Cientistas do Instituto de Medicina Molecular (iMM) criaram um vírus de ratinho com material genético de um vírus herpes humano, para testar possíveis medicamentos contra determinados cancros causados por vírus herpes, divulgou hoje a instituição.
O vírus quimera gerado quando infeta ratinhos é viável e provoca infeção persistente nas células que, em humanos, leva ao aparecimento de alguns tipos de cancro, como linfomas (cancros do sangue) e sarcoma de Kaposi (cancro dos tecidos vasculares que se manifesta na pele e surge nas pessoas infetadas pelo vírus da sida).
Para este trabalho de engenharia genética, a equipa usou o vírus Kaposi, um vírus do tipo herpes humano que tem um equivalente nos ratinhos. Ambos têm uma proteína, a LANA, que desempenha a mesma função, embora adaptável ao seu hospedeiro.
Segundo o coordenador do grupo de investigação do iMM, Pedro Simas, esta proteína tem uma "função crucial, permite ao vírus persistir no organismo, estabelecer uma infeção persistente", que, nos humanos, degenera em determinados cancros.
Sendo o vírus humano e o vírus dos ratinhos "muito parecidos", com a mesma proteína funcional, "o modelo de vírus" nos roedores "serve para extrapolar para o que acontece na infeção humana", sustentou à Lusa o investigador.
Pedro Simas explicou que se a função da proteína for inibida, o vírus não sobrevive e o tumor morre.
"Por isso, é um alvo terapêutico muito bom", frisou.
Partindo deste pressuposto, os investigadores criaram o modelo de vírus animal para testar moléculas inibidoras da proteína e ver como esta se comporta.
Os resultados do trabalho, realizado pelo Instituto de Medicina Molecular em colaboração com a Harvard Medical School, nos Estados Unidos, foram publicados na revista científica PLOS Pathogens.
Uma equipa de investigadores da Universidade de Washington, Estados Unidos, descobriu como converter a gordura corporal “má” em gordura “boa”, permitindo queimar mais calorias e atrasar o aumento de peso, num estudo conduzido em ratos.
Estes resultados abrem caminho para a possibilidade de desenvolver tratamentos mais eficazes para a obesidade e para a diabetes associada ao aumento de peso em pessoas, segundo os autores.
A gordura má, designada por gordura branca, é responsável pelo armazenamento de calorias e aloja-se na barriga, anca e coxas, enquanto a gordura castanha, ou gordura boa, encontrada na zona do pescoço e ombros, ajuda a queimar calorias através de um processo que gera calor.
No estudo, cujos resultados foram publicados hoje na revista Cell Reports, a equipa liderada por Irfan J. Lodhi bloqueou a atividade de uma proteína presente na gordura branca, transformando-a em “gordura bege”. Esta alteração causou um aquecimento das células que acelerou a queima de calorias.
Lodhi explica que a gordura castanha dos ratos tem níveis reduzidos de uma proteína chamada 'PexRAP' e, quando os animais são colocados num ambiente frio, esses níveis diminuem também na gordura branca, aproximando o seu comportamento ao da gordura boa.
“O frio induz a gordura castanha e bege a queimar energia armazenada e produzir calor”, clarifica o investigador.
Nas mesmas experimentações, a equipa descobriu que os ratos modificados tinham mais gordura bege, queimavam mais calorias e eram mais magros em comparação com os outros, mesmo quando comiam a mesma quantidade de comida.
Este tipo de gordura foi descoberto em humanos adultos em 2015 e, apesar de constituir uma espécie de nível intermédio, o seu funcionamento assemelha-se mais ao funcionamento da gordura castanha, constituindo, na opinião de Lodhi, uma potencial forma de combater a obesidade.
“A nossa investigação sugere que ao atacar uma proteína na gordura branca, conseguimos converter gordura má num tipo de gordura que combate a obesidade”, explica o investigador, acrescentado que se o mesmo puder ser feito de forma segura em humanos, será mais fácil perder peso.
Nos Estados Unidos, mais de dois terços dos adultos têm excesso de peso ou são obesos, e cerca de 30 milhões de pessoas têm diabetes, números que poderão diminuir, segundo os autores, com a descoberta de terapias que tenham o mesmo efeito de conversão.
“O desafio será encontrar formas seguras de fazer isso sem causar sobreaquecimento ou febres nas pessoas, mas os farmacêuticos têm agora um bom alvo”, conclui Lodhi.
Imagine olhar para dentro do cérebro e observar a atividade de centenas de neurónios de um animal em movimento? Isso já é possível com miniaturas de microscópios móveis acoplados à cabeça de ratinhos, o que levou à descoberta de um mapa usado pelo cérebro para guiar os nossos movimentos.
Um novo estudo revelou que no estriado, uma estrutura que se localiza numa zona profunda do cérebro, os movimentos que um animal pode fazer estão representados num mapa de atividade neural. Se pensarmos na atividade neural como sendo as coordenadas deste mapa, então os movimentos mais parecidos têm coordenadas semelhantes, estando assim mais próximas no mapa, enquanto as ações que são mais diferentes têm coordenadas mais distantes e estão por isso mais afastadas.
O estudo, liderado por cientistas da Universidade de Columbia e do Centro Champalimaud, foi publicado hoje (30 de Agosto) na revista científica Neuron.
"Dos ouvidos aos dedos dos pés, cada movimento que o corpo faz é determinado por um padrão único de atividade de células cerebrais, mas até agora, e usando a analogia do mapa, só sabíamos algumas latitudes e longitudes, mas não conhecíamos o mapa. Este estudo permitiu-nos ver este mapa pela primeira vez”, disse Rui Costa, neurocientista e investigador principal no Centro Champalimaud, em Lisboa e no Columbia’s Mortimer B. Zuckerman Mind Brain Behavior Institute, nos Estados Unidos.
Rui Costa e o seu grupo realizaram grande parte deste estudo no Centro Champalimaud, antes de completar a análise nos Estados Unidos.
Um snapshot da atividade neural
O estriado é uma estrutura do cérebro que se sabe estar envolvida em muitos processos, nomeadamente na aprendizagem e aperfeiçoamento de movimentos. Por exemplo, um pianista só consegue aquele concerto perfeito graças à atividade do seu estriado.
Alguns estudos iniciais argumentaram que existiam dois tipos de neurónios no estriado responsáveis pelo envio de dois tipos de sinais: "ir" ou "não ir", e que era da combinação desses dois sinais - que funcionavam como um acelerador e um travão – que resultava num movimento. No entanto, o trabalho de Rui Costa e da sua equipa tem revelado que a realidade é muito mais complexa e que ambos os tipos de neurónios contribuem para o movimento de maneira muito específica.
"O que importa não é quão ativa cada população de neurónios está, mas sim os seus padrões específicos de atividade", explica o investigador. "Por outras palavras, o importante é saber quais são os neurónios que estão ativos num momento particular, e que tipos de movimentos, ou comportamentos, corresponderam a essa atividade".
A chave para observar a atividade neural durante o comportamento natural foi conseguir que ratinhos pudessem mover-se livremente e naturalmente. Para isso, a equipa acoplou miniaturas de microscópios móveis às cabeças dos ratinhos. Isto permitiu registar os padrões individuais de atividade de até 300 neurónios no estriado. Ao mesmo tempo, cada ratinho estava equipado com um acelerómetro, como um Fitbit em miniatura, que registava os movimentos do ratinho.
"Já tínhamos registado a atividade de neurónios do estriado, mas neste estudo pudemos registar 200 a 300 neurónios ao mesmo tempo, com a resolução de célula única. Isto permitiu-nos olhar para a dinâmica populacional com grande detalhe dentro de uma estrutura cerebral profunda.
Além disso, para este estudo modificámos geneticamente os ratinhos para que os seus neurónios fossem visíveis quando estavam ativos, o que nos permitiu medir populações neuronais específicas. Isto deu-nos um acesso sem precedentes à dinâmica de uma grande população de neurónios numa estrutura profunda do cérebro," diz Gabriela Martins, investigadora pós-doutorada e um dos principais autores deste estudo.
No caminho para a compreensão da dinâmica estriatal
Com o contributo de Liam Paninski, um estatístico e investigador principal no Zuckerman Institute, os cientistas desenvolveram um método matemático para remover qualquer ruído de fundo que os dados tivessem. O resultado foi uma janela clara dos padrões de atividade neuronal, que poderão servir de base para um catálogo completo ou repertório de movimentos.
"Para cada tipo de movimento, há um padrão particular de atividade cerebral. Assim, se observamos um determinado padrão, podemos prever o tipo de movimento que irá resultar", acrescentou Rui Costa.
No estriado, há uma organização que não é aleatória, onde os neurónios que estão ativos em conjunto tendem a estar mais próximos no espaço. "Isto, novamente, implica que podemos aprender muito mais sobre a atividade neuronal e como ela se relaciona com o comportamento ao considerar padrões detalhados de atividade de conjuntos de neurónios em vez de olhar para a sua atividade média", diz Andreas Klaus, investigador pós-doutorado e um dos principais autores deste estudo.
As laranjas são um dos alimentos ricos em vitamina C
Uma equipa de cientistas dos EUA explica, num artigo na edição desta semana da revista Nature, como é que os níveis de vitamina C podem influenciar o desenvolvimento da leucemia, um tipo de cancro que afecta células do sistema imunitário (os leucócitos).
Seremos a única espécie que tem doença de Alzheimer? Uma equipa de cientistas dos Estados Unidos também detectou agora acumulações indevidas de proteínas em cérebros de chimpanzés, à semelhança do que ocorre nas pessoas.
Tal como os humanos, os chimpanzés têm sinais distintivos da doença de Alzheimer
Os chimpanzés são os nossos parentes vivos mais próximos. E parece que tais semelhanças também se estendem à doença de Alzheimer. Características desta doença, que tem aumentado nos seres humanos, também existem nestes nossos primos. Embora haja algumas diferenças, as parecenças detectadas, e referidas num artigo científico na revista Neurobiology of Aging, podem permitir que os chimpanzés contribuam (ainda mais) para a investigação, neste caso da doença de Alzheimer. Afinal, não há uma cura para ela, apenas medicamentos que abrandam os sintomas.
Não se sabe muito bem o que causa estas duas acumulações, mas já se percebeu que levam à morte de neurónios e que podem ser encontradas em regiões cerebrais responsáveis pela formação de memória, como o hipocampo. No caso dos depósitos de beta-amilóide, podem espalhar-se ainda para outras regiões do cérebro. Tudo isto leva à doença de Alzheimer, que surge, na maioria das vezes, depois dos 65 anos e se caracteriza por lapsos de memória, esquecimentos de pessoas ou lugares e perda progressiva de competências sociais e quotidianas. No fim, os doentes tornam-se dependentes dos outros.
Desta vez, um grupo de cientistas dos Estados Unidos “fez a autópsia” a 20 cérebros de chimpanzés dos 37 aos 62 anos. Uns morreram de forma natural e outros por eutanásia.
E não é assim tão vulgar fazer análises a cérebros de chimpanzés, como se lê no artigo científico: “Até à data, menos de 50 cérebros de primatas mais velhos foram examinados para a patologia da doença de Alzheimer em estudos anteriores.” Os cérebros dos chimpanzés para investigação não são muitos. “Os exemplares de cérebros dos grandes primatas, particularmente de indivíduos mais velhos, são incrivelmente escassos, por isso um estudo desta dimensão é raro”, explica Mary Raghanti, antropóloga da Universidade Estadual de Kent e coordenadora do trabalho, num comunicado da Universidade Estadual da Geórgia (ambos nos EUA).
Quanto à doença de Alzheimer nestes primatas, apenas num estudo de 2008 (de outra equipa) se encontraram emaranhados neurofibrilares no cérebro de um chimpanzé. Contudo, como tinha sofrido de um derrame cerebral anterior à morte, os cientistas pensavam que o que tinham encontrado estava associado a esse derrame.
O que se viu desta vez? Os cientistas observaram emaranhados neurofibrilares e placas de beta-amilóide nos cérebros dos chimpanzés, tal como se pode ver nos humanos. Também perceberam que os chimpanzés acumularam beta-amilóide nos vasos sanguíneos. “As conclusões do nosso estudo mostram que os chimpanzés têm características patológicas muito visíveis da doença de Alzheimer”, diz ao PÚBLICO Melissa Edler, neurocientista da Universidade de Kent e principal autora do trabalho.
Proteína tau nos neurónios (a preto) e depósitos de beta-amilóide nos vasos sanguíneos (a vermelho)
Doença de Parkinson em vista
A principal diferença entre a doença de Alzheimer nos humanos e as características detectadas nos chimpanzés está na beta-amilóide. Nos chimpanzés, a beta-amilóide acumulou-se mais nos vasos sanguíneos do que em placas. Além disso, nos chimpanzés existia um aglomerado de tau nas projecções que saem dos neurónios, algo que não se verifica nos humanos. Por isso, os cientistas chamam a esta doença nos chimpanzés “patologia dos emaranhados neurofibrilares”. Quanto aos sintomas desta doença, a equipa ainda não tem dados comportamentais e cognitivos para estes primatas.
Placas de beta-amiloide
Este estudo pode ser também uma boa notícia para nós. Afinal, estima-se que em 2015 a doença de Alzheimer afectasse 44 milhões de pessoas no mundo e 140 mil em Portugal, segundo a organização Alzheimer’s Disease International. Também se prevê que em 2050 o número de pessoas com demências seja de mais de 131,5 milhões de doentes, a maioria das quais terá Alzheimer.
“A doença de Alzheimer tem sido considerada uma doença unicamente humana”, diz Melissa Edler. A neurocientista explica que, se esta doença for mesmo única na nossa espécie, devem-se estudar outras espécies e perceber o que protege os seus cérebros, para depois se encontrarem formas de tratamentos para os humanos. Mas esta descoberta pode alterar o rumo da investigação: “Os chimpanzés são os nossos parentes vivos mais próximos e, como tal, oferecem muitas possibilidades de nos ajudarem a perceber esta doença.”
Proteína beta-amilóide acumulada nos vasos sanguíneos
Acrescenta ainda que este trabalho também é importante para os próprios chimpanzés. “Estes animais envelhecem nos institutos de investigação, nos abrigos e em jardins zoológicos por todos os Estados Unidos, e esperamos que este estudo informe os seus tratadores. Assim podem estar mais preparados para cuidar da saúde cognitiva dos chimpanzés em função da sua saúde física.”
Melissa Edler revela que já está a estudar, no cérebro do mesmo grupo de 20 chimpanzés, se existiu uma diminuição de neurónios, tal como acontece com os doentes de Alzheimer. Se esta diminuição existiu, pode significar que os chimpanzés tinham sintomas de demência, como os humanos. E a cientista avisa que não quer parar a investigação nesta doença: o seu próximo projecto será perceber se os chimpanzés também sofrem da doença de Parkinson.
Ainda que os diamantes criados só tenham alguns nanómetros de diâmetro, a experiência conseguiu provar que o fenómeno existe e que são precisas pressões bem mais elevadas do que o que se pensava inicialmente.
Na imagem, retirada da página do Centro de Aceleração Linear de Stanford (SLAC), é ilustrado o interior do planeta Neptuno, onde ocorrem as "chuvas de diamante"
Chamam-lhe “chuva de diamantes” mas trata-se, mais especificamente, de um afundamento de diamantes de grandes dimensões pelos oceanos (compostos por água, amoníaco e hidrocarbonetos) de Úrano e Neptuno — os dois planetas mais longínquos no Sistema Solar, se deixarmos de parte o anão Plutão — até chegarem ao núcleo sólido. Segundo um estudo publicado esta semana na revista Nature Astronomy, uma equipa de investigadores conseguiu recriar as condições que existem “a cerca de dez mil quilómetros abaixo das superfícies” dos dois planetas e assistiu, em tempo real, à formação de pequenos diamantes.
A vida dos dodós está a deixar de ser uma grande incógnita para a ciência. Parece que esta ave não só mudava mesmo de penas, como crescia a duas velocidades – primeiro mais depressa, depois mais lentamente.
Margarida Marques
Já não podemos dizer que os ossos são “o pouco” que resta dos dodós porque, graças a eles, passámos a conhecer o seu ciclo de vida. Da ovulação à mudança das penas, a primeira análise histológica dos ossos dos dodós traz novidades sobre esta ave endémica da ilha Maurícia, extinta há mais de 350 anos.
Os ossos são oriundos de vários pontos daquela ilha do oceano Índico (a Leste de Madagáscar) e maioritariamente de aves juvenis, tendo os resultados deste estudo sido publicados na última edição da revista Scientific Reports (do grupo da Nature). A época de reprodução dos dodós começava em Agosto, com a ovulação das fêmeas e, depois de os ovos serem chocados, as crias cresciam rapidamente – a tempo de terem um porte suficiente para sobreviverem às chuvas e ventos fortes de Novembro a Março. A partir de finais de Março, começavam a crescer penas novas para que, no fim de Julho, a ave estivesse pronta para a época de reprodução seguinte.
Reconstituição do dodó em Mare aux Songes, um local onde foram encontrados vários exemplares
Mas, antes de mais, por que se extinguiu esta ave? O dodó foi caçado, o seu habitat destruído e os ovos devorados por mamíferos invasores como ratos, macacos, porcos, cabras ou veados levados por colonizadores (portugueses, holandeses, franceses e ingleses) para a ilha Maurícia. Resultado: em cem anos, o Raphus cucullatus desapareceu. Porém, não foi esquecido e agora pode mesmo ser lembrado por mais motivos.
Apesar de não ter sido a única ave da ilha Maurícia a desaparecer, Alan Cooper (biólogo neozelandês da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e que não fez parte deste estudo) salientou que o fascínio pelo dodó se deve à mensagem ecológica que difunde: foi dos primeiros casos conhecidos de uma extinção que presenciámos e até para qual contribuímos. “Foi a primeira vez que os europeus viram alguma coisa a extinguir-se em tempo real”, dizia Alan Cooper em tempos ao jornal The New York Times.
Reconstituição de um dodó e a sua cria no ninho
Mas o que sabemos hoje desta ave não voadora que, como diz a bióloga e historiadora de ciência portuguesa Clara Pinto Correia, parecia um peru estranho com cara de pombo-guerreiro? Ainda que haja muitos mistérios, vai-se sabendo cada vez mais.
Os ossos de 22 dodós que tinham sido descobertos na ilha Maurícia encontravam-se no pântano Mare aux Songes e em grutas. Cinco fémures, 14 tíbio-tarsos, dois tarso-metatarsos e um úmero foram agora facilmente identificados graças às descrições anatómicas rigorosas de Hugh Edwin Strickland e Alexander Melville (1848) – um dos trabalhos seminais da Universidade de Oxford acerca do comportamento desta ave e cujo objectivo era distinguir o mítico do real. Mas, desta vez, foram investigadores do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade da Cidade do Cabo (África do Sul) e do Museu de História Natural de Londres que arregaçaram as mangas.
A equipa de Julian Hume – do Museu de História Natural londrino e um grande especialista em dodós que tem procurado cruzar as diferentes peças deste puzzle (desde as ciências naturais e sociais até às artes) – analisou 22 pedacinhos de ossos removidos dos 22 animais. As amostras foram banhadas em etanol e acetona para lhes remover todo e qualquer vestígio orgânico antes da observação microscópica.
A observação das amostras pela lente de um microscópio petrográfico permitiu identificar assim diferentes fases de crescimento e de maturidade dos exemplares em causa – desde o juvenil até ao adulto maduro. Por exemplo, um tarso-metatarso bastante desenvolvido pode denunciar as adaptações que foram necessárias para garantir a locomoção desta ave que não voava e arrastava a sua barriga pelo chão quando andava. Machos e fêmeas não eram muito diferentes, de maneira que instrumentos ópticos como o microscópio tornam-se excelentes aliados para determinar o sexo dos dodós.
Um animal a duas velocidades
Estudar dodós implica sempre revisitar memórias de quem o viu ao vivo. Ora no século XVII, como diz Clara Pinto Correia, os bons escritores eram os marinheiros. Em Dodologia – Um Voo Planado sobre a Modernidade (editado em 2001 pela Relógio d’Água), a bióloga portuguesa diz que “as narrativas de viagem eram os grandes best-sellers deste período”.
Naquela altura, as referências de testemunhas oculares eram muitas e variadas – “três ou quatro penas pretas” (no lugar das asas) e uma cauda com “quatro ou cinco plumas onduladas e de cor cinzenta” são apenas alguns exemplos referidos no artigo científico na Scientific Reports.
Mas ainda que os testemunhos dos marinheiros sejam uma fonte explícita do artigo, não eram poucas as vezes em que a fantasia e realidade se confundiam, por isso um estudo bem fundamentado teria de ir mais além. Aqui, o caminho trilhado foi o estudo dos tecidos ósseos. Nas amostras analisadas detectaram-se grandes cavidades no seu revestimento exterior e acredita-se que isso poderá estar relacionado com a absorção do cálcio pelas novas penas. Isto porque o mesmo já se verificou em aves como o pombo-doméstico ou os pinguins.
Assim, provada a mudança de penas (de Março a Julho) que antecedia a época da reprodução, torna-se compreensível a diversidade de cores da ave que surge nos relatos dos marinheiros. Se a cor das penas ia mudando ao longo do ano, era normal que os dodós fossem descritos e pintados de maneiras diferentes.
Acredita-se que os ossos mais jovens eram de animais que, ainda assim, já tinham atingido a maturidade sexual. Tinha um tipo de tecido incorporado no tecido ósseo compacto (tem esta designação porque a parte exterior parece não ter poros ou canais) que sugere um desenvolvimento inicial acelerado. Esta característica não é inédita, uma vez que se encontra em outras aves modernas não voadoras, como a avestruz e a ema.
Por isso, ao contrário das grandes aves residentes em ilhas, os dodós eram “crianças” por pouco tempo. Os autores do trabalho pensam que, uma vez que só com um bom porte físico, as aves conseguiriam resistir à rigorosa época dos ciclones que se avizinhava. E o que não deixa de ser curioso é que, a partir daqui, era como se a sua formação óssea entrasse em câmara lenta.
E porquê essa lentidão? Pensa-se que esse ritmo estava relacionado com “a falta de predadores” e as dimensões reduzidas da ilha Maurícia – “onde até à chegada dos humanos, aves adultas não tinham quaisquer predadores naturais”.
Embora reconstituir na perfeição a ecologia dos dodós não seja possível, pode traçar-se um cenário do clima da ilha. E foi o que os autores deste novo estudo procuraram fazer para perceber melhor como o ecossistema condicionava o comportamento desta ave.
Com um bico espesso que terminava em forma de gancho, comia frutos, sementes, raízes, folhas, marisco e... pedras. Tal como fazem as galinhas, que ingerem areia e pequenas pedras para facilitar a digestão dos alimentos, os dodós também o faziam. Estas pedras (gastrólitos) ficam alojadas na cavidade gástrica. Mas o alimento poderia não estar assegurado todo o ano. Com a possibilidade de ciclones no Verão, era provável que a chuva e os ventos fortes condicionassem a disponibilidade de recursos na ilha entre Novembro e Março.
A descoberta da extinção
Clara Pinto Correia recorda que os portugueses chamavam ao dodó “pássaro doudo”. “O dodó não tinha qualquer noção de medo, comportando-se como se fosse ‘parvo’ ou ‘fraco da ideia’, conforme vários marinheiros o descreveram”, escreveu a bióloga. “O dodó que existe agora nas nossas vidas é uma invenção do século XX. (…) O que fizemos com o que recuperámos do esquecimento e projectámos nas lógicas da vida presente foi transformar uma ave morta numa vedeta mediática e numa metáfora universal.”
Apesar de hoje não haver dúvidas de que houve uma extinção e que a responsabilidade foi nossa, nem sempre foi assim. No século XVII, o cristianismo não admitia que se falasse em “extinção de espécies”. Deus era o criador de todos os animais e plantas e não era concebível que os humanos fossem capazes de destruir o que Ele tinha criado. No livro Lost Land of the Dodo (2008), Anthony Cheke e Julian Hume explicam como é que a extinção do dodó atingiu a visão que se tinha do mundo naquela época: “Do ponto de vista teológico, que era o dos líderes sociais ou mesmo de todos os exploradores e naturalistas, a extinção não podia acontecer nem aconteceu.”
O certo é que, desde cedo, as ilhas despertaram o interesse dos naturalistas e a Maurícia não foi excepção. “A Maurícia tornou-se a ilha não só onde a extinção ocorreu, mas onde ela foi, por assim dizer, descoberta”, afirmavam ainda os dois cientistas autores do livro.
Esqueleto de dodó num museu na África do Sul
O último dodó foi visto em 1662, mas vamos depois “encontrá-lo” em 1865 em As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Já o poeta inglês Hilaire Belloc dedicou-lhe um poema em 1896: “Calou-se a voz esganiçada/Por toda a eternidade/Mas, no museu, bico e ossos/Estão pra posteridade.”
Apesar ter sido um endemismo da ilha Maurícia, há vestígios do dodó por todo o mundo, em mais de duas dezenas de museus. O Museu de História Natural de Londres, o Museu de Zoologia da Universidade de Cambridge ou o Museu Americano de História Natural (Nova Iorque) são alguns dos que têm esqueletos quase completos.