no passado mês de Fevereiro, contém enxofre, azoto, hidrogénio, oxigénio, fósforo e carbono – alguns dos ingredientes indispensáveis à vida –, anunciou a agência espacial norte-americana NASA em comunicado.
 
“A pergunta fundamental nesta missão é a de saber se Marte poderá ter possuído um ambiente habitável”, disse Michael Meyer, responsável científico pelo programa de exploração de Marte da NASA, citado pelo mesmo documento. “E pelo que sabemos agora, a resposta é sim”.
 
A amostra analisada provém de um veio de rocha sedimentar de grãos finos, de cor cinzenta, que contrasta com a rocha avermelhada da paisagem marciana. Foi recolhida perto do antigo leito de um rio, na cratera Gale, e agora analisada por dois equipamentos do Curiosity: o instrumento de química e mineralogia e o instrumento de análise de amostras de Marte.
 
“O leque de ingredientes químicos que identificámos na amostra é impressionante e sugere associações, por exemplo de sulfatos e sulfuretos, que indicam uma potencial fonte de energia para microrganismos”, disse por seu lado Paul Mahaffy, responsável da NASA pelos instrumentos de recolhas de amostras do robô.
 
Quanto a John Grotzinger, cientista da NASA e do Instituto de Tecnologia da Califórnia, acrescenta: “Caracterizámos um muito antigo, mas curiosamente novo, ‘Marte cinzento', onde as condições foram em tempos favoráveis à vida”. "

Cafeína atrasa desenvolvimento da doença de Machado-Joseph em ratinhos

Texto Nicolau Ferreira de publicado pelo jornal Público em 11/03/2013
Os ratinhos estiveram sujeitos a quantidades regulares de cafeína equivalentes a seis cafés diários
"É um resultado auspicioso para uma doença neurodegenerativa sem cura. Cientistas da Universidade de Coimbra verificaram que quantidades elevadas de cafeína atenuam os danos causados pelo modelo da doença de Machado-Joseph nos ratinhos. O trabalho foi publicado agora na revista Annals of Neurology, Nélio Gonçalves é o primeiro autor do artigo.
 
A doença de Machado-Joseph deve-se à mutação de um único gene e traduz-se na produção de uma proteína anormal que acaba por se acumular em excesso nas células nervosas, matando-as. O resultado é uma doença progressiva que afecta os movimentos: provoca a perda do controlo das extremidades, rigidez muscular, espasmos, problemas de deglutição, perturbações da visão e descontrolos dos movimentos oculares, perturbações do sono e problemas cognitivos.
 
Os sintomas podem surgir tanto na infância como aos 70 anos e os filhos de uma pessoa com esta doença têm 50% de hipóteses de terem recebido este gene e, por isso, de virem a sofrer do mesmo problema. A doença não é tratável, os medicamentos que estes pacientes tomam servem para controlar alguns sintomas.
 
A equipa da Universidade de Coimbra liderada por Luís Pereira de Almeida e Rodrigo Cunha utilizou um modelo equivalente em ratinhos para estudar esta doença que tem uma prevalência significativa em Portugal, especialmente nos Açores. Para isso, utilizou um vírus modificado que desencadeia a patologia no cérebro dos ratinhos. Depois, administrou-se regularmente uma concentração de cafeína equivalente a cerca de seis cafés diários para testar se havia algum efeito.
 
A cafeína exerceu “efeitos protectores, capazes de restabelecer a função [cerebral], por actuar como inibidora desta perturbação nos circuitos neuronais”, explica o comunicado de imprensa sobre a descoberta. A investigação também conseguiu associar o efeito da cafeína ao bloqueio de um receptor neuronal para a adenosina.
 
A descoberta representa "uma peça importante para o complexo puzzle" sobre esta doença, mas os investigadores são prudentes sobre o seu significado. “São necessários mais estudos e ensaios clínicos para confirmar se o alvo molecular é eficaz nos humanos”, defendem Luís Pereira de Almeida e Rodrigo Cunha, sublinhando que “estabelecer prazos para um novo medicamento chegar ao mercado é pura especulação.” "

sexta-feira, 8 de março de 2013

Cientistas provam de vez que um composto do vinho tinto prolonga a vida e protege da doença

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 08/03/2013.
"Os benefícios do resveratrol para a saúde foram questionados durante anos. Agora, o seu mecanismo de acção foi desvendado.
Vinho tinto, amendoins e frutos vermelhos contêm resveratrol
Quem diria que quando fazemos um brinde com vinho tinto e entoamos o proverbial "saúde!", estamos mesmo a falar literalmente? No entanto, é isso que mostra um novo estudo, publicado hoje na revista Science por David Sinclair, da Universidade Harvard (EUA), e colegas - entre os quais duas portuguesas.

Em 2006, a equipa de Sinclair publicava os primeiros resultados que sugeriam que o resveratrol, composto presente na casca das uvas, nos amendoins e nos frutos vermelhos, era capaz de prolongar a vida de ratinhos de laboratório. Criou-se então uma empresa, a Sirtris Pharmaceuticals (do grupo GSK), para desenvolver compostos de acção semelhante à do resveratrol.

Segundo Sinclair e colegas, o resveratrol agia estimulando a actividade de uma proteína, chamada SIRT1 (sirtuína 1). Mas a seguir, houve quem argumentasse que o resveratrol só agia em presença de compostos sintéticos específicos utilizados nas experiências - ou seja, em condições artificiais.

Entretanto, ao longo dos anos, foi-se acumulando uma massa de resultados que indicavam fortemente que em muitas espécies animais, incluindo a nossa, a SIRT1 protege, por sua vez, o organismo de doenças ligadas ao envelhecimento como o cancro, a Alzheimer, a diabetes. Os ratinhos que tomam resveratrol são relativamente imunes aos efeitos da obesidade e da velhice - e o composto aumenta a longevidade de leveduras, nemátodos, abelhas, moscas e ratinhos, lembra um comunicado de Harvard.

Como? Melhorando o desempenho das mitocôndrias, que são as "baterias" das células vivas. Com a idade, elas começam a ter problemas de funcionamento - e o facto de a SIRT1 as conseguir "recarregar" tem efeitos profundos sobre a saúde. Restava, porém, a questão de saber se o resveratrol estimulava mesmo directamente a SIRT1 e tinha efectivo potencial terapêutico, ou se o seu efeito era uma miragem experimental.

No novo estudo, os cientistas põem fim ao debate. Primeiro, mostram que o resveratrol activa a SIRT1 em presença de moléculas naturalmente produzidas pelas células vivas. "Descobrimos uma assinatura da activação que se encontra de facto nas células e que não exige qualquer composto sintético", diz Basil Hubbard, co-autor, citado pelo mesmo comunicado. Em segundo lugar, identificam, na molécula de SIRT1, o local de acção preciso do resveratrol.

Para isso, a equipa testou umas 2000 variantes do gene que comanda o fabrico da SIRT1 pelas células e descobriu uma mutação específica que torna esta proteína completamente insensível ao resveratrol e a uma série de moléculas semelhantes ainda mais potentes. Basta trocar um único aminoácido num dado local da cadeia molecular da SIRT1 (os aminoácidos são os "tijolos" de construção das proteínas) para o resveratrol não se conseguir ligar à SIRT1.

A partir daí, os investigadores puderam testar o efeito da mutação em culturas de células. E constataram que, enquanto nas células com uma SRT1 normal, as mitocôndrias eram efectivamente "recarregadas" graças ao resveratrol, nas células com uma SRT1 mutante as mitocôndrias tornavam-se completamente "imunes" ao composto. "Esta foi a experiência decisiva. Não permite qualquer outra opção senão concluir que o resveratrol activa directamente a SIRT1 nas células", diz Sinclair. Os investigadores pensam que o mecanismo de acção do resveratrol, quando ele se liga à SIRT1, é como se carregasse num "pedal acelerador", tornando a SIRT1 hiperactiva.

"A sirtuína tem um efeito regulador muito importante na função mitocondrial e este estudo vem retirar qualquer dúvida acerca da activação directa da SIRT1 pelo resveratrol", disse ao PÚBLICO Anabela Rolo, da Universidade de Aveiro, também co-autora do trabalho, juntamente com Ana Gomes (neste momento a trabalhar no laboratório de Sinclair). O interesse específico destas investigadoras - que colaboram há vários anos com a equipa norte-americana - é a regulação mitocondrial. A sua participação teve por isso a ver com a avaliação, nas culturas celulares, das consequências funcionais, ao nível das mitocôndrias, da mutação da SIRT1.

"Agora, torna-se possível sintetizar compostos mais eficazes, com um efeito terapêutico mais acentuado", diz-nos Anabela Rolo. Aliás, já estão a decorrer ensaios clínicos de vários compostos desenvolvidos pela Sirtris - mas ainda não há data marcada para uma eventual comercialização."