Estudo avaliou jovens entre os 18 e 22 anos concebidos com a ajuda da injecção intracitoplasmática e concluiu que os seus espermatozóides são menos e mais lentos.
A micro-injecção consiste na introdução de um único espermatozóide no ovócito
Qual é a qualidade do sémen dos jovens adultos concebidos há 18-22 anos por uma das mais comuns técnicas de procriação medicamente assistida (PMA), a micro-injecção intracitoplasmática, que é indicada nos casos de infertilidade de masculina? Esta foi a pergunta do estudo inédito da Universidade Livre de Bruxelas. Os resultados, publicados este mês na revista científica Human Reproduction, revelam que os “filhos” da micro-injecção têm menos espermatozóides e são mais lentos do que os jovens concebidos de forma natural. É a primeira avaliação ao grupo mais antigo de homens nascidos com a ajuda da micro-injecção mas ainda é cedo para conclusões definitivas.
Em apenas 40 anos, a contagem de espermatozóides de homens no mundo ocidental caiu mais de 50%, revela um estudo publicado na revista Human Reproduction Update. Estamos perante um problema de saúde pública, avisam os investigadores
Uma equipa internacional de investigadores fez uma meta-análise de 185 estudos publicados entre 1973 e 2011 e concluiu que a contagem de espermatozóides em homens dos Estados Unidos, Europa, Austrália e Nova Zelândia está num perigoso declínio, tendo diminuído mais 50% neste período. Alertando para um grave problema de saúde pública que deve ser estudado urgentemente para ter conclusões definitivas sobre as suas causas, os investigadores sugerem que o estilo de vida da sociedade moderno, o tabaco, o stress, a obesidade e a exposição a pesticidas ao longo da vida podem estar por detrás deste problema.
Os investigadores reuniram mais de 7500 estudos e seleccionaram 185 investigações com dados sobre a contagem de espermatozóides de homens ocidentais (EUA, Europa, Austrália e Nova Zelândia) e outros (América do Sul, Ásia e África). Os problemas foram encontrados no grupo dos ocidentais onde se verificou uma tendência para o declínio da contagem de espermatozóides ao longo dos anos e que não mostra sinais de estar a abrandar. Os resultados do estudo que foi publicado na revista Human Reproduction Update revelam uma diminuição de 52,4% na concentração de espermatozóides e de 59,3% na contagem total de espermatozóides entre homens norte-americanos, europeus, australianos e neozelandeses.
Traduzindo estes resultados para números absolutos, a verdade é que a média da contagem total e concentração ainda está acima dos limites definidos para os casos de infertilidade. Pelo menos, para já. Segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde, a concentração de espermatozóides (que mede a quantidade por mililitro) deve estar acima dos 20 milhões e a contagem total (os espermatozóides no volume da ejaculação) acima dos 40 milhões.
Neste estudo, que não analisou a qualidade (motilidade e morfologia) dos espermatozóides, os valores apresentados para homens no grupo de países ocidentais apontam para um registo da concentração de espermatozóides em 1973 de 99 milhões por mililitro que terá passado para 47,1 milhões por mililitro em 2011. No que se refere à contagem total, os valores caíram de 337,5 milhões em 1973 para 137,5 milhões em 2011. No que se refere aos outros países, não foi observado um declínio significativo, no entanto os investigadores ressalvam que existem muitos menos estudos feitos nestas regiões.
“Este estudo é um alerta urgente para investigadores e autoridades de saúde em todo o mundo para que se estudem as causas desta forte queda contínua na contagem de espermatozóides”, disse à agência Reuters Hagai Levine, que co-liderou o trabalho na Universidade Hebraica Hadassah de Jerusalém, em Israel, com especialistas dos EUA, Dinamarca, Brasil e Espanha. Na análise não são retiradas conclusões sobre as causas que podem explicar esta perda de espermatozóides mas são apresentadas algumas pistas que ligam este indicador de saúde ao estilo de vida moderno.
Óxidos de azoto, partículas finas e ozono são os poluentes em causa num estudo sobre o excesso de emissões de veículos a diesel em 2015.
Óxidos de azoto
Partículas finas
Estão em suspensão no ar e têm 2,5 micrómetros de diâmetro (cerca de 20 vezes mais finas do que um cabelo humano). Chegam aos pulmões, entram na circulação e causam problemas respiratórios agudos ou crónicos, doenças cardiovasculares ou cancro (porque têm compostos carcinogénicos). Só em 2007 houve 3,45 milhões de mortes prematuras em todo o mundo atribuídas a partículas finas no ar. “São de longe o poluente que tem efeitos mais graves na saúde”, avisa Francisco Ferreira, presidente da Associação Zero.
Ozono
Se nas camadas superiores da atmosfera nos protege da radiação ultravioleta, junto ao solo é um poluente e pode resultar dos óxidos de azoto, oxigénio e radiação solar. Destrói culturas, por exemplo. Nas pessoas, provoca irritação nos olhos, nariz e na garganta, assim como tosse e dores de cabeça. Agrava também a asma e outros problemas respiratórios
Onde apareceram os primeiros indivíduos após a separação entre os ramos evolutivos dos humanos e dos chimpanzés? Em vez de África, um estudo diz agora que pode ter sido no Leste do Mediterrâneo.
A mandíbula do Graecopithecus freybergi
Fósseis encontrados na Grécia e na Bulgária de uma criatura parecida com um símio que viveu há 7,2 milhões de anos pode ter alterado de forma fundamental a nossa compreensão sobre a origem humana, lançando dúvidas sobre o facto de a linhagem evolutiva que conduziu até nós ter surgido em África.
Segundo uma equipa internacional de cientistas, a criatura, com o nome científico Graecopithecus freybergi e de que se tem apenas uma mandibula inferior e um dente isolado, pode ser o membro mais antigo conhecido da linhagem humana iniciada depois de ter ocorrido a separação evolutiva da linhagem que levou aos chimpanzés, os nossos parentes mais próximos.
A segunda edição do relatório anual produzido pelos Jardins Botânicos Reais de Kew sobre o Estado das Plantas do Mundo que envolveu 128 cientistas de 12 países diferentes.
Os cientistas descobriram 1730 espécies novas de plantas em 2016, uma delas encontra-se em alguns locais da Península Ibérica onde se inclui a serra da Estrela, em Portugal. Mais de 28 mil espécies têm os seus usos medicinais documentados e o número de plantas com genomas completos sequenciados aumentou 60% em relação ao ano anterior, chegando agora às 225 espécies. Todos estes dados e muitos outros estão na segunda edição do relatório anual sobre o Estado das Plantas do Mundo (State of the World’s Plants), elaborado pelos Jardins Botânicos Reais de Kew, perto de Londres, divulgado esta semana.
Entre as mais de 1700 espécies de plantas descritas pela primeira vez em 2016 há algumas que podem começar a fazer parte da nossa dieta. É o caso das cinco novas espécies brasileiras que pertencem ao género Manihot, o mesmo da conhecida e consumida mandioca. “Estas espécies têm o potencial necessário para desenvolver a cultura da mandioca, diversificando-a, permitindo que esta seja cultivada em climas mais secos do que os actuais e fornecendo defesas contra vírus, que estão a reduzir a produção deste recurso alimentar importante em algumas partes do mundo”, refere o comunicado de imprensa da equipa dos jardins Kew. Mas há mais novas plantas que podem ser alimentos. Também foram descobertas sete novas espécies Aspalathus, da família das leguminosas e conhecida sobretudo por causa do chá sul-africano rooibos. Outra novidade é uma nova espécie de cherovia, Pastinaca erzincanensis, descrita em 2016 na Turquia.
A Pastinaca erzincanensis encontrada na Turquia
As novas plantas identificadas podem servir para fins que não passam pelo prato ou chávenas, desta vez, com objectivos medicinais. Aqui, o relatório anual sobre o Estado das Plantas do Mundo destaca as noves espécies de trepadeiras do género Mucuna, provenientes do Sudeste Asiático e da região neotropical (América Central e América do Sul), que “são utilizadas no tratamento da doença de Parkinson”. No capítulo dedicado às plantas medicinais, revela-se que, pelo menos, 28.187 espécies estão actualmente identificadas como tendo algum tipo de uso medicinal. Um número que, admitem, estará muito longe do verdadeiro potencial terapêutico das muitas plantas que crescem no planeta.
O documento sublinha ainda que “apenas 16% (4478) das espécies utilizadas em medicamentos à base de plantas estão citadas em publicações relativas à regulação de medicamentos”. Por outro lado, notam os especialistas, “existem actualmente 15 nomes alternativos para cada espécie de planta medicinal, o que causa uma enorme confusão e risco no sector das plantas medicinais”. Assim, o processo deve ser simplificado e melhorado através do recurso a bases de dados como o Serviço de Nomes de Plantas Medicinais de Kew, defendem. “Muitas das mais de 28 mil espécies com potencial medicinal deram à medicina moderna algumas das mais importantes descobertas, mas poucas foram realmente listadas oficialmente devido ao uso de rótulos ambíguos”, lamenta a cientista e Presidente da Maurícia Gurib-Fakim, num comentário ao relatório que está no comunicado.
A Begonia rubrobracteolata descoberta no Bornéu
Este “livro” detalhado sobre o Estado das Plantas do Mundo inclui dados e imagens para todos os gostos. “Jardineiros e amantes de plantas ornamentais poderão comemorar as descobertas de espécies de plantas comuns, que oferecem agora novas cores e aromas, além de períodos de floração mais longos e adaptações a habitats diferentes daqueles já conhecidos”, nota o comunicado. Exemplo: há 29 novas espécies pertencentes ao género da Begonia, descritas a partir das florestas da Malásia.
“É um momento especial para se investigar a fundo o universo das plantas”, considera Kathy Willis, directora de ciência dos Jardins Botânicos Reais de Kew, acrescentando que “a partir dos avanços tecnológicos que nos permitem desvendar de forma mais profunda os mistérios das plantas e investigar as suas características com maior detalhe – tanto moleculares como morfológicas – somos agora capazes de obter um quadro mais detalhado do que nunca sobre o que temos, o seu valor e vulnerabilidade”.
Um desses avanços será seguramente do campo da genética. O relatório assinala que o número de plantas com genomas sequenciados chega agora a 225 espécies, o que representa um aumento de mais de 60% em relação ao ano anterior. Já em 2017, notam, foi revelada a sequenciação molecular de alcaçuz, um dos mais usados remédios provenientes de ervas medicinais.
Mas para que serve o conhecimento do genoma das plantas? “Quando adicionadas as informações que estão a ser reunidas sobre os parentes silvestres de culturas como o arroz, trigo, amendoim, batata, tomate, soja, batata-doce e outros, teremos uma imagem bastante precisa do que precisamos fazer para sustentar a crescente população global num mundo em aquecimento”, refere o comunicado. Em resumo, estes dados poderão servir para melhorar a produção, qualidade e rendimento das culturas.
Madagáscar, um caso especial
O país de destaque da segunda edição do relatório é Madagáscar, a quarta maior ilha do mundo e o único país fora do Reino Unido onde os Jardins Kew tem uma presença permanente. Os dados analisados permitiram concluir que 83% das mais de 11 mil espécies de plantas vasculares (com tecidos especializados no transporte de água e seiva) nativas de Madagáscar não existem em mais nenhum lugar da Terra. A ilha acolhe cinco famílias de plantas únicas e três vezes mais espécies de palmeiras do que a África continental. E eis mais um momento para um exemplo: Madagáscar tem alguns dos raros e ameaçados exemplares da espectacular Tahina spectabilis, conhecida como palmeira-gigante-suicida, uma planta que chega a atingir os 20 metros de altura e que se autodestrói, morrendo após gastar todas as suas energias numa impressionante despedida que envolve uma única e final produção de centenas de flores minúsculas.
A Carex lucennoiberica que existe na serra da Estrela
Madagáscar é um caso especial mas o relatório sobre o Estado das Plantas do Mundo também inclui, obviamente, dados de Portugal. Cátia Canteiro, uma investigadora portuguesa que faz parte da equipa dos jardins de Kew e que participou neste trabalho dedicando-se ao capítulo que fala do risco de extinção das plantas, adianta ao PÚBLICO que, das mais de 450 famílias de plantas vasculares actualmente descritas a nível mundial, cerca de 113 ocorrem em Portugal (o que representa um total de 532 espécies de plantas). “Das 1730 espécies novas de plantas vasculares registadas na base de dados do International Plant Names Index, 141 foram listadas para a Europa e apenas uma para Portugal, a Carex lucennoiberica. Esta espécie foi descrita como endémica da Península Ibérica e em Portugal é conhecida apenas uma população na serra da Estrela, sendo considerada bastante ameaçada e sensível a alterações climáticas e destruição de habitat (especificamente nitrificação do solo)”, diz a bióloga.
Sobre as ameaças, Cátia Canteiro alerta que, segundo a avaliação feita pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), no final de 2016 existiam em Portugal 76 espécies de plantas vasculares ameaçadas pela “construção, agricultura, alterações dos sistemas naturais, incluindo barragens e incêndios, e espécies invasoras”. E sobre as pragas? “Os principais insectos causadores de pragas e doenças em plantas referidos nos últimos cinco anos em estudos em Portugal registados na base de dados do Centro Internacional para a Agricultura e Ciências da Vida [CABI, na sigla em inglês] foram: a mosca-da-fruta-do-mediterrâneo (Ceratitis capitata), a traça-do-tomateiro (Tuta absoluta) e o gorgulho-castanho-da-farinha (Tribolium castaneum).”
De resto, ainda sobre as ameaças do mundo, o relatório dos jardins de Kew realça que há espécies de plantas que parecem estar a revelar uma maior capacidade de adaptação às mudanças climáticas, o que é uma boa notícia. Para responder ao aumento das temperaturas, às secas e aos elevados níveis de dióxido de carbono no ar, as plantas estão a engrossar as suas folhas e a “inventar” novas estratégias para melhor uso da água, levando, por exemplo, as raízes para locais mais profundos.
Porém, também há más notícias. Os especialistas notam que a falta de controlo das pragas e doenças invasoras pode representar prejuízos para a agricultura que podem chegar aos 450.000 milhões de euros e que há 340 milhões de hectares da superfície terrestre cobertos por vegetação que são varridos anualmente por incêndios florestais. Neste lado negro do estado das plantas há ainda o capítulo do comércio ilegal de plantas raras que “não mostra sinais de abrandar”. Estima-se que o comércio ilegal de espécies selvagens na União Europeia represente algo entre 8000 e 20.000 milhões de euros anualmente.
A Englerophytum paludosumz de África
Apesar dos riscos e ameaças, todos os anos os cientistas descobrem cerca de duas mil novas espécies de plantas. No total, existirão no planeta mais de 392 mil espécies de plantas vasculares. Plantas bonitas e feias, que se comem ou são carnívoras, que nos curam ou envenenam, das mais minúsculas às gigantes, algumas raras e outras vulgares. Muitas ameaçadas. Todas importantes.
Estudo de cientistas portugueses publicado na revista Cell revela como as bactérias dos intestinos podem alterar as características químicas de um fármaco usado contra o cancro colorrectal, conseguindo que o tratamento seja mais eficaz.
Bactéria comensal Escherichia coli (E. coli) que existe nos intestinos
E se algumas das bactérias que vivem nos nossos intestinos não só não nos fizessem mal nenhum (como, aliás, é o caso da maioria que lá se encontra), mas ainda nos ajudassem a melhorar a eficácia de um tratamento para o cancro? Uma equipa de cientistas liderada por investigadores portugueses na University College de Londres publicou um artigo na revista Cell que mostra como as bactérias nos intestinos podem interagir com um fármaco usado no cancro colorrectal e melhorar a eficácia do tratamento.
Uma equipa de investigadores conseguiu eliminar bactérias com recurso à terapia fágica. Inócua para os seres humanos e muito mais barata de aplicar do que os antibacterianos, a terapia utiliza a ação de vírus específicos que destroem apenas as bactérias.
A bactéria chama-se Enterobacter cloacae e, até agora, era apenas controlada através do uso de antibióticos. Mas a receita médica pode vir a mudar.
Na Universidade de Aveiro (UA) uma equipa de investigadores conseguiu eliminar estas bactérias com recurso à terapia fágica. Inócua para os seres humanos e muito mais barata de aplicar do que os antibacterianos, a terapia utiliza a ação de vírus específicos que destroem apenas as bactérias.
O trabalho abre as portas a um futuro onde as bactérias nefastas para a saúde humana, muitas das quais resistentes a antibióticos, possam ser eliminadas de forma rápida, eficaz e sem efeitos secundários.
"A nossa investigação prova que o Enterobacter cloacae, uma das bactérias mais frequentemente implicadas nas infeções urinárias, pode ser inativada pelos fagos [vírus que destroem somente as bactérias e que são inofensivos para a saúde humana]", explica Adelaide Almeida, investigadora do Laboratório de Microbiologia Aplicada e Ambiental da academia de Aveiro e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da UA e coordenadora do trabalho publicado no último número da revista Virus Research.
Pelos mesmos mecanismos estudados na UA, com os quais os fagos infetam o Enterobacter cloacae e usam o seu metabolismo para se replicarem até o inativar, também outras bactérias similares, resistentes ou não a antibióticos, causadoras tanto de infeções urinárias como de outro tipo, poderão ser eliminadas através desses vírus isolados especificamente para o efeito.
No futuro, o paciente poderá receber o tratamento fágico por administração epidérmica ou via oral.
"Esta tecnologia, que inativa tanto bactérias resistentes a antibióticos como bactérias não resistentes, pode ser uma alternativa aos antibióticos, nomeadamente quando as bactérias que causam a infeção são resistentes aos antibióticos", aponta a investigadora. E caso as bactérias desenvolvam resistência aos fagos, garante, "é fácil isolar novos fagos no ambiente". Por outro lado, "as bactérias que desenvolvam essa resistência crescem mais lentamente e não são tão patogénicas como as não resistentes".
A elevada eficiência na inativação bacteriana através do recurso a fagos, associada à sua segurança e aos longos períodos de sobrevivência destes vírus, mesmo em amostras de urina utilizadas pelos investigadores, aponta Adelaide Almeida, "abre caminho para estudos mais aprofundados, especialmente in vivo, para controlar infeções do trato urinário e evitar o desenvolvimento de resistências por estirpes de Enterobacter cloacae a nível hospitalar".