domingo, 16 de outubro de 2016

Dia Mundial da Alimentação - 11 alimentos em vias de extinção

Será que a sua comida favorita corre o risco de desaparecer? As mudanças climáticas, a desflorestação e outros problemas provocados pela mão humana estão a provocar o desaparecimento de algumas das comidas mais deliciosas do planeta. Saiba quais.

domingo, 9 de outubro de 2016

Há novas regras para tentar salvar o mamífero mais traficado do mundo

PÚBLICO

O comércio de pangolins, cujas escamas são usadas na medicina tradicional chinesa, foi banido e foram aprovadas medidas coercivas para caçadores e traficantes.
Os pangolins representam cerca de 20% do tráfico total de animais
Estão longe de ser o animal mais bonito do mundo, mas diz-se que é, de longe, o mamífero mais traficado de todos. Os pangolins são um animal nocturno, com o corpo coberto de escamas, que se alimenta de formigas e vive em regiões tropicais em África e na Ásia. Além de a sua carne ser considerada uma iguaria em certas regiões da China, as escamas também são um ingrediente muito procurado na medicina tradicional chinesa. Isso ajuda a perceber porque é que estão à beira de desaparecer na China e porque é que são os alvos privilegiados de caçadores furtivos nas florestas da Indonésia e do Vietname.
 
Apesar de serem um animal pouco conhecido, estima-se que os pangolins representem 20% de todo o tráfico ilegal de espécies selvagens e que na última década mais de um milhão tenha sido capturado, escreve a BBC.
 
Entre Janeiro e Setembro deste ano, as autoridades capturaram mais de 18 mil toneladas de escamas destes animais ameaçados de extinção em cerca de 19 países, de acordo com um estudo do grupo de conservação da natureza Annamiticus. A maioria destas escamas era proveniente de animais africanos, oriundos dos Camarões, da Nigéria e do Gana. Segundo o especialistas, por cada quilograma de escamas é preciso matar três ou quatro animais.
 
O facto de a procura por pangolins continuar a crescer levou a que recentemente a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção (organização que junta governos de todo o mundo e é conhecida como CITES) tenha, no seu último encontro, em Joanesburgo, votado a proibição total do comércio de qualquer uma das oito espécies conhecidas (quatro vivem na Ásia e outras quatro em África). Além disso, a CITES aprovou uma série de medidas coercivas que os seus membros devem por em acção para combater o tráfico ilegal destes animais.
 
Segundo dados publicados pelo Worldwatch Institute, a enorme procura por parte da China já levou ao “grande declínio” nas populações de pangolins de países como o Camboja, Vietname e Laos. Actualmente, são os pangolins provenientes da Indonésia e da Malásia que abastecem grande parte da procura, além daqueles que vêm de África.
 
Ainda que a China seja membro da CITES, o país permite o consumo de pangolins, nomeadamente as escamas, por respeito às tradições médicas chinesas, lembra o Worldwatch Institute. E, por outro lado, embora vários países tenham proibido a caça furtiva e o comércio internacional instituindo penas pesadas, a verdade é que a sua eficácia é reduzida porque são poucos os que têm os meios humanos e financeiros necessários para uma fiscalização activa, nota a organização.
 
Foi em 2013 que um acidente de barco expôs, por acaso, a crua realidade do tráfico desta espécie ameaçada. Quando um barco de pesca chinês embateu contra um recife de coral ao largo das Filipinas e as autoridades subiram a bordo para o examinar, descobriram mais de 2000 pangolins mortos e acondicionados em 400 caixas.
 
Foi precisamente um trabalho sobre a captura ilegal de pangolins que deu ao fotógrafo Paul Hilton o prémio Wildlife Photographer of the Year. O fotojornalista de Hong Kong chamou-lhe The pangolin pit (a fossa de pinguins). Nessa imagem, captada em Sumatra (Indonésia), podem ver-se os cadáveres de cerca de quatro mil pangolins, enrolados (tal como o ouriço-cacheiro, enrolam-se quando se sentem ameaçados), em processo de descongelação, momentos antes de serem incinerados pelas autoridades indonésias.
 
Esta foi uma das maiores apreensões de pangolins de que há registo – cerca de cinco mil toneladas, segundo a BBC Earth. Além disso, foram encontrados 96 animais vivos devido ao seu tamanho. Explica a BBC que são alimentados à força, para crescerem e poderem ser vendidos por um preço melhor. "Os crimes contra as espécies selvagens são um grande negócio, mas só vão acabar, quando acabar a procura”, diz Hilton.

Chimpanzés e orangotangos também percebem o que vai na cabeça dos outros

Will Dunham /Reuters

Reconhecer as crenças dos outros é uma capacidade central em muitos comportamentos humanos.
Chimpanzés num jardim zoológico na Bélgica
Utilizando vídeos caseiros que mostravam uma pessoa vestida com um fato de King Kong, uma equipa de cientistas documentou uma capacidade cognitiva extraordinária comum a chimpanzés, bonobos e orangotangos: a capacidade humana de reconhecer que as crenças dos outros estão erradas.
 
Publicada na edição desta semana da revista Science, a investigação demonstrou que os grandes símios, os nossos primos mais próximos do ponto de vista evolutivo, têm uma capacidade que até agora se pensava ser exclusiva das pessoas. Nas experiências, os cientistas mostraram individualmente a vários símios vídeos nos quais aparecia um actor humano e uma pessoa vestida com a personagem do King Kong. O movimento dos olhos dos grandes símios era monitorizado. No vídeo, a pessoa estava a observar o King Kong a esconder um objecto numa de duas caixas. Quando a pessoa saía, o King Kong mudava o objecto para um novo lugar. E quando a pessoa regressava para procurar o objecto, os símios olhavam intensamente para o lugar original, antecipando que a pessoa iria procurá-lo aí. Mesmo sabendo que o objecto tinha mudado de sítio, os símios percebiam que o humano pensava que estava aí, explicou um dos coordenadores do estudo, Fumihiro Kano, psicólogo comparativo na Universidade de Quioto, no Japão.
 
A capacidade de perceber os pensamentos e as emoções dos outros está no centro de muitos dos comportamentos sociais humanos, incluindo as nossas formas únicas de comunicação, cooperação e cultura, disse outro coordenador do estudo, Christopher Krupenye, psicólogo comparativo no Instituto Max Planck para a Antropologia Evolutiva, na Alemanha. No centro desta capacidade está a compreensão de que as acções dos outros não são necessariamente guiadas pela realidade mas pelas suas crenças sobre a realidade, mesmo quando ela é falsa, acrescentou Christopher Krupenye.
 
As crianças humanas desenvolvem completamente esta capacidade de compreensão por volta dos quatro ou cinco anos. “Os grandes símios são incrivelmente inteligentes, o que não é assim tão surpreendente, uma vez que são os nossos parentes mais próximos, mas penso que muitas pessoas subestimam as capacidades cognitivas dos animais em geral”, disse Christopher Krupenye.
 
Ao estudar os grandes símios, os investigadores procuram aprender quais os aspectos da psicologia que são únicos das pessoas e quais é que são partilhados com outros símios, sendo assim provável que já estivessem presentes no antepassado comum a todos eles que viveu há cerca de 13 a 18 milhões de anos antes da separação da linhagem evolutiva entre os humanos e as outras espécies, referiu ainda Christopher Krupenye.
 
Estudos anteriores, acrescentou este investigador, já tinham mostrado que os grandes símios conseguem compreender os objectivos e as intenções dos outros, saber o que eles vêem e perceber o que eles sabem tendo em conta o que viram.

Nobel da Física leva-nos até aos estados exóticos da matéria

e
(actualizado às )                    
Novos materiais, novos supercondutores, computadores incrivelmente rápidos – eis algumas aplicações possíveis da física por trás do prémio deste ano. Há três galardoados.
Os três premiados com o Nobel da Física de 2016
O Prémio Nobel da Física de 2016, anunciado esta terça-feira, leva-nos numa viagem até aos estados exóticos da matéria. Até ao mundo das temperaturas muito baixas (muito para lá dos zeros graus Celsius) e de átomos em películas tão finas que estão quase só numa ou em duas dimensões. Neste mundo da matéria fria, o que acontece? Será que a matéria muda de estado ou, como dizem os físicos, há transição de fases?
 
No mundo que todos conhecemos, vemos que as moléculas da água, por exemplo, podem estar no estado gasoso, líquido ou sólido. E que, às temperaturas que nós próprios podemos suportar, as moléculas de água passam de um estado para o outro. Ou seja, ocorre a tal transição de fases. Mas os três premiados com o Nobel da Física deste ano – os britânicos David Thouless, Duncan Haldane e Michael Kosterlitz, todos físicos teóricos a trabalhar nos EUA – ajudaram-nos a compreender o que se passa com a matéria a temperaturas muito baixas, perto do chamado “zero absoluto” (que é de 273 graus Celsius negativos), e em sistemas com uma ou duas dimensões.
 
Até às suas investigações, nas décadas de 70 e 80, achava-se que nada acontecia nesses mundos da matéria fria com menos de três dimensões (comprimento, altura e largura). Que não havia transição de fases. David Thouless (da Universidade de Washington em Seattle), Duncan Haldane (da Universidade de Princeton) e Michael Kosterlitz (da Universidade de Brown) viram que sim, que a matéria mudava de estado. E que tinha propriedades físicas bizarras. Esta mudança chama-se “transição de fase topológica”.
 
“Ninguém tinha considerado essa possibilidade”, explica-nos Pedro Sacramento, físico da matéria condensada no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. “Essa ideia nova não estava em desacordo com a teoria anterior. O que adicionou foi mais uma via”, acrescenta.
 
“Pelas descobertas teóricas das transições de fase topológicas e fases topológicas da matéria”, a Real Academia Sueca das Ciências atribui-lhes agora o Nobel da Física. Os três cientistas vão receber ao todo 833.000 euros. Metade irá para David Thouless e a outra metade para Michael Kosterlitz e Duncan Haldane.
 
“Fiquei muito surpreendido e satisfeito. Só agora é que há um número tremendo de novas descobertas com base no trabalho inicial. Isto ensinou-nos que a mecânica quântica se pode comportar de uma forma muito mais estranha do que poderíamos adivinhar”, disse Duncan Haldane ao telefone durante o anúncio do prémio, citado pelo site Physics World. “Era apenas um modelo que demonstrava algo… E como muitas descobertas, tropeça-se nelas e é preciso perceber que há uma coisa interessante ali.”
 
Regressando um pouco atrás, as mudanças de estado da matéria no nosso quotidiano são bem conhecidas. Os físicos sabem que as moléculas da água, por exemplo, estão organizadas de formas diferentes consoante a temperatura (e a pressão). No estado sólido, as moléculas de água encontram-se ligadas umas às outras, enquanto no líquido estão aos trambolhões. E que no estado gasoso ficam ainda mais soltas. Estes saltos entre fases ocorrem de forma brusca, quando a temperatura muda (basta pensar numa panela com água a ferver).
 
Também já se sabia que, perante temperaturas muito baixas, a matéria podia ganhar propriedades físicas invulgares. É o caso do hélio-4, que a 271 graus Celsius negativos se comporta como um superfluido, perdendo a viscosidade. Há vídeos incríveis que mostram que hélio líquido num frasco, quando arrefecido até àquela temperatura extrema, começa a subir pelas paredes do recipiente. As experiências da superfluidez do hélio-4 foram realizadas nos 30 pelo russo Pyotr Kapitsa e valeram-lhe o Nobel da Física em 1978, década em que David Thouless e Michael Kosterlitz começaram os seus trabalhos.
 
Os dois físicos teóricos começaram a trabalhar juntos em Birmingham, no Reino Unido. “O que fizeram, através do pensamento, usando a matemática, foi ver como é que a matéria se comportava em situações extremas”, diz o físico Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra. Mais concretamente, pensaram nas mudanças das propriedades da matéria não só quando ela é submetida a temperaturas muito baixas, próximas do zero absoluto, mas também quando está a duas dimensões. Por outras palavras ainda, num mundo plano. E o que acontece então?
 
“A transição de fase topológica não é uma transição de fase vulgar, como entre o gelo e a água líquida. Num material plano, o papel principal na transição topológica é desempenhado por pequenos vórtices”, lê-se no comunicado da Real Academia Sueca das Ciências. Pode-se dizer que estes vórtices são formados por pequenos ímanes dos átomos que estão orientados de determinadas formas. “A temperaturas baixas os vórtices estão juntos aos pares. Quando a temperatura aumenta, ocorre a transição de fase: subitamente, os vórtices afastam-se um do outro e navegam pelo material”, acrescenta o comunicado. Esta proposta teórica foi demonstrada mais tarde, em experiências.
 
Mas se esta parte do trabalho de David Thouless e Michael Kosterlitz foi teórica, a investigação que se seguiu também premiada pelo Nobel teve origem em observações. Em 1980, o físico alemão Klaus von Klitzing descobriu (em experiências numa fina camada condutora de electricidade entre dois materiais semicondutores) que os electrões têm um comportamento também estranho a baixas temperaturas. Esta camada fininha é submetida a um campo magnético. Ao variar este campo magnético, a sua condutância eléctrica sofre alterações em “degraus” e não gradualmente, como seria esperado.
 
Na altura, a física teórica não tinha explicação para o que Klaus von Klitzing tinha observado. Mas David Thouless e Duncan Haldane conseguiram explicar fenómeno a nível teórico, socorrendo-se de um ramo da matemática, a topologia – que estuda as propriedades que permanecem intactas de um objecto quando é esticado, dobrado e deformado. E aplicaram esses métodos para descrever os saltos, ou degraus, que tinham sido observados nos valores da condutância eléctrica.
 
Que aplicações pode ter esta área da física, evoluiu bastante nas últimas décadas? Pode ter em novos materiais, novos supercondutores ou na criação de computadores quânticos com capacidades de cálculo imensas. Os cientistas designam estas tecnologias do futuro como “novos materiais topológicos”.
 
“A mente vai primeiro e depois lá vai o corpo atrás”, diz Carlos Fiolhais, resumindo o caminho desta e de outras descobertas que começam com cientistas teóricos, são comprovadas em experiências nos laboratórios e acabam no nosso quotidiano em diversas tecnologias, mesmo que isso demore. “Muitas vezes, surgem aplicações ao fim de 40 ou 50 anos.”
http://www.publico.pt/n1746107

Laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata? Não é bem assim



A laranja à noite afinal ajuda a adormecer, os cereais são desnecessários numa alimentação saudável e os antioxidantes são prejudiciais para os desportistas, revelam especialistas em nutrição que no sábado se reúnem em Lisboa para desmistificar conceitos alimentares errados.

O 3.º Congresso Europeu de Nutrição Funcional vai reunir os “maiores especialistas do mundo em nutrição funcional” para partilhar conhecimentos e alertar para cruciais questões de saúde.
 
A “nutrição funcional” - considerada a nutrição do século XXI – foca-se na deteção e correção dos desequilíbrios nutricionais de cada pessoa, vendo-a como única, mas tendo em conta que o seu organismo é um todo, consistindo numa abordagem preventiva e de tratamento de problemas crónicos de saúde através da deteção e correção de desequilíbrios bioquímicos que geram as próprias doenças, explicou à Lusa o investigador português Pedro Bastos, responsável pela organização do congresso.
 
Em debate vão estar vários temas alimentares, destacando-se alguns que contrariam ideias enraizadas na sociedade, como é o caso do painel subordinado ao tema “afinal devemos comer laranja ao deitar, entre outros alimentos amigos do sono” que deita por terra o provérbio “laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata”.
 
Pedro Bastos explica que, resultando de observações casuais e de informações transmitidas de forma oral, os provérbios populares não foram sujeitos a análise rigorosa e científica, o que resulta por vezes em incorreções, como será o caso deste.
 
“No que diz respeito ao sono, um estudo publicado em 2013 no Journal of Pineal Research demonstrou que a ingestão de laranja aumenta as concentrações de Melatonina, a principal hormona responsável pelo sono”, acrescentou.
 
Ainda no que respeita a crenças alimentares, os cereais surgem na base da pirâmide alimentar e são tidos como fundamentais na alimentação, por serem o “combustível” do organismo, estando presentes em quase todas as refeições e em snacks nos intervalos.
 
Nada mais errado, na verdade, os cereais são absolutamente desnecessários, pois “do ponto de vista puramente nutricional, não existe nada nos cereais que os torne essenciais, pois todos os nutrientes existentes nos mesmos estão presentes em outros alimentos, incluindo fibra, vitaminas e minerais”, sendo que o seu teor em vitaminas e minerais é reduzido e a biodisponibilidade (quanto de facto absorvemos e aproveitamos) dos mesmos é baixa, esclareceu o especialista.
 
Em termos nutricionais, uma alimentação saudável deve recolher os hidratos de carbono das hortaliças (que simultaneamente têm oito vezes mais fibras do que os cereais), frutas (duas vezes mais fibras) e tubérculos.
 
As consequências de uma alimentação fortemente baseada em cereais, sobretudo os refinados, são risco acrescido de diabetes tipo II, de doença cardiovascular, de progressão de alguns tipos de cancro (mama, próstata e cólon) e de algumas doenças inflamatórias e metabólicas, afirmou Pedro Bastos.
 
Outra “surpresa” deste congresso é que os “suplementos antioxidantes diminuem a eficácia do exercício físico”, ou seja, a prática de exercício físico “induz adaptações que melhoram a nossa saúde e resistência a diversas patologias”.
 
“Uma dessas adaptações consiste na produção endógena de proteínas antioxidantes, que nos vão 'proteger' não apenas de futuras sessões de exercício, como de vários outras agressões às quais somos expostos (como tabaco e poluição)”, acrescenta o investigador.
 
O que acontece é que o recurso a suplementos antioxidantes vai diminuir a produção de antioxidantes endógenos e outras adaptações que melhoram a saúde e o rendimento desportivo, explicou, aconselhando antes a ingestão de “quantidades fisiológicas de vitamina C e E através de fruta, hortaliças e oleaginosas”, para garantir “um aporte adequado dos nutrientes necessários para a produção e ação dos antioxidantes que nós próprios produzimos”.
 
Além do sono, do exercício físico e da composição corporal, este ano o congresso vai também destacar a importância da nutrição funcional na gravidez e em complicações na infância, como a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção, dando enfoque aos “temas mais relevantes para a sociedade atual: inflamação, intestino e longevidade”.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Nobel da Química para as máquinas mais pequenas do mundo

(actualizado às )
Um elástico, um elevador, um motor e um carro são algumas das máquinas moleculares desenvolvidas por Jean-Pierre Sauvage, Fraser Stoddart e Bernard Feringa. Pensa-se que estas nanotecnologias vão ser tão importantes como é hoje o motor eléctrico.
 
Bernard Feringa
Jean-Pierre Sauvage
James Fraser Stoddart
 As palavras podiam entrar numa conversa de oficina: motores, rotores, elevadores, chassis. Este léxico, cujo imaginário remonta ao início da revolução industrial, traz imagens de óleo, fumo, barulho e trabalho. Mas nesta quarta-feira o mundo associou-as a uma realidade completamente diferente, onde impera a escala dos átomos. O Prémio Nobel da Química de 2016 foi para os três cientistas que desenvolveram máquinas moleculares: o francês Jean-Pierre Sauvage, o escocês Fraser Stoddart e o holandês Bernard Feringa. Em menos de 20 anos, eles puseram moléculas a mexer e a trabalhar, com pouca energia.
 
Estas são as máquinas mais pequenas de sempre fabricadas pelo homem, mil vezes mais pequenas do que a espessura de um fio de cabelo. Onde irá parar o mundo movimentado (e fascinante) das máquinas moleculares? A Real Academia Sueca das Ciências, que atribui os Prémios Nobel, explica que estamos na alvorada de uma nova tecnologia. As próximas décadas trarão novidades, mas da informática à medicina, muitas áreas serão transformadas.

 “Em termos de desenvolvimento, o motor molecular está no mesmo estado de desenvolvimento do que o motor eléctrico na década de 1830, quando os cientistas exibiam máquinas eléctricas capazes de mover pedais e rodas, mas não sabiam que essas máquinas se iriam tornar comboios, máquinas de lavar, ventoinhas”, lê-se no comunicado. “Estas máquinas moleculares podem vir a ser usadas no desenvolvimento de coisas como novos materiais, sensores e sistemas de armazenamento de energia.”

Por isso, “pela concepção e síntese de máquinas moleculares”, nas palavras do comité que atribuiu esta quarta-feira o Nobel, Jean-Pierre Sauvage (Universidade de Estrasburgo, em França), Fraser Stoddart (Universidade Northwestern em Evanston, nos Estados Unidos) e Bernard Feringa (Universidade de Groningen, na Holanda) irão dividir o prémio de oito milhões de coroas suecas (833 mil euros).

“Não soube o que dizer e fiquei um pouco chocado. Foi uma surpresa”, disse ao telefone Bernard Feringa, durante uma breve sessão de perguntas de jornalistas no anúncio do prémio, em Estocolmo, lembrando o que sentiu quando lhe deram a notícia. Bernard Feringa acredita que estas máquinas moleculares poderão vir a estar na origem de robôs (que viajarão até células cancerosas para administrarem medicamentos que as matem) ou de novos materiais (que recebem estímulos químicos para fazerem uma qualquer tarefa), entre muitas outras possibilidades.

Um avanço em três passos

“Para uma máquina ser capaz de executar uma tarefa tem de ser composta por partes que se movem umas em relação às outras”, explica-se no comunicado. Ao longo da evolução, a natureza já criou mecanismos moleculares que produzem movimento. Os flagelos das bactérias, com forma em espiral como os saca-rolhas, giram e permitem que elas se movam. No entanto, apesar de a ideia de máquinas microscópicas construídas pelo homem já ser antiga, o seu desenvolvimento a sério começou há menos de 35 anos.

Em 1983, Jean-Pierre Sauvage conseguiu ligar moléculas em forma de anel, formando uma “corrente” com elas. Nas décadas anteriores, outros químicos tinham conseguido fazer estas correntes moleculares, mas a muito custo e este ramo da química estava praticamente esgotado. Jean-Pierre Sauvage usou um truque com um ião de cobre para obter a estrutura dos elos que formam a corrente. Depois de os anéis estarem presos um ao outro com ajuda do ião, ele é removido. Com esta nova técnica, a produção destes elos moleculares subiu de 10% para 42%. “De repente, as correntes de moléculas eram mais do que uma mera curiosidade científica”, explica o comunicado.
Oito anos depois, Fraser Stoddart desenvolveu o rotaxano: uma estrutura de duas moléculas em que uma se parece com um pequeno eixo, com rodas na extremidade, e a outra com uma argola. A argola está presa ao eixo e é capaz de se movimentar, de uma forma que os cientistas conseguem controlar, entre as suas extremidades.

Finalmente, Bernard Feringa produziu em 1999 o primeiro motor molecular. O cientista construiu um rotor molecular, estrutura que se movimenta circularmente sob o seu próprio eixo, com ajuda da energia dos raios ultravioletas e um sistema de pás que permite que o movimento se faça num só sentido. A equipa de Feringa aperfeiçoou depois o sistema, transformando-o num motor capaz de fazer algo como 12 milhões de revoluções por segundo. Com estes motores, a equipa conseguiu rodar um cilindro de vidro 10.000 vezes maior do que os próprios motores.

Entretanto, já se produziram “carros” moleculares, elevadores moleculares, sistemas semelhantes aos músculos que se esticam e se contraem e um robô molecular capaz de ligar aminoácidos (os tijolos das proteínas). Já foi produzida uma malha de polímeros em cima de motores moleculares que são accionados quando expostos à luz, enrolando a malha. “Desta forma, a energia solar é armazenada nas moléculas e, se os cientistas descobrirem uma técnica para retirar esta energia [acumulada na malha de polímeros], poderá desenvolver-se um novo tipo de bateria”, adianta o comunicado.
Durante a conversa entre Bernard Feringa e os jornalistas, o cientista holandês explicou como nasceu o seu motor molecular: “Comecei por construir interruptores moleculares, que davam informação [no sistema binário] de zeros e uns. O objectivo era ter uma alternativa para armazenar informação.”

Mas rapidamente o cientista percebeu que tinha à sua frente um rotor molecular, capaz de criar movimento. “Quando se consegue controlar o movimento, então é possível pensar em todo o tipo de funções mecânicas, como caminhar e transportar coisas, e ter pequeníssimas máquinas”, disse. “Mas tudo começou a partir de interruptores, de uma ideia muito simples.” E assim nasceu um mundo novo de possibilidades.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

E pela segunda vez aterrámos num cometa

Nicolau Ferreira
(actualizado às )

A sonda Roseta pousou no cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko. Chegou ao fim uma missão que galvanizou pessoas de todo o mundo. Mas a investigação do cometa continuará.
O cometa 67P fotografado pela sonda Roseta
 
O cometa 67P fotografado pela sonda Roseta
A fotografia está desfocada. Sem haver uma escala, a paisagem que se vê pode ser um pedaço de areia com cascalho ou então um grande terreno cheio de pedregulhos. Só a aridez é inquestionável. São as palavras a acompanhar a imagem a preto e branco que lhe emprestam nitidez, significado e emoção: “Do 67P com amor: uma última imagem, obtida a 51 metros antes da aterragem no cometa. Missão cumprida.” A frase original, em inglês, tem as particularidades da escrita do Twitter: poucas dezenas de caracteres, três hashtag, zero pontos finais, ideias concisas. Mas esta entrada da conta da sonda Roseta naquela rede social diz-nos tudo. O tempo de vida do aparelho da Agência Espacial Europeia (ESA) terminou esta sexta-feira. A Roseta aterrou no cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko e adormeceu, para sempre.
 
O 67P continuará a dar voltas ao sistema solar. Desde Agosto de 2014, quando a Roseta se encontrou com ele, passámos a conhecer este cometa com um pormenor inédito. Nunca um aparelho humano se agarrou à gravidade de um cometa para o estudar. Visto como um todo, o 67P tem dois lóbulos – um maior e outro menor –, que lhe dão um ar de pato de borracha e uma cova na ponta. Mais de perto, a superfície do cometa é agreste, feita de cortes, com desfiladeiros, ravinas, mas também planícies, onde há rochas com metros de diâmetro.
   
A última imagem obtida pela Roseta, a 51 metros da superfície do 67P ESA
Com os seus 11 instrumentos científicos, a Roseta ajudou-nos a compreender essa paisagem complexa, longínqua e misteriosa. Até ao fim da sua vida, a sonda enviou fotografias e outros dados científicos sobre o cometa. A imagem final divulgada no Twitter, apesar de ter pouca qualidade, também simboliza esse diálogo com a Terra. Os seus frutos estão agora nas mãos dos astrofísicos da ESA e de outras organizações, que poderão estudar com profundidade o 67P e tentar encontrar respostas sobre a história do sistema solar e do nosso planeta.
 
“A Roseta entrou de novo nos livros de história”, disse Johann-Dietrich Wörner, director-geral da ESA, num comunicado divulgado esta sexta-feira pela ESA, pouco depois de ter chegado o sinal de que a sonda tinha fechado os olhos. “Hoje celebramos o sucesso de uma missão que mudou a forma de fazer as coisas, uma missão que ultrapassou todos os nossos sonhos e expectativas.” E que também fez sonhar, tornando-se uma das mais emblemáticas missões espaciais.

Palmas e abraços

Desde que saiu da Terra, a 2 de Março de 2004, a Roseta já percorreu 7900 milhões de quilómetros. Parte deles com o cometa (cuja órbita se situa entre Júpiter e um ponto entre a Terra e Marte), acompanhando-o na sua aproximação ao ponto mais próximo do Sol, o periélio, em Agosto de 2015.
 
Colado à Roseta, com 2900 quilos, veio o File, um robô de 100 quilos. O File protagonizou em Novembro de 2014 a conquista inédita (e atribulada) de aterrar no cometa 67P. O robô, que entretanto já adormeceu no mesmo lóbulo pequeno em que agora descansa a Roseta, tinha dez instrumentos científicos e usou com sucesso a maioria deles durante as cerca de 60 horas que se manteve activo, escondido nas sombras junto de uma ravina.
 
Os dados dos dois aparelhos permitiram descobrir que o 67P é um objecto feito de pó, minerais, moléculas orgânicas e gelo. Os dois lóbulos formaram-se independentemente, há cerca de 4600 milhões de anos, numa região fria e longínqua do sistema solar, quando o nosso canto do Universo estava no seu início de vida. Os lóbulos juntaram-se algum tempo depois. A água do cometa é de um tipo diferente da que existe na Terra, o que significa que a água na Terra não provém deste tipo de cometas.
 
A decisão de fazer colidir o aparelho no cometa é uma sequência natural do carácter científico da missão. Durante os últimos quilómetros da descida, a sonda foi comandada para medir a temperatura à superfície, a densidade do gás à volta do cometa, a aceleração das partículas que estão a ser projectadas para fora do 67P, o plasma, entre outros aspectos.
   
Na quinta-feira, às 21h50 (hora de Lisboa), um comando accionou a sonda para a manobra de descida, a 19 quilómetros de altitude. A região de Ma’at, no lóbulo pequeno do cometa, foi a escolhida para alvo. Durante a descida, a Roseta foi divulgando fotografias e “falando” connosco. “Tão perto do cometa 67P… Agora sei exactamente como é que o File se terá sentido!”, lia-se no Twitter da sonda Roseta, por volta das 12h08, minutos antes do fim.
 
Cientistas e engenheiros celebram o fim da missão no Centro de Operações Espaciais Europeu, em Darmstadt, na Alemanha DANIEL ROLAND/AFP
Às 12h19 desta sexta-feira, no Centro de Operações Espaciais Europeu, em Darmstadt, na Alemanha, o sinal electrónico da Roseta desapareceu. A sonda deixou de enviar sinais, calando-se para sempre. Houve palmas e abraços entre os vários técnicos e cientistas da missão. Pela segunda vez na história da exploração espacial, uma sonda aterrou num cometa.
“Estamos apenas a dizer adeus à sonda”, disse Matt Taylor, astrofísico da ESA que faz a ligação entre a equipa científica e a equipa de operações desta missão, ao PÚBLICO. “A ciência da missão continuará por muitos anos. É nisso que nos vamos concentrar a partir de agora. Foi por isso que, em primeiro lugar, elaborámos esta missão.”
http://www.publico.pt/n1745693