![]() |
| Sala de aulas no Porto onde os futuros médicos aprendem a auscultar com um estetoscópio digital |
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Estetoscópio digital: Um spotify do coração e dos pulmões onde os álbuns são doenças
Andrea Cunha Freitas
As células têm um padrão geométrico que avisa para o risco de cancro
Andrea Cunha Freitas
![]() |
Células humanas normais...
|
![]() |
| E os seus padrões geométricos |
![]() |
Células humanas que apresentam risco de cancro...
|
![]() |
| E como isso se reflecte na sua geometria |
Imagine que estamos a falar de uma toalha com um padrão constituído por pedaços de tecido. Esses pedaços estão unidos por causa de uma cola. Quando olhamos para ele, bem de perto, o padrão tem de fazer sentido e os pedaços de tecido têm de estar no sítio certo, graças à cola. Porém, por vezes, esta cola surge com defeito e deixa de cumprir a sua função, manter os pedaços de tecido no lugar certo. Tudo fica desorganizado, perde-se o padrão normal, o tecido estraga-se. Quando substituímos a imagem dos pedaços de tecido por células, e a cola por uma importante proteína chamada caderina-E (associada ao cancro gástrico hereditário) que assegura a coesão das células, ficamos mais perto deste potencial novo método de diagnóstico. É uma metodologia, baseada num complexo algoritmo, capaz de analisar imagens microscópicas de células que produzem proteínas humanas e, baseando-se na diferenciação dos padrões geométricos, identificar casos de risco de cancro.
“Olhámos para células que têm proteínas normais e disfuncionais de adesão. Testámos de que forma é que este método conseguia distinguir estes dois tipos celulares. O que verificámos é que coisas tão simples como medir a distância entre dois núcleos, medir a área dos triângulos, os ângulos…
Portanto, olhar para a geometria da organização de um grupo de células podia dar indicações sobre a disfunção de uma proteína”, explica Raquel Seruca, uma das coordenadoras do estudo e investigadora no I3S. A “disfunção” da caderina-E, uma proteína que está na superfície das células, é um sinal de risco e está associada a cancros agressivos. Quando sofre mutações esta proteína deixa de cumprir a sua função de “cola”, o tecido fica frágil e as células soltas podem dispersar-se e migrar para outras partes do corpo, onde se estabelecem e formam metástases.
Para já, o trabalho está direccionado apenas para o cancro gástrico hereditário, mas Raquel Seruca acredita que o mesmo método de análise pode ser adaptado a outros tipos de cola (proteínas) e padrões, servindo para outros cancros e outras doenças. “Isto pode ser transposto para todas as proteínas que desorganizem o tecido”, refere a investigadora, que nota que também poderá servir para avaliar a eficácia de novos fármacos para tratar o cancro. No cancro, lembra a investigadora, as células deixam de interagir de forma correcta umas com as outras, perde-se a arquitectura. Esta é uma ferramenta “super simples e super elegante” que, aplicando os conhecimentos da engenharia à biologia, quantifica a desorganização.
Inicialmente, o modelo concebido por estes investigadores conseguiu quantificar a produção da caderina-E e agora, num segundo passo deste trabalho, focou-se mais na organização do tecido e diferenciação dos padrões geométricos. “O resultado é de grande precisão”, refere João Sanches, engenheiro e investigador do ISR-Lisboa, do Instituto Superior Técnico, adiantando que a primeira fase do projecto já garantia cerca de 80% de precisão e que o método alcançou agora os 90%. “Não é possível chegar aos 100%”, avisa Raquel Seruca. No trabalho, quando foi detectado um padrão anormal as amostras foram validadas com estudos da função da proteína. “O que verificámos é que a sensibilidade do método é extraordinária”, diz.
No processo de análise de imagens de microscopia, os núcleos das células são utilizados como pontos de referência para desenhar uma malha que representa a geometria do sistema. “A métrica obtida, a partir da triangulação entre núcleos de células adjacentes permite calcular a deformações nessa malha”, esclarece um comunicado de imprensa do I3S. “A análise de padrões em imagens é já muito utilizada no nosso dia-a-dia, mas precisávamos de perceber as subtilezas na arquitectura, como estas células estavam organizadas, e desenvolver um algoritmo que conseguissem percepcionar diferenças”, acrescenta João Sanches.
A investigação foi feita com células de cultura em laboratório. Transpor este tipo de análise para tecidos, nomeadamente a partir de biopsias, é um dos próximos passos. “Apesar de ainda não o termos testado, achamos que isto pode ser facilmente transportado para as biopsias. O algoritmo foi feito para células completas e agora tem de ser redesenhado para tecidos dos doentes, fatias de células. Como utilizámos os centros dos núcleos como ponto de referência, teremos de ter isso em atenção”, refere Raquel Seruca. Depois, “só” falta validar o método.
9 perguntas sobre os riscos da carne processada
Nuno Noronha // Peso e Nutrição
A Organização Mundial de Saúde alerta que o consumo de carne processada - como bacon, salsichas e presunto - aumenta o risco de cancro. E agora? O que comer e o que evitar? As respostas a estas e outras perguntas por Tânia Furtado e Ana Rita Lopes, Nutricionistas do Hospital Lusíadas Lisboa.
Por que é que as carnes processadas causam cancro? - O mecanismo pelo qual as carnes processadas aumentam o risco de cancro não é claro e ainda está a ser estudado. O que o comunicado da OMS nos diz é que existe uma associação estatística entre o consumo de carne processada e o desenvolvimento de cancro, mas não presta esclarecimentos acerca do modo como esse fenómeno acontece.
Consumi-las é arriscado? - É arriscado se forem consumidas diariamente. Não é necessário entrarmos em alarmismo e deixarmos de consumir para sempre as carnes processadas, se as apreciamos e estamos habituados a consumi-las. O que devemos fazer é passar a consumi-las com moderação, em vez de comer diariamente, comer por exemplo uma vez por semana ou em ocasiões especiais e em quantidades mais reduzidas, pois sabemos agora que não são inócuas para a saúde.
Afinal quanta carne vermelha podemos comer por semana? - Não existem recomendações específicas para a população portuguesa relativamente ao consumo de carne vermelha. Mas se nos basearmos em recomendações internacionais, as guidelines australianas, por exemplo, dizem-nos que devemos consumir no máximo 450 gramas de carne vermelha por semana (ou seja 3 refeições de 150 gramas de carne vermelha por semana).
Será que comer carne processada é tão mau como fumar ou beber álcool? - Não devemos fazer essa comparação. Apesar de estarem ambos no mesmo grupo de classificação do IARC, grupo 1, não podemos afirmar que consumir carne processada é tão perigoso para a saúde quanto fumar ou beber álcool. Esta classificação apenas nos diz que tal como há evidência comprovada de que o tabaco é carcinogénico para humanos, também o há de que a carne processada é carcinogénica para humanos se consumida em excesso, daí estarem agrupados na mesma categoria relativamente ao nível de evidência científica.
Como posso reduzir o consumo de carne sem prejudicar a minha saúde? - Optando por consumir mais carne branca, peixe e ovos em detrimento da carne vermelha; não deixar de consumir carne vermelha pois são importantes do ponto de vista nutricional, mas evitar consumi-la mais do que 3 vezes por semana; não consumir diariamente carnes processadas, mas sim esporadicamente.
O que significa esta classificação da OMS? - Esta classificação da OMS, que engloba as carnes processadas no Grupo 1 (carcinogénico para humanos) e as carnes vermelhas no Grupo 2A (provavelmente carcinogénico para humanos), agrupa diferentes agentes que são estudados quanto ao seu potencial para causa de cancro, de acordo com a evidência científica existente.
Esta nova categorização é tardia ou chega em boa hora? - Há muito que as organizações de saúde alertam a população para a necessidade de moderar o consumo de carne vermelha e restringir o consumo de carne processada. Este estudo por parte da Agência Internacional para o Estudo do Cancro (IARC) vem em boa hora provar isso mesmo, que, de facto, se consumidas em excesso podem representar algum risco para a saúde.
É melhor tornar-me vegetariano? - Parece-me desnecessário e radical tornarmo-nos todos vegetarianos, até porque a carne assim como o peixe têm uma enorme riqueza nutricional, sendo das principais fontes proteicas da nossa alimentação, assim como de vitamina B12, zinco e ferro. Relembro que o comunicado da OMS não nos indica que devamos excluir o consumo de carne mas sim reduzir a ingestão de carnes vermelhas, como a carne de porco, vaca, borrego e cabrito.
Os portugueses, em geral, têm uma boa alimentação? - Tendo em conta o último relatório da Direção-geral da Saúde (DGS), podemos considerar que os portugueses têm uma alimentação pouco saudável, uma vez que de acordo com este, “os hábitos alimentares inadequados são o fator de risco que mais rouba anos de vida saudável aos portugueses”.
As intoxicações alimentares que podem matar
Nuno Noronha // Peso e Nutrição
Conheça os alimentos que se forem ingeridos estragados lhe podem fazer muito mal. E saiba como evitar intoxicações alimentares. Os conselhos são de Ana Rita Lopes, nutricionista e responsável pela equipa de Nutrição do Hospital Lusíadas de Lisboa.
Alimentos contaminados por Salmonella - Tenha especial cuidado com as carnes de aves (peru, frango), carne de vaca (assada, picada), presunto, salsicha, produtos derivados do leite, ovos crus ou mal pasteurizados ou contaminados após pasteurização. Tenha ainda em atenção os diversos alimentos após confeção (carnes frias, saladas, sandes, peixes, bolos com natas). A Salmonelose é uma das intoxicações mais comuns, sendo causada pela bactéria Salmonella, geralmente encontrada nos ovos, aves, carne e leite.
Na maioria das vezes os sintomas iniciam-se 8 e 48 horas após a ingestão, sendo os principais a diarreia, vómitos, dores abdominais e febre. Esta intoxicação não é grave quando tratada adequadamente, e em média, dura dois a cinco dias. Porém, quando diagnosticada em grávidas, bebés, idosos e pacientes debilitados ou portadores de doença grave, a Salmonelose pode ser fatal.
Como evitar contaminações por Salmonella? Confecionar muito bem a carne, peixe e ovos. Não consumir produtos lácteos não pasteurizados. Legumes e frutos bem higienizados.
Alimentos contaminados por Clostridium Perfringens - Rolos de carne recheados são alimentos que apresentam condições favoráveis para a proliferação de C. perfringens, pois devido às suas dimensões dificultam a penetração de calor até ao interior do alimento durante a cozedura. A bactéria C. Perfringens é largamente distribuída no solo e no trato intestinal de animais. Portanto, os alimentos contaminados normalmente são provenientes das fezes de animais ou do solo.
Essa bactéria produz esporos que sobrevivem à temperatura de confeção e se multiplicam durante o arrefecimento. Por isso, muitas vezes mesmo cozinhando a carne, ainda permanecem bactérias potencialmente patogénicas. Os sintomas podem demorar de 6 a 24 horas para surgir e os mais comuns são cólicas abdominais, diarreia e náuseas. Como evitar contaminações por C. perfringens? Confecionar muito bem a carne, peixe e ovos. Os alimentos preparados, que não vão ser consumidos de imediato, devem ser mantidos a temperaturas superiores a 65ºC ou arrefecidos a temperaturas inferiores a 10ºC num período de 2 a 3 horas. No caso de grandes peças de carne, recomenda-se que estas sejam partidas para que o seu interior arrefeça rapidamente.
Alimentos contaminados por Clostridium botulinum - Esta bactéria afeta enlatados e conservas. O Botulismo é causado por uma toxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum, encontrada sobretudo em alimentos mal embalados, enlatados, conservas e em casos de manipulação e industrialização inadequada. Em casos mais graves, o botulismo pode causar visão dupla, dificuldade em deglutir e falar e paralisia.
É importante a correta utilização das temperaturas de processamento térmico e de refrigeração e a manutenção de valores de conservação (ex. pH) adequados. Em alguns tipos de produtos a adição de nitritos ou de outros conservantes é uma barreira adicional, para evitar a contaminação por C. botulinum.
Alimentos contaminados por Bacillus cereus - Os alimentos que se encontram contaminados por Bacillus cereus podem levar ao desenvolvimento de sintomas como náuseas, vómitos e cansaço.
Principais fontes de contaminação: Carne, leite, arroz e vegetais cozinhados que são armazenados a uma temperatura inadequada ou que são reaquecidos em pouco tempo.
Principais fontes de contaminação: Carne, leite, arroz e vegetais cozinhados que são armazenados a uma temperatura inadequada ou que são reaquecidos em pouco tempo.
Como evitar contaminações por Bacillus Cereus? Aquecer os alimentos a temperaturas suficientes para que sejam destruídas as formas vegetativas. Manter os alimentos a temperaturas superiores a 65ºC depois de preparados e até que sejam servidos. Promover o arrefecimento rápido dos alimentos que vão ser armazenados a temperaturas de refrigeração, para que não ocorra germinação de esporos.
Afinal o ovo é saudável ou não?
Nuno Noronha // Peso e Nutrição // Ana Rita Lopes
Muito se diz sobre o ovo. Mas nem tudo é verdade. Fomos descobrir junto da Equipa de Nutrição do Hospital Lusíadas Lisboa se este alimento é saudável ou não.
Não se deve comer mais do que dois ovos por semana? Um estudo publicado no jornal científico Medical Science Monitor, em 2007, concluiu que a ingestão de um ou mais ovos por dia não aumenta o risco de problemas cardíacos entre adultos saudáveis.
Quem tem colesterol elevado não deve comer muitos ovos? O aumento do mau colesterol é influenciado por diversos fatores, nomeadamente a predisposição genética, obesidade, tabagismo, sedentarismo, alimentação pobre em fibras e rica em gorduras saturadas. Para além disso, a ingestão de ovos não favorece diretamente o aumento do mau colesterol uma vez que 70% dele é produzido pelo fígado e influenciado pelos fatores anteriormente referidos. Estudos recentes têm evidenciado os efeitos benéficos do ovo, desvinculando a questão do colesterol e doença cardíaca, demonstrado que o consumo diário de ovo não afeta o perfil lipídico e pode inclusive melhorá-lo. A investigação sugere que nem todo o colesterol do ovo é absorvido no nosso organismo e que a sua proveniência é multifatorial.
O ovo ajuda a prevenir doenças? Estudos realizados no Canadá, na Universidade de Alberta, mostraram a capacidade do ovo na prevenção de doenças cardiovasculares, graças às suas propriedades antioxidantes. Deste modo, pessoas saudáveis podem comer até um ovo por dia, desde que pratiquem uma alimentação saudável e que, com isso, não ultrapassem o limite de 300mg de colesterol diários provenientes da alimentação. O ovo surge, assim, como um excelente alimento para substituição pontual de uma outra fonte proteica (por exemplo carne ou peixe).
O ovo é um alimento muito calórico que engorda? Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, um ovo médio (55g) cru tem pouco mais de 70 kcal, um valor calórico baixo. Além disso, apresenta uma boa composição nutricional pois apresenta 13 nutrientes essenciais, sendo também uma excelente fonte de proteínas de alto valor biológico. A proteína promove a saciedade e a sua composição em triptofano, um aminoácido percursor da serotonina, inibe a sensação de fome, podendo ajudar assim na perda de peso. Desse modo, ao ingerir um ovo pela manhã, as pessoas sentem-se mais saciadas, diminuindo assim a quantidade de calorias ao longo do dia – como é reforçado na tese publicada no Journal of the American College of Nutrition em 2005.
Os ovos podem ajudar a perder peso? Os ovos podem ser um excelente aliado num regime para perda de peso, desde que confecionados sem gordura e integrados num regime de alimentação saudável.
A clara é mais saudável que a gema? A clara e gema apresentam composição nutricional diferente mas complementam-se. A maioria da proteína do ovo está presente na clara, sendo também constituída por água, vitaminas do complexo B e minerais, como o fósforo e o selénio. A gema, por outro lado, contém proteína, gordura e vitaminas (A, D, E e K) – que nos fornecem 10 a 20% da dose diária recomendada de vitaminas lipossolúveis. Deste modo, a riqueza nutricional do ovo está no seu todo.
Qual a melhor forma de comer ovo? Prefira os cozidos ou escalfados, ou omeletas/ovos mexidos feitos em frigideira antiaderente, sem adição de gordura, no máximo coloque um fio de azeite (1 colher de café é suficiente).
sexta-feira, 13 de maio de 2016
As cores da cenoura (e da vitamina A) segundo o seu genoma
Andrea Cunha Freitas
Foi publicada a sequência completa do genoma da cenoura. E para
que é que isto serve? O trabalho encontrou algumas pistas que, segundo
os cientistas, podem ser úteis para melhorar as colheitas e a qualidade
do produto.
Toda a gente sabe (e já está
cientificamente comprovado) que faz bem aos olhos. Nos últimos anos
foram também divulgados artigos científicos que a associam à melhoria da
qualidade do esperma ou à prevenção de cancro do pulmão. Agora, um
grupo de investigadores norte-americanos apresenta o genoma completo da
cenoura. Os investigadores acreditam que a informação que conseguiram
reunir sobre a evolução e as características da cenoura pode ajudar a
melhorar as colheitas e a qualidade nutricional deste produto. Foi
identificado um gene que regula a acumulação de beta-carotenos, um
precursor da vitamina A, e agora sabe-se há quantos milhões de anos as
cenouras se separaram das uvas, do kiwi ou do tomate. O que continua por
esclarecer é a nossa preferência pela versão cor de laranja, já que as
primeiras cenouras eram amarelas ou roxas.
Primeiro, alguns
números: os 21 investigadores que representam uma dúzia de instituições
norte-americanas, e que assinam o artigo publicado esta semana na Nature Genetics, identificaram 32.113 genes no ADN da cenoura (Daucus carota),
sendo 10.530 genes únicos desta espécie. O que quer dizer que esta raiz
tuberosa tem mais dez mil genes do que os humanos – que, segundo os
cálculos mais recentes, têm cerca de 20 mil genes. Os genes são
instruções de fabrico de proteínas. Mas o que os cientistas têm vindo a
concluir é que não só uma questão de número de genes, a forma como o
resto do ADN os regula também é importante.
O comunicado da Nature nota
que, até à data, esta será uma das mais completas sequenciações de
genoma de uma planta hortícola e que o trabalho fornece informações
importantes sobre a origem da cenoura, a cor distintiva e o valor
nutricional.
Em declarações ao PÚBLICO, Philipp Simon, um dos
autores do artigo que integra o Departamento de Horticultura da
Universidade de Wisconsin-Madison (EUA) e da Unidade de Investigação de
Culturas Vegetais do Departamento de Agricultura dos EUA, esclarece que
um dos importantes resultados do trabalho foi a “descoberta de um gene
que condiciona a acumulação de pigmentos carotenóides nas raízes da
cenoura”, adiantando: “Este é um dos dois genes responsáveis pela
conversão de cenoura branca (tipo selvagem ancestral) em laranja.”
Os
investigadores acreditam que a descoberta deste gene responsável pela
elevada e invulgar acumulação de beta-caroteno na raiz da cenoura (o
DCAR-032551) pode ser útil para os produtores de cenouras que queiram
melhorar a qualidade do produto mas também para outras culturas.
“A
versão do gene que resulta na acumulação de pigmento ocorre apenas nas
cenouras amarelas e cor de laranja escuro, não em cenouras brancas que
têm uma versão diferente do mesmo gene. Ainda não sabemos se podemos
aplicar esse conhecimento noutras culturas além das cenouras.
Acreditamos que pode ser possível, mas só o saberemos quando nós ou
outros laboratórios o tentarmos”, acrescenta Philipp Simon.
Além da análise do ADN da Daucus carota, os cientistas
também compararam o material genético de 35 espécies e subespécies
desta raiz para perceber os padrões da sua domesticação. As cenouras
fazem parte da mesma classe de plantas da alface e do aipo, cujos
genomas ainda não foram publicados, lembram os autores do artigo. O
trabalho refere ainda que as primeiras cenouras domesticadas eram
amarelas (por causa da luteína) e roxas (por causa da antocianina)
surgiram há 1100 anos na Ásia Central. As tradicionais cenouras cor de laranja só seriam reportadas na Europa por volta do século XVI.
Mas,
no final da história, foi a versão laranja que conquistou os
consumidores. A pigmentação laranja resulta de uma elevada concentração
de alfa e de beta-caroteno que, como já se disse aqui, é o mesmo que
dizer que é uma poderosa fonte de vitamina A. “O
valor nutricional de cenouras alaranjadas é muito alto, pois eles são
uma rica fonte de vitamina A. As cenoura roxas e amarelas também contêm
nutrientes importantes, mas não são tão cruciais para a saúde humana
como os pigmentos laranja”, sublinha o investigador. Mas no século XVI não se sabia disso, avisa Philipp Simon: “É
seguro afirmar que em 1500 não havia conhecimento do valor nutricional
de quaisquer cenouras. A vitamina A ainda não tinha sido descoberta e os
sintomas de deficiência desta vitamina só foram descritos no início de
1900".
O dilema com ou sem casca
Então se não foi
por uma questão de valor, talvez tenha sido uma questão estética? “Como
outras mudanças nas culturas agrícolas ao longo do tempo, a mudança
aconteceu quando os primeiros produtores de cenouras seleccionaram essas
cores. Não há registos escritos que expliquem como é que a cenoura se
tornou popular na Ásia Central, há apenas alguns sobre as cores da
cenoura. Há também alguns relatos sobre cenouras europeias, mas não o
suficiente para entender o que motivou a mudança. Talvez uma simples
preferência do consumidor”, arrisca o investigador.
Uma coisa é
certa, assegura Philipp Simon, “o sabor e a produtividade agrícola não
são de todo influenciados pela cor, de modo que não são uma explicação
para a preferência para as cenouras alaranjadas”. Em resumo:
“Simplesmente, não sabemos porquê.”
Seja por que motivo for, a
versão cor de laranja ganhou nos mercados. A cenoura é considerada a
cultura mais importante da família das Apiaceae, onde se encontra ainda outros vegetais e ervas como a salsa, os coentros, a erva-doce ou o aipo. A
versão roxa ou amarela ainda existe mas não se encontra nos
supermercados, reservando-se para ocasiões especiais como, por exemplo,
a Feira do Pau Roxo que se realiza em Castro Verde.
Mostrando
que o resultado deste projecto não se resume à descoberta de um gene
importante, Philipp Simon adianta ainda que este projecto também garante
“uma melhor compreensão da evolução das plantas”. O investigador
lembra, por exemplo, que ainda não foram sequenciados os genomas do
aipo, do alface e do girassol que fazem parte do mesmo grupo da cenoura.
O trabalho dos investigadores também incluiu uma comparação deste
genoma com os de outras plantas conseguindo determinar quando é que as
cenouras se separaram do ponto de vista evolutivo das uvas, do kiwi e do
tomate. “A cenoura divergiu da uva há cerca de 113 milhões de anos, do
kiwi há 101 milhões de anos e da batata e do tomate há 90,5 milhões de
anos. Com a sequenciação do genoma da cenoura, a evolução deste grupo de
plantas fica mais clara”, conclui Philipp Simon.
Uma das imagens que serve para ilustrar o artigo científico publicado esta semana na Nature Genetics
é uma imagem do um campo de cenouras em Portugal. Porém, é pura
coincidência ou, mais uma vez, uma simples questão de estética. “As
cenouras portuguesas não foram utilizadas para este estudo. As imagens
foram incluídas para mostrar algumas cenouras selvagens e porque pensei
que a foto era atraente”, esclarece Philipp Simon.
A tradicional cenoura cor de laranja está por todo o lado. No
artigo, a equipa de investigadores começa por notar que, segundo as
estatísticas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e
Agricultura (FAO, na sigla em inglês), a produção mundial desta raiz
quadruplicou entre 1976 e 2013. Em Portugal, segundo os dados mais
recentes fornecidos pelo Instituto Nacional de Estatística ao PÚBLICO, a
área de cultivo da cenoura aumentou de 1848 hectares em 2013 para 2158
em 2015. Só a couve-repolho e a abóbora parecem ocupar mais espaço no
país no que toca a culturas hortícolas. Quanto à produção, de 77.159
toneladas em 2013 ultrapassámos as 104 mil toneladas em 2014 para nos
situarmos nas 97.494 em 2015. Nenhuma outra cultura “pesa” mais na lista
deste tipo de produtos, que inclui, entre outros, nabos, cebolas,
melão, melancia, couves e tomate.
Para uma pessoa,100 gramas de
cenoura é o suficiente para garantir a totalidade da dose diária
recomendada de vitamina A. E, ao contrário do que acontece com outros
vegetais, não se perde nada em cozer a cenoura. “Uma vez que os
carotenos da cenoura (pró-vitamina A) são lipossolúveis (solúveis em
gordura), não se perdem na água da cozedura. Por isso, não há grande
problema em cozinhá-la”, refere ao PÚBLICO o nutricionista Pedro
Carvalho. “Perde um pouco de vitamina C, mas a cenoura não é
particularmente rica nesta vitamina. Até pode ser interessante
cozinhá-la, uma vez que a ruptura das suas membranas celulares, por
acção do calor e destruição mecânica (puré ou sopa passada), consegue
tornar os carotenos mais biodisponíveis, ou seja, melhor absorvidos”,
acrescenta o docente no Instiuto Superior da Maia.
Pedro Carvalho
sugere ainda que a cenoura cozida seja acompanhada por alguma gordura
(como o azeite). Sobre o grande dilema de “com casca ou sem casca”, o
nutricionista tem uma resposta que pode desiludir. É que na verdade
parece que tanto faz. “Não existem dados que permitam confirmar se a
casca da cenoura terá um valor nutricional superior ao da polpa, mas até
pela sua similitude ao nível da cor e da textura presume-se que o seu
teor em vitamina A e fitoquímicos seja semelhante, por isso não parece
haver um desperdício adicional quando se rejeita a casca.”
E, para já, quanto a cenouras, depois de genes, produção, consumo e dicas nutricionais, estamos conversados. Bom apetite.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






