A técnica chama-se criomicroscopia electrónica e por causa dela Jacques Dubochet, Joachim Frank e Richard Henderson ganharam o Prémio Nobel da Química 2017.
Jacques Dubochet, Joachim Frank e Richard Henderson Universidades de LAUSANNE, Columbia e Cambridge/EPA
O método desenvolvido – os três cientistas tiveram diferentes participações no processo – torna possível obter imagens detalhadas das complexas máquinas da vida. Numa curta entrevista pelo telefone divulgada no site dos Prémios Nobel, Richard Henderson esclarece que, em relação a outras técnicas de observação, este microscópio é “um método mais directo, fácil e de uso mais generalizado”, ultrapassando alguns obstáculos que impediam a observação de algumas estruturas como, por exemplo, proteínas de membrana.
O desenvolvimento deste tipo de microscopia electrónica, que expõe a amostra biológica a temperaturas muito baixas (criogénicas), “simplifica e melhora a imagem das biomoléculas”, acrescenta o comunicado de imprensa do comité, adiantando ainda que este método permite “visualizar processos que nunca antes foram vistos, o que é decisivo para a compreensão básica da química da vida e para o desenvolvimento de produtos farmacêuticos”.
Não só se consegue obter imagens dos átomos nestas moléculas, como numa fotografia, como também é possível juntar estas imagens e ver “um filme” que nos mostra o que estas moléculas fazem. “Assim, temos as estruturas das moléculas, mas também o processo, como se mexem, interagem e o que fazem”, explicou Sara Snogerup Linse, um dos elementos do comité durante o anúncio do prémio no Instituto Karolinska, na Suécia. Na mesma intervenção declarou: “Em breve, não haverá mais segredos. Agora, podemos ver todos os detalhes nas moléculas, em todos os cantos das nossas células, em todas as gotas dos nossos fluidos. Podemos compreender como se constroem, como se comportam e como agem em comunidades alargadas. Estamos perante uma revolução bioquímica.”
Há já alguns exemplos dos avanços que este novo olhar pode alcançar. Recentemente, esta nova técnica permitiu, por exemplo, olhar de uma forma inédita para o vírus Zika. A estrutura do vírus foi revelada graças à criomicroscopia electrónica e permitiu conhecer as proteínas que compõem o invólucro do vírus a um nível atómico, num trabalho que mereceu um artigo publicado em Abril de 2016 na revista científica Science. Esta reveladora visão do Zika pode ajudar os cientistas a encontrar moléculas para lutar contra o vírus e desenvolver uma vacina.
Pedro Matias, da Unidade de Cristalografia de Macromoléculas, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) da Universidade Nova de Lisboa, em Oeiras, sublinha “a revolução tecnológica que está na base do extraordinário desenvolvimento da criomicroscopia electrónica aplicada a sistemas biológicos”. Lembra que “a utilização de microscópios electrónicos para a visualização de biomoléculas iniciou-se no século passado, com a contribuição fundamental de Richard Hendersen”.
Sublinha ainda que a solução de “congelar a amostra, preservando todas as suas características, usando de arrefecimento ultra-rápido a 196 graus Celsius negativos que impede a formação de cristais de gelo” teve o contributo fundamental de Jacques Dubochet.
Sobre as possíveis aplicações práticas desta técnica, Pedro Matias realça “a sua utilização pelas empresas farmacêuticas na descoberta e desenvolvimento de novos fármacos” e também “ao nível da investigação mais fundamental”, possibilitando “estudos em que se obtêm imagens detalhadas de toda uma célula e seus organelos, o que permite entender melhor aspectos do seu funcionamento”.
O investigador português confirma ainda que “infelizmente” ainda não existem criomicroscópios electrónicos em Portugal. “Existem alguns microscópios electrónicos em Portugal que são utilizados para estudo de amostras biológicas, por exemplo no Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras, no Instituto de Biologia Molecular e Celular no Porto e na Universidade de Coimbra. No entanto, estes instrumentos não têm as potencialidades dos instrumentos de última geração que têm dado origem aos resultados mais excitantes e revolucionários.” São aparelhos exigentes, nota, em termos de espaço e custo. “Um aparelho de última geração para criomicroscopia electrónica pode custar mais de sete milhões de euros. Para além do instrumento, é necessário dispor de uma sala especial com chão antivibrações e atmosfera controlada para impedir as contaminações de poeira e as flutuações de temperatura.”
Na conferência de imprensa, Joachim Frank respondeu a algumas perguntas por telefone e, apesar das más condições da ligação, foi possível ouvi-lo dizer que as moléculas mais fascinantes que já observou com esta técnica foram os ribossomas, as “máquinas” celulares que fabricam as proteínas a partir da informação genética contida no ADN. Apesar de considerar que as inúmeras aplicações e o enorme potencial deste novo método de olhar para as moléculas da vida não serão imediatos e terão de ser explorados nos próximos anos, o investigador sublinhou que “a medicina já não está a olhar só para os órgãos mas para os processos nas células”. E esta ferramenta será decisiva para isso.
O cientista também disse ter sido surpreendido com o telefonema do comité do Nobel, que recebeu durante a noite porque se encontra nos EUA, para lhe anunciar que tinha vencido o Nobel da Química. “Pensei que as minhas hipóteses eram minúsculas. Há tantas inovações e descobertas todos os dias. Mas isto é uma notícia maravilhosa. Foi isso que repeti para mim mesmo. É uma notícia maravilhosa.”
Nas redes sociais, muitos especialistas comentavam a “gaveta” onde o comité Nobel arrumou esta descoberta. Será que a criomicroscopia electrónica é uma “invenção” que pertence ao mundo da biologia pelas suas implicações ou ao da química pelo processo que a tornou possível? É, sem dúvida, um avanço no campo da bioquímica. Hoje, o trabalho de três cientistas que desenvolveram o método foi reconhecido com o Nobel da Química. “Amanhã” é possível que alguma descoberta feita através do uso da (laureada) criomicroscopia electrónica mereça o Nobel da Medicina.
Eles fizeram com que hoje conseguíssemos ver a vida de uma forma mais nítida e detalhada, como nunca antes tínhamos experimentado. Desenvolveram uma tecnologia, que se materializou num poderoso instrumento, que nos deixa olhar para o interior das células, para a estrutura das suas moléculas e até para os seus ínfimos átomos. É a mais íntima perspectiva que temos das moléculas da vida e que nos pode ajudar a saber mais sobre doenças e a desenvolver fármacos. Jacques Dubochet, Joachim Frank e Richard Henderson ganharam esta quarta-feira o Prémio Nobel da Química 2017 pelo desenvolvimento desta técnica chamada criomicroscopia electrónica.
Na segunda-feira, o prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia foi atribuído a três investigadores pelas descobertas sobre os mecanismos do nosso relógio biológico. Na terça-feira, o comité reconheceu o trabalho de mais três cientistas que lideraram as equipas responsáveis pela detecção das ondas gravitacionais com o prémio Nobel da Física. Não há duas sem três, e no terceiro Nobel atribuído esta semana, o comité voltou a dividir o prémio de por três homens, Jacques Dubochet, Joachim Frank e Richard Henderson.
Jacques Dubochet é professor de biofísica na Universidade de Lausanne, nasceu na Suíça e tem 75 anos, Joachim Frank é professor de bioquímica e biofísica na Universidade de Columbia, em Nova Iorque (EUA), nasceu na Alemanha e tem 77 anos, e Richard Henderson dirige um laboratório de biologia molecular no Medical Research Council (MRC) em Cambridge, no Reino Unido, e nasceu na Escócia e tem 72 anos.
O método desenvolvido – os três cientistas tiveram diferentes participações no processo – torna possível obter imagens detalhadas das complexas máquinas da vida. Numa curta entrevista pelo telefone divulgada no site dos Prémios Nobel, Richard Henderson esclarece que, em relação a outras técnicas de observação, este microscópio é “um método mais directo, fácil e de uso mais generalizado”, ultrapassando alguns obstáculos que impediam a observação de algumas estruturas como, por exemplo, proteínas de membrana.
O desenvolvimento deste tipo de microscopia electrónica, que expõe a amostra biológica a temperaturas muito baixas (criogénicas), “simplifica e melhora a imagem das biomoléculas”, acrescenta o comunicado de imprensa do comité, adiantando ainda que este método permite “visualizar processos que nunca antes foram vistos, o que é decisivo para a compreensão básica da química da vida e para o desenvolvimento de produtos farmacêuticos”.
Não só se consegue obter imagens dos átomos nestas moléculas, como numa fotografia, como também é possível juntar estas imagens e ver “um filme” que nos mostra o que estas moléculas fazem. “Assim, temos as estruturas das moléculas, mas também o processo, como se mexem, interagem e o que fazem”, explicou Sara Snogerup Linse, um dos elementos do comité durante o anúncio do prémio no Instituto Karolinska, na Suécia. Na mesma intervenção declarou: “Em breve, não haverá mais segredos. Agora, podemos ver todos os detalhes nas moléculas, em todos os cantos das nossas células, em todas as gotas dos nossos fluidos. Podemos compreender como se constroem, como se comportam e como agem em comunidades alargadas. Estamos perante uma revolução bioquímica.”
Há já alguns exemplos dos avanços que este novo olhar pode alcançar. Recentemente, esta nova técnica permitiu, por exemplo, olhar de uma forma inédita para o vírus Zika. A estrutura do vírus foi revelada graças à criomicroscopia electrónica e permitiu conhecer as proteínas que compõem o invólucro do vírus a um nível atómico, num trabalho que mereceu um artigo publicado em Abril de 2016 na revista científica Science. Esta reveladora visão do Zika pode ajudar os cientistas a encontrar moléculas para lutar contra o vírus e desenvolver uma vacina.
Pedro Matias, da Unidade de Cristalografia de Macromoléculas, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) da Universidade Nova de Lisboa, em Oeiras, sublinha “a revolução tecnológica que está na base do extraordinário desenvolvimento da criomicroscopia electrónica aplicada a sistemas biológicos”. Lembra que “a utilização de microscópios electrónicos para a visualização de biomoléculas iniciou-se no século passado, com a contribuição fundamental de Richard Hendersen”. Sublinha ainda que a solução de “congelar a amostra, preservando todas as suas características, usando de arrefecimento ultra-rápido a 196 graus Celsius negativos que impede a formação de cristais de gelo” teve o contributo fundamental de Jacques Dubochet.
Sobre as possíveis aplicações práticas desta técnica, Pedro Matias realça “a sua utilização pelas empresas farmacêuticas na descoberta e desenvolvimento de novos fármacos” e também “ao nível da investigação mais fundamental”, possibilitando “estudos em que se obtêm imagens detalhadas de toda uma célula e seus organelos, o que permite entender melhor aspectos do seu funcionamento”.
O investigador português confirma ainda que “infelizmente” ainda não existem criomicroscópios electrónicos em Portugal. “Existem alguns microscópios electrónicos em Portugal que são utilizados para estudo de amostras biológicas, por exemplo no Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras, no Instituto de Biologia Molecular e Celular no Porto e na Universidade de Coimbra. No entanto, estes instrumentos não têm as potencialidades dos instrumentos de última geração que têm dado origem aos resultados mais excitantes e revolucionários.” São aparelhos exigentes, nota, em termos de espaço e custo. “Um aparelho de última geração para criomicroscopia electrónica pode custar mais de sete milhões de euros. Para além do instrumento, é necessário dispor de uma sala especial com chão antivibrações e atmosfera controlada para impedir as contaminações de poeira e as flutuações de temperatura.”
Na conferência de imprensa, Joachim Frank respondeu a algumas perguntas por telefone e, apesar das más condições da ligação, foi possível ouvi-lo dizer que as moléculas mais fascinantes que já observou com esta técnica foram os ribossomas, as “máquinas” celulares que fabricam as proteínas a partir da informação genética contida no ADN. Apesar de considerar que as inúmeras aplicações e o enorme potencial deste novo método de olhar para as moléculas da vida não serão imediatos e terão de ser explorados nos próximos anos, o investigador sublinhou que “a medicina já não está a olhar só para os órgãos mas para os processos nas células”. E esta ferramenta será decisiva para isso.
O cientista também disse ter sido surpreendido com o telefonema do comité do Nobel, que recebeu durante a noite porque se encontra nos EUA, para lhe anunciar que tinha vencido o Nobel da Química. “Pensei que as minhas hipóteses eram minúsculas. Há tantas inovações e descobertas todos os dias. Mas isto é uma notícia maravilhosa. Foi isso que repeti para mim mesmo. É uma notícia maravilhosa.”
Nas redes sociais, muitos especialistas comentavam a “gaveta” onde o comité Nobel arrumou esta descoberta. Será que a criomicroscopia electrónica é uma “invenção” que pertence ao mundo da biologia pelas suas implicações ou ao da química pelo processo que a tornou possível? É, sem dúvida, um avanço no campo da bioquímica. Hoje, o trabalho de três cientistas que desenvolveram o método foi reconhecido com o Nobel da Química. “Amanhã” é possível que alguma descoberta feita através do uso da (laureada) criomicroscopia electrónica mereça o Nobel da Medicina.
A sua existência foi prevista há mais de cem anos por Albert Einstein, mas só em 2015 foram detectadas pela primeira vez. O trio de físicos que há décadas andava atrás das ondas gravitacionais viu agora o seu esforço reconhecido ao mais alto nível.
Albert Einstein, que transformou profundamente a visão que temos do Universo com a sua teoria da relatividade, do início do século XX, acertou outra vez. E tão certo estava que as ondas gravitacionais previstas teoricamente por ele há mais de 100 anos, mas fugidias a qualquer detecção durante décadas e décadas, foram finalmente registadas em Setembro de 2015 por dois grandes detectores nos Estados Unidos. Foi esse extraordinário feito científico, provando que as ondas gravitacionais existiam mesmo, que recebeu o Prémio Nobel da Física de 2017, atribuído esta terça-feira a um trio de investigadores nos Estados Unidos: Rainer Weiss (do Instituto de Tecnologia do Massachusetts), Barry Barish e Kip Thorne (ambos do Instituto de Tecnologia da Califórnia).
Cientistas norte-americanos terão sido acordados ao meio da noite para receber a notícia da conquista do Prémio Nobel da Medicina de 2017. Por causa do sono, perderam o sono.
São geneticistas e cronobiólogos. Ou uma espécie de relojoeiros do corpo humano. Michael Rosbash, Jeffrey Connor Hall e Michael Warren Young conquistaram esta segunda-feira o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina por descobertas sobre os mecanismos moleculares que controlam o ritmo circadiano. Os trabalhos com mais de duas décadas nesta área mostraram como funcionam genes que estão ligados ao sono e à forma como regulamos o nosso metabolismo nas diferentes fases do dia. Os três cientistas norte-americanos revelaram alguns dos importantes circuitos e peças que fazem a complexa máquina do nosso relógio biológico funcionar. E, claro, perceberam onde e como pode avariar.
Segundo Anna Weddell, do comité do prémio Nobel, os investigadores mostraram, por exemplo, que “precisamos do relógio biológico para antecipar as mudanças que ocorrem durante um dia, não é só para nos adaptarmos a essas mudanças”. Assim, recorrendo ao modelo da mosca-da-fruta, os investigadores perceberam que o corpo dos animais (incluindo o dos seres humanos) desencadeia uma série de ligações que nos preparam para acordar, mesmo antes de a luz do dia “nos avisar”. Da mesma forma, há uma preparação do organismo para o momento nocturno, do sono.
“Até hoje não sabemos por que precisamos de dormir, mas já é claro que a regulação do sono obedece a dois processos: o ciclo circadiano (ou relógio) e o sistema homeostático”, explica ao PÚBLICO Diogo Pimentel, investigador português na Universidade de Oxford que se dedica a esta área. O tal relógio faz com que todos os organismos (incluindo nós) se sincronizem e adaptem a factores do ambiente externo, sendo a luz o factor principal. Sobre os resultados do trabalho dos cientistas agora premiados com o Nobel da Medicina, Diogo Pimental comenta: “É de facto uma história de sucesso fantástica e um excelente exemplo de como genes e moléculas são responsáveis por orquestrar o nosso comportamento.”
Mais: o reconhecimento do comité Nobel responde a quem duvida das implicações destes estudos que usam a mosca-da-fruta para ligar a genética ao nosso comportamento. “O sucesso neste campo é como um ‘conto de fadas’ para a abordagem da genética comportamental porque demonstra o poder e a eficácia deste tipo de investigação, tal como a relevância e impacto das descobertas resultantes.”
O anúncio do Prémio Nobel foi por volta das 10h30 (hora de Lisboa). Poucos minutos, o perfil dos cientistas corria mundo. Ainda antes de termos tempo para procurar informação sobre os premiados, ficávamos a saber que Michael Rosbash foi acordado ao meio da noite com a notícia do prémio. Ficou em silêncio e depois terá dito algo como: “Está a brincar comigo?” A sua mulher, que dormia ao lado, terá apenas dito que era preciso que continuasse a respirar.
Michael Rosbash e Jeffrey Connor Hall são dois amigos de longa data que trabalham juntos há várias décadas. Actualmente, estão na Universidade de Brandeis, no Massachusetts (EUA). Michael Warren Young é um cronobiólogo que investiga no laboratório de genética da Universidade de Rockefeller, em Nova Iorque. Os três estudam o sono, os mecanismos que o nosso relógio biológico usa para se adaptar ao ambiente cá fora.
No centro das investigações destes cientistas está o papel de alguns genes que “participam” neste processo de regulação do ritmo circadiano. Michael Rosbash e Jeffrey Connor Hall explicaram como funciona o gene period (PER). Isolaram este gene e descobriram que produzia uma proteína que se acumulava nas células durante a noite e degradava-a durante o dia. Ou seja, os níveis estavam sintonizados com o ritmo circadiano (uma palavra que na sua origem em latim quer dizer algo como “cerca de um dia”, 24 horas).
Michael Warren Young descobriu o gene timeles (TIM), outra peça importante nesta máquina. Juntos, os três cientistas perceberam que por trás dos nossos sonos e vigílias estes genes actuam em conjunto formando um sistema de sinais químicos. O investigador da Universidade de Rockefeller identificou ainda um outro gene chamado doubletime (DBT) que era capaz de atrasar a acumulação da proteína PER. Estavam desvendados mecanismos-chave sobre os princípios do relógio biológico.
Encontrar os genes e a sua função fez com que se concluísse também que mudanças (ou mutações) nestes “genes-relógio” (as peças biológicas do relógio circadiano comparáveis às rodas dentadas de um relógio mecânico) estão associadas a uma série de distúrbios do sono em humanos. Mesmo algumas formas de depressão podem estar de alguma maneira ligadas ao controlo do ritmo circadiano. Assim, por causa destes três investigadores, hoje sabemos mais sobre os mecanismos que regulam o nosso ritmo circadiano que, por sua vez, regula muitos dos nossos genes.
“O relógio biológico regula funções críticas, como comportamento, níveis hormonais, sono, temperatura corporal e metabolismo. O nosso bem-estar é afectado quando existe um desajuste entre o nosso ambiente externo e este relógio biológico interno, o que acontece, por exemplo, quando viajamos em diferentes fusos horários e experimentamos jet lag. Há também indícios de que os problemas na sincronização de nosso relógio interno com o ambiente e estilo de vida podem estar associados ao aumento do risco de várias doenças”, refere o comunicado de imprensa do comité do Nobel do Instituto Karolinska, na Suécia.
Num velho vídeo de Novembro de 2015 que esta segunda-feira acordou para uma nova vida na Internet, Michael Rosbash explica o seu trabalho com Jeffrey C. Hall. Fala neste incrível relógio que temos dentro de nós e que consegue antecipar as mudanças cá fora. “É muito mais vantajoso saber o que vai acontecer do que reagir ao que já aconteceu. E esse é um dos papéis do ritmo circadiano”, diz.
No final do vídeo gravado numa altura em que ainda estava longe de saber que algum dia ganharia o Nobel da Medicina, Michael Rosbash fala sobre o sucesso do seu trabalho. Revela que a sua investigação é o resultado de vários factores: uma boa equipa, bons colegas, financiamento, apoio familiar e também de acasos felizes e sorte. “Independentemente dos talentos que usamos para resolver problemas, esses talentos que herdamos dos nossos pais, esses genes, não fazem uma escolha. Somos vítimas de acasos. No meu caso, sou uma vítima feliz. Na verdade, é mesmo a sorte que está por trás desta história.”
As superbactérias são uma perigosa e real ameaça à saúde pública e poderão tornar-se a primeira causa de morte em 2050. Esta «epidemia» poderá tornar-se mais mortal do que o cancro.
A resistência aos antibióticos mata cerca de 700 mil pessoas por ano em todo o mundo. Se nada for feito, as mortes poderão chegar aos 10 milhões em 2050, o que significa que essas bactérias ultrarresistentes poderão matar mais do que o cancro que, neste momento, vitima cerca de oito milhões de pessoas num ano.
O perigo é de tal forma sério que o assunto não é apenas abordado pela comunidade científica, já entrou na agenda política mundial. Na 72.ª assembleia das Nações Unidas, Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), deixou o aviso que o jornal espanhol El País citou. «Esta é uma ameaça terrível com grandes implicações para a saúde humana. Se não a abordamos, o avanço feito nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) perder-se-á e recuaremos ao tempo em que as pessoas arriscavam a sua vida com uma infeção numa pequena cirurgia. É um problema urgente», referiu.
O uso e abuso de antibióticos tornam as bactérias mais resistentes. Os antibióticos perdem efeito e o organismo pede medicação mais agressiva e tóxica para tentar expulsar as superbactérias. O problema é tão sério que essas bactérias superresistentes poderão tornar-se a primeira causa de morte daqui a 33 anos, mais mortais do que o cancro.
Há várias questões neste problema. O uso abusivo de antibióticos, as tomas que não vão até o fim não eliminado a bactéria do organismo, o uso exagerado de medicamentos em animais que entram na cadeia alimentar do ser humano. O que fazer? O El País avança que está a ser preparada uma campanha de sensibilização para médicos e enfermeiros para que se usem menos medicamentos, em 20 países.
As superbactérias ganham superpoderes, genes de resistência, e ignoram que os antibióticos existem. É como uma seleção natural. «As bactérias que não resistem ao antibiótico morrem, as que resistem continuam a multiplicar-se e a passar os genes de resistência para as gerações seguintes [tornando-se mais fortes e resistentes]», explica à NM Salomé Gomes, investigadora na área de microbiologia e professora do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), no Porto.
«A resistência das bactérias aos antibióticos “de primeira linha”, ou seja, aqueles usados mais habitualmente, aumenta a mortalidade por vários motivos: enquanto não se acerta com o antibiótico, a bactéria está sempre a multiplicar-se e a causar danos (sobretudo se o hospedeiro é frágil) que se podem tornar irreversíveis; os antibióticos de segunda escolha muitas vezes são-no porque têm efeitos secundários negativos (afetam o fígado, os rins, etc.)», acrescenta.
Uma questão de moda, que não ajuda nem a emagrecer nem a aumentar a massa muscular, e que pode prejudicar a saúde. É de forma apreensiva que Isabel do Carmo olha para o aumento do consumo dos batidos de proteínas.
Que benefícios têm estes cocktails de proteínas?
Não tem benefício nenhuns e podem ser prejudiciais. Se as pessoas, na sua alimentação ingerem as proteínas suficientes - e no geral comem peixe, carne, ovos, bebem leite, iogurtes, ou seja alimentos fornecedores de proteínas - não há necessidade nenhuma de fazer uma sobrecarga de proteínas que vai sobrecarregar os rins. É claro que os músculos necessitam de proteínas para a sua constituição mas aquelas que comemos na alimentação habitual são suficientes.
Considera então ser desnecessário esse consumo adicional?
Só se houver uma pessoa que tenha um défice alimentar, falo em idosos, doentes que não conseguem comer o suficiente e têm mesmo de ingerir concentrados de proteínas para equilibrar a sua alimentação. De resto, não há nenhuma vantagem, quer para mulheres quer para homens, os produtos que são vendidos, de forma irregular, nos ginásios. E além disso, há produtos que, muitas vezes, têm outras substâncias, que nem são declaradas. Portanto, é bastante prejudicial.
E como é que explica o aumento de venda destes produtos?
É uma questão de modas e de comércio. Não é mais do que uma estratégia de venda, já que benefícios não têm. Dizem que para os homens aumenta a massa muscular, e que para as mulheres faz emagrecer, pois substituem refeições ricas em hidratos de carbono - aliás, esta é outra moda.
Outro dos argumentos é que ajuda a converter a gordura em massa muscular...
Não é correto, a gordura não se transforma em massa muscular. Pode ser queimada, consumida com o exercício físico mais ou menos intenso e com uma dieta hipocalórica mas nunca se transforma em massa muscular. A questão é que, como são ministrados em ginásios onde as pessoas podem fazer um exercício físico intenso é natural que se consiga aumentar a percentagem de massa magra, de músculo. O efeito não é das proteínas mas do exercício físico, digamos que isso prende a pessoa ao ginásio.
Estes produtos também se compram na internet, é um duplo perigo?
Sim. Poderão ter substâncias ocultas, estimulantes. Com os homens há a questão das hormonas sexuais, pois muitas vezes estes produtos têm testosterona, androgénios e aí é grave, sobretudo na adolescência, porque pode provocar efeitos rápidos de inibição das verdadeiras hormonas do homem. Tenho quatro casos destes, de inibição do desenvolvimento genital dos adolescentes. Porque dando ao organismo androgénios exteriores, os próprios do indivíduo ficam inibidos. Isso pode dar resultados muito maus.
Estes quatro casos foram originados por situações de compra de produtos nos ginásios?
Sim claramente, de suplementos nos ginásios.
E como é que essas situações evoluíram?
Há um jovem que se safou, que jura que já não toma nada disso. Os outros três perdi-lhes o rasto. Uns eram gémeos. Há ano e meio encontrei a mãe que estava desesperada porque um deles ainda se mantinha com problemas graves.
Quais as consequências?
Um atraso no desenvolvimento sexual, no pénis e nos testículos nos adolescentes.
Cientistas americanos retiraram células às folhas de espinafres e cultivaram células cardíacas humanas na estrutura de celulose da folha, com o seu sistema vascular.
O coração, diz o investigador Glenn Gaudette, "é um órgão tão bonito". Coordenador do Laboratório de Regeneração do Miocárdio, do Instituto Politécnico de Worcester, em Massachusetts, nos Estados Unidos, Gaudette estuda há anos formas de regenerar os tecidos do músculo cardíaco, mas foi um trabalho que publicou em maio na revista Biomaterials que o colocou sob foco mediático. Nesse artigo Gaudette e a sua equipa conseguiram fazer uma importante prova de conceito: a de que é possível usar folhas de plantas, neste caso de espinafres, para regenerar tecido cardíaco funcional.
O que os investigadores fizeram foi transformar simples folhas de espinafre numa espécie de mini-corações feitos de células cardíacas humanas que conseguem bombar um fluido através da rede de "veias" da folha vegetal. Um feito que Glenn Gaudette diz ser apenas o princípio.
Demonstrada a possibilidade de produzir tecido cardíaco desta forma, trata-se agora de desenvolver o trabalho no sentido de esse tecido produzido em laboratório poder um dia ser transplantável em doentes para a regeneração deste órgão em pacientes com problemas cardíacos.
A ideia de usar uma estrutura vegetal para construir um simulacro funcional de um dos órgãos humanos mais complexos - como diz Gaudette, "ele tem um pouco de tudo, desde a dinâmica de fluidos, mecânica de sólidos, atividade elétrica, química, biologia, é fantástico" - , foi uma resposta quase natural à enorme dificuldade de reproduzir em laboratório a complexidade do seu sistema vascular.
Na bioengenharia de tecidos humanos funcionais, um campo de investigação que ganhou uma enorme projeção na última década e que é uma das esperanças para o futuro no transplante de órgãos, um dos problemas mais difíceis de resolver tem sido, justamente, a reprodução do sistema de vasos sanguíneos, aquela rede vital de base, que é essencial. Muitos grupos têm utilizado a impressão 3D para produzir os moldes onde são depois implantados e cultivados os tecidos, mas a questão dos vasos sanguíneos é mais complexa.
Foi aí que Joshua Gershlak, um estudante de doutoramento de Glenn Gaudette teve a ideia "ovo de Colombo", quando um dia se deu conta de que as folhas das plantas já têm essa rede vascular. "Eu já tinha feito trabalho de descelularização [retirar as células] em corações humanos e a folha de espinafre fez-me lembrar uma aorta", contou. Então pensou que, se conseguisse retirar todas as células vegetais à folha, deixando apenas a estrutura de base, feita de celulose e portanto biocompatível, se poderiam depois cultivar sobre ela as células do músculo cardíaco. Glenn Gaudette gostou da ideia e contactou colegas das universidades de Wisconsin e do Arkansas para, juntos, lançarem mãos à obra.
O resultado foi o que já se sabe. Tratadas por um processo laboratorial, as folhas, ao fim de sete dias, estavam reduzidas à sua estrutura básica e prontas para receberem as células humanas do tecido cardíacas, que se reproduziram em torno dela. No fim do processo, a equipa conseguiu que um fluido idêntico ao sangue fosse transportado através das "veias" daquela miniatura de coração.
"Este projeto demonstra a importância do trabalho interdisciplinar e abre a porta à possibilidade de utilizar múltiplas folhas de espinafres para produzir várias camadas de tecido do coração para tratar pessoas que sofreram um ataque cardíaco", explicou, por seu turno, Glenn Gaudette.
Além desta possibilidade evidente, o conceito pode agora ser testado com outras plantas para produzir também outros tecidos humanos. "Adaptar a enorme diversidade de plantas a este campo da engenharia de tecidos pode ser a solução para um mundo de problemas", conclui a equipa.
Carbono nos oceanos poderá chegar ao "limiar da catástrofe" em 2100. Extinções em massa anteriores ocorreram após a perturbação do ciclo do carbono
A quantidade de carbono nos oceanos poderá atingir em 2100 o limite acima do qual aconteceram extinções em massa no passado, avisam investigadores norte-americanos que usaram um modelo matemático para prever o que chamam "limiar da catástrofe".
Segundo o professor de Geofísica Daniel Rothman, 310 gigatoneladas é o máximo de carbono que os oceanos aguentam antes de a libertação súbita deste gás alterar o meio ambiente de modo a provocar extinções em massa que podem decorrer ao longo de centenas de anos.
"Isto não quer dizer que o desastre acontecerá no dia seguinte" ao limite ser atingido, salientou, indicando que "o ciclo do carbono passaria a estar instável e comportar-se-ia de uma maneira imprevisível", o que "no passado geológico, está associado com extinções em massa".
Rothman estima que, ao ritmo a que a atividade humana produz carbono, as 310 gigatoneladas serão atingidas por volta do virar do século.
Ao longo de 540 milhões de anos aconteceram na Terra cinco extinções em massa, cada uma marcada pela perturbação do ciclo do carbono que passa pela atmosfera e pelos oceanos.
Estas perturbações foram ocorrendo ao longo de milhares ou milhões de anos e coincidem com as marcas da extinção de espécies marinhas em todo o planeta.
Num estudo publicado na revista Science Advances, o investigador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts afirma ter identificado um "limiar de catástrofe" nas extinções que já aconteceram, estabelecendo que o que importa não é a quantidade de tempo que demoram as perturbações no ciclo do carbono, mas a quantidade de carbono em causa.
No ciclo normal do carbono, que depende de um vaivém constante entre consumo e produção, há sempre uma quantidade adicional de carbono que é depositada nos fundos oceânicos.
Quando há um excesso de produção de dióxido de carbono, como a que caracteriza a atividade humana desde a industrialização, esse excesso leva ao aquecimento global e à acidificação dos oceanos, o que desencadeia as extinções globais.
Segundo as piores previsões, o nível de carbono nos oceanos poderá ser muito superior ao limite definido por Rothman e chegar às 500 gigatoneladas.
"Deve ser possível recuar nas emissões de dióxido de carbono, afirmou Rothman, salientando que a sua investigação "aponta razões pelas quais é preciso ter cuidado".