Um grupo de investigadores publicou um estudo para avaliar o impacto da utilização de células do sangue do cordão umbilical expandidas na qualidade de vida dos doentes no pós-transplante. As explicações são de Alexandra Machado, Diretora Médica da Crioestaminal.
O possível surgimento de infeções e o longo tempo de hospitalização podem complicar seriamente o período pós-transplante. Até ao momento do transplante, o doente enfrenta um longo processo, que envolve um tempo de espera e uma gestão de emoções, como o stress e a ansiedade e, na maioria das vezes, o processo pós-transplante é longo e doloroso.
Neste sentido, têm sido desenvolvidos alguns estudos que pretendem melhorar a qualidade de vida dos doentes transplantados, diminuindo o risco de infeções e o tempo de hospitalização.
Recentemente, um grupo de investigadores publicou um estudo no jornal médico "Biology of Blood and Marrow Transplantation" que avaliou o impacto da transplantação de um produto resultante da expansão de células estaminais do sangue do cordão umbilical, chamado NiCord, na qualidade de vida dos doentes no pós-transplante.
O processo de expansão é realizado em laboratório através de metodologias que permitem a multiplicação das células. Os autores defendem que um aumento significativo do número de células transplantadas, acelera a recuperação da produção de células sanguíneas pela medula óssea e, consequentemente, a eficiência dos transplantes.
O estudo consistiu na comparação de um grupo controlo de doentes que receberam um transplante convencional de sangue do cordão umbilical, com um grupo que recebeu esse produto, com o objetivo de compreender as alterações relativamente ao tempo de recuperação do enxerto e de hospitalização e quanto ao número e severidade de infeções contraídas pelos doentes no período pós-transplante.
Relativamente ao tempo de recuperação do enxerto, observou-se uma diminuição de 26 dias no grupo transplantado de forma convencional, para 12,5 dias nos doentes que receberam o novo produto. A melhoria no tempo de recuperação teve um impacto positivo na incidência e severidade das infeções nos primeiros 100 dias pós-transplante. No grupo transplantado com as células estaminas expandidas, o número de infeções bacterianas diminuiu significativamente, bem como a sua severidade. Quanto ao tempo de hospitalização, os doentes ficaram menos 20 dias hospitalizados quando comparados com os doentes do grupo controlo.
O estudo é uma consequência dos resultados favoráveis de ensaios clínicos efetuados em humanos, que confirmaram a segurança da utilização do NiCord, e comprovaram a melhoria do tempo de recuperação do enxerto após o transplante com as células expandidas.
Esta nova solução permite aumentar o número de células antes do transplante e, assim, ultrapassar os constrangimentos relacionados com a limitação do número de células, situação comum em adultos com maior peso corporal.
Os estudos clínicos realizados com recurso a células do sangue do cordão umbilical, juntamente com o novo produto de expansão das células, sugerem que é possível aumentar a qualidade de vida dos doentes transplantados e o número de pessoas que podem beneficiar de um transplante hematopoiético.
A Artrite Reumatoide é uma doença autoimune sistémica, crónica e progressiva de etiologia ainda desconhecida. As explicações são da médica Maria José Rego de Sousa.
O sistema imunitário tem como função a proteção do nosso organismo perante vírus, bactérias e fungos que provocam doenças e infeções. Os anticorpos são essa barreira protetora. Na Artrite Reumatoide, os anticorpos atacam as articulações e o revestimento do coração e pulmões do próprio organismo, numa resposta imunitária dirigida contra os próprios tecidos.
O surgimento desta doença resulta de uma interação complexa de múltiplos fatores genéticos, imunológicos e ambientais, cuja influência exata na origem da doença está ainda por determinar. Estima-se que em Portugal existam 40.000 casos clínicos, maioritariamente no sexo feminino.
As primeiras manifestações da doença são dores nas pequenas articulações das mãos e pés, com instalação progressiva de rigidez matinal e tumefação, com crescente incapacidade funcional. Pode também afetar os ombros, joelhos, cotovelos, ancas e coluna cervical e ser acompanhada de outros sintomas como febre baixa, fadiga, mal-estar geral, perda de apetite e de peso.
A Artrite Reumatoide apresenta como manifestação predominante o envolvimento repetido e crónico das estruturas articulares e periarticulares, podendo ser monoarticular (se envolver apenas uma articulação), oligoarticular (envolvendo duas ou três articulações) ou poliarticular (se envolver mais do que três). Pode ainda ser simétrica, a tipologia mais comum e envolve articulações de ambos os lados do corpo ou assimétrica.
A evolução da doença origina deformações graves nas pequenas articulações das mãos com dores constantes, e impedindo frequentemente a execução de simples tarefas diárias e incapacidade laboral. Em alguns casos a inflamação pode originar miocardite (inflamação do musculo do coração), pleurite (inflamação da pleura, membrana que envolve os pulmões), polineurite (inflamação de nervos) e a queratoconjuntivite (inflamação da conjuntiva e esclerótica dos olhos).
Quando não é diagnosticada e tratada precocemente, idealmente nos 3 meses desde o aparecimento dos sintomas, a Artrite Reumatoide aumenta a probabilidade de erosões ósseas e incapacidade funcional, reduzindo a qualidade de vida dos doentes.
Nos últimos anos, o tratamento da Artrite Reumatoide evoluiu significativamente, em consequência da sensibilidade e especificidade dos testes laboratoriais para a avaliação da actividade inflamatória, do conhecimento dos fatores de pior prognóstico, do uso precoce de fármacos antirreumáticos de ação lenta e do aparecimento de terapêutica combinada.
Os três tipos de vírus que causam esta inflamação no fígado podem ser transmitidos através do contacto sexual. Saiba o que pode fazer para se prevenir nesse e noutros contextos.
A hepatite é uma inflamação do fígado. Tem diferentes causas como, por exemplo, o consumo de álcool, alimentação inapropriada e diversos vírus. Em termos de relações sexuais, a hepatite A, a hepatite B e a hepatite C, uma patologia que afeta cerca de 100.000 portugueses, são as mais perigosas porque o vírus da hepatite está presente no esperma, nos corrimentos vaginais e no sangue. Porém, há diferenças consideráveis entre os três tipos de hepatite:
- Hepatite A
A hepatite A é provocada por um picornavírus. O vírus encontra-se nas fezes e é transmitido através destas quando as condições sanitárias são precárias. Em muitos casos, os moluscos oriundos de águas poluídas com fezes estão também contaminados. Esta doença não é transmitida por contacto sexual, mas assegure-se que cuida bem da sua higiene. Use um preservativo durante o sexo anal e nunca tenha sexo anal ou oral sem a devida preparação.
O pénis precisa de ser muito bem lavado. Qualquer contacto com as fezes de uma pessoa infectada é perigoso. Isto também inclui lavar as mãos em casas de banho públicas. Se tiver relações sexuais no calor da paixão, tem de lavar as mãos imediatamente depois do sexo.
O vírus está presente nas fezes de uma pessoa infetada durante, pelo menos, três semanas antes de se desenvolverem quaisquer sintomas. Assim, não há maneira de determinar se alguém é ou não portador do vírus. Não há cura e a doença raramente provoca uma condição crónica, que pode ser fatal, pelo que a prevenção se reveste de especial importância.
- Hepatite B
A hepatite B é provocada por um vírus da família dos hepadnavírus, mais precisamente o ortohepadnavírus. É transmitido através do sangue, esperma ou fluidos vaginais, saliva, urina e leite materno. O vírus é facilmente transmitido durante as relações sexuais. A maioria das pessoas infectadas com o vírus recupera sem desenvolver quaisquer sintomas e torna-se imune. Os portadores da infeção correspondem a 10% das pessoas que recuperaram da doença.
Muitas sofrem da chamada hepatite crónica. Estas pessoas em particular têm que ser muito cuidadosas durante a relação sexual. O cenário ideal seria encontrarem uma pessoa imune ao vírus. A imunidade é conseguida através da vacinação contra o vírus. Geralmente, é obrigatória a vacinação das crianças, membros da família de pessoas com infeção crónica e os seus parceiros sexuais, pacientes que efetuem diálise e trabalhadores do sector da saúde.
Outras pessoas são vacinadas por sua iniciativa. Depois da doença se desenvolver não há cura. Alguns medicamentos antivirais são eficazes para alguns pacientes. Esta doença pode, contudo, ser controlada, desde que devidamente monitorizada e acompanhada. Estima-se que afete mais de 100.000 portugueses.
«Calculamos que à volta de 1% da população portuguesa tem o vírus como portador crónico, o que significa que tem sempre consigo o vírus», afirmou, numa intervenção pública, Rui Tato Marinho, presidente da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF), em 2009.
- Hepatite C
A hepatite C é provocada por um vírus da família dos flaviviridus, mais precisamente o hepacivírus. Estes vírus provocam várias doenças, como é o caso da febre de dengue e da febre do Nilo. Disseminam-se através de mosquitos. Entre os humanos, transmite-se através do contacto com sangue infetado, o que não significa que esteja propriamente seguro. É frequente aparecerem pequenas lesões durante o sexo devido à fricção.
Pode também haver vestígios de sangue no esperma e na saliva (por exemplo, se as gengivas estiverem a sangrar). Assim, é possível ser infetado durante o sexo. À semelhança das infeções anteriormente descritas, muitas pessoas nem se dão conta que estão infetadas e recuperam facilmente, enquanto outras podem ter problemas graves. É muito perigoso se também estiver infectado com hepatite A ou B.
Nunca deve sobrecarregar o seu fígado, pelo que consumir álcool e ingerir comidas gordurosas em excesso são comportamentos a evitar. O tratamento da hepatite C inclui uma combinação de medicamentos, incluindo injeções de peginterferão e cápsulas de ribavirina. O tratamento tem uma taxa de eficácia de 50%, dependendo do genótipo do vírus.
A hepatite C afeta entre 170 a 200 milhões de pessoas, cerca de 3% da população mundial. Em Portugal, estima-se que, atualmente, o número de infetados ronde os 100.000, provocando um número aproximado de 1.000 mortes por ano. Nos países desenvolvidos, como é o caso de Portugal, a hepatite C continua a ser a causa mais frequente de cancro do fígado e de transplante hepático.
Sabia que apenas um dia de praia pode trazer benefícios para a sua saúde? A água do mar é uma fonte de bem estar e usada para várias terapias. Descubra os seus principais benefícios.
Pela sua própria composição (sal e iodo) a água do mar foi uma das primeiras terapias usadas pelo homem tanto para fins estéticos, como para fonte de bem-estar. As algas, com grande potencial farmacológico e cosmético, são ricas em proteínas, vitaminas e minerais indispensáveis à nossa epiderme. Mas para além dos benefícios que trazem à pele, quando ingeridas, as algas são eficazes na redução do colesterol e ajudam a prevenir a hipertensão. A água do mar além de rica em cálcio, ferro, magnésio, sódio, zinco e cobre é também revitalizante, anti-infecciosa, anti-stress, analgésica, bom para o mau humor, depressão, …
Para além disso, o sal é um exfoliante natural e favorece o rejuvenescimento celular.
Conheça agora mais a fundo os benefícios da água do mar:
METABOLISMO
A água do mar contém minerais como o iodo, que estimula a tiróide, uma glândula que regula o metabolismo. A necessidade de adaptar-se à mudança de temperatura serve para aumentar o ritmo do metabolismo e tem um efeito muito positivo na circulação do sangue.
OSSOS E ARTICULAÇÕES
Para mover-se dentro de água é necessário mais esforço, o que faz com que pessoas com problemas de obesidade possam realizar um exercício físico mais intenso, mas com baixo impacto. O esforço necessário para manter o equilíbrio no vai e vem das ondas também tonifica os músculos. O mar tem também um efeito analgésico, indicado para pessoas com dores e problemas musculares, articulares, vertebrais, reumáticas, circulatórias, pós-traumáticas e pós-cirúrgicas. Está, de facto, comprovado que a água do mar pode abrandar o avanço do reumatismo a longo prazo, sobretudo se o tratamento é acompanhado de uma dieta e hábitos de vida saudáveis.
CIRCULAÇÃO SANGUÍNEA
Tal como já foi dito anteriormente a água fresca do mar e a posterior adaptação do corpo produzem uma benéfica massagem sobre o sistema circulatório: primeiro o sangue flui para a pele e logo retorna aos órgãos. Isto é muito útil para as pessoas com problemas circulatórios nas pernas. Os que sofrem de hipertensão também acabam por ser beneficiados.
Apenas 23 das 265 estações de tratamento do país reutilizam águas residuais. A associação ambientalista Zero diz que Portugal tem de estar mais bem preparado (e ainda não está) para enfrentar cenários de escassez de água.
Margarida Marques
Campos de golfe podem ser regados com águas residuais tratadas
No panorama nacional, os melhores resultados são apresentados pelas Águas do Algarve – “a entidade que mais se destaca pela eficiência” e “trata 99,9% das águas residuais que dão entrada nas ETAR sob sua gestão”, de acordo com a Zero.
No Algarve, a percentagem de água reutilizada é de 3,5% na lavagem de equipamentos, por exemplo, ou na rega de espaços verdes de 13 ETAR - Almargem, Vila Real de Santo António, Loulé, Quinta do Lago, Vilamoura, Olhão Nascente, Faro Noroeste, Albufeira Poente, Ferreiras, Vale Faro, Boavista, Silves e Lagos. Esta água está também a servir a Sociedade Hoteleira São Lourenço, a Infraquinta [empresa do Município de Loulé que gere os serviços urbanos da Quinta do Lago] e a Herdade dos Salgados.
Carla Graça garante que, no caso do Algarve, se pode “juntar o útil ao agradável”, uma vez que a aposta na reutilização se pode aliar a níveis de consumo de água superiores quando o número de turistas aumenta. “Na época em que há mais utilizadores, pode-se apostar mais na reutilização, nomeadamente na rega dos vários campos de golfe. Assim, não só se combate o desperdício, como se promove um turismo mais sustentável”.
A meta comunitária para 2025 é alcançar os 6 mil milhões de metros cúbicos anualmente reutilizados, com o auxílio de tecnologias seguras e eficientes. E se a previsão é de que Portugal seja um dos países mais afectados pela escassez hídrica nos próximos anos, também é considerado um dos com maior potencial nesta área, diz a Comissão Europeia.
As medidas propostas pela Zero vêm no seguimento não só das principais acções do pacote da economia circular da União Europeia, mas também dos índices de escassez da ONU – o WEI+ (Water Exploitation Index) - das bacias hidrográficas dos rios Leça, ribeiras do Oeste, Tejo, Sado, Guadiana e ribeiras do Algarve, “que se encontram na categoria de ‘escassez severa’. Ou seja, são regiões com um consumo entre 20% e 40% dos seus recursos renováveis.
Com as alterações climáticas, as secas tendem a tornar-se mais graves e frequentes e, neste ano, no dia mundial da água (22 de Março), Bruxelas anunciou já estar a desenvolver requisitos mínimos comuns de qualidade para reutilização segura da água.
Estudo publicado na revista Nature estabelece uma ligação surpreendente entre o esperma do musgo e os neurónios no cérebro dos animais mostrando que usam a mesma proteína e o mesmo mecanismo.
Imagem microscópica de esporos de musgo fertilizados
Há umas proteínas chamadas “receptores do glutamato” que, nos animais, desempenham um papel importante no funcionamento dos neurónios dentro do cérebro, “ajudando” em áreas como a memória e aprendizagem. As plantas também têm estes receptores essenciais para o sistema nervoso dos animais. Para quê? Segundo um estudo publicado esta segunda-feira na revista Nature, assinado por investigadores portugueses, o musgo usa estas proteínas para levar o esperma a fazer as manobras necessárias para chegar aos órgãos femininos e assegurar descendência.
Primeiro o óbvio mas, possivelmente, ignorado por algumas pessoas: sim, as plantas também procriam. E, sim, podemos também falar em esperma e óvulos quando falamos da reprodução do musgo. Quanto aos “bebés” do musgo, é preferível que sejam chamados “esporos”. Dito isto, vamos avançar para os resultados do estudo de investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, e da Universidade de Maryland (EUA) que andaram a bisbilhotar a vida sexual do musgo.
Em 2011, a mesma equipa de investigadores do IGC publicou um artigo na revista Scienceonde desvendava que a reprodução em plantas com flor era feita através do mesmo sistema de comunicação que existe nos neurónios. O trabalho mostrava como a produção de uma molécula nas paredes do ovário da planta ajudava a “guiar” o tubo polínico que nasce a partir do grão de pólen até ao sítio necessário para fecundar o óvulo. Agora, foi a vez de olhar para a reprodução do musgo (Physcomitrella patens) e concluir que, neste caso, o esperma nada até ao óvulo recorrendo ao mesmo mecanismo que os neurónios usam para comunicar.
Ao contrário de outras plantas superiores, o musgo tem um esperma móvel e apenas duas cópias dos genes (GLRs) que codificam as proteínas chamadas “receptores do glutamato”. Ou seja, esta planta primordial do grupo dos briófitos (uma das primeiras plantas a sair da água) é um excelente modelo de estudo para uma abordagem genética, permitindo observar “facilmente” os efeitos de uma mutação num destes genes. “Nas plantas superiores há imensas cópias destes genes e não percebemos como é que há plantas que têm mais genes de receptores do glutamato do que os que existem no nosso cérebro, quando as plantas não têm sistema nervoso. Portanto, o que fizemos foi andar para trás na evolução e tentar perceber se há uma função associada a estes genes que tenha sido conservada durante a evolução. E por isso andámos para trás e fomos estudar plantas mais primitivas, menos evoluídas”, explica ao PÚBLICO José Feijó, investigador que iniciou esta investigação no IGC e que actualmente trabalha na Universidade de Maryland.
Carlos Ortiz-Ramírez, estudante de doutoramento no IGC, é o primeiro autor do artigo publicado agora na revista Nature que esclarece o que se passa no mundo reprodutivo das plantas primitivas. Os investigadores perceberam que quando desligavam os dois genes o musgo deixava de ter descendência. Confirmaram também que o mecanismo usado pelas proteínas no musgo é semelhante ao que os neurónios usam para comunicar no sistema nervoso dos animais: ou seja, formando canais de iões por onde passa um fluxo de cálcio.
Confirmando que o lado “feminino” estava a funcionar bem, o problema deste musgo mutado e estéril foi detectado no esperma. “Enquanto o esperma normal se torce, vira e faz voltas apertadas para encontrar a entrada para os órgãos femininos, o esperma com mutações nos genes GLRs consegue nadar normalmente mas não muda de direcção”, refere o comunicado. José Feijó acrescenta: “O esperma não estava a fazer o seu trabalho, perdia-se e não conseguia ‘cheirar’ o que quer que seja que a parte feminina emite para o atrair.”
Mais: mesmo quando o desorientado esperma de musgo com mutações conseguia fertilizar os óvulos havia problemas no desenvolvimento dos esporos que, na maioria, acabavam por morrer. Porquê? Os investigadores perceberam que com estes dois genes desligados surge mais um problema técnico no ciclo reprodutivo afectando a produção de uma outra proteína (BELL1) que é essencial ao desenvolvimento dos “bebés” do musgo.
“Apesar de formarem canais de iões no musgo tal como em mamíferos, os receptores do glutamato desempenham duas funções completamente novas e distintas no musgo, tanto em termos de navegação do esperma como no controlo da expressão de genes, algo que é crucial para o desenvolvimento dos esporos. Descobrir isto foi muito surpreendente”, refere José Feijó no comunicado no IGC.
E será que este conhecimento poderá ser útil para estudar a infertilidade nos humanos? José Feijó sublinha que a sua equipa foi a primeira que estudou a expressão génica [activação de genes] do esperma “de qualquer espécie” e a primeira a encontrar ali a expressão de genes que se julgava estarem “sossegados”. “Fizemos dois estudos que acabaram por não ser publicados, um na mosca drosófila e outro em humanos. E quando percebemos que o esperma do musgo estava inactivo, fomos ver nesses resultados anteriores se no esperma humano havia receptores do glutamato. E há, vários. Portanto, eles estão lá, mas se fazem alguma coisa não sabemos”, diz José Feijó. Aparentemente, também não vão tentar saber. “É muito complicado investigar nessa área, até por questões éticas, e, por isso, não vamos tentar saber isso agora. Mas fica o ponto de interrogação”, diz o investigador.
Sem arriscar esse salto na evolução, do musgo até ao esperma humano, qual será então um dos próximos passos deste trabalho? “Vamos andar para trás na evolução, porque há algas unicelulares que também têm receptores do glutamato e perceber se numa alga verde também surgem problemas de fertilização quando se mutam estes genes. Isso seria uma confirmação quase imediata que os receptores do glutamato foram conservados durante a evolução e associados à navegação do esperma.”
É rápida, barata e o seu uso experimental está a difundir-se a grande velocidade pelos laboratórios de todo o mundo. Mas há quem receie que nova técnica possa um dia vir a ser utilizada para gerar bebés “pós-humanos”.
Ana Gerschenfeld
Na mesma semana em que decorre nos Estados Unidos (de segunda a quarta-feira, 1 a 3 de Dezembro) uma cimeira internacional onde peritos de mais de 20 países se debruçam sobre as potenciais implicações médicas, éticas e sociais de uma nova técnica de "edição" genética, cientistas anunciam na revista Science que conseguiram ultrapassar um dos maiores obstáculos técnicos que ainda limitavam a precisão deste autêntico “corrector ortográfico” dos genes.
Esta coincidência torna sem dúvida ainda mais premente, para alguns especialistas, a necessidade de definir recomendações quanto ao uso adequado desta técnica. Porquê? Porque, entre outras coisas, ela poderia um dia permitir a geração de bebés “feitos à medida” – e talvez até “pós-humanos”, isto é, com características genéticas "melhoradas".
Tesoura molecularMais precisamente: utilizando uma enzima chamada Cas9 – uma “tesoura molecular” proveniente da bactéria Streptococcus pyogenes –, acoplada a um bocadinho de ARN (molécula semelhante ao ADN), tornou-se possível penetrar nas células vivas e levar a Cas9 a cortar o ADN em qualquer sítio previamente escolhido e determinado pelo bocadinho de ARN, que funciona como um “guia” para a Cas9.
“É um pouco como um canivete suíço que corta o ADN num sítio preciso e que pode ser utilizado para introduzir toda uma série de alterações no genoma de uma célula ou de um organismo”, explicou Emmanuelle Charpentier, citada pela agência de notícias AFP.
A nova técnica pode ser aplicada tanto às plantas como aos animais e ao ser humano. E, ainda segundo esta cientista, “uma das aplicações potenciais mais importantes será a de permitir novas abordagens terapêuticas contra certas doenças genéticas humanas”.
Mas acontece que, para além de servir para alterar o ADN de algumas células do corpo de um doente, a técnica também poderia ser utilizada para alterar o genoma de embriões ou de gâmetas humanos (ovócitos e espermatozóides), afectando assim toda uma linha de descendência por aí em diante.
Tratar-se-ia então de uma manipulação genética dita da linha germinal, muito mais radical do que aquilo a que se costuma chamar “terapia genética” e cujo objectivo é tratar ou curar a doença de uma dada pessoa.
Ora, justamente, as preocupações relativas ao uso da CRISPR-Cas9 surgiram quando, há uns meses, cientistas chineses anunciaram na revista Nature que tinham aplicado a técnica para modificar o ADN de dezenas de embriões humanos, de forma a “editar” um gene cujas mutações provocam uma doença do sangue, a beta-talassemia, potencialmente mortal.
Os embriões utilizados naquela experiência não eram viáveis e nunca teriam podido dar origem a uma criança, mas isso bastou para muitos vislumbrarem potenciais escolhos éticos e sociais derivados da aplicação da técnica.
Prudência ou arrojo?Deve ou não este tipo de experiência ser por enquanto banido – ou deve ser permitido em moldes ainda por definir? A aceitabilidade deste tipo de manipulação genética para fins puramente terapêuticos não parece estar realmente em causa, desde que seja segura – o que ainda nem sequer é certo, diga-se de passagem.
Seja como for, a urgência da situação deve-se, aos olhos de muitos especialistas, a dois aspectos principais. Por um lado, à falta de unanimidade na comunidade científica sobre as utilizações adequadas da técnica. Assim, por exemplo, num artigo publicado esta quarta-feira na Nature, o conhecido geneticista George Church, da Universidade de Harvard (EUA), centra-se na necessidade de "editar" a linha germinal justamente para ajudar a prevenir a transmissão de doenças hereditárias. E que, visto que já existe a proibição de utilizar técnicas não validadas no ser humano, os investigadores deveriam ser encorajados a continuar a estudar esta tecnologia no quadro das estritas regulamentações existentes. “Proibir a edição da linha germinal humana poderia travar a investigação médica de mais alta qualidade e ao mesmo tempo tornar a prática clandestina”, escreve este cientista.
Mas este argumento prende-se, por sua vez, com o segundo aspecto que alguns especialistas consideram preocupante: o facto de não haver dois países com a mesma legislação na matéria – se é que ela existe. Nos EUA, por exemplo, embora o financiamento público da experimentação com embriões humanos esteja proibido, vários governos estaduais permitem a sua realização com fundos privados. E em Portugal, embora a lei permita a experimentação com embriões humanos para fins de investigação médica, os projectos científicos têm de ser aprovados caso a caso pela autoridade competente e a sua potencial utilidade terapêutica tem de ser indiscutível.
Mas na China, na Irlanda ou na Índia, explica ainda a notícia já referida no site da Nature, as directivas são simplesmente “impossíveis de fazer cumprir”. Os participantes na cimeira – organizada em conjunto pela Academia Nacional de Ciências e a Academia Nacional de Medicina dos EUA, pela Academia de Ciências chinesa e pela Royal Society britânica –, esperam, aliás, que ela forneça a oportunidade de começar a criar linhas orientadoras internacionais.
Voltando aos receios de alguns especialistas, num outro texto na edição desta quarta-feira da Nature a co-inventora da técnica, Jennifer Doudna, reitera que, embora a proibição total da investigação nesta área possa efectivamente afectar o desenvolvimento de futuros tratamentos, é preciso delinear um “caminho prudente” a seguir.
“A 'edição' da linha germinal humana com vista à geração de humanos com genomas modificados não deveria ir para a frente nesta altura”, escreve esta cientista, “em parte devido às suas consequências sociais desconhecidas, mas também porque a tecnologia e o nosso conhecimento do genoma humano simplesmente não estão prontos para o fazer de forma segura”.
Precisão muito maiorEntretanto, a tecnologia, essa, deu um passo de gigante, segundo os resultados que deverão ser publicados na quinta-feira, no site da Science, por Feng Zhang, do Instituto Broad do MIT e Harvard (EUA), e seus colegas.
Acontece que, até aqui, um dos maiores obstáculos técnicos da CRISPR-Cas9 era o facto de poderem surgir “cortes” do ADN em locais imprevistos – tornando o método potencialmente perigoso para a saúde (nomeadamente, gerador de cancros).
Mas, agora, a equipa de Feng Zhang arranjou uma forma de diminuir drasticamente o número desses “tiros" ao alvo errado. Como explica em comunicado o Instituto Broad, estes cientistas descobriram que bastava alterar três aminoácidos (componentes de base das proteínas e portanto das enzimas) dos cerca de 1400 aminoácidos que compõem a enzima Cas9 da bactéria Streptococcus pyogenes para o número de cortes errados passar para níveis quase indetectáveis.
Os autores pensam que foi o facto de substituir esses três aminoácidos, com cargas eléctricas positivas, por aminoácidos electricamente neutros que fez o truque. A nova enzima, que baptizaram eSpCas9 – a Cas9 do S. pyogenes “reforçada” (enhanced em inglês) está a ser “imediatamente colocada à disposição dos investigadores do mundo inteiro” pela equipa, salienta ainda o comunicado.
Isso não impede, porém, Feng Zhang, que também participa na cimeira, de se mostrar prudente. “Esperamos que o desenvolvimento da eSpCas9 ajudará a resolver algumas das preocupações dos participantes, mas não a vemos, de modo algum, como uma bala mágica. A área está a progredir rapidamente, mas ainda temos muito para aprender antes de podermos considerar aplicações desta tecnologia na clínica médica.”