quarta-feira, 18 de maio de 2016

Lixo, calor e ninhos: as cegonhas foram seduzidas pelo Inverno português


Três cegonhas-brancas num ninho
 

Ilhas Selvagens, um dos últimos lugares (quase) intactos dos oceanos

Petroleiro naufragado na Selvagem Pequena, onde está desde 1971

Rebentação das ondas vista debaixo de água nas Selvagens
 
As Selvagens, duas pequenas ilhas do arquipélago da Madeira, receberam a visita do projecto Mares Pristinos da National Geographic Society, em Setembro de 2015. Durante dez dias, uma equipa de cientistas (que incluiu o biólogo marinho português Emanuel Gonçalves) e de filmagens procurou captar a essência subaquática destas ilhas. No relatório científico e no documentário resultantes da expedição, apresentados esta quarta-feira à tarde no Oceanário de Lisboa, os cientistas concluem que, apesar de tudo, este ecossistema marinho ainda se mantém globalmente saudável e defendem o aumento da área da reserva natural das Selvagens — para pelo menos 124.500 hectares, em vez dos actuais cerca de 9500.
No documentário, de quase meia hora, a beleza tem lugar de destaque — no azul do mar e do céu, na elegância das aves marinhas em voo, na aparente tranquilidade de peixes enormes ou no turbilhão das ondas visto dentro de água. “O projecto Mares Pristinos é sobre a preservação dos últimos lugares selvagens dos oceanos”, diz o narrador do documentário. “O que fazemos é procurar os últimos lugares imaculados dos oceanos. E protegê-los”, acrescenta o líder da expedição, Paul Rose, da equipa Mares Pristinos da National Geographic Society e da Royal Geographical Society britânica.
Lançado em 2008 por Enric Sala, explorador-residente da National Geographic Society, o Mares Pristinos pretende identificar, avaliar e proteger os últimos lugares verdadeiramente selvagens dos oceanos. Segundo o site do programa, já ajudaram a proteger mais de 3000 milhões de quilómetros quadrados de oceanos. Das Galápagos e Seychelles até a regiões a sul de Moçambique.

Quanto às Selvagens, a sua protecção “é uma história que começa com uma ave que migra pelo mar”, recorda Paul Rose no documentário, a transmitir no canal National Geographic. “Esta pequena ave acabou por proteger” as Selvagens, diz o cientista, também autor do relatório.
Essa ave marinha é a cagarra. Em 1971, as Selvagens eram propriedade privada, pertencendo ao filho do banqueiro madeirense Luiz da Rocha Machado. O Estado português comprou-as e classificou-as nesse mesmo ano como reserva natural. Ao protegerem-se as aves marinhas, de certa maneira protegeu-se o ambiente subaquático à volta da Selvagem Grande e da Selvagem Pequena. A Selvagem Grande tem agora a maior colónia mundial de cagarras. Nidificam ali, em terra firme, mais de 30.000 casais.
Mas quando as Selvagens foram compradas pelo Estado português, as cagarras estavam em declínio. Eram dizimadas. As comunidades piscatórias da Madeira, que as comiam, faziam campanhas sazonais de recolha das crias na Selvagem Grande. Salgadas e secas ao sol, eram armazenadas em barricas que iam para a ilha da Madeira. As penas vendiam-se para o fabrico de colchões, em Inglaterra. Numa campanha anual chegavam a matar-se 20 mil juvenis.
Na última, em 1967, caçaram-se “só” 13 mil cagarras. Nesse ano, o director do Museu Municipal do Funchal, Alexander Zino, comprou a licença de caça por alguns anos. Queria que colónia recuperasse e que as Selvagens fossem uma reserva natural. Em 1970, começou a negociar a sua compra pelo Fundo Mundial para a Vida Selvagem (WWF), associação internacional de defesa da natureza. O filho do banqueiro madeirense quis antes vendê-las ao Estado português.

Uma pérola no Atlântico

A criação da reserva natural permitiu atenuar algumas das cicatrizes humanas nas Selvagens. Por ano, recebem só algumas centenas de visitantes, que chegam sobretudo em iates, e a ida a terra requer autorização do Serviço do Parque Natural da Madeira. Mas ainda lá estão as marcas das tentativas de colonização ao longo da história (que falharam porque não há água doce), seja em muros de pedra no planalto da Selvagem Grande, seja numa cisterna. Os coelhos, introduzidos pouco depois da descoberta das Selvagens no século XV, pelo navegador português Diogo Gomes, só se conseguiram erradicar no início do século XX. Tal como se fizeram esforços para eliminar plantas introduzidas. No tempo dos Descobrimentos, também se levaram para lá cabras como fonte de alimento de quem visitasse estas ilhas e que a caça só exterminou no século XIX.
“Felizmente, em 1971, aquando da protecção, conseguiu-se eliminar estes factores [de desequilíbrio]”, diz Paul Rose, referindo-se às espécies introduzidas. “Foi um esforço enorme. Muita gente, muito dinheiro, muito empenho. Limparam tudo. E agora está de novo quase imaculado.”
Entre as marcas mais visíveis que perduram dos seres humanos estão navios naufragados. “Os destroços do Cerno ainda se mantêm desde 1971 no recife entre-marés na Selvagem Pequena, ameaçando este ambiente pristino. Este petroleiro de bandeira norueguesa aproximou-se de mais das ilhas para lavar ilegalmente os tanques”, lê-se no relatório da equipa dos Mares Pristinos, assinado à cabeça por Alan Friedlander, cientista principal do projecto e que esta quarta-feira apresentou o documento e o filme no Oceanário de Lisboa, numa sessão com a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, e o ministro do Ambiente, José Pedro Matos. Na terça-feira, a equipa foi ao Funchal divulgar os resultados ao presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque.
“Três meses depois [do Cerno], outro petroleiro, o Morning Breeze, afundou-se na Selvagem Grande”, lembra o relatório. “É provável que destroços de navios e/ou derrames de petróleo tenham tido efeitos devastadores e a longo prazo no ecossistema marinho costeiro, em particular na zona entre-marés quase pristina.”
Já houve várias expedições científicas às Selvagens. A primeira que foi multidisciplinar, em 1963, foi organizada por Alexander Zino. E em 2010, a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental fez a maior expedição até à data às Selvagens, envolvendo mais de 70 cientistas, para inventariar de forma exaustiva a biodiversidade marinha — trabalhos que incluíram mergulhos de biólogos até a 25 metros de profundidade e, ainda, do robô submarino Luso a 2000 metros. A expedição de 2010, frisa o relatório do Mares Pristinos, “aumentou consideravelmente a nossa compreensão científica sobre estas ilhas remotas”.
Agora os cientistas dos Mares Pristinos também quiseram ir às Selvagens “fazer o levantamento da saúde dos seus ecossistemas submarinos, da superfície às profundezas, e documentar este ecossistema em filme”, explica-se no relatório. Interessaram-se por estas ilhas a 163 milhas náuticas a sul da ilha da Madeira e 82 a norte das Canárias. As Selvagens são o extremo sul de Portugal. Não têm árvores, só vegetação rasteira. Apenas os vigilantes da natureza vivem lá.
“Os resultados desta expedição serão usados para aumentar a sensibilização pública sobre o valor extraordinário desta pérola do Atlântico e recomendar ao Governo português a ampliação da actual área marinha protegida à volta das Selvagens, que apenas abrange águas até aos 200 metros de profundidade.”
Os cientistas fizeram vários mergulhos e largaram câmaras de filmar no mar, umas para flutuar a cerca de dez metros de profundidade e outras para ir até ao fundo, a mais de 2000 metros. “Não se pretendia fazer um levantamento exaustivo, mas usar os mesmos métodos em todos os locais. Há uma padronização da metodologia, para permitir comparações. Usamos censos visuais, em que avaliamos a biomassa e a diversidade de espécies num percurso. Repetimos isso em todos os pontos de amostragem e ficamos com uma ‘fotografia’ dessa zona, que podemos comparar com ‘fotografias’ de outras zonas”, explica Emanuel Gonçalves, professor associado do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente no ISPA-Instituto Universitário (em Lisboa) e um dos autores do relatório científico. Ainda este ano, a equipa irá à ilha da Madeira fazer o mesmo tipo de trabalho, para ter um termo de comparação entre um lugar mais selvagem e outro com bastantes impactos humanos.
Mergulho nas ilhas Selvagens em Setembro de 2015 Andy Mann/National Geographic

Pescas e plásticos

Emanuel Gonçalves explica por que razão a protecção até aos 200 metros de profundidade não é suficiente. Funciona como tampão, e aí é proibido pescar, mas à volta das ilhas depressa se atingem grandes profundidades. Por isso, a área marinha protegida acaba por não ser grande: tem 9174 hectares. A reserva natural das Selvagens inclui outros 281 hectares de área terrestre, pelo que a reserva tem um total de 9455 hectares.
“Globalmente, essa protecção funcionou. Vêem-se peixes de grande porte, como garoupas e lírios, que são os primeiros a desaparecer quando há impactos significativos”, diz ao PÚBLICO o biólogo português, que entrou nesta expedição a convite de Enric Sala. “Permitiu proteger os ecossistemas costeiros, mas não permite uma protecção significativa para espécies mais móveis.”
É esse estado de saúde global que se dá conta no relatório. “Perto da costa, encontrou-se o ecossistema saudável, com um conjunto diverso de algas que consiste em pelo menos 47 taxa [unidades de classificação] diferentes. Os desertos de ouriços-do-mar, geralmente um sinal de pesca em excesso, eram raros e só cobriam cerca de 8% do fundo”, concluiu a equipa.
Golfinhos nas ilhas Selvagens Manu San Felix/National Geographic

Quando há ouriços-do-mar a mais, eles raspam as algas e deixam as rochas nuas, perturbando a cadeia alimentar. Os cientistas designam este fenómeno por “desertos de ouriços-do-mar”. Nas Selvagens, acrescenta-se no documentário, os ouriços-do-mar estão em equilíbrio, o que significa que há peixes que os comem em número suficiente. A presença de predadores como lírios, meros e peixes-porco são aqui um sinal de um ecossistema em bom estado. Diz-se que há uma diversidade incrível de espécies subaquáticas. “Por todo o lado, vimos grandes meros. Isto é algo que já não se vê, infelizmente, na maior parte do litoral europeu ou mesmo em ilhas vizinhas”, frisa Emanuel Gonçalves no documentário.
Mas depois vem a pergunta: e onde estão grandes caçadores, os predadores de topo da cadeia alimentar, como os tubarões? Nas Selvagens, ainda que quase intactas, eles são a peça que falta. “Vimos um só tubarão na expedição”, conta-nos Emanuel Gonçalves. “Vimos os mamíferos marinhos [como golfinhos e baleias], mas os tubarões não. Os grandes atuns também não. Não estão lá alguns componentes que se esperava que lá estivessem.”
O mundo subaquático nas ilhas Selvagens Andy Mann/National Geographic

Por isso, os cientistas defendem que os actuais 9174 hectares de área marinha protegida da reserva sejam alargados e que se use como “ponto de partida” uma Zona de Protecção Especial criada nas Selvagens em 2014 ao abrigo da directiva europeia das aves, que abrange 124.530 hectares. “A expansão da reserva natural à volta das ilhas seria uma oportunidade excelente de proteger um ecossistema único no Atlântico Norte”, frisa o relatório.
Até porque, alerta-se, subsistem ameaças às Selvagens: navios de pesca perto da reserva natural, em particular do atum; pesca ilegal na área protegida; e fragmentos minúsculos de plástico, que inundam os oceanos e são ingeridos pelos animais. “Em 85% das amostras de água recolhidas à volta das Selvagens havia microplásticos”, lê-se.
Há ainda referência ao diferendo entre Portugal (que as considera ilhas, com direito a zona económica exclusiva, até 200 milhas) e Espanha (que as vê como rochedos, só com mar territorial até 12 milhas), o que mantém aí em aberto as fronteiras marítimas dos dois países.
Ao partir das Selvagens, a equipa da National Geographic deixa uma nota de esperança. “Tem-se pescado muito, e o mar está sob grande pressão”, remata Paul Rose. “Mas temos um sentimento de confiança ao deixarmos este lugar, dada a sua condição fantástica.”

Estetoscópio digital: Um spotify do coração e dos pulmões onde os álbuns são doenças


Sala de aulas no Porto onde os futuros médicos aprendem a auscultar com um estetoscópio digital

As células têm um padrão geométrico que avisa para o risco de cancro


 

Células humanas normais...
 
E os seus padrões geométricos
 
 
Células humanas que apresentam risco de cancro...
 
 
E como isso se reflecte na sua geometria
 
Imagine que estamos a falar de uma toalha com um padrão constituído por pedaços de tecido. Esses pedaços estão unidos por causa de uma cola. Quando olhamos para ele, bem de perto, o padrão tem de fazer sentido e os pedaços de tecido têm de estar no sítio certo, graças à cola. Porém, por vezes, esta cola surge com defeito e deixa de cumprir a sua função, manter os pedaços de tecido no lugar certo. Tudo fica desorganizado, perde-se o padrão normal, o tecido estraga-se. Quando substituímos a imagem dos pedaços de tecido por células, e a cola por uma importante proteína chamada caderina-E (associada ao cancro gástrico hereditário) que assegura a coesão das células, ficamos mais perto deste potencial novo método de diagnóstico. É uma metodologia, baseada num complexo algoritmo, capaz de analisar imagens microscópicas de células que produzem proteínas humanas e, baseando-se na diferenciação dos padrões geométricos, identificar casos de risco de cancro.
 
“Olhámos para células que têm proteínas normais e disfuncionais de adesão. Testámos de que forma é que este método conseguia distinguir estes dois tipos celulares. O que verificámos é que coisas tão simples como medir a distância entre dois núcleos, medir a área dos triângulos, os ângulos…
 
 Portanto, olhar para a geometria da organização de um grupo de células podia dar indicações sobre a disfunção de uma proteína”, explica Raquel Seruca, uma das coordenadoras do estudo e investigadora no I3S. A “disfunção” da caderina-E, uma proteína que está na superfície das células, é um sinal de risco e está associada a cancros agressivos. Quando sofre mutações esta proteína deixa de cumprir a sua função de “cola”, o tecido fica frágil e as células soltas podem dispersar-se e migrar para outras partes do corpo, onde se estabelecem e formam metástases.
 
Para já, o trabalho está direccionado apenas para o cancro gástrico hereditário, mas Raquel Seruca acredita que o mesmo método de análise pode ser adaptado a outros tipos de cola (proteínas) e padrões, servindo para outros cancros e outras doenças. “Isto pode ser transposto para todas as proteínas que desorganizem o tecido”, refere a investigadora, que nota que também poderá servir para avaliar a eficácia de novos fármacos para tratar o cancro. No cancro, lembra a investigadora, as células deixam de interagir de forma correcta umas com as outras, perde-se a arquitectura. Esta é uma ferramenta “super simples e super elegante” que, aplicando os conhecimentos da engenharia à biologia, quantifica a desorganização.
 
Inicialmente, o modelo concebido por estes investigadores conseguiu quantificar a produção da caderina-E e agora, num segundo passo deste trabalho, focou-se mais na organização do tecido e diferenciação dos padrões geométricos. “O resultado é de grande precisão”, refere João Sanches, engenheiro e investigador do ISR-Lisboa, do Instituto Superior Técnico, adiantando que a primeira fase do projecto já garantia cerca de 80% de precisão e que o método alcançou agora os 90%. “Não é possível chegar aos 100%”, avisa Raquel Seruca. No trabalho, quando foi detectado um padrão anormal as amostras foram validadas com estudos da função da proteína. “O que verificámos é que a sensibilidade do método é extraordinária”, diz.
 
No processo de análise de imagens de microscopia, os núcleos das células são utilizados como pontos de referência para desenhar uma malha que representa a geometria do sistema. “A métrica obtida, a partir da triangulação entre núcleos de células adjacentes permite calcular a deformações nessa malha”, esclarece um comunicado de imprensa do I3S. “A análise de padrões em imagens é já muito utilizada no nosso dia-a-dia, mas precisávamos de perceber as subtilezas na arquitectura, como estas células estavam organizadas, e desenvolver um algoritmo que conseguissem percepcionar diferenças”, acrescenta João Sanches.
 
A investigação foi feita com células de cultura em laboratório. Transpor este tipo de análise para tecidos, nomeadamente a partir de biopsias, é um dos próximos passos. “Apesar de ainda não o termos testado, achamos que isto pode ser facilmente transportado para as biopsias. O algoritmo foi feito para células completas e agora tem de ser redesenhado para tecidos dos doentes, fatias de células. Como utilizámos os centros dos núcleos como ponto de referência, teremos de ter isso em atenção”, refere Raquel Seruca. Depois, “só” falta validar o método.

Os genes da girafa dizem por que tem um pescoço tão grande

Reuters e
Três girafas-masai machos na Tanzânia

9 perguntas sobre os riscos da carne processada

Nuno Noronha // Peso e Nutrição
A Organização Mundial de Saúde alerta que o consumo de carne processada - como bacon, salsichas e presunto - aumenta o risco de cancro. E agora? O que comer e o que evitar? As respostas a estas e outras perguntas por Tânia Furtado e Ana Rita Lopes, Nutricionistas do Hospital Lusíadas Lisboa.
 
Por que é que as carnes processadas causam cancro? - O mecanismo pelo qual as carnes processadas aumentam o risco de cancro não é claro e ainda está a ser estudado. O que o comunicado da OMS nos diz é que existe uma associação estatística entre o consumo de carne processada e o desenvolvimento de cancro, mas não presta esclarecimentos acerca do modo como esse fenómeno acontece.
 
Consumi-las é arriscado? - É arriscado se forem consumidas diariamente. Não é necessário entrarmos em alarmismo e deixarmos de consumir para sempre as carnes processadas, se as apreciamos e estamos habituados a consumi-las. O que devemos fazer é passar a consumi-las com moderação, em vez de comer diariamente, comer por exemplo uma vez por semana ou em ocasiões especiais e em quantidades mais reduzidas, pois sabemos agora que não são inócuas para a saúde.
 
Afinal quanta carne vermelha podemos comer por semana? - Não existem recomendações específicas para a população portuguesa relativamente ao consumo de carne vermelha. Mas se nos basearmos em recomendações internacionais, as guidelines australianas, por exemplo, dizem-nos que devemos consumir no máximo 450 gramas de carne vermelha por semana (ou seja 3 refeições de 150 gramas de carne vermelha por semana).
 
Será que comer carne processada é tão mau como fumar ou beber álcool? - Não devemos fazer essa comparação. Apesar de estarem ambos no mesmo grupo de classificação do IARC, grupo 1, não podemos afirmar que consumir carne processada é tão perigoso para a saúde quanto fumar ou beber álcool. Esta classificação apenas nos diz que tal como há evidência comprovada de que o tabaco é carcinogénico para humanos, também o há de que a carne processada é carcinogénica para humanos se consumida em excesso, daí estarem agrupados na mesma categoria relativamente ao nível de evidência científica.
 
Como posso reduzir o consumo de carne sem prejudicar a minha saúde? - Optando por consumir mais carne branca, peixe e ovos em detrimento da carne vermelha; não deixar de consumir carne vermelha pois são importantes do ponto de vista nutricional, mas evitar consumi-la mais do que 3 vezes por semana; não consumir diariamente carnes processadas, mas sim esporadicamente.
 
O que significa esta classificação da OMS? - Esta classificação da OMS, que engloba as carnes processadas no Grupo 1 (carcinogénico para humanos) e as carnes vermelhas no Grupo 2A (provavelmente carcinogénico para humanos), agrupa diferentes agentes que são estudados quanto ao seu potencial para causa de cancro, de acordo com a evidência científica existente.
 
Esta nova categorização é tardia ou chega em boa hora? - Há muito que as organizações de saúde alertam a população para a necessidade de moderar o consumo de carne vermelha e restringir o consumo de carne processada. Este estudo por parte da Agência Internacional para o Estudo do Cancro (IARC) vem em boa hora provar isso mesmo, que, de facto, se consumidas em excesso podem representar algum risco para a saúde.
 
É melhor tornar-me vegetariano? - Parece-me desnecessário e radical tornarmo-nos todos vegetarianos, até porque a carne assim como o peixe têm uma enorme riqueza nutricional, sendo das principais fontes proteicas da nossa alimentação, assim como de vitamina B12, zinco e ferro. Relembro que o comunicado da OMS não nos indica que devamos excluir o consumo de carne mas sim reduzir a ingestão de carnes vermelhas, como a carne de porco, vaca, borrego e cabrito.
 
Os portugueses, em geral, têm uma boa alimentação? - Tendo em conta o último relatório da Direção-geral da Saúde (DGS), podemos considerar que os portugueses têm uma alimentação pouco saudável, uma vez que de acordo com este, “os hábitos alimentares inadequados são o fator de risco que mais rouba anos de vida saudável aos portugueses”.

As intoxicações alimentares que podem matar

Nuno Noronha // Peso e Nutrição
Conheça os alimentos que se forem ingeridos estragados lhe podem fazer muito mal. E saiba como evitar intoxicações alimentares. Os conselhos são de Ana Rita Lopes, nutricionista e responsável pela equipa de Nutrição do Hospital Lusíadas de Lisboa.
 
Alimentos contaminados por Salmonella - Tenha especial cuidado com as carnes de aves (peru, frango), carne de vaca (assada, picada), presunto, salsicha, produtos derivados do leite, ovos crus ou mal pasteurizados ou contaminados após pasteurização. Tenha ainda em atenção os diversos alimentos após confeção (carnes frias, saladas, sandes, peixes, bolos com natas). A Salmonelose é uma das intoxicações mais comuns, sendo causada pela bactéria Salmonella, geralmente encontrada nos ovos, aves, carne e leite.
 
Na maioria das vezes os sintomas iniciam-se 8 e 48 horas após a ingestão, sendo os principais a diarreia, vómitos, dores abdominais e febre. Esta intoxicação não é grave quando tratada adequadamente, e em média, dura dois a cinco dias. Porém, quando diagnosticada em grávidas, bebés, idosos e pacientes debilitados ou portadores de doença grave, a Salmonelose pode ser fatal.
 
Como evitar contaminações por Salmonella? Confecionar muito bem a carne, peixe e ovos. Não consumir produtos lácteos não pasteurizados. Legumes e frutos bem higienizados.
 
Alimentos contaminados por Clostridium Perfringens - Rolos de carne recheados são alimentos que apresentam condições favoráveis para a proliferação de C. perfringens, pois devido às suas dimensões dificultam a penetração de calor até ao interior do alimento durante a cozedura. A bactéria C. Perfringens é largamente distribuída no solo e no trato intestinal de animais. Portanto, os alimentos contaminados normalmente são provenientes das fezes de animais ou do solo.
 
Essa bactéria produz esporos que sobrevivem à temperatura de confeção e se multiplicam durante o arrefecimento. Por isso, muitas vezes mesmo cozinhando a carne, ainda permanecem bactérias potencialmente patogénicas. Os sintomas podem demorar de 6 a 24 horas para surgir e os mais comuns são cólicas abdominais, diarreia e náuseas. Como evitar contaminações por C. perfringens? Confecionar muito bem a carne, peixe e ovos. Os alimentos preparados, que não vão ser consumidos de imediato, devem ser mantidos a temperaturas superiores a 65ºC ou arrefecidos a temperaturas inferiores a 10ºC num período de 2 a 3 horas. No caso de grandes peças de carne, recomenda-se que estas sejam partidas para que o seu interior arrefeça rapidamente.
 
Alimentos contaminados por Clostridium botulinum - Esta bactéria afeta enlatados e conservas. O Botulismo é causado por uma toxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum, encontrada sobretudo em alimentos mal embalados, enlatados, conservas e em casos de manipulação e industrialização inadequada. Em casos mais graves, o botulismo pode causar visão dupla, dificuldade em deglutir e falar e paralisia.
 
É importante a correta utilização das temperaturas de processamento térmico e de refrigeração e a manutenção de valores de conservação (ex. pH) adequados. Em alguns tipos de produtos a adição de nitritos ou de outros conservantes é uma barreira adicional, para evitar a contaminação por C. botulinum.
 
Alimentos contaminados por Bacillus cereus - Os alimentos que se encontram contaminados por Bacillus cereus podem levar ao desenvolvimento de sintomas como náuseas, vómitos e cansaço.
Principais fontes de contaminação: Carne, leite, arroz e vegetais cozinhados que são armazenados a uma temperatura inadequada ou que são reaquecidos em pouco tempo.
 
Como evitar contaminações por Bacillus Cereus? Aquecer os alimentos a temperaturas suficientes para que sejam destruídas as formas vegetativas. Manter os alimentos a temperaturas superiores a 65ºC depois de preparados e até que sejam servidos. Promover o arrefecimento rápido dos alimentos que vão ser armazenados a temperaturas de refrigeração, para que não ocorra germinação de esporos.