Apenas 23 das 265 estações de tratamento do país reutilizam águas residuais. A associação ambientalista Zero diz que Portugal tem de estar mais bem preparado (e ainda não está) para enfrentar cenários de escassez de água.
Margarida Marques
Campos de golfe podem ser regados com águas residuais tratadas
No panorama nacional, os melhores resultados são apresentados pelas Águas do Algarve – “a entidade que mais se destaca pela eficiência” e “trata 99,9% das águas residuais que dão entrada nas ETAR sob sua gestão”, de acordo com a Zero.
No Algarve, a percentagem de água reutilizada é de 3,5% na lavagem de equipamentos, por exemplo, ou na rega de espaços verdes de 13 ETAR - Almargem, Vila Real de Santo António, Loulé, Quinta do Lago, Vilamoura, Olhão Nascente, Faro Noroeste, Albufeira Poente, Ferreiras, Vale Faro, Boavista, Silves e Lagos. Esta água está também a servir a Sociedade Hoteleira São Lourenço, a Infraquinta [empresa do Município de Loulé que gere os serviços urbanos da Quinta do Lago] e a Herdade dos Salgados.
Carla Graça garante que, no caso do Algarve, se pode “juntar o útil ao agradável”, uma vez que a aposta na reutilização se pode aliar a níveis de consumo de água superiores quando o número de turistas aumenta. “Na época em que há mais utilizadores, pode-se apostar mais na reutilização, nomeadamente na rega dos vários campos de golfe. Assim, não só se combate o desperdício, como se promove um turismo mais sustentável”.
A meta comunitária para 2025 é alcançar os 6 mil milhões de metros cúbicos anualmente reutilizados, com o auxílio de tecnologias seguras e eficientes. E se a previsão é de que Portugal seja um dos países mais afectados pela escassez hídrica nos próximos anos, também é considerado um dos com maior potencial nesta área, diz a Comissão Europeia.
As medidas propostas pela Zero vêm no seguimento não só das principais acções do pacote da economia circular da União Europeia, mas também dos índices de escassez da ONU – o WEI+ (Water Exploitation Index) - das bacias hidrográficas dos rios Leça, ribeiras do Oeste, Tejo, Sado, Guadiana e ribeiras do Algarve, “que se encontram na categoria de ‘escassez severa’. Ou seja, são regiões com um consumo entre 20% e 40% dos seus recursos renováveis.
Com as alterações climáticas, as secas tendem a tornar-se mais graves e frequentes e, neste ano, no dia mundial da água (22 de Março), Bruxelas anunciou já estar a desenvolver requisitos mínimos comuns de qualidade para reutilização segura da água.
Estudo publicado na revista Nature estabelece uma ligação surpreendente entre o esperma do musgo e os neurónios no cérebro dos animais mostrando que usam a mesma proteína e o mesmo mecanismo.
Imagem microscópica de esporos de musgo fertilizados
Há umas proteínas chamadas “receptores do glutamato” que, nos animais, desempenham um papel importante no funcionamento dos neurónios dentro do cérebro, “ajudando” em áreas como a memória e aprendizagem. As plantas também têm estes receptores essenciais para o sistema nervoso dos animais. Para quê? Segundo um estudo publicado esta segunda-feira na revista Nature, assinado por investigadores portugueses, o musgo usa estas proteínas para levar o esperma a fazer as manobras necessárias para chegar aos órgãos femininos e assegurar descendência.
Primeiro o óbvio mas, possivelmente, ignorado por algumas pessoas: sim, as plantas também procriam. E, sim, podemos também falar em esperma e óvulos quando falamos da reprodução do musgo. Quanto aos “bebés” do musgo, é preferível que sejam chamados “esporos”. Dito isto, vamos avançar para os resultados do estudo de investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, e da Universidade de Maryland (EUA) que andaram a bisbilhotar a vida sexual do musgo.
Em 2011, a mesma equipa de investigadores do IGC publicou um artigo na revista Scienceonde desvendava que a reprodução em plantas com flor era feita através do mesmo sistema de comunicação que existe nos neurónios. O trabalho mostrava como a produção de uma molécula nas paredes do ovário da planta ajudava a “guiar” o tubo polínico que nasce a partir do grão de pólen até ao sítio necessário para fecundar o óvulo. Agora, foi a vez de olhar para a reprodução do musgo (Physcomitrella patens) e concluir que, neste caso, o esperma nada até ao óvulo recorrendo ao mesmo mecanismo que os neurónios usam para comunicar.
Ao contrário de outras plantas superiores, o musgo tem um esperma móvel e apenas duas cópias dos genes (GLRs) que codificam as proteínas chamadas “receptores do glutamato”. Ou seja, esta planta primordial do grupo dos briófitos (uma das primeiras plantas a sair da água) é um excelente modelo de estudo para uma abordagem genética, permitindo observar “facilmente” os efeitos de uma mutação num destes genes. “Nas plantas superiores há imensas cópias destes genes e não percebemos como é que há plantas que têm mais genes de receptores do glutamato do que os que existem no nosso cérebro, quando as plantas não têm sistema nervoso. Portanto, o que fizemos foi andar para trás na evolução e tentar perceber se há uma função associada a estes genes que tenha sido conservada durante a evolução. E por isso andámos para trás e fomos estudar plantas mais primitivas, menos evoluídas”, explica ao PÚBLICO José Feijó, investigador que iniciou esta investigação no IGC e que actualmente trabalha na Universidade de Maryland.
Carlos Ortiz-Ramírez, estudante de doutoramento no IGC, é o primeiro autor do artigo publicado agora na revista Nature que esclarece o que se passa no mundo reprodutivo das plantas primitivas. Os investigadores perceberam que quando desligavam os dois genes o musgo deixava de ter descendência. Confirmaram também que o mecanismo usado pelas proteínas no musgo é semelhante ao que os neurónios usam para comunicar no sistema nervoso dos animais: ou seja, formando canais de iões por onde passa um fluxo de cálcio.
Confirmando que o lado “feminino” estava a funcionar bem, o problema deste musgo mutado e estéril foi detectado no esperma. “Enquanto o esperma normal se torce, vira e faz voltas apertadas para encontrar a entrada para os órgãos femininos, o esperma com mutações nos genes GLRs consegue nadar normalmente mas não muda de direcção”, refere o comunicado. José Feijó acrescenta: “O esperma não estava a fazer o seu trabalho, perdia-se e não conseguia ‘cheirar’ o que quer que seja que a parte feminina emite para o atrair.”
Mais: mesmo quando o desorientado esperma de musgo com mutações conseguia fertilizar os óvulos havia problemas no desenvolvimento dos esporos que, na maioria, acabavam por morrer. Porquê? Os investigadores perceberam que com estes dois genes desligados surge mais um problema técnico no ciclo reprodutivo afectando a produção de uma outra proteína (BELL1) que é essencial ao desenvolvimento dos “bebés” do musgo.
“Apesar de formarem canais de iões no musgo tal como em mamíferos, os receptores do glutamato desempenham duas funções completamente novas e distintas no musgo, tanto em termos de navegação do esperma como no controlo da expressão de genes, algo que é crucial para o desenvolvimento dos esporos. Descobrir isto foi muito surpreendente”, refere José Feijó no comunicado no IGC.
E será que este conhecimento poderá ser útil para estudar a infertilidade nos humanos? José Feijó sublinha que a sua equipa foi a primeira que estudou a expressão génica [activação de genes] do esperma “de qualquer espécie” e a primeira a encontrar ali a expressão de genes que se julgava estarem “sossegados”. “Fizemos dois estudos que acabaram por não ser publicados, um na mosca drosófila e outro em humanos. E quando percebemos que o esperma do musgo estava inactivo, fomos ver nesses resultados anteriores se no esperma humano havia receptores do glutamato. E há, vários. Portanto, eles estão lá, mas se fazem alguma coisa não sabemos”, diz José Feijó. Aparentemente, também não vão tentar saber. “É muito complicado investigar nessa área, até por questões éticas, e, por isso, não vamos tentar saber isso agora. Mas fica o ponto de interrogação”, diz o investigador.
Sem arriscar esse salto na evolução, do musgo até ao esperma humano, qual será então um dos próximos passos deste trabalho? “Vamos andar para trás na evolução, porque há algas unicelulares que também têm receptores do glutamato e perceber se numa alga verde também surgem problemas de fertilização quando se mutam estes genes. Isso seria uma confirmação quase imediata que os receptores do glutamato foram conservados durante a evolução e associados à navegação do esperma.”
É rápida, barata e o seu uso experimental está a difundir-se a grande velocidade pelos laboratórios de todo o mundo. Mas há quem receie que nova técnica possa um dia vir a ser utilizada para gerar bebés “pós-humanos”.
Ana Gerschenfeld
Na mesma semana em que decorre nos Estados Unidos (de segunda a quarta-feira, 1 a 3 de Dezembro) uma cimeira internacional onde peritos de mais de 20 países se debruçam sobre as potenciais implicações médicas, éticas e sociais de uma nova técnica de "edição" genética, cientistas anunciam na revista Science que conseguiram ultrapassar um dos maiores obstáculos técnicos que ainda limitavam a precisão deste autêntico “corrector ortográfico” dos genes.
Esta coincidência torna sem dúvida ainda mais premente, para alguns especialistas, a necessidade de definir recomendações quanto ao uso adequado desta técnica. Porquê? Porque, entre outras coisas, ela poderia um dia permitir a geração de bebés “feitos à medida” – e talvez até “pós-humanos”, isto é, com características genéticas "melhoradas".
Tesoura molecularMais precisamente: utilizando uma enzima chamada Cas9 – uma “tesoura molecular” proveniente da bactéria Streptococcus pyogenes –, acoplada a um bocadinho de ARN (molécula semelhante ao ADN), tornou-se possível penetrar nas células vivas e levar a Cas9 a cortar o ADN em qualquer sítio previamente escolhido e determinado pelo bocadinho de ARN, que funciona como um “guia” para a Cas9.
“É um pouco como um canivete suíço que corta o ADN num sítio preciso e que pode ser utilizado para introduzir toda uma série de alterações no genoma de uma célula ou de um organismo”, explicou Emmanuelle Charpentier, citada pela agência de notícias AFP.
A nova técnica pode ser aplicada tanto às plantas como aos animais e ao ser humano. E, ainda segundo esta cientista, “uma das aplicações potenciais mais importantes será a de permitir novas abordagens terapêuticas contra certas doenças genéticas humanas”.
Mas acontece que, para além de servir para alterar o ADN de algumas células do corpo de um doente, a técnica também poderia ser utilizada para alterar o genoma de embriões ou de gâmetas humanos (ovócitos e espermatozóides), afectando assim toda uma linha de descendência por aí em diante.
Tratar-se-ia então de uma manipulação genética dita da linha germinal, muito mais radical do que aquilo a que se costuma chamar “terapia genética” e cujo objectivo é tratar ou curar a doença de uma dada pessoa.
Ora, justamente, as preocupações relativas ao uso da CRISPR-Cas9 surgiram quando, há uns meses, cientistas chineses anunciaram na revista Nature que tinham aplicado a técnica para modificar o ADN de dezenas de embriões humanos, de forma a “editar” um gene cujas mutações provocam uma doença do sangue, a beta-talassemia, potencialmente mortal.
Os embriões utilizados naquela experiência não eram viáveis e nunca teriam podido dar origem a uma criança, mas isso bastou para muitos vislumbrarem potenciais escolhos éticos e sociais derivados da aplicação da técnica.
Prudência ou arrojo?Deve ou não este tipo de experiência ser por enquanto banido – ou deve ser permitido em moldes ainda por definir? A aceitabilidade deste tipo de manipulação genética para fins puramente terapêuticos não parece estar realmente em causa, desde que seja segura – o que ainda nem sequer é certo, diga-se de passagem.
Seja como for, a urgência da situação deve-se, aos olhos de muitos especialistas, a dois aspectos principais. Por um lado, à falta de unanimidade na comunidade científica sobre as utilizações adequadas da técnica. Assim, por exemplo, num artigo publicado esta quarta-feira na Nature, o conhecido geneticista George Church, da Universidade de Harvard (EUA), centra-se na necessidade de "editar" a linha germinal justamente para ajudar a prevenir a transmissão de doenças hereditárias. E que, visto que já existe a proibição de utilizar técnicas não validadas no ser humano, os investigadores deveriam ser encorajados a continuar a estudar esta tecnologia no quadro das estritas regulamentações existentes. “Proibir a edição da linha germinal humana poderia travar a investigação médica de mais alta qualidade e ao mesmo tempo tornar a prática clandestina”, escreve este cientista.
Mas este argumento prende-se, por sua vez, com o segundo aspecto que alguns especialistas consideram preocupante: o facto de não haver dois países com a mesma legislação na matéria – se é que ela existe. Nos EUA, por exemplo, embora o financiamento público da experimentação com embriões humanos esteja proibido, vários governos estaduais permitem a sua realização com fundos privados. E em Portugal, embora a lei permita a experimentação com embriões humanos para fins de investigação médica, os projectos científicos têm de ser aprovados caso a caso pela autoridade competente e a sua potencial utilidade terapêutica tem de ser indiscutível.
Mas na China, na Irlanda ou na Índia, explica ainda a notícia já referida no site da Nature, as directivas são simplesmente “impossíveis de fazer cumprir”. Os participantes na cimeira – organizada em conjunto pela Academia Nacional de Ciências e a Academia Nacional de Medicina dos EUA, pela Academia de Ciências chinesa e pela Royal Society britânica –, esperam, aliás, que ela forneça a oportunidade de começar a criar linhas orientadoras internacionais.
Voltando aos receios de alguns especialistas, num outro texto na edição desta quarta-feira da Nature a co-inventora da técnica, Jennifer Doudna, reitera que, embora a proibição total da investigação nesta área possa efectivamente afectar o desenvolvimento de futuros tratamentos, é preciso delinear um “caminho prudente” a seguir.
“A 'edição' da linha germinal humana com vista à geração de humanos com genomas modificados não deveria ir para a frente nesta altura”, escreve esta cientista, “em parte devido às suas consequências sociais desconhecidas, mas também porque a tecnologia e o nosso conhecimento do genoma humano simplesmente não estão prontos para o fazer de forma segura”.
Precisão muito maiorEntretanto, a tecnologia, essa, deu um passo de gigante, segundo os resultados que deverão ser publicados na quinta-feira, no site da Science, por Feng Zhang, do Instituto Broad do MIT e Harvard (EUA), e seus colegas.
Acontece que, até aqui, um dos maiores obstáculos técnicos da CRISPR-Cas9 era o facto de poderem surgir “cortes” do ADN em locais imprevistos – tornando o método potencialmente perigoso para a saúde (nomeadamente, gerador de cancros).
Mas, agora, a equipa de Feng Zhang arranjou uma forma de diminuir drasticamente o número desses “tiros" ao alvo errado. Como explica em comunicado o Instituto Broad, estes cientistas descobriram que bastava alterar três aminoácidos (componentes de base das proteínas e portanto das enzimas) dos cerca de 1400 aminoácidos que compõem a enzima Cas9 da bactéria Streptococcus pyogenes para o número de cortes errados passar para níveis quase indetectáveis.
Os autores pensam que foi o facto de substituir esses três aminoácidos, com cargas eléctricas positivas, por aminoácidos electricamente neutros que fez o truque. A nova enzima, que baptizaram eSpCas9 – a Cas9 do S. pyogenes “reforçada” (enhanced em inglês) está a ser “imediatamente colocada à disposição dos investigadores do mundo inteiro” pela equipa, salienta ainda o comunicado.
Isso não impede, porém, Feng Zhang, que também participa na cimeira, de se mostrar prudente. “Esperamos que o desenvolvimento da eSpCas9 ajudará a resolver algumas das preocupações dos participantes, mas não a vemos, de modo algum, como uma bala mágica. A área está a progredir rapidamente, mas ainda temos muito para aprender antes de podermos considerar aplicações desta tecnologia na clínica médica.”
Investigação terá sido pioneira no número de embriões usados na experiência e por ter demonstrado que é possível corrigir de forma segura e eficiente genes defeituosos que causam doenças hereditárias. Resultados ainda não foram publicados numa revista científica.
Relatório de Actividades do Conselho Nacional de PMA mostra como a idade das mulheres influencia o sucesso dos tratamentos.
Lusa
O sucesso dos tratamentos diminui de forma acentuada a partir dos 36 anos
As técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA) fizeram nascer 2091 crianças em 2013, menos 43 do que no ano anterior, tendo representado 2,5% de todas as crianças nascidas nesse ano, segundo o relatório do regulador.
De acordo com o último relatório da actividade em PMA, o maior número de crianças nascidas através destas técnicas resultaram da aplicação da Fertilização In Vitro (FIV) e Microinjecção Intracitoplasmática (ICSI) intraconjugal: 1322.
Na nota introdutória do documento, o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) sublinha que, "comparando com 2012, o número de ciclos das principais técnicas de PMA efetuado (excluindo inseminação intrauterina) foi 3% menor, mas as taxas de gravidez e parto aumentaram ligeiramente".
O número de inseminações artificiais manteve-se estável e os resultados do uso desta técnica tiveram também ligeira melhoria", prossegue o regulador desta área que visa responder a casos de infertilidade.
O CNPMA destaca a descida da taxa de partos múltiplos, "pela sua inequívoca importância, no que constitui o contínuo esforço tendente à eliminação da situação que corresponde ao maior risco dos tratamentos de infertilidade".
Segundo o documento, registaram-se 33 casos de síndroma de hiperestimulação ovárica, a mais frequente complicação em ciclos de FIV/INCI intraconjugal, e quatro complicações da punção ovárica.
Em relação à doação de gâmetas ou embriões, em 2013 ocorreram 60 ciclos FIV e 67 ICSI com esperma de dador e iniciaram-se 345 ciclos para doação de ovócitos.
O documento demonstra como a idade das doentes influencia o sucesso dos tratamentos, o qual diminui de forma acentuada a partir dos 36 anos. A taxa de gestação diminuiu dos 15,2% aos 40 anos para os 2,6% aos 45 anos.
O aumento da idade das mulheres que se submeteram aos tratamentos também influenciou a taxa de aborto, a qual subiu a partir dos 37 anos e acentuou-se a partir dos 41 anos, atingindo quase 70% nas doentes com 42 ou mais anos.
Segundo o CNPMA, em 2013 existiam em Portugal 27 centros de PMA que executavam tratamentos de infertilidade através de técnicas de PMA e um que executava apenas Inseminação Artificial.
Estudo avaliou jovens entre os 18 e 22 anos concebidos com a ajuda da injecção intracitoplasmática e concluiu que os seus espermatozóides são menos e mais lentos.
A micro-injecção consiste na introdução de um único espermatozóide no ovócito
Qual é a qualidade do sémen dos jovens adultos concebidos há 18-22 anos por uma das mais comuns técnicas de procriação medicamente assistida (PMA), a micro-injecção intracitoplasmática, que é indicada nos casos de infertilidade de masculina? Esta foi a pergunta do estudo inédito da Universidade Livre de Bruxelas. Os resultados, publicados este mês na revista científica Human Reproduction, revelam que os “filhos” da micro-injecção têm menos espermatozóides e são mais lentos do que os jovens concebidos de forma natural. É a primeira avaliação ao grupo mais antigo de homens nascidos com a ajuda da micro-injecção mas ainda é cedo para conclusões definitivas.
Em apenas 40 anos, a contagem de espermatozóides de homens no mundo ocidental caiu mais de 50%, revela um estudo publicado na revista Human Reproduction Update. Estamos perante um problema de saúde pública, avisam os investigadores
Uma equipa internacional de investigadores fez uma meta-análise de 185 estudos publicados entre 1973 e 2011 e concluiu que a contagem de espermatozóides em homens dos Estados Unidos, Europa, Austrália e Nova Zelândia está num perigoso declínio, tendo diminuído mais 50% neste período. Alertando para um grave problema de saúde pública que deve ser estudado urgentemente para ter conclusões definitivas sobre as suas causas, os investigadores sugerem que o estilo de vida da sociedade moderno, o tabaco, o stress, a obesidade e a exposição a pesticidas ao longo da vida podem estar por detrás deste problema.
Os investigadores reuniram mais de 7500 estudos e seleccionaram 185 investigações com dados sobre a contagem de espermatozóides de homens ocidentais (EUA, Europa, Austrália e Nova Zelândia) e outros (América do Sul, Ásia e África). Os problemas foram encontrados no grupo dos ocidentais onde se verificou uma tendência para o declínio da contagem de espermatozóides ao longo dos anos e que não mostra sinais de estar a abrandar. Os resultados do estudo que foi publicado na revista Human Reproduction Update revelam uma diminuição de 52,4% na concentração de espermatozóides e de 59,3% na contagem total de espermatozóides entre homens norte-americanos, europeus, australianos e neozelandeses.
Traduzindo estes resultados para números absolutos, a verdade é que a média da contagem total e concentração ainda está acima dos limites definidos para os casos de infertilidade. Pelo menos, para já. Segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde, a concentração de espermatozóides (que mede a quantidade por mililitro) deve estar acima dos 20 milhões e a contagem total (os espermatozóides no volume da ejaculação) acima dos 40 milhões.
Neste estudo, que não analisou a qualidade (motilidade e morfologia) dos espermatozóides, os valores apresentados para homens no grupo de países ocidentais apontam para um registo da concentração de espermatozóides em 1973 de 99 milhões por mililitro que terá passado para 47,1 milhões por mililitro em 2011. No que se refere à contagem total, os valores caíram de 337,5 milhões em 1973 para 137,5 milhões em 2011. No que se refere aos outros países, não foi observado um declínio significativo, no entanto os investigadores ressalvam que existem muitos menos estudos feitos nestas regiões.
“Este estudo é um alerta urgente para investigadores e autoridades de saúde em todo o mundo para que se estudem as causas desta forte queda contínua na contagem de espermatozóides”, disse à agência Reuters Hagai Levine, que co-liderou o trabalho na Universidade Hebraica Hadassah de Jerusalém, em Israel, com especialistas dos EUA, Dinamarca, Brasil e Espanha. Na análise não são retiradas conclusões sobre as causas que podem explicar esta perda de espermatozóides mas são apresentadas algumas pistas que ligam este indicador de saúde ao estilo de vida moderno.