segunda-feira, 23 de maio de 2016

Em Marte, no Verão, a água ferve aos zero graus


Cientistas fizeram várias experiências com água gelada colocada no cimo de um monte de areia, simulando as condições de pressão atmosférica em Marte.

Câmara de simulação usada nas experiências para recriar a atmosfera de Marte
 O aspecto da superfície de Marte, com estrias marcadas nas suas encostas, pode ser o resultado de água a ferver que escorre sob a baixa pressão atmosférica do planeta, segundo um estudo publicado na revista Nature Geoscience. Os cientistas tinham colocado a hipótese de estes canais e sulcos marcados nas encostas de Marte terem sido formados por água líquida muito salgada que escorreria sazonalmente no planeta vermelho.

Em Setembro, uma equipa de cientistas da NASA anunciou a existência água salgada em Marte. Era o resultado de análises às estrias escuras que foram descobertas em 2011 e que surgem e desaparecem todos os anos no planeta. Alfred McEwen, um dos autores desse artigo também publicado na Nature Geoscience e investigador principal da Experiência Científica de Imagens de Alta Resolução, um aparelho que pertence à Mars Reconnaissance Orbiter, a sonda da NASA que está a orbitar Marte desde 2006, adiantou na altura que “a água que escorre em Marte é muito, muito mais salgada do que a dos oceanos da Terra”.

Apesar de existir gelo no Pólo Norte de Marte, a existência de água líquida num planeta que tem uma temperatura média de 63 graus Celsius negativos e uma atmosfera finíssima sempre foi considerada altamente improvável. Na Terra, a água precisa de atingir os 100 graus Celsius para a ebulição. Porém, quanto maior a altitude mais diminui a pressão atmosférica, o que significa, por exemplo, que no topo do Evereste a água ferve aos 60 graus. Em Marte, com uma atmosfera bem menos densa do que a da Terra, a água entra em ebulição a partir dos zero graus.

Durante o Verão marciano, quando o gelo subterrâneo começa a derreter e aparece à superfície, numa altura em que a temperatura média ronda os 20 graus, a água começa imediatamente a ferver. Uma equipa de investigadores franceses, ingleses e norte-americanos liderada por Marion Massé, do Centro Nacional de Investigação Científica da Universidade de Nantes, em França, fez uma série de experiências simulando as condições atmosféricas do planeta vermelho.

Os cientistas colocaram um pedaço de gelo em cima de um talude inclinado a 30 graus e coberto de areia. Na atmosfera da Terra, este gelo infiltra-se lentamente na areia sem alterar a sua superfície. Em Marte é diferente. O gelo entra imediatamente em ebulição e o gás libertado faz levantar grãos de areia. Os grãos acumulam-se em pequenos montículos íngremes que, logo a seguir, se desmoronam causando verdadeiras avalanches de areia.

“Os fenómenos observados na areia usada nestas experiências são extremamente semelhantes aos vestígios observados em Marte”, afirmou Wouter Marra, da Faculdade de Utrecht, na Holanda, que comentou este estudo.

Para os investigadores, a existência de água líquida em Marte, mesmo que seja só em quantidades diminutas, a ferver e durante as horas mais quentes do Verão, desempenha um papel importante. E a instabilidade da água parece ainda aumentar significativamente o seu impacto sobre a morfologia da superfície do planeta.

Projectos sobre cancro, AVC e acidificação dos oceanos vencem prémios L’Oreal

23/02/2016
 Desenvolvimento de um sistema para fazer chegar fármacos às células cancerosas e estudos para descobrir causas dos acidentes vasculares cerebrais misteriosos e o efeito nos peixes da acidificação dos oceanos venceram Prémios Mulheres na Ciência.

Elisabete Oliveira vai produzir nanopartículas que emitem luz.  

Ana Catarina Fonseca está a investigar as causas misteriosas de AVC


Ana Faria quer verse os peixes se adaptam a um oceano mais ácido
 Os prémios L’Oreal atribuídos anualmente a três mulheres que fazem investigação científica em Portugal distinguiram este ano projectos na área do cancro, das doenças cardiovasculares e da ecologia. Elisabete Oliveira, de 32 anos, Ana Catarina Fonseca, de 34 anos, e Ana Faria, também de 34 anos, vão receber nesta terça-feira em Lisboa cada uma delas a Medalha de Honra L’Oreal Portugal para as Mulheres na Ciência e 20.000 euros as investigações que têm em mãos.

Elisabete Ferreira está a desenvolver nanopartículas para o tratamento do cancro na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, na Costa da Caparica. O objectivo é construir pequeníssimas partículas (o prefixo nano transporta-nos para a escala do milionésimo de milímetro) que têm os condimentos para identificar e penetrar nas células cancerosas, libertarem um fármaco e matá-las.

“A quimioterapia tem muitos efeitos secundários”, explica a investigadora ao PÚBLICO. “Queremos um tratamento que seja mais efectivo. A mais-valia deste sistema é que podemos introduzir o fármaco que quisermos e podemos construir diferentes dispositivos.”

Neste momento, a cientista doutorada em biotecnologia ainda está a testar as nanopartículas em células in vitro para o cancro colo-rectal. A primeira fase é identificar substâncias produzidas em excesso por aquelas células cancerosas em relação às células normais. Quando identificarem uma molécula que, no fundo, seja específica destas células cancerosas por estar em quantidades anormais, podem construir a sonda – outra molécula que será colocada à superfície das nanopartículas e que se irá ligar às moléculas específicas das células cancerosas. Desta forma, as nanopartículas ficam com uma antena que as guia para o cancro.

As nanopartículas têm poros na superfície, que depois serão preenchidos por um fármaco. Segundo a investigadora, o fármaco que vai ser testado é a doxorrubicina, muito usada para combater vários cancros e que é injectada intravenosamente. “O culminar do projecto é o desenvolvimento da forma oral [de medicação] da doxorrubicina”, diz Elisabete Ferreira.

Para isso, será necessário confirmar a eficácia do sistema. Estas nanopartículas emitem luz. “Podem ver-se directamente ao microscópio”, diz a cientista, o que permitirá ver se entram nas células cancerosas. Depois do trabalho in vitro, o tratamento será testado em animais e, finalmente, em doentes humanos. As nanopartículas são feitas de sílica e são eliminadas naturalmente. “Estimamos que em cinco ou seis anos conseguiremos ter o primeiro dispositivo disponível.”

O trabalho de Ana Catarina Fonseca centra-se também na saúde humana, mas em acidentes vasculares cerebrais (AVC). A investigadora doutorada em medicina trabalha no Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, e irá tentar compreender a origem de uma parte importante dos AVC que hoje são classificados como indeterminados. “Desde há uns anos que tenho tentado ver se estes AVC podem ser reclassificados”, diz a cientista ao PÚBLICO.

Os AVC dividem-se em hemorrágicos ou isquémicos. Os primeiros representam 20% dos casos e acontecem quando se rompe um vaso sanguíneo e há uma hemorragia no cérebro que mata as células nervosas. Nos segundos, 80% dos casos, há uma oclusão de um vaso sanguíneo que impede os nutrientes e o oxigénio de chegarem às células nervosas, o que as mata.

Os trombos causados pela agregação de plaquetas e os coágulos de fibrinogénio são duas causas possíveis para haver um AVC isquémico. Mas num terço dos casos de AVC isquémicos não se consegue identificar a sua origem. No trabalho que já fez com a sua equipa, Ana Catarina Fonseca descobriu “que algumas substâncias no sangue podem ajudar a reclassificar alguns AVC”. A investigação ainda está numa fase inicial e a cientista vai agora analisar os corações de doentes que sofreram AVC de causa indeterminada para tentar encontrar pistas anatómicas que possam ajudar, no futuro, o prognóstico destes AVC misteriosos.

O terceiro trabalho afasta-se da saúde humana para estudar a saúde animal e a dos oceanos. Nos últimos anos, Ana Faria esteve a analisar o desenvolvimento das fases iniciais de cinco espécies de peixe quando são submetidas a um pH mais ácido. Estima-se que o pH dos oceanos irá descer até 2100 de oito para 7,7, porque estão a absorver o excesso de dióxido de carbono na atmosfera, emitido pelas actividades humanas e responsável pelo efeito de estufa. A diferença de 0,3 “parece muito pouco, mas a escala do pH é logarítmica, e essa diferença é bastante”, diz a investigadora, doutorada em ecologia marinha, e a trabalhar no ISPA – Instituto Universitário.

Trabalhos anteriores mostraram que, devido à acidificação dos oceanos, as larvas de peixes tropicais “perdiam capacidades de reconhecer o odor de um predador ou os sons típicos de um recife”, diz Ana Faria. A investigadora testou quais seriam as consequências da alteração do pH em espécies comerciais da costa portuguesa, como o sargo, o linguado e a corvina, e em espécies de importância ecológica, como o peixe-ventosa e o peixe-rei.

Nas experiências em laboratório, Ana Faria descobriu que as espécies comerciais eram mais vulneráveis à acidificação do que as de importância ecológica: “As larvas são mais pequenas quando nascem. Parece que estão a mobilizar energia para responder às alterações do meio, comprometendo o crescimento.”

Agora, a cientista vai usar o caboz para testar se os indivíduos adultos desta espécie de peixe conseguem adaptar-se a um oceano mais ácido. Este tipo de investigação pode ajudar a tomar decisões sobre a conservação, explica: “Se soubermos que uma espécie comercial vai ter dificuldades em se adaptar, podemos diminuir o esforço de pesca.”

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Tchernobil: Uma reserva natural com uma lixeira nuclear no centro


O pavilhão do danificado reactor número quatro da central nuclear de Tchernobil (foto de 2011)
A vida selvagem tomou conta da zona de exclusão de Tchernobil na Ucrânia e Bielorrússia.
Águia de cauda branca alimenta-se da carcaça de uma raposa a 30 km da central.
Trabalhos de construção do novo abrigo do reacor 4 de Tchernobil, em Agosto de 2013.
Um homem participa na vigília pelas vítimas do acidente nuclear de Tchernobil, na localidade de Slavutich onde morava a maior parte dos trabalhadores da central.

O que fazer com Tchernobil, 30 anos depois do pior acidente nuclear da História? Animais e plantas reconquistaram em força os mais de quatro mil quilómetros quadrados da zona de exclusão na Ucrânia e na Bielorrússia, onde se concentraram as cinzas radioactivas da explosão de um dos reactores da central, por isso fala-se na criação de uma reserva natural. Mas também há planos para criar uma lixeira nuclear ao lado deste paraíso de vida selvagem que durante muitos e muitos séculos continuará contaminado pela radioactividade. O difícil é fazer uma escolha que se possa pagar e de que se possa garantir o futuro.
 
Marina Shkviria descobriu uma alcateia de lobos perto de uma das centenas de povoações abandonadas após a explosão do reactor 4 da central de Tchernobil, no Norte da Ucrânia, a 26 de Abril de 1986, na então União Soviética. Só na Bielorrússia, 70 povoações foram permanentemente enterradas, por terem ficado tão radioactivas. “Viemos aqui na Primavera passada e uivámos. As crias responderam, do cimo daquele monte”, contou a especialista em lobos da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia à National Geographic.
 
Estes grandes mamíferos tornaram-se ainda mais comuns na região do que nas décadas de 1950 e 1960. “É simplesmente incrível. Não se consegue ir a lado nenhum sem ver lobos”, explicou também à National Geographic o cientista norte-americano Jim Beasley, da Universidade da Georgia (EUA). Beasley é o coordenador de um estudo publicado este mês na revista científica Frontiers in Ecology and the Environment, em que foram montadas 30 câmaras em 94 locais diferentes na zona de exclusão de Tchernobil para documentar quais as espécies animais ali presentes.
 
Hoje, no raio de 30 km em torno da acidentada central nuclear que forma a zona de exclusão, há alces, bisontes, ratos-do-campo, águias-de-cauda-branca, andorinhas e outras aves, lebres, imensos castores, linces, ursos castanhos e até uma manada de cavalos de Przewalski, uma subespécie de cavalos selvagens, que foi reintroduzida pela Bielorrússia, quando criou um parque natural — a Reserva Radioecológica Estatal de Polésia. Em biodiversidade, houve uma recuperação espantosa, considerando que a região continua radioactiva — e continuará durante muitos séculos, pois foi aqui que se concentrou a maior quantidade da cinza radioactiva lançada para a atmosfera pela explosão do reactor 4 de Tchernobil.
Seria aceitável criar uma lixeira nuclear aqui, no raio dos 10 km mais próximos da central, para depositar os subprodutos do combustível usado nos 15 reactores que a Ucrânia tem ainda em funcionamento?
 
A Ucrânia é o país que mais depende do nuclear — cerca de 60% da electricidade que consome provém das suas envelhecidas centrais, e não tem intenções de desistir desta forma de energia, apesar de Tchernobil. Só que, com o conflito com o vizinho russo, deixou de poder transportar os seus lixos nucleares para a Rússia para serem reprocessados, porque Moscovo quis aumentar muito os preços que cobrava, e Kiev não aceitou. Agora, as varas de combustível usado estão a acumular-se nas centrais, a precisar de uma solução, e a hipótese de usar Tchernobil para isso começou a ser explorada.

Coexistência pacífica

O PÚBLICO quis saber o que pensam os cientistas de aumentar a carga nuclear em Tchernobil, quando ali, no reactor acidentado, ainda estão 200 toneladas de combustível que derreteu no incêndio de 1986 e hoje em dia é ainda tecnologicamente impossível retirar. Fez-se a pergunta a Jim Smith, investigador da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, que há 30 anos tem feito estudos de radioecologia em Tchernobil e a resposta é surpreendente.
 
“Se for gerido de forma adequada, uma lixeira nuclear e uma reserva de vida selvagem podem coexistir ali, porque é uma zona grande. Isto provavelmente é um conceito estranho, mas acho que é possível”, afirmou o cientista. “Seria muito triste”, sublinha, que ao criar uma lixeira nuclear se afectasse a sua actual situação como uma espécie de reserva natural.
 
“Como não há propriamente pessoas a viver ali, evitar-se-ia muitos problemas e o custo elevado de comprar terrenos privados e obrigar pessoas a mudarem-se. É compreensível que ninguém goste de ter lixeiras nucleares ao pé do local onde vive, ainda que nós, os cientistas, achemos que os riscos são muito reduzidos”, diz Jim Smith. “Uma vez que a zona já foi evacuada, os riscos de uma fuga (que eu julgo que são muito pequenos) são muito reduzidos”.
 
O ministro do Ambiente do novo Governo ucraniano, no entanto, disse que pretendia transformar a zona de exclusão de Tchernobil “numa plataforma única para fazer investigação científica”. Sem especificar.
A vida selvagem tomou conta da zona de exclusão de Tchernobil na Ucrânia e Bielorrússia REUTERS/Vasily Fedosenko

Meia-vida

Os elementos químicos radioactivos mais perigosos produzidos pela fissão nuclear que permanecem no ambiente são o césio 137 e o estrôncio 90. No entanto, em 2016 atinge-se a vida-média destes dois radioisótopos — o que quer dizer que só metade da quantidade libertada permanece no ambiente. O resto desintegrou-se — mas, enquanto isso aconteceu, emitiu radiação beta e gama, que penetra nos tecidos dos seres humanos e animais.
 
Na maior parte da zona de exclusão, no exterior dos primeiros dez quilómetros e fora algumas áreas de maior concentração de césio 137, a radioactividade ronda os 500 quilobecqueréis por metro quadrado — um nível seguro para os seres humanos, desde que não comam produtos naturais que se tornam muito radioactivos, como os cogumelos, tinha dito à New Scientist Jim Smith.
 
Mas os animais que lá têm vivido são também radioactivos e têm sofrido os efeitos da radioactividade nos seus genes, na capacidade de deixarem descendência. Ainda não são conclusões definitivas, mas há vários estudos que mostram os efeitos negativos sobre várias espécies. A forte incidência de cataratas em ratos-do-campo e em algumas aves, por exemplo, ou o parcial albinismo de uma espécie de andorinhas, numa geração, que deixou de acontecer na geração seguinte — talvez porque tiveram menos sucesso reprodutivo e não voltaram à zona de exclusão, depois de terem migrado para terras mais quentes, no Inverno.
 
Os lobos tornaram-se abundantes e, como espécie, beneficiaram da ausência do homem — os efeitos da presença humana são mais negativos para os animais de Tchernobil do que a radioactividade, isso é já algo que os cientistas podem afirmar. Mas se se tentar analisar os efeitos da radioactividade indivíduo a indivíduo, percebe-se que não há como escapar. “Os cogumelos concentram radiação. Os ratos-do-campo adoram cogumelos. Quando comem cogumelos contaminados, concentram radiação nos seus corpos. Quando os lobos comem ratos-do-campo, estão também a concentrar radiação no seu corpo”, explicou à National Geographic a especialista em lobos Marina Shkviria. Tornam-se lobos radioactivos, como lhes chamou um documentário da PBS americana em 2011.

Turismo atómico

Pensar num regresso de populações a Tchernobil e à zona de exclusão não é, por isso, um cenário viável — ainda que se tenha desenvolvido, nos últimos anos, um turismo em torno de curtas excursões às povoações abandonadas depois do acidente nuclear. Por exemplo a áreas da cidade de Pripiat, de onde foram retiradas quase 50 mil pessoas 36 horas após o acidente na central, ainda sem serem informadas da gravidade do que se tinha passado, embora tenham visto o fumo do fogo no reactor das suas varandas.
 

Pripiat continua a ser um local proibido, mas pode ser visitado, com um guia local, durante algumas horas, estando o guia equipado com um dosímetro, para verificar a quantidade de radiação que se recebeu, e estando todos bem protegidos. Por cerca de 200 euros, é possível fazer uma vista com mais 40 turistas, vindos na maior parte da capital ucraniana, Kiev, que fica a uma hora de carro. Também é possível fazer um passeio com menos gente, com objectivos específicos — ficará é mais caro.
 
Os guias são alguns dos pouco mais de uma centena de samoseli, antigos habitantes que regressaram às casas e aldeia que foram obrigados a deixar. Cerca de 116 mil pessoas foram retiradas por causa da radiação, e nos anos seguintes mais 230 mil foram desalojados de suas casas, quando os cientistas descobriram que o cenário era muito pior do se pensava.
 
Pripriat, construída em 1970, tinha mais de 13 mil apartamentos, um cinema, um hospital, um centro cultural, várias fábricas, lojas e cafés, uma estátua de Lenine. Dias antes do desastre nuclear, tinha sido montada uma roda gigante, para as comemorações do Dia do Trabalhador, a 1 de Maio, e do Dia da Vitória na II Guerra Mundial, 9 de Maio. A delapidada animação de feira tornou-se um dos símbolos da cidade abandonada e da catástrofe nuclear. Os muitos objectos deixados para trás — disseram aos habitantes para levar só uma mala leve, estariam afastados por pouco tempo — foram sendo destruídos ou pilhados, apesar do risco da radiação.
 
Mas estão lá coisas que não podem ser facilmente levadas, como as escavadoras usadas para fazer um túnel, através do qual foi canalizado azoto líquido para congelar o reactor em chamas, depois de terem sido lançados sacos de areia, a partir de helicópteros, para estancar as chamas. As máquinas ficaram tão radioactivas que não puderam sair dali.

Queixas das vítimas

Na luta contra a catástrofe nuclear de Tchernobil participaram cerca de 600 mil pessoas — os “liquidadores”, como ficaram conhecidos. Mas 30 anos depois, estão a ser cortados os benefícios de que gozavam as vítimas de Tchernobil, na Ucrânia como na Rússia, por serem demasiado caros. Compensações monetárias, reformas, ajuda nos cuidados de saúde e medicamentos — tudo isso está a sofrer cortes, com o argumento de que é muito caro, ou então de que os níveis de radioactividade estão a reduzir-se.
 
Das 4413 localidades russas atingidas pelos efeitos de Tchernobil, 383 verão, a partir de Julho, os apoios estatais baixar e 558 serão erradicadas da lista, quando entrar em vigor o decreto presidencial que considera que, como a radioactividade baixou, já não necessitam de ajuda especial. “Com este decreto, o Estado recusa-se a reconhecer que serão precisos 2000 anos e não 30 para descontaminar uma zona”, denuncia o biólogo Anton Korsakov, citado pela AFP. Cerca de cinco milhões de pessoas vivem actualmente em zonas contaminadas, diz a organização ambientalista Greenpeace.
Uma lontra nada na zona de exclusão de Tchernobil REUTERS/Vasily Fedosenko

“Ainda que consigamos descontaminar o ambiente, terão de passar muitas gerações antes que nasçam crianças saudáveis”, sublinhou Korsakov. Porque a herança atómica nos genes, nos animais, nas plantas, nos homens, não se resume à primeira geração, às primeiras vítimas do desastre. Os sobreviventes de Tchernobil têm um quadro múltiplo de problemas de saúde, e as crianças continuam a ter muitos problemas de saúde: 80% dos que nascem sofrem de várias doenças crónicas, diz a AFP, citando estatísticas oficiais.
 
Em 2011, foram suprimidos os controlos de radioactividade sobre grande parte dos alimentos russos e muitos produtos da zona proibida chegam aos mercados, afirma a Greenpeace. “As pessoas colhem bagas e cogumelos na floresta contaminada”, disse à AFP Ludmila Komorgotseva, da organização não-governamental União para uma Segurança Radioactiva.
 
Até madeira radioactiva é usada para fazer móveis, denuncia o advogado Alexandre Govorovski, que fez queixa contra o Departamento das Florestas, que acusa de fomentar esta prática ilícita. “As pessoas comem e bebem produtos irradiados. E por causa do deixa andar das autoridades, até vivem com a radiação em sua casa”, denuncia, citado pela agência francesa.
 
A passagem de três décadas sobre a tragédia de Tchernobil é ainda uma gota num longo rio de tempo que terá de passar até se poderem apagar os seus efeitos. Veja-se os esforços para construir uma nova protecção para o reactor acidentado – o sarcófago construído à pressa na altura do acidente tem-se vindo a rachar, vai entrando água, e ninguém sabe que reacções podem ocorrer no seu interior. De qualquer maneira, não foi concebido para durar mais do que três décadas.
 
Mas o novo abrigo, ou Novo Confinamento Seguro, a estrutura em cúpula pensada para conter o reactor 4 de Tchernobil que está em construção, foi planeada para durar 100 anos – ou, se necessário, “300 anos ou mais”, disse ao New York Times Vince Novak, director de salvaguardas nucleares do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, um dos financiadores do projecto avaliado em 2150 milhões de dólares e que está previsto terminar no fim de 2017.
 
Os números que o descrevem são fantásticos, fazem lembrar a construção de uma ópera na selva: é uma estrutura em arco de metal com 25 mil toneladas (36 mil quando estiver toda equipada), de 108 metros de altura, 162 de comprimento. Lá dentro caberiam a base da Torre Eiffel, ou a Estátua da Liberdade de Nova Iorque. Para durar 100 anos, o metal não pode enferrujar, e por isso a pintura é importante; mas ninguém espera que se possa pintar regularmente as vigas que ficam sobre o reactor onde estão 200 toneladas de combustível nuclear. Por isso, vão ser instalados desumidificadores para tentar evitar que se forme ferrugem.
 
A obra está pensada para cem anos porque ninguém sabe como retirar o combustível nuclear que está dentro do reactor, um passo essencial para o poder desmantelar. Por isso, a ideia é ganhar tempo, esperar que se desenvolva tecnologia para isso. Só que faltam ainda 200 milhões de euros para completar o projecto — e não é claro como vai a Ucrânia pagar as despesas de manter em operação a cúpula protectora de Tchernobil, quando estiver finalmente pronta, diz a AFP.
 
De uma maneira ou de outra, Tchernobil é um desastre que demorará a deixar de se fazer ouvir, ao longo de várias gerações.

Metade da Grande Barreira de Coral está “morta ou a morrer”

Colin Packham/Reuters
Coral branqueado
 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Lixo, calor e ninhos: as cegonhas foram seduzidas pelo Inverno português


Três cegonhas-brancas num ninho
 

Ilhas Selvagens, um dos últimos lugares (quase) intactos dos oceanos

Petroleiro naufragado na Selvagem Pequena, onde está desde 1971

Rebentação das ondas vista debaixo de água nas Selvagens
 
As Selvagens, duas pequenas ilhas do arquipélago da Madeira, receberam a visita do projecto Mares Pristinos da National Geographic Society, em Setembro de 2015. Durante dez dias, uma equipa de cientistas (que incluiu o biólogo marinho português Emanuel Gonçalves) e de filmagens procurou captar a essência subaquática destas ilhas. No relatório científico e no documentário resultantes da expedição, apresentados esta quarta-feira à tarde no Oceanário de Lisboa, os cientistas concluem que, apesar de tudo, este ecossistema marinho ainda se mantém globalmente saudável e defendem o aumento da área da reserva natural das Selvagens — para pelo menos 124.500 hectares, em vez dos actuais cerca de 9500.
No documentário, de quase meia hora, a beleza tem lugar de destaque — no azul do mar e do céu, na elegância das aves marinhas em voo, na aparente tranquilidade de peixes enormes ou no turbilhão das ondas visto dentro de água. “O projecto Mares Pristinos é sobre a preservação dos últimos lugares selvagens dos oceanos”, diz o narrador do documentário. “O que fazemos é procurar os últimos lugares imaculados dos oceanos. E protegê-los”, acrescenta o líder da expedição, Paul Rose, da equipa Mares Pristinos da National Geographic Society e da Royal Geographical Society britânica.
Lançado em 2008 por Enric Sala, explorador-residente da National Geographic Society, o Mares Pristinos pretende identificar, avaliar e proteger os últimos lugares verdadeiramente selvagens dos oceanos. Segundo o site do programa, já ajudaram a proteger mais de 3000 milhões de quilómetros quadrados de oceanos. Das Galápagos e Seychelles até a regiões a sul de Moçambique.

Quanto às Selvagens, a sua protecção “é uma história que começa com uma ave que migra pelo mar”, recorda Paul Rose no documentário, a transmitir no canal National Geographic. “Esta pequena ave acabou por proteger” as Selvagens, diz o cientista, também autor do relatório.
Essa ave marinha é a cagarra. Em 1971, as Selvagens eram propriedade privada, pertencendo ao filho do banqueiro madeirense Luiz da Rocha Machado. O Estado português comprou-as e classificou-as nesse mesmo ano como reserva natural. Ao protegerem-se as aves marinhas, de certa maneira protegeu-se o ambiente subaquático à volta da Selvagem Grande e da Selvagem Pequena. A Selvagem Grande tem agora a maior colónia mundial de cagarras. Nidificam ali, em terra firme, mais de 30.000 casais.
Mas quando as Selvagens foram compradas pelo Estado português, as cagarras estavam em declínio. Eram dizimadas. As comunidades piscatórias da Madeira, que as comiam, faziam campanhas sazonais de recolha das crias na Selvagem Grande. Salgadas e secas ao sol, eram armazenadas em barricas que iam para a ilha da Madeira. As penas vendiam-se para o fabrico de colchões, em Inglaterra. Numa campanha anual chegavam a matar-se 20 mil juvenis.
Na última, em 1967, caçaram-se “só” 13 mil cagarras. Nesse ano, o director do Museu Municipal do Funchal, Alexander Zino, comprou a licença de caça por alguns anos. Queria que colónia recuperasse e que as Selvagens fossem uma reserva natural. Em 1970, começou a negociar a sua compra pelo Fundo Mundial para a Vida Selvagem (WWF), associação internacional de defesa da natureza. O filho do banqueiro madeirense quis antes vendê-las ao Estado português.

Uma pérola no Atlântico

A criação da reserva natural permitiu atenuar algumas das cicatrizes humanas nas Selvagens. Por ano, recebem só algumas centenas de visitantes, que chegam sobretudo em iates, e a ida a terra requer autorização do Serviço do Parque Natural da Madeira. Mas ainda lá estão as marcas das tentativas de colonização ao longo da história (que falharam porque não há água doce), seja em muros de pedra no planalto da Selvagem Grande, seja numa cisterna. Os coelhos, introduzidos pouco depois da descoberta das Selvagens no século XV, pelo navegador português Diogo Gomes, só se conseguiram erradicar no início do século XX. Tal como se fizeram esforços para eliminar plantas introduzidas. No tempo dos Descobrimentos, também se levaram para lá cabras como fonte de alimento de quem visitasse estas ilhas e que a caça só exterminou no século XIX.
“Felizmente, em 1971, aquando da protecção, conseguiu-se eliminar estes factores [de desequilíbrio]”, diz Paul Rose, referindo-se às espécies introduzidas. “Foi um esforço enorme. Muita gente, muito dinheiro, muito empenho. Limparam tudo. E agora está de novo quase imaculado.”
Entre as marcas mais visíveis que perduram dos seres humanos estão navios naufragados. “Os destroços do Cerno ainda se mantêm desde 1971 no recife entre-marés na Selvagem Pequena, ameaçando este ambiente pristino. Este petroleiro de bandeira norueguesa aproximou-se de mais das ilhas para lavar ilegalmente os tanques”, lê-se no relatório da equipa dos Mares Pristinos, assinado à cabeça por Alan Friedlander, cientista principal do projecto e que esta quarta-feira apresentou o documento e o filme no Oceanário de Lisboa, numa sessão com a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, e o ministro do Ambiente, José Pedro Matos. Na terça-feira, a equipa foi ao Funchal divulgar os resultados ao presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque.
“Três meses depois [do Cerno], outro petroleiro, o Morning Breeze, afundou-se na Selvagem Grande”, lembra o relatório. “É provável que destroços de navios e/ou derrames de petróleo tenham tido efeitos devastadores e a longo prazo no ecossistema marinho costeiro, em particular na zona entre-marés quase pristina.”
Já houve várias expedições científicas às Selvagens. A primeira que foi multidisciplinar, em 1963, foi organizada por Alexander Zino. E em 2010, a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental fez a maior expedição até à data às Selvagens, envolvendo mais de 70 cientistas, para inventariar de forma exaustiva a biodiversidade marinha — trabalhos que incluíram mergulhos de biólogos até a 25 metros de profundidade e, ainda, do robô submarino Luso a 2000 metros. A expedição de 2010, frisa o relatório do Mares Pristinos, “aumentou consideravelmente a nossa compreensão científica sobre estas ilhas remotas”.
Agora os cientistas dos Mares Pristinos também quiseram ir às Selvagens “fazer o levantamento da saúde dos seus ecossistemas submarinos, da superfície às profundezas, e documentar este ecossistema em filme”, explica-se no relatório. Interessaram-se por estas ilhas a 163 milhas náuticas a sul da ilha da Madeira e 82 a norte das Canárias. As Selvagens são o extremo sul de Portugal. Não têm árvores, só vegetação rasteira. Apenas os vigilantes da natureza vivem lá.
“Os resultados desta expedição serão usados para aumentar a sensibilização pública sobre o valor extraordinário desta pérola do Atlântico e recomendar ao Governo português a ampliação da actual área marinha protegida à volta das Selvagens, que apenas abrange águas até aos 200 metros de profundidade.”
Os cientistas fizeram vários mergulhos e largaram câmaras de filmar no mar, umas para flutuar a cerca de dez metros de profundidade e outras para ir até ao fundo, a mais de 2000 metros. “Não se pretendia fazer um levantamento exaustivo, mas usar os mesmos métodos em todos os locais. Há uma padronização da metodologia, para permitir comparações. Usamos censos visuais, em que avaliamos a biomassa e a diversidade de espécies num percurso. Repetimos isso em todos os pontos de amostragem e ficamos com uma ‘fotografia’ dessa zona, que podemos comparar com ‘fotografias’ de outras zonas”, explica Emanuel Gonçalves, professor associado do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente no ISPA-Instituto Universitário (em Lisboa) e um dos autores do relatório científico. Ainda este ano, a equipa irá à ilha da Madeira fazer o mesmo tipo de trabalho, para ter um termo de comparação entre um lugar mais selvagem e outro com bastantes impactos humanos.
Mergulho nas ilhas Selvagens em Setembro de 2015 Andy Mann/National Geographic

Pescas e plásticos

Emanuel Gonçalves explica por que razão a protecção até aos 200 metros de profundidade não é suficiente. Funciona como tampão, e aí é proibido pescar, mas à volta das ilhas depressa se atingem grandes profundidades. Por isso, a área marinha protegida acaba por não ser grande: tem 9174 hectares. A reserva natural das Selvagens inclui outros 281 hectares de área terrestre, pelo que a reserva tem um total de 9455 hectares.
“Globalmente, essa protecção funcionou. Vêem-se peixes de grande porte, como garoupas e lírios, que são os primeiros a desaparecer quando há impactos significativos”, diz ao PÚBLICO o biólogo português, que entrou nesta expedição a convite de Enric Sala. “Permitiu proteger os ecossistemas costeiros, mas não permite uma protecção significativa para espécies mais móveis.”
É esse estado de saúde global que se dá conta no relatório. “Perto da costa, encontrou-se o ecossistema saudável, com um conjunto diverso de algas que consiste em pelo menos 47 taxa [unidades de classificação] diferentes. Os desertos de ouriços-do-mar, geralmente um sinal de pesca em excesso, eram raros e só cobriam cerca de 8% do fundo”, concluiu a equipa.
Golfinhos nas ilhas Selvagens Manu San Felix/National Geographic

Quando há ouriços-do-mar a mais, eles raspam as algas e deixam as rochas nuas, perturbando a cadeia alimentar. Os cientistas designam este fenómeno por “desertos de ouriços-do-mar”. Nas Selvagens, acrescenta-se no documentário, os ouriços-do-mar estão em equilíbrio, o que significa que há peixes que os comem em número suficiente. A presença de predadores como lírios, meros e peixes-porco são aqui um sinal de um ecossistema em bom estado. Diz-se que há uma diversidade incrível de espécies subaquáticas. “Por todo o lado, vimos grandes meros. Isto é algo que já não se vê, infelizmente, na maior parte do litoral europeu ou mesmo em ilhas vizinhas”, frisa Emanuel Gonçalves no documentário.
Mas depois vem a pergunta: e onde estão grandes caçadores, os predadores de topo da cadeia alimentar, como os tubarões? Nas Selvagens, ainda que quase intactas, eles são a peça que falta. “Vimos um só tubarão na expedição”, conta-nos Emanuel Gonçalves. “Vimos os mamíferos marinhos [como golfinhos e baleias], mas os tubarões não. Os grandes atuns também não. Não estão lá alguns componentes que se esperava que lá estivessem.”
O mundo subaquático nas ilhas Selvagens Andy Mann/National Geographic

Por isso, os cientistas defendem que os actuais 9174 hectares de área marinha protegida da reserva sejam alargados e que se use como “ponto de partida” uma Zona de Protecção Especial criada nas Selvagens em 2014 ao abrigo da directiva europeia das aves, que abrange 124.530 hectares. “A expansão da reserva natural à volta das ilhas seria uma oportunidade excelente de proteger um ecossistema único no Atlântico Norte”, frisa o relatório.
Até porque, alerta-se, subsistem ameaças às Selvagens: navios de pesca perto da reserva natural, em particular do atum; pesca ilegal na área protegida; e fragmentos minúsculos de plástico, que inundam os oceanos e são ingeridos pelos animais. “Em 85% das amostras de água recolhidas à volta das Selvagens havia microplásticos”, lê-se.
Há ainda referência ao diferendo entre Portugal (que as considera ilhas, com direito a zona económica exclusiva, até 200 milhas) e Espanha (que as vê como rochedos, só com mar territorial até 12 milhas), o que mantém aí em aberto as fronteiras marítimas dos dois países.
Ao partir das Selvagens, a equipa da National Geographic deixa uma nota de esperança. “Tem-se pescado muito, e o mar está sob grande pressão”, remata Paul Rose. “Mas temos um sentimento de confiança ao deixarmos este lugar, dada a sua condição fantástica.”

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