domingo, 16 de outubro de 2016

Unicef. Nutrição deficiente causa danos mentais e físicos irreversíveis

Renascença
14 out, 2016 - 07:00
Relatório "Desde a primeira hora de vida" revela que apenas uma em cada seis crianças recebe os nutrientes suficientes.
 
Apenas uma em cada seis crianças com menos de dois anos recebe alimentos em quantidade e diversidade suficientes para a sua idade, o que deixa as restantes em risco de danos físicos e mentais irreversíveis.
 
A conclusão é de um relatório da agência das Nações Unidas para a infância. "Os bebés e as crianças pequenas têm maior necessidade de nutrientes do que em qualquer outra fase da vida. Mas milhões de crianças pequenas não desenvolvem todo o seu potencial físico e intelectual porque recebem pouca comida e demasiado tarde", disse France Begin, conselheira sénior para os assuntos de Nutrição da Unicef, citada num comunicado da organização.
 
A responsável alerta que "uma nutrição deficiente numa idade tão tenra causa danos mentais e físicos irreversíveis".
 
Intitulado "Desde a primeira hora de vida", o relatório agora divulgado revela um mundo onde uma dieta saudável está fora do alcance da maioria.
 
Os dados da Unicef mostram que a introdução tardia de alimentos sólidos, o número reduzido de refeições e a falta de variedade de alimentos são práticas generalizadas no mundo, privando as crianças de nutrientes essenciais quando o cérebro, os ossos e o físico deles mais precisam.
 
Com efeito, embora os alimentos sólidos devam ser introduzidos a partir dos seis meses de idade, um terço de todas as crianças no mundo só começa a comê-los demasiado tarde e um em cada cinco bebés só começa a comer alimentos sólidos após os 11 meses.
 
Apenas 52% das crianças de entre seis e 23 meses recebem o número mínimo de refeições diárias para a sua idade e a diversidade alimentar é outro problema: menos de metade das crianças recebe diariamente alimentos de pelo menos quatro grupos alimentares diferentes.
 
Entre os seis e os 11 meses, a faixa etária em que a nutrição é mais importante, a situação é ainda mais preocupante: apenas 20% estão a receber alimentos de quatro grupos diferentes por dia, o que provoca carências de vitaminas e minerais.
 
A importância da amamentação
O relatório da Unicef refere-se também à amamentação, que segundo as recomendações da Organização Mundial de Saúde deveria ser a forma exclusiva de alimentação dos bebés até aos seis meses de idade.
 
Segundo os dados revelados, apenas 45% dos 140 milhões de bebés que nasceram em 2015 foram amamentados na sua primeira hora de vida, como é recomendado, e três em cada cinco bebés com menos de seis meses não recebem os benefícios da amamentação exclusiva.
 
De acordo com o relatório, quase metade das crianças em idade pré-escolar sofre de anemia e metade das crianças entre os seis e os 11 meses não recebem qualquer tipo de alimento de origem animal.
 
A Unicef alerta ainda para as desigualdades: Na África subsaariana e no Sul da Ásia, apenas uma em cada seis crianças dos agregados familiares mais pobres com idades entre os seis e os 11 meses têm uma dieta minimamente diversificada, comparando com uma em cada três dos agregados mais ricos.
 
A organização sublinha que a melhoria da nutrição das crianças mais pequenas poderia salvar 100.000 vidas por ano, mas sublinha que as famílias, embora façam o seu melhor com os recursos a que têm acesso, não podem fazer tudo sozinhas.
 
É precisa a liderança dos governos e os contributos de sectores-chave da sociedade para fornecer uma dieta saudável às crianças, pode ler-se no relatório.
 
Tornar os alimentos nutritivos mais baratos e acessíveis para as crianças mais pobres exige investimentos mais consistentes e direccionados por parte dos governos e do sector privado.
 
"Não podemos permitir-nos falhar nesta nossa luta para melhorar a nutrição das crianças pequenas. A sua capacidade para crescer, aprender e contribuir para o futuro dos seus países depende disso", concluiu France Begin.

Papa lembra que 800 milhões de pessoas passam fome no mundo

14 out, 2016 - 14:38 • Ecclesia
O Vaticano divulgou esta sexta-feira a sua mensagem por ocasião do Dia Mundial da Alimentação 2016.
 
O Papa Francisco divulgou esta sexta-feira a sua mensagem por ocasião do Dia Mundial da Alimentação de 2016, na qual recorda os “800 milhões de pessoas que ainda passam fome” actualmente.
 
O texto, endereçado à Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), questiona um modelo de desenvolvimento que não consegue impedir as situações de fome e desnutrição.
 
“Já não basta impressionar-se e comover-se diante de quem, em qualquer latitude, pede o pão de cada dia”, afirma o Papa.
 
“É necessário decidir-se e actuar. Muitas vezes, também enquanto Igreja Católica, recordamos que os níveis de produção mundial são suficientes para garantir a alimentação de todos, com a condição de que haja uma justa distribuição”, acrescenta.
 
Alertando para as consequências das alterações climáticas, Francisco pede que o Acordo de Paris “não fique somente nas palavras, mas se transforme em corajosas decisões concretas”.
 
“Está a crescer o número dos que pensam que são omnipotentes e podem ignorar o ciclo das estações ou modificar indevidamente as diferentes espécies de animais e plantas, provocando a perda desta variedade que tem – e há de ter – uma função”, observou o Papa.
 
Ainda a respeito das manipulações genéticas, a mensagem adverte que “obter uma qualidade que dá excelentes resultados em laboratório pode ser vantajoso para alguns, mas pode ter efeitos desastrosos para outros”.
 
Francisco convida todos a prestar atenção à sabedoria dos produtores rurais.
“A sabedoria que os agricultores, os pescadores, os pecuaristas conservam na memória das gerações e que agora está a ser ridicularizada e esquecida por um modelo de produção que beneficia somente pequenos grupos e uma pequena porção da população mundial”, denunciou o Papa.
 
A mensagem evoca também as consequências das alterações climáticas para as migrações humanas da actualidade, falando em “migrantes climáticos” que engrossam “as filas desta caravana dos últimos, dos excluídos, daqueles a quem é negado um papel na grande família humana”.
 
O Papa termina com um apelo à mudança de rumo, para que “o desenvolvimento não seja somente uma prerrogativa de poucos nem os bens da criação sejam património dos poderosos”.

Dia Mundial da Alimentação - 11 alimentos em vias de extinção

Será que a sua comida favorita corre o risco de desaparecer? As mudanças climáticas, a desflorestação e outros problemas provocados pela mão humana estão a provocar o desaparecimento de algumas das comidas mais deliciosas do planeta. Saiba quais.

domingo, 9 de outubro de 2016

Há novas regras para tentar salvar o mamífero mais traficado do mundo

PÚBLICO

O comércio de pangolins, cujas escamas são usadas na medicina tradicional chinesa, foi banido e foram aprovadas medidas coercivas para caçadores e traficantes.
Os pangolins representam cerca de 20% do tráfico total de animais
Estão longe de ser o animal mais bonito do mundo, mas diz-se que é, de longe, o mamífero mais traficado de todos. Os pangolins são um animal nocturno, com o corpo coberto de escamas, que se alimenta de formigas e vive em regiões tropicais em África e na Ásia. Além de a sua carne ser considerada uma iguaria em certas regiões da China, as escamas também são um ingrediente muito procurado na medicina tradicional chinesa. Isso ajuda a perceber porque é que estão à beira de desaparecer na China e porque é que são os alvos privilegiados de caçadores furtivos nas florestas da Indonésia e do Vietname.
 
Apesar de serem um animal pouco conhecido, estima-se que os pangolins representem 20% de todo o tráfico ilegal de espécies selvagens e que na última década mais de um milhão tenha sido capturado, escreve a BBC.
 
Entre Janeiro e Setembro deste ano, as autoridades capturaram mais de 18 mil toneladas de escamas destes animais ameaçados de extinção em cerca de 19 países, de acordo com um estudo do grupo de conservação da natureza Annamiticus. A maioria destas escamas era proveniente de animais africanos, oriundos dos Camarões, da Nigéria e do Gana. Segundo o especialistas, por cada quilograma de escamas é preciso matar três ou quatro animais.
 
O facto de a procura por pangolins continuar a crescer levou a que recentemente a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (organização que junta governos de todo o mundo e é conhecida como CITES) tenha, no seu último encontro, em Joanesburgo, votado a proibição total do comércio de qualquer uma das oito espécies conhecidas (quatro vivem na Ásia e outras quatro em África). Além disso, a CITES aprovou uma série de medidas coercivas que os seus membros devem por em acção para combater o tráfico ilegal destes animais.
 
Segundo dados publicados pelo Worldwatch Institute, a enorme procura por parte da China já levou ao “grande declínio” nas populações de pangolins de países como o Camboja, Vietname e Laos. Actualmente, são os pangolins provenientes da Indonésia e da Malásia que abastecem grande parte da procura, além daqueles que vêm de África.
 
Ainda que a China seja membro da CITES, o país permite o consumo de pangolins, nomeadamente as escamas, por respeito às tradições médicas chinesas, lembra o Worldwatch Institute. E, por outro lado, embora vários países tenham proibido a caça furtiva e o comércio internacional instituindo penas pesadas, a verdade é que a sua eficácia é reduzida porque são poucos os que têm os meios humanos e financeiros necessários para uma fiscalização activa, nota a organização.
 
Foi em 2013 que um acidente de barco expôs, por acaso, a crua realidade do tráfico desta espécie ameaçada. Quando um barco de pesca chinês embateu contra um recife de coral ao largo das Filipinas e as autoridades subiram a bordo para o examinar, descobriram mais de 2000 pangolins mortos e acondicionados em 400 caixas.
 
Foi precisamente um trabalho sobre a captura ilegal de pangolins que deu ao fotógrafo Paul Hilton o prémio Wildlife Photographer of the Year. O fotojornalista de Hong Kong chamou-lhe The pangolin pit (a fossa de pinguins). Nessa imagem, captada em Sumatra (Indonésia), podem ver-se os cadáveres de cerca de quatro mil pangolins, enrolados (tal como o ouriço-cacheiro, enrolam-se quando se sentem ameaçados), em processo de descongelação, momentos antes de serem incinerados pelas autoridades indonésias.
 
Esta foi uma das maiores apreensões de pangolins de que há registo – cerca de cinco mil toneladas, segundo a BBC Earth. Além disso, foram encontrados 96 animais vivos devido ao seu tamanho. Explica a BBC que são alimentados à força, para crescerem e poderem ser vendidos por um preço melhor. "Os crimes contra as espécies selvagens são um grande negócio, mas só vão acabar, quando acabar a procura”, diz Hilton.

Chimpanzés e orangotangos também percebem o que vai na cabeça dos outros

Will Dunham /Reuters

Reconhecer as crenças dos outros é uma capacidade central em muitos comportamentos humanos.
Chimpanzés num jardim zoológico na Bélgica
Utilizando vídeos caseiros que mostravam uma pessoa vestida com um fato de King Kong, uma equipa de cientistas documentou uma capacidade cognitiva extraordinária comum a chimpanzés, bonobos e orangotangos: a capacidade humana de reconhecer que as crenças dos outros estão erradas.
 
Publicada na edição desta semana da revista Science, a investigação demonstrou que os grandes símios, os nossos primos mais próximos do ponto de vista evolutivo, têm uma capacidade que até agora se pensava ser exclusiva das pessoas. Nas experiências, os cientistas mostraram individualmente a vários símios vídeos nos quais aparecia um actor humano e uma pessoa vestida com a personagem do King Kong. O movimento dos olhos dos grandes símios era monitorizado. No vídeo, a pessoa estava a observar o King Kong a esconder um objecto numa de duas caixas. Quando a pessoa saía, o King Kong mudava o objecto para um novo lugar. E quando a pessoa regressava para procurar o objecto, os símios olhavam intensamente para o lugar original, antecipando que a pessoa iria procurá-lo aí. Mesmo sabendo que o objecto tinha mudado de sítio, os símios percebiam que o humano pensava que estava aí, explicou um dos coordenadores do estudo, Fumihiro Kano, psicólogo comparativo na Universidade de Quioto, no Japão.
 
A capacidade de perceber os pensamentos e as emoções dos outros está no centro de muitos dos comportamentos sociais humanos, incluindo as nossas formas únicas de comunicação, cooperação e cultura, disse outro coordenador do estudo, Christopher Krupenye, psicólogo comparativo no Instituto Max Planck para a Antropologia Evolutiva, na Alemanha. No centro desta capacidade está a compreensão de que as acções dos outros não são necessariamente guiadas pela realidade mas pelas suas crenças sobre a realidade, mesmo quando ela é falsa, acrescentou Christopher Krupenye.
 
As crianças humanas desenvolvem completamente esta capacidade de compreensão por volta dos quatro ou cinco anos. “Os grandes símios são incrivelmente inteligentes, o que não é assim tão surpreendente, uma vez que são os nossos parentes mais próximos, mas penso que muitas pessoas subestimam as capacidades cognitivas dos animais em geral”, disse Christopher Krupenye.
 
Ao estudar os grandes símios, os investigadores procuram aprender quais os aspectos da psicologia que são únicos das pessoas e quais é que são partilhados com outros símios, sendo assim provável que já estivessem presentes no antepassado comum a todos eles que viveu há cerca de 13 a 18 milhões de anos antes da separação da linhagem evolutiva entre os humanos e as outras espécies, referiu ainda Christopher Krupenye.
 
Estudos anteriores, acrescentou este investigador, já tinham mostrado que os grandes símios conseguem compreender os objectivos e as intenções dos outros, saber o que eles vêem e perceber o que eles sabem tendo em conta o que viram.

Nobel da Física leva-nos até aos estados exóticos da matéria

e
(actualizado às )                    
Novos materiais, novos supercondutores, computadores incrivelmente rápidos – eis algumas aplicações possíveis da física por trás do prémio deste ano. Há três galardoados.
Os três premiados com o Nobel da Física de 2016
O Prémio Nobel da Física de 2016, anunciado esta terça-feira, leva-nos numa viagem até aos estados exóticos da matéria. Até ao mundo das temperaturas muito baixas (muito para lá dos zeros graus Celsius) e de átomos em películas tão finas que estão quase só numa ou em duas dimensões. Neste mundo da matéria fria, o que acontece? Será que a matéria muda de estado ou, como dizem os físicos, há transição de fases?
 
No mundo que todos conhecemos, vemos que as moléculas da água, por exemplo, podem estar no estado gasoso, líquido ou sólido. E que, às temperaturas que nós próprios podemos suportar, as moléculas de água passam de um estado para o outro. Ou seja, ocorre a tal transição de fases. Mas os três premiados com o Nobel da Física deste ano – os britânicos David Thouless, Duncan Haldane e Michael Kosterlitz, todos físicos teóricos a trabalhar nos EUA – ajudaram-nos a compreender o que se passa com a matéria a temperaturas muito baixas, perto do chamado “zero absoluto” (que é de 273 graus Celsius negativos), e em sistemas com uma ou duas dimensões.
 
Até às suas investigações, nas décadas de 70 e 80, achava-se que nada acontecia nesses mundos da matéria fria com menos de três dimensões (comprimento, altura e largura). Que não havia transição de fases. David Thouless (da Universidade de Washington em Seattle), Duncan Haldane (da Universidade de Princeton) e Michael Kosterlitz (da Universidade de Brown) viram que sim, que a matéria mudava de estado. E que tinha propriedades físicas bizarras. Esta mudança chama-se “transição de fase topológica”.
 
“Ninguém tinha considerado essa possibilidade”, explica-nos Pedro Sacramento, físico da matéria condensada no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. “Essa ideia nova não estava em desacordo com a teoria anterior. O que adicionou foi mais uma via”, acrescenta.
 
“Pelas descobertas teóricas das transições de fase topológicas e fases topológicas da matéria”, a Real Academia Sueca das Ciências atribui-lhes agora o Nobel da Física. Os três cientistas vão receber ao todo 833.000 euros. Metade irá para David Thouless e a outra metade para Michael Kosterlitz e Duncan Haldane.
 
“Fiquei muito surpreendido e satisfeito. Só agora é que há um número tremendo de novas descobertas com base no trabalho inicial. Isto ensinou-nos que a mecânica quântica se pode comportar de uma forma muito mais estranha do que poderíamos adivinhar”, disse Duncan Haldane ao telefone durante o anúncio do prémio, citado pelo site Physics World. “Era apenas um modelo que demonstrava algo… E como muitas descobertas, tropeça-se nelas e é preciso perceber que há uma coisa interessante ali.”
 
Regressando um pouco atrás, as mudanças de estado da matéria no nosso quotidiano são bem conhecidas. Os físicos sabem que as moléculas da água, por exemplo, estão organizadas de formas diferentes consoante a temperatura (e a pressão). No estado sólido, as moléculas de água encontram-se ligadas umas às outras, enquanto no líquido estão aos trambolhões. E que no estado gasoso ficam ainda mais soltas. Estes saltos entre fases ocorrem de forma brusca, quando a temperatura muda (basta pensar numa panela com água a ferver).
 
Também já se sabia que, perante temperaturas muito baixas, a matéria podia ganhar propriedades físicas invulgares. É o caso do hélio-4, que a 271 graus Celsius negativos se comporta como um superfluido, perdendo a viscosidade. Há vídeos incríveis que mostram que hélio líquido num frasco, quando arrefecido até àquela temperatura extrema, começa a subir pelas paredes do recipiente. As experiências da superfluidez do hélio-4 foram realizadas nos 30 pelo russo Pyotr Kapitsa e valeram-lhe o Nobel da Física em 1978, década em que David Thouless e Michael Kosterlitz começaram os seus trabalhos.
 
Os dois físicos teóricos começaram a trabalhar juntos em Birmingham, no Reino Unido. “O que fizeram, através do pensamento, usando a matemática, foi ver como é que a matéria se comportava em situações extremas”, diz o físico Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra. Mais concretamente, pensaram nas mudanças das propriedades da matéria não só quando ela é submetida a temperaturas muito baixas, próximas do zero absoluto, mas também quando está a duas dimensões. Por outras palavras ainda, num mundo plano. E o que acontece então?
 
“A transição de fase topológica não é uma transição de fase vulgar, como entre o gelo e a água líquida. Num material plano, o papel principal na transição topológica é desempenhado por pequenos vórtices”, lê-se no comunicado da Real Academia Sueca das Ciências. Pode-se dizer que estes vórtices são formados por pequenos ímanes dos átomos que estão orientados de determinadas formas. “A temperaturas baixas os vórtices estão juntos aos pares. Quando a temperatura aumenta, ocorre a transição de fase: subitamente, os vórtices afastam-se um do outro e navegam pelo material”, acrescenta o comunicado. Esta proposta teórica foi demonstrada mais tarde, em experiências.
 
Mas se esta parte do trabalho de David Thouless e Michael Kosterlitz foi teórica, a investigação que se seguiu também premiada pelo Nobel teve origem em observações. Em 1980, o físico alemão Klaus von Klitzing descobriu (em experiências numa fina camada condutora de electricidade entre dois materiais semicondutores) que os electrões têm um comportamento também estranho a baixas temperaturas. Esta camada fininha é submetida a um campo magnético. Ao variar este campo magnético, a sua condutância eléctrica sofre alterações em “degraus” e não gradualmente, como seria esperado.
 
Na altura, a física teórica não tinha explicação para o que Klaus von Klitzing tinha observado. Mas David Thouless e Duncan Haldane conseguiram explicar fenómeno a nível teórico, socorrendo-se de um ramo da matemática, a topologia – que estuda as propriedades que permanecem intactas de um objecto quando é esticado, dobrado e deformado. E aplicaram esses métodos para descrever os saltos, ou degraus, que tinham sido observados nos valores da condutância eléctrica.
 
Que aplicações pode ter esta área da física, evoluiu bastante nas últimas décadas? Pode ter em novos materiais, novos supercondutores ou na criação de computadores quânticos com capacidades de cálculo imensas. Os cientistas designam estas tecnologias do futuro como “novos materiais topológicos”.
 
“A mente vai primeiro e depois lá vai o corpo atrás”, diz Carlos Fiolhais, resumindo o caminho desta e de outras descobertas que começam com cientistas teóricos, são comprovadas em experiências nos laboratórios e acabam no nosso quotidiano em diversas tecnologias, mesmo que isso demore. “Muitas vezes, surgem aplicações ao fim de 40 ou 50 anos.”
http://www.publico.pt/n1746107

Laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata? Não é bem assim



A laranja à noite afinal ajuda a adormecer, os cereais são desnecessários numa alimentação saudável e os antioxidantes são prejudiciais para os desportistas, revelam especialistas em nutrição que no sábado se reúnem em Lisboa para desmistificar conceitos alimentares errados.

O 3.º Congresso Europeu de Nutrição Funcional vai reunir os “maiores especialistas do mundo em nutrição funcional” para partilhar conhecimentos e alertar para cruciais questões de saúde.
 
A “nutrição funcional” - considerada a nutrição do século XXI – foca-se na deteção e correção dos desequilíbrios nutricionais de cada pessoa, vendo-a como única, mas tendo em conta que o seu organismo é um todo, consistindo numa abordagem preventiva e de tratamento de problemas crónicos de saúde através da deteção e correção de desequilíbrios bioquímicos que geram as próprias doenças, explicou à Lusa o investigador português Pedro Bastos, responsável pela organização do congresso.
 
Em debate vão estar vários temas alimentares, destacando-se alguns que contrariam ideias enraizadas na sociedade, como é o caso do painel subordinado ao tema “afinal devemos comer laranja ao deitar, entre outros alimentos amigos do sono” que deita por terra o provérbio “laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata”.
 
Pedro Bastos explica que, resultando de observações casuais e de informações transmitidas de forma oral, os provérbios populares não foram sujeitos a análise rigorosa e científica, o que resulta por vezes em incorreções, como será o caso deste.
 
“No que diz respeito ao sono, um estudo publicado em 2013 no Journal of Pineal Research demonstrou que a ingestão de laranja aumenta as concentrações de Melatonina, a principal hormona responsável pelo sono”, acrescentou.
 
Ainda no que respeita a crenças alimentares, os cereais surgem na base da pirâmide alimentar e são tidos como fundamentais na alimentação, por serem o “combustível” do organismo, estando presentes em quase todas as refeições e em snacks nos intervalos.
 
Nada mais errado, na verdade, os cereais são absolutamente desnecessários, pois “do ponto de vista puramente nutricional, não existe nada nos cereais que os torne essenciais, pois todos os nutrientes existentes nos mesmos estão presentes em outros alimentos, incluindo fibra, vitaminas e minerais”, sendo que o seu teor em vitaminas e minerais é reduzido e a biodisponibilidade (quanto de facto absorvemos e aproveitamos) dos mesmos é baixa, esclareceu o especialista.
 
Em termos nutricionais, uma alimentação saudável deve recolher os hidratos de carbono das hortaliças (que simultaneamente têm oito vezes mais fibras do que os cereais), frutas (duas vezes mais fibras) e tubérculos.
 
As consequências de uma alimentação fortemente baseada em cereais, sobretudo os refinados, são risco acrescido de diabetes tipo II, de doença cardiovascular, de progressão de alguns tipos de cancro (mama, próstata e cólon) e de algumas doenças inflamatórias e metabólicas, afirmou Pedro Bastos.
 
Outra “surpresa” deste congresso é que os “suplementos antioxidantes diminuem a eficácia do exercício físico”, ou seja, a prática de exercício físico “induz adaptações que melhoram a nossa saúde e resistência a diversas patologias”.
 
“Uma dessas adaptações consiste na produção endógena de proteínas antioxidantes, que nos vão 'proteger' não apenas de futuras sessões de exercício, como de vários outras agressões às quais somos expostos (como tabaco e poluição)”, acrescenta o investigador.
 
O que acontece é que o recurso a suplementos antioxidantes vai diminuir a produção de antioxidantes endógenos e outras adaptações que melhoram a saúde e o rendimento desportivo, explicou, aconselhando antes a ingestão de “quantidades fisiológicas de vitamina C e E através de fruta, hortaliças e oleaginosas”, para garantir “um aporte adequado dos nutrientes necessários para a produção e ação dos antioxidantes que nós próprios produzimos”.
 
Além do sono, do exercício físico e da composição corporal, este ano o congresso vai também destacar a importância da nutrição funcional na gravidez e em complicações na infância, como a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção, dando enfoque aos “temas mais relevantes para a sociedade atual: inflamação, intestino e longevidade”.