domingo, 3 de julho de 2016

11 alimentos em vias de extinção

Será que a sua comida favorita corre o risco de desaparecer? As mudanças climáticas, a desflorestação e outros problemas provocados pela mão humana estão a provocar o desaparecimento de algumas das comidas mais deliciosas do planeta. Saiba quais.
Atum - Devida à excessiva procura de atum - para satisfazer as necessicdades vorazes dos apreciadores de sushi que não param de aumentar - este peixe já está na lista das seis espécies mais ameaçadas do planeta, de acordo com a World Wild Life (WWF).
Banana - A doença do Panamá não para de se alastrar. Já atingiu países como Moçambique e Jordânia. Trata-se de uma doença endémica que pode estragar uma produção de banana a 100%.
Abacate - O preço do abacate não para de aumentar, muito por causa da situação de seca global. Nos Estados Unidos, por exemplo, o maior produtor é o Estado da Califórnia. Aqui os preços aumentaram 36 vezes.
Mel - As abelhas estão a desaparecer. A proliferação da vespa asiática - que mata as abelhas - e outras pragas estão a colocar a produção de mel em risco. 24% das espécies de abelha da Europa estão em perigo de extinção de acordo com um estudo da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da UICN, União International para a Conservação da Natureza.
Sem abelhas, não há mel.
Maple syrup - Uma ameaça para os devoradores de panquecas. O aquecimento global está a tornar as árvores de bordo (tipologia acer) mais pequenas e menos açucaradas. De facto, as temperaturas subiram entre 2 a 4 graus nos últimos 100 anos em algumas regiões do planeta, o que está a diminuir a qualidade e a quantidade do xarope de ácer produzida em todo o mundo.
Chocolate - Mais de metade da procura global de chocolate é produzida no Gana e na Costa de Marfim, duas áreas bastante afetadas pelo aquecimento climático. Os cientistas acreditam que as mudanças climáticas vão reduzir a produção de cacau drasticamente até 2030. Duas das maiores produtoras de chocolae, a Mars e a Barry Callebaut, admitem que a população mundial está a comer demasiado chocolate. Em 2013, consumimos 70.000 toneladas métricas de cacau.
Café - Pestes, desflorestação, alterações climáticas. O café está a ser ameaçado por estes fenómenos. Mais meio grau de temperatura média global pode afetar a produção de modo irreversível. Em países como a Índia, as chuvas fortes provocaram quebras de 30% na produção de café entre 2001 e 2011.
Salmão - O salmão depende dos fluxos dos rios para se reproduzirem. Mas o aquecimento global tem aumentado a temperatura da água nos seus habitats naturais, tornando a reprodução natural do salmão (e truta) mais escassa.
Vinho - Não, o vinho não corre o risco de desaparecer. Mas algumas variedades enológicas podem deixar de ser produzidas ou verem a sua quantidade diminuída. O aumento das temperaturas pode ameaçar a produção no Sul de Espanha, Norte de Portugal e na Califórnia, Estados Unidos, três das mais reconhecidas regiões de vinhos do mundo.
Peixe branco - Poderá começar a comer tubarão e outras espécies uma vez que a excessiva captura de peixe branco - escamudo, pescada, arinca, besugo, bacalhau, dourada, robalo, badejo - está a diminuir a sua reprodução em ambiente selvagem, revela a WWF.
Amendoim - Se ainda não provou manteiga de amendoim, está na hora de fazê-lo. Em breve este tipo de manteiga pode desaparecer do mercado. A planta do amendoim é inconstante. Por outro lado, o aumento das temperaturas e a seca a longo prazo estão a ameaçar esta espécie, revela um relatório da agência norte-americana NOAA.
 

Universidade de Aveiro distinguida pela investigação em estratégias contra a desertificação

Green Savers  22/06/2016
A Universidade de Aveiro (UA) foi distinguida com o galardão “Campeões das Zonas Áridas”, distinção atribuída a 17 de Junho durante as comemorações oficiais do Dia Mundial de Combate à Desertificação, organizado pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) através do Núcleo Regional de Combate à Desertificação Algarve. A atribuição deste galardão, promovido pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, pretende distinguir indivíduos, empresas ou instituições que tenham contribuído de forma revelante para a gestão sustentável da terra.
 
A distinção deve-se ao trabalho de uma equipa de investigação científica do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), liderada por Celeste Coelho, professora jubilada do Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA, que tem promovido o envolvimento dos agentes e das comunidades locais na procura de soluções para a gestão sustentável da terra e dos recursos naturais.
 
Este trabalho tem sido desenvolvido, nos últimos 10 anos, no âmbito de diversos projectos internacionais (“Desertification mitigation and remediation of land. A global approach for local solutions” – DESIRE, “Preventing and Remediating degradation of soils in Europe through Land” – RECARE e “CAtastrophic Shifts in drylands: how CAn we prevent ecosystem Degradation” – CASCADE) e nacionais (“Recuperação de Áreas Ardidas” – RAA, “Estratégias de remediação de solos imediatamente após incêndios florestais” – RECOVER e “O papel dos agentes locais no sucesso da política florestal em áreas afectadas por incêndios em Portugal” – FORESTAKE). O projeto RAA, envolvendo a UA e coordenado pelo Centro de Ecologia Aplicada do Instituto Superior de Agronomia (ISA), entre 2005 e 2011, foi o primeiro deste conjunto. A academia aveirense foi a entidade coordenadora dos projetos RECOVER e FORESTAKE.
 
Segundo a UA, nestes projectos foram desenvolvidas e implementadas abordagens e metodologias participativas, nas quais a UA já detinha mais de 20 anos de experiência, na tentativa de integrar o conhecimento das comunidades locais, dos agentes e dos cientistas, em prol da aceitação social e a viabilização de estratégias para a gestão sustentável do território e combate à desertificação. Estas estratégias incluem acções de prevenção e mitigação da degradação do solo, afectado por incêndios florestais.

Índia: powerbank para carregamento de telemóveis integrado em caixas de fast food

10 perigos para a saúde nos supermercados

Saiba que o corredor de fast food do supermercado não é o único perigo para a sua saúde. Da secção da carne, ao tapete do supermercado corre vários riscos. Saiba do que se deve proteger!
Ovo partido - Os ovos partem facilmente quando as embalagens são empilhadas. Pode não reparar, mas o ovo pode ter fissuras e entretanto esteve exposto ao ar alguns dias, podendo ter sido invadido por germes. Embora, a lisozima existente na clara do ovo seja uma enzima que combate essas bactérias, a sua saúde corre riscos. Por isso, antes de escolher a sua caixa de ovos confira cada um deles.
 
Pulverizador de frutas e legumes - Muitos supermercados pulverizam as frutas e legumes em intervalos regulares para que estas pareçam mais frescas e apelativas. O problema é que as máquinas de nebulização, se não foram corretamente higienizadas, podem reproduzir nos reservatórios uma bactéria chamada Legionella Pneumophila. Nos Estados Unidos e na Suíça, por exemplo, há registo de pessoas que ficaram infetadas e desenvolveram a Doença dos Legionários por causa destes pulverizadores.
Carne picada - Um estudo realizado à carne vendida em talhos da Grande Lisboa, Porto e Setúbal revelou más condições de higiene e conservação e a presença de salmonelas e sulfitos. Por isso, evite comprar carne picada. Pique-a em casa. Quase metade das amostras recolhidas por um estudo da DECO Protestes em supermercados portugueses continham Listéria Monocytogenes e Salmonella.
Sacos de pano - Até podem ser mais amigos do ambiente, mas não são tão amigáveis para a saúde, a menos que os lave regularmente. Germes como a Salmonella e a E. coli podem alojar-se nos sacos e infetar os alimentos. E se o saco fica quente e húmido, pode tornar-se numa incubadora de fungos. Por isso lave o saco por cada duas utilizações e seque-o bem. Não use o mesmo saco para carregar brinquedos, nem roupa suja.

Carrinhos de crianças - Estes carrinhos estão carregados de Estafilococos e Estreptococos, dois tipos de bactérias muito presentes nos brinquedos e no mundo das crianças. Os indivíduos propensos às infeções estafilocócicas são os recém-nascidos, as mulheres em período de lactação, as pessoas com doenças crónicas (especialmente pulmonares, diabetes e cancro), as que apresentam doenças cutâneas e cujos sistemas imunitários estão inibidos pelo uso de corticosteróides, radioterapia e alguns tipos de fármacos.
Tapete rolante - A colocação de produtos frescos no tapete rolante leva a que muitas vezes se deixe um rasto que convida ao aparecimento de germes. Se não for feita uma correta higienização, o tapete de alguns supermercados pode estar impregnado de bactérias como a E. Coli, Staphylococcus Aureus e até a Clostridium Perfringens. Certifique-se que os seus produtos estão embalados e não entram em contacto direto com o tapete rolante. Lave-os em água corrente quando chegar a casa.
Carrinhos de supermercado - São utilizados por centenas de pessoas e muitas vezes alguns produtos mal embalados deixam verter líquidos, como a carne ou peixe. Tem de ter cuidado e verificar sempre se as suas compras estão bem embaladas. E lave a fruta e os legumes quando chegar a casa.
O corredor da limpeza - Se costuma espirrar ou se a sua respiração se torna ofegante perto do corredor dos produtos de limpeza no supermercado, não ache estranho. Pode ter uma sensibilidade química para gases emitidos por esses produtos. Consulte um médico. Pode ter rinite alérgica.
Multibanco - Antes de usar, lembre-se de todas as pessoas que já o usaram. Os botões e as teclas do multibanco estão repletas de germes, até porque limpar este tipo de aparelhos é uma tarefa complicada, dadas as limitações do mundo eletrónico. A verdade é que os supermercados estão cheios de potenciais agentes patogénicos, por isso desinfete bem as mãos depois de utilizar o multibanco e o elevador do seu supermercado.
 
 


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Inverno húngaro terá impedido conquista pelos mongóis da Europa Ocidental


Ficou gravado nos anéis de crescimento das árvores: no início de 1242, o Inverno foi muito rude na Hungria. Uma análise deste “arquivo natural” do clima poderá explicar em parte um velho mistério histórico: a razão pela qual o Império Mongol nunca se expandiu para a Europa Ocidental.


Representação de um cavaleiro mongol numa exposição sobre Genghis Kahn em Singapura.

Imagem de microscopia dos quatro anéis mais exteriores de uma amostra histórica de carvalho utilizada no estudo.


Viga de pinheiro de uma construção histórica no Sul da Polónia

Winter is coming” (“Vem aí o Inverno”), vaticinava Ned Stark, senhor da casa Stark dos reinos de Westeros, no primeiro episódio da série televisiva Guerra dos Tronos. Essa frase, que se tornaria um leitmotiv na série (e fora dela), resumia a ameaça que pairava sobre aquele continente fictício – o mais a oeste do mundo imaginado pelo escritor norte-americano George R.R. Martin –, onde o clima e a duração das estações do ano eram imprevisíveis e o mau tempo um dos piores inimigos da humanidade.

Pode parecer estranho, mas, com base nas conclusões de um estudo científico agora publicado, é possível estabelecer um contraponto entre esta pura fantasia e a história do Império Mongol, o maior império de sempre (em termos da extensão de terras contíguas que o compunham). E mais precisamente, ligar essa saga literária a um mistério histórico de longa data: a súbita interrupção, em meados de 1242 da nossa era, da conquista da Hungria Ocidental pelo exército, liderado por Batu, neto de Genghis Kahn, que invadiu a região vindo das estepes euroasiáticas via Rússia e após anos de conquistas vitoriosas que começaram, em 1206, sob a liderança do próprio Genghis Kahn.

Onde reside essa ponte entre ficção e realidade? No facto que, segundo se depreende do novo trabalho realizado por dois cientistas, se os líderes mongóis tivessem tido consciência, tal como os habitantes de Westeros, de que o mau tempo pode derrotar até ao mais poderoso exército, talvez não se teriam lançado na conquista húngara.

Há outra coisa ainda que poderia ter alertado os mongóis para o desfecho negativo da sua campanha: o próprio facto de o rio Danúbio ter congelado devido ao rigor excepcional do Inverno naquela região no início de 1242. Mas o que era na realidade um muito mau prenúncio foi, ironicamente, o que permitiu uma fácil travessia do rio pela cavalaria mongol e as suas pesadas máquinas de guerra.

Claro que, como parece óbvio, os mongóis não faziam ideia de que o clima podia deitar a sua estratégia bélica abaixo, tal como nem sequer imaginavam que o terreno em que estavam a penetrar era muito diferente das estepes eurasiáticas nas quais estavam habituados a travar batalhas. E não só: em Abril de 1241, tinham vencido duas grandes batalhas contra os europeus, em Legnica (Polónia) e em Mohi (Hungria). Mas além-rio, tudo mudou. A invasão da Europa Ocidental pelo Império Mongol abortou uns meros dois meses após as tropas terem atravessado o Danúbio e os mongóis rumaram novamente para a Rússia.
Na batalha de Legnica, na Polónia, os mongóis venceram, em 1241, um exército germano-polaco Colecção do Museu Paul Getty
Como os mongóis não deixaram registos explícitos das razões desta reviravolta, o mistério da sua repentina decisão militar tem persistido entre os historiadores.

Existem contudo várias tentativas de explicação. Muitos especialistas pensaram, em particular, que a decisão se deveu à morte súbita de Ogodei Khan, filho e sucessor de Genghis Khan (e tio de Batu), em 1241, uma vez que obrigou Batu a regressar a Karakorum, capital do império, para participar na eleição de um novo Khan.

Um imenso pântano

Porém, como escrevem agora na revista Scientific Reports (da mesma editora que a revista Nature), Nicola Di Cosmo, do Instituto de Estudos Avançados de Princeton (EUA), e Ulf Büntgen, do Instituto Federal Suíço de Estudo da Floresta, da Neve e da Paisagem, “esta teoria tem sido posta em causa pelo facto de que Batu nunca regressou à Mongólia, permanecendo nas estepes do Sul da Rússia e (…) segurando o poder sobre a Horda Dourada [a região ocidental do império]”.

A hipótese alternativa que estes cientistas propõem para explicar o abrupto e inesperado regresso à Rússia do invencível exército mongol, logo na Primavera de 1242, terá a ver com factores políticos, mas tem a ver sobretudo com factores climáticos e ambientais que, segundo eles, influenciaram a decisão militar.

No seu artigo, escrito quase em forma de relato histórico, essa tese é sustentada não só por registos históricos convencionais, que fazem referência ao clima e às condições ambientais naqueles anos, mas também por um novo “ingrediente” documental: as flutuações climáticas da época, vistas através das características dos anéis de crescimento das árvores. Isso porque se sabe, em particular, que esses anéis são mais grossos nos anos húmidos e mais finos nos anos secos. Diga-se já agora que Nicola Di Cosmo é especialista de história da Ásia Antiga e que Ulf Büntgen é justamente especialista do estudo do impacto dos factores ambientais sobre os anéis das árvores.

Utilizando este tipo de características “gravadas” nas árvores desde tempos remotos, a dupla de cientistas conseguiu gerar mapas das variações anuais de temperatura e humidade de diversas regiões da Europa – dos Montes Altai (Sibéria) aos Alpes austríacos e da Escandinavia aos Cárpatos romenos – entre 1230 e 1250. E a combinação dos dados deste “arquivo natural” com documentos históricos alusivos ao clima e às condições ambientais permitiu então concluir que “houve [na Hungria] vários Verões quentes e secos de 1238 a 1241, seguidos de condições frias e húmidas no início de 1242”, escrevem ainda os autores. 

Resumindo: o Inverno 1241-1242 na Hungria, que se tornou particularmente frio e húmido nos meses finais, levou à acumulação de neve de forma mais acentuada do que era habitual. E quando a neve derreteu, como o terreno era muito propenso às inundações, a planície húngara transformou-se rapidamente num imenso pântano.

Isso, por sua vez, levou a uma diminuição das ervas que lá cresciam – e que constituíam a alimentação essencial dos cavalos mongóis. Por outro lado, a comida também começou a escassear para as pessoas. Os soldados mongóis e as populações locais que sustentavam a alimentação dos soldados começaram a sofrer da fome.

Para além desta falta de recursos essenciais, o terreno pantanoso tornou-se um pesadelo para os cavalos mongóis, habituados aos solos mais secos do lado de lá do Danúbio. O fracasso e a incapacidade de conquistar novas cidades e fortificações que daí decorreu terão então obrigado os mongóis a decidir a retirada.

Bom tempo, mau tempo

Como já concluía, em 2014, um estudo semelhante, também realizado pela equipa de Nicola Di Cosmo e também com base nos anéis de crescimento das árvores, terá sido por sua vez uma década de inusitado bom tempo nas estepes em redor da Mongólia que permitiu a espectacular expansão do Império Mongol a partir de inícios do século XIII.

Do Mar do Japão à Europa Central, passando pela China e a Sibéria – e, mais a sul, da Indochina ao Médio Oriente passando pela Pérsia e o subcontinente indiano, os cavalos de Genghis Kahn e dos seus herdeiros beneficiaram da abundância de erva num território previamente seco e árido. Nada resistia ao avanço das hordas mongóis: nunca foram vencidas e foram anexando os seus vizinhos uns atrás dos outros.
Porém, no outro extremo da escala, e como o novo estudo parece sugerir, terão bastado umas semanas de muito mau tempo para impedir a chegada dos mongóis à derradeira fronteira do mundo conhecido na altura: a Europa Ocidental. “A nossa ‘hipótese ambiental’ demonstra os efeitos que pequenas flutuações climáticas podem ter sobre grandes acontecimentos históricos”, concluem os cientistas no seu artigo. 

E embora o clima não seja o único factor determinante na retirada mongol, seria um erro ignorá-lo, diz Nicola Di Cosmo, citado pela revista New Scientist. “Seria como dizer que o Inverno na Rússia não teve qualquer efeito sobre o exército de Napoleão”, acrescenta.

Todavia, nem todos os especialistas estão convencidos do poder explicativo da nova hipótese. “Duvido que um tal ‘determinismo climático’ seja assim tão universal como alguns autores parecem pensar”, diz por seu lado à mesma revista Michael Mann, da Universidade Estadual da Pensilvânia (EUA). Para ele, as flutuações climáticas apresentadas no estudo não terão sido suficientes para provocar a retirada mongol.
Pelo contrário, Aaron Putnam, da Universidade do Maine (EUA), parece concordar com as conclusões do estudo. Como disse igualmente à New Scientist: “Acho o trabalho convincente. As explicações anteriores da retirada dos mongóis não batiam certo.”

 http://www.publico.pt/n1733890

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Inesperadamente, o parasita da doença do sono vive nas células da gordura


Descoberta é de equipa portuguesa: foi localizado o principal esconderijo dos parasitas de doença que causa sonolência permanente. Se não for tratada, os doentes morrem. Também afecta o gado. Origina perdas económicas em países (de África) já de si depauperados.

A castanho, o parasita da doença do sono (em tecidos de ratinhos), ao lado dos núcleos de células da gordura (a azul) e dos ses sacos de lípidos (a bolas brancas).    


Luísa Figueiredo, coordenadora da equipa que fez a descoberta sobre o parasita da doença do sono.
 Para a Organização mundial da Saúde (OMS), é uma das doenças tropicais negligenciadas, doenças que atingem populações pobres em África, na Ásia e na América latina e que dificilmente têm acesso a tratamentos e formas de prevenção. Esta de que falamos ocorre em vários países da África subsariana onde há moscas tsé-tsé que transmitem o parasita que a provoca – o Trypanosoma brucei –, através de picadas. Põe em risco 65 milhões de pessoas. Pensava-se que o parasita da doença do sono, na infecção nos mamíferos (nós incluídos), usava como reservatórios principais o sangue e, mais tarde, o cérebro, onde origina sintomas neurológicos como um estado permanente de sonolência e apatia. Quase sempre os doentes sem tratamento entram em coma e morrem. Agora, uma equipa portuguesa descobriu que o reservatório principal do parasita é outro: o tecido adiposo, ou seja, vive entre as células da gordura.

A equipa coordenada por Luísa Figueiredo, do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa (IMM), fez este anúncio na última edição da revista Cell Host & Microbe. Na realidade, o artigo científico – que tem como autoras principais Sandra Trindade e Filipa Rijo Ferreira, também do IMM – relata duas descobertas em relação ao parasita da doença do sono, ou tripanossomíase humana africana, e que poderão traduzir-se em formas mais eficazes de combate a esta infecção.

Eis a primeira descoberta, nas palavras de Luísa Figueiredo: “Antes do nosso estudo, pensava-se que os parasitas da doença do sono se encontravam principalmente no sangue e alguns no cérebro. O que nós descobrimos é que há um tecido em que um enorme número de parasitas da doença do sono se esconde. É o tecido adiposo. A ‘enorme’ quantidade significa que há muitos mais parasitas no tecido adiposo do que no sangue.”

Assim, os espaços entre as células da gordura (adipócitos) são, afinal, o principal esconderijo dos parasitas. Estas são aquelas células que têm sacos de lípidos: quando engordamos, estes sacos são maiores do que quando somos magos. Se antes se pensava que o parasita existia em grande quantidade no sangue e em menos quantidade no cérebro, os novos resultados vêm alterar esta ideia. E podem explicar a enorme perda de peso que costuma estar associada a esta doença.

Assim, na primeira fase da infecção nos mamíferos, o parasita está no sangue e nas zonas entre as células da gordura mais ou menos simultâneo e, numa segunda fase, chega ao cérebro e a outros órgãos. “Mesmo na segunda fase, onde de facto os parasitas estão no cérebro, no coração e nos pulmões, há mais parasitas no tecido adiposo, seguido do sangue.”

O outro avanço: “A segunda descoberta é que os parasitas que se encontram no tecido adiposo são bastante diferentes dos do sangue”, explica Luísa Figueiredo. “Antes do nosso artigo, a comunidade científica pensava que parasitas no sangue e no cérebro eram iguais. Os nossos resultados mostram que os parasitas se adaptam aos tecidos, por isso é que os parasitas no tecido adiposo e no sangue são muito diferentes. O que nos pode levar a questionar se os parasitas do cérebro também serão diferentes. Isso é que ainda não sabemos.”

E que diferenças são essas? As experiências da equipa, em ratinhos, revelaram que os parasitas obtêm a energia de que necessitam de maneiras distintas, conforme os tecidos onde estão. Os parasitas do sangue obtêm-na apenas de açúcares, enquanto os que se alojam entre as células da gordura usam também os lípidos como fonte de energia. Para sobreviverem no sangue ou na gordura, há mudanças no programa genético. Têm activos genes distintos.
Parasita da doença do sono visto em microscopia de florescência Fabien Guegan/IMM
Diga-se ainda que, na molécula de ADN, os genes são instruções de fabrico de proteínas. Essas instruções são “lidas” e “traduzidas” por outra molécula – o ARN –, para que a maquinaria da célula possa fabricar essas proteínas com determinadas funções no organismo. “Quando há mais ARN de um gene, diz-se que esse gene está mais activo”, explica Luísa Figueiredo. Se determinados genes estiverem activos nos parasitas, então há mais ARN desses genes, que por sua vez significa que há mais proteínas cujo fabrico foi comandado por esses genes. Estará portanto a ser desempenhada uma nova função no organismo.

Foi precisamente através da análise do ARN que equipa conseguiu descobrir que os parasitas do sangue e da gordura eram diferentes. “Tivemos que arranjar uma estratégia que nos desse uma perspectiva global”, conta a investigadora. “Como as proteínas são o resultado da tradução de moléculas de ARN, então se mostrássemos que o padrão de moléculas de ARN era diferente poderíamos saber se as funções (e quais) eram diferentes.” Resultado: “Encontrámos 2000 genes cujo ARN está presente em quantidades diferentes nos parasitas do sangue e da gordura.”

Entre os 2000 genes, a equipa verificou que havia genes do metabolismo: “Nesta grande classe de genes, há os de uma via [bioquímica] específica, a beta-oxidação [de ácidos gordos]. Estando activa, os parasitas do tecido adiposo têm a capacidade de usar gordura como fonte de energia”, acrescenta a investigadora.

O mistério das recaídas

A existência de um reservatório do parasita desconhecido até ao momento poderá explicar, por exemplo, as recaídas de alguns doentes tratados no início da infecção e que, segundo as análises clínicas, já estavam livres dos parasitas no sangue. “Perante isto, médicos e cientistas questionavam-se: ‘Onde se escondem os parasitas que não foram eliminados pelo fármaco?’”, especifica por sua vez um comunicado de imprensa do IMM.

Segundo o site da OMS, há cinco fármacos para eliminar o parasita: dois usados na fase em que está no sangue (e causa sintomas pouco específicos, como dores de cabeça, febre, fraqueza, dores nas articulações) e três, que são mais tóxicos e difíceis de administrar, quando já está no cérebro (o sintoma mais característico são as alterações do sono, mas também há alterações de comportamento). “Não há números precisos da percentagem de pessoas em que o tratamento não é eficaz. Os poucos estudos que existem apontam para cerca de 5%, mas o verdadeiro valor pode ser muito diferente, dependente dos fármacos, do estádio da doença, etc.”, explica Luísa Figueiredo. “É importante relembrar que, se as pessoas não forem tratadas, morrem. A doença do sono é mortal, com algumas poucas excepções reportadas recentemente.”

Quando se pergunta sobre a importância destas descobertas, a investigadora sublinha precisamente esse aspecto. “Há fármacos que não penetram facilmente no tecido adiposo. Esta pode ser uma das razões por que, por vezes, os tratamentos contra a doença do sono não são eficazes”, diz. “Os próprios parasitas que residem no tecido adiposo, por serem diferentes dos do sangue, podem ser resistentes ao tratamento. Isto pode, mais uma vez, contribuir para o tratamento não ser eficaz.” E acrescenta ainda: “Há um lado novo da biologia do parasita que era totalmente desconhecido e que precisa de ser estudado no futuro, se quisermos compreender a doença na sua totalidade e definirmos melhores métodos de diagnóstico e tratamento.”

Existem medicamentos capazes de eliminar o parasita do tecido adiposo? “Esses estudos ainda não foram feitos. É um dos próximos projectos que queremos desenvolver”, responde a investigadora, acrescentando que as descobertas da sua equipa ajudarão ao desenvolvimento de novos tratamentos. “Provavelmente, os fármacos devem conseguir entrar no tecido adiposo e pelo menos eliminar a maioria dos parasitas. O problema é se ficam lá ‘alguns’. Basta ‘poucos’ para poder voltar a causar doença.”

Um avistamento feliz

Para além dos resultados anunciados, esta investigação tem uma outra história. Que começou com um acaso feliz. Os cientistas costumam empregar uma expressão de origem anglo-saxónica para a descoberta de algo que não estavam à procura. Serendipidade. Nessa altura, a equipa estava a investigar como é que os parasitas afectam os ciclos do sono (o que ainda hoje não se sabe). Para perceber quando e como chegavam ao cérebro, o órgão que controla o sono, a equipa infectava ratinhos e observava os seus tecidos em diferentes fases da infecção. “Estávamos a ver ao microscópio se havia parasitas no coração, no pulmão, etc. Nesses órgãos nunca encontrávamos muitos. Mas a gordura que envolve os órgãos estava sempre cheia de parasitas…”, conta Luísa Figueiredo, que é especializada em parasitologia e se interessa pelas estratégias usadas por diferentes parasitas para escapar às nossas defesas imunitárias. “Aconteceu totalmente por acaso [esta descoberta].”

A partir daí, Luísa Figueiredo redireccionou o projecto de investigação que tinha em curso, financiado com 750 mil euros, entre 2012 e 2016, pelo Instituto Médico Howard Hughes (HHMI, na sigla em inglês), nos Estados Unidos. Sublinha que teve total liberdade da parte do instituto norte-americano para seguir esse caminho inesperado e ir à procura de respostas para as novas interrogações científicas.
Parasita da doença do sono (parece estar a sorrir-nos) visto ao microscópio electrónico Tânia Carvalho/IMM
“Havia observações muito fortuitas e indirectas que indicavam que talvez houvesses parasitas no tecido adiposo, mas nunca ninguém investigou com cuidado. Até nós!”, diz a investigadora de 40 anos, licenciada em bioquímica pela Universidade do Porto, doutorada no Instituto Pasteur de Paris e com um pós-doutoramento na Universidade Rockefeller, em Nova Iorque. “A melhor analogia da descoberta [dos parasitas] no tecido adiposo é a descoberta do Brasil. Diz-se que Vasco da Gama terá avistado o Brasil numa das suas viagens para a Índia. Foi por acaso. Depois o Rei investiu numa outra viagem, agora liderada por Pedro Alvares Cabral, para ir descobrir e conquistar essas terras. Nós também fizemos primeiro uma observação por acaso. E depois, com financiamento do HHMI, fomos investigar a fundo o que se passava.”

Vacas, camelos e pessoas

Nos dados principais da OMS sobre a doença do sono, constata-se uma grande evolução no seu combate nos últimos anos. Em 1998, foram relatados quase 40.000 casos, mas estimava-se que 300.000 estavam por diagnosticar e, assim, por tratar, lê-se no site da OMS. Em 2009, pela primeira vez em 50 anos, o número de casos relatados baixou para menos de 10.000 (9878). “Este declínio no número de casos continuou, com 3796 novos casos relatados em 2014, o nível mais baixo desde o início da recolha global sistemática de dados há 75 anos”, segundo a OMS, que desde o início de 2000 estabeleceu parcerias com empresas farmacêuticas gratuitas de medicamentos. Também tem havido campanhas de controlo das moscas tsé-tsé (do género Glossina) com insecticidas, o que tem ajudado a reduzir os casos em humanos.

Ainda que a OMS inclua a distribuição actual da doença em 36 países da África subsariana, nos últimos dez anos mais de 70% dos casos ocorreram na República Democrática do Congo, que é o único país que actualmente reporta mais de mil novos casos por ano. Segue-se a República Centro-Africana, que declarou entre 100 a 200 novos casos em 2014.

Entre os países que têm menos de 100 novos casos por ano encontra-se Angola, a par do Burkina Faso, Camarões, Chade, Costa do Marfim, Gabão, Uganda, Tanzânia ou Zâmbia. E países como a Guiné-Bissau, Moçambique, Etiópia, Quénia, Gana, Nigéria, Senegal ou Serra Leoa não relatam qualquer caso há mais de uma década. “A transmissão da doença parece ter parado em alguns destes países, mas ainda há zonas onde é difícil avaliar exactamente a situação devido a instabilidade social e/ou acessos difíceis que impedem as actividades de vigilância e diagnóstico.”

A OMS tem o ano 2020 como meta para que a doença do sono deixe de ser um problema de saúde pública. “Os números de casos têm baixado imenso, mas a doença não está erradicada. Esse passo é sempre muito difícil de conseguir, sobretudo em África. Logo não podemos afrouxar nas políticas de saúde pública e na investigação”, frisa a investigadora portuguesa.
Além disso, os parasitas que provocam a doença do sono em pessoas afectam grandemente o gado, em particular as vacas, deixando-os escanzelados. Nos animais, é conhecida por nagana. “Estima-se que haja 20 milhões de cabeças de gado infectadas. É um problema com consequências económicas terríveis, que impede o desenvolvimento da pecuária e contribui para a pobreza das famílias”, diz Luísa Figueiredo. “No total, as doenças causadas pelo parasita Trypanosoma em humanos e no gado na África subsariana causam a perda de 1300 milhões de dólares por ano [mais de 1100 milhões de euros] à economia africana. Para complicar um pouco mais, se não tratarmos o gado, torna-se muito difícil erradicar a doença em humanos, porque as moscas tsé-tsé picam vacas e pessoas, transmitindo assim o parasita de um mamífero a outro.”

E agora a equipa do IMM irá ver se as suas descobertas nos ratinhos se aplicam ao gado e às pessoas. Já tem em andamento um projecto, em colaboração com cientistas da Escócia e da Etiópia, para ver se também há parasitas no tecido adiposo de outros animais e como isso afecta o tratamento. Na Escócia, vai procurar os parasitas entre as células da gordura em vacas infectadas de propósito, enquanto na Etiópia irá procurá-los em camelos infectados naturalmente.

Já quanto às investigações em pessoas, através de uma biopsia ou lipossucção para ter amostras de tecido adiposo, a equipa portuguesa ainda está a procurar estabelecer parcerias. “Mas vai levar tempo porque são estudos com equipas em África, há problemas éticos, resistência das pessoas à medicina do Ocidente… Seria óptimo se fosse em Angola.”

sábado, 28 de maio de 2016

Roedores com diabetes do tipo 2 entram em remissão com injecção no cérebro


 
Em Portugal mais de um milhão de pessoas entre os 20 e 79 anos têm diabetes e há dois milhões em risco de desenvolver esta doença