quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Aftas: tão pequenas e tão incómodas

msn saúde e bem-estar
Inspire Saúde

Surgem mesmo em bocas saudáveis, mas incomodam. E muito! Apesar da sua reduzida dimensão, as aftas são dolorosas e têm tendência para reaparecer. A boa notícia é que desaparecem por si só ao fim de alguns dias e que o seu desconforto pode ser aliviado.
 
Provavelmente, é uma das muitas pessoas que conhece bem o desconforto causado pelas aftas. Calcula-se que cerca de 20 cento da população mundial já tenha tido aftas, pequenas lesões (ulcerações aftosas) não contagiosas que surgem na mucosa que reveste a boca e a língua.
 
Qualquer que seja o tamanho, o seu efeito é sempre o mesmo: a sensação de queimadura e ardor que se instala no local onde irão aparecer. Depois desenvolvem-se pequenas lesões com uma aparência característica: têm um tom esbranquiçado ou amarelado – a cor varia de acordo com a fase em que se encontram –, assemelham-se a pequenas crateras e costumam apresentar um contorno avermelhado que denuncia a inflamação.
 
Conhecidas cientificamente como estomatite aftosa, as aftas podem surgir em diferentes tamanhos e de forma isolada, apenas uma localizada, ou em grupos de duas, três ou mais em simultâneo. É a sua quantidade e o seu tamanho que vão tornar esta situação mais ou menos dolorosa.
 
Nélio Veiga, médico dentista, explica-nos que “na maioria dos casos, as úlceras individuais duram cerca de sete a 10 dias, e os episódios de ulceração ocorrem de três a seis vezes por ano, sendo que, em alguns casos, mais ainda”. São mais frequentes na face interna das bochechas, lábios, língua e gengivas, mas também podem estender-se por toda a boca. E, por vezes – embora seja menos comum –, até à garganta.
 
Ter uma afta de vez em quando não é caso para alarme até porque dificilmente evoluem para situações graves, mas quando surgem são dolorosas e qualquer toque com a língua ou alimentos, nomeadamente ácidos, muito quentes, picantes ou salgados, pode provocar dores intensas. Quem esperaria tamanho sofrimento de algo com dimensões tão pequenas?!
 
De facto, como confirma o médico dentista, a dor é o principal sintoma. “Esse incómodo ao toque pode interferir no consumo de comidas e bebidas, no entanto, as formas graves podem ser debilitantes, causando inclusive perda de peso devido à má-nutrição (dificuldade em mastigar e ingerir os alimentos)”, revela. Para além disso, nos casos das aftas maiores (ulceradas), pode ocorrer ainda um processo inflamatório mais extenso, provocando febre e inchaço dos gânglios do pescoço.
 
Nem todas as aftas são iguais
Estas pequenas úlceras não são todas iguais. Dividem-se, essencialmente, em três tipos, de acordo com o seu tamanho e profundidade. O mais comum são as aftas menores (úlceras aftosas menores), responsáveis “por cerca de 80 a 85 por cento de todos os casos”, indica Nélio Veiga. Por norma, possuem menos de 10 milímetros de diâmetro e a sua cura geralmente demora sete a dez dias sem deixar cicatrizes.
 
Já as aftas maiores (úlceras aftosas maiores), têm mais do que um centímetro de diâmetro, são mais profundas e dolorosas do que as menores e representam “cerca de 10 por cento de todos os casos de estomatite aftosa. Uma vez que as lesões são maiores, a cicatrização é mais demorada – cerca de vinte a trinta dias – e pode deixar cicatrizes”, explica o médico dentista.
 
E, por fim, as herpetiformes, semelhantes às lesões provocadas pelo herpes simples mas que, apesar do nome, não têm relação com esta doença. São mais raras do que os outros tipos, podem ocorrer na boca e/ou nos lábios e costumam surgir em grupo.
 
O especialista alerta ainda para a existência de um outro tipo de aftas que nem sempre corresponde ao diagnóstico de estomatite aftosa. Por vezes, há aftas que surgem como efeito secundário à toma de determinados medicamentos ou que “podem estar associadas a doenças sistémicas e mais graves como o caso da doença de Behçet”.
 
De origem incerta
Qualquer pessoa pode ter aftas, mas as mulheres são alvo deste problema com mais frequência do que os homens. Podem ocorrer em qualquer idade, mas geralmente aparecem pela primeira vez entre os 10 e 40 anos. Em algumas famílias são mais frequentes – não se sabe ainda porquê –, mas não são contagiosas.
 
As causas que levam ao seu aparecimento também continuam um mistério para os médicos. Contudo, apesar de se desconhecer o que as provoca, acredita-se que sejam de origem multifatorial, podendo estar associadas à ingestão de certos alimentos (como chocolate, café, amendoins, morangos, queijo), à deficiência de vitamina B12, ácido fólico e ferro, e a alterações no ciclo menstrual. “Alguns estudos indicam que pode haver o surgimento e agravamento das aftas após ingestão de alimentos citrinos (como limão e ananás) e em situações de maior stress da pessoa, pois é frequente que a ulceração se agrave durante os períodos de maior stress (trabalho e exames, no caso dos estudantes, por exemplo) e diminua durante os períodos de férias”, salienta Nélio Veiga.
 
Mastigar alimentos muito duros, morder a língua, ou bochechas, ou o uso incorreto da escova de dentes também pode ser meio caminho andado para que algum tempo depois constate o aparecimento de aftas.
 
Alívio da dor…
O tratamento das aftas baseia-se essencialmente em aliviar a dor, acelerar o processo de cicatrização e reduzir a frequência do seu aparecimento, uma vez que as aftas desaparecem espontaneamente ao fim de poucos dias. “A maioria das pessoas com estomatite aftosa apresenta sintomas menores que não requerem nenhuma terapia específica. A dor geralmente é tolerável com uma simples modificação da dieta durante os episódios de ulceração, como evitar alimentos e bebidas picantes ou ácidos”, reconhece Nélio Veiga.
 
No entanto, para as aftas maiores ou abundantes, poderá ser necessário aplicar anestésicos locais – para alívio a dor –, anti-inflamatórios e corticosteroides, que, na maioria das vezes, são administrados por via local, através de spray, colutórios (líquidos para bochechar) ou gel. Minimizar a agressão na boca através da evicção de alimentos difíceis de mastigar, reduzir o stress e cuidar da higiene dentária com uma escova suave – são outros cuidados a seguir.
 
E se já está a pensar em como pode prevenir o aparecimento destas incómodas lesões, saiba que não existe um tratamento preventivo para o problema. Ainda assim, o médico dentista diz-nos que “a utilização regular de um antisséptico oral (colutórios) para manter as gengivas saudáveis e a realização de uma boa higiene oral diária podem ser benéficos para reduzir a recorrência das lesões aftosas”.
 
Na maioria dos casos as aftas não são motivo para uma consulta médica, contudo, o seu aparecimento frequente pode ser um sinal de algo não está a 100 por cento. Por essa razão, o especialista aconselha que, quando notar o aparecimento destas ulcerações, consulte o seu dentista para obter um diagnóstico mais exato. “Muitas vezes, se uma pessoa tiver o hábito de realizar consultas regulares no médico dentista, este pode ser um assunto a falar na consulta de modo a perceber o que deve fazer quando voltar a surgir uma afta”, sublinha.
 
As aftas podem impedi-lo de comer, causar grande desconforto e dor, mas se tiver os cuidados necessários, é apenas uma questão de paciência e de dar tempo ao tempo.
Fontes:
- Nélio Veiga, médico dentista

Manual para 'sobreviver' à temporada das gripes

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Notícias ao Minuto
No que toca à gripe, mais vale prevenir do que curar. O site El Confidencial reuniu algumas coisas que deve fazer se quer passar o outono e o inverno sem ficar doente.
 
1. Lave bem as mãos. Para evitar a contaminação por vírus e bactérias, uma das melhores medidas a adotar é lavar bem (com água e sabão) e com frequência as mãos.
 
2. Afaste-se das pessoas doentes. Se tem algum familiar ou colega de trabalho que começa a mostrar sinais de estar com gripe, afaste-se dele para tentar reduzir ao máximo o risco de contágio.
 
3. Evite as mudanças bruscas de temperatura. Ao deparar-se com uma mudança de temperatura muito repentina, o corpo tem de trabalhar para colmatar essa diferença fazendo com que as suas defesas caiam, deixando-o mais vulnerável perante um vírus da gripe, por exemplo.
 
4. Não fume. Os fumadores têm mais probabilidades de ficarem com gripe, além disso o tabaco agrava os sintomas. Mesmo que não fume, tente não se expor ao fumo.
 
5. Descanse. Um estudo californiano publicado na revista Sleep concluiu que as pessoas que dormem menos de cinco ou seis horas por noite têm quatro vezes mais probabilidades de apanhar gripe do que os que dormem sete ou mais horas. Por isso, tente dormir o suficiente todas as noites para se manter saudável.
 
6. Beba muita água. A água ajuda a diluir a mucosidade que muitas vezes começa por surgir bem antes dos restantes sintomas de gripe.

Por que é que se tem 'hálito a alho' e como combatê-lo

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Notícias ao Minuto
É comum usar alho para confecionar alimentos ou até mesmo para lhes dar um sabor mais intenso, mas é essa mesma intensidade do alho que provoca um hálito desagradável horas depois de ter sido consumido.
 
Mas, por que é que se tem ‘hálito a alho’? A culpa é de um dos quatro compostos voláteis no alho, o sulfeto de metil-alilo (que trabalha em conjunto com os restantes três: dialil dissulfeto, dissulfeto de metil-alilo e alilo mercaptana).
 
Contudo, o seu odor intenso e sabor persistente apenas acontece quando um dente de alho é partido, o que acontece quase sempre que é usado para confecionar alimentos, lê-se no site About.
 
Embora a cozedura do alho diminua a intensidade do seu sabor – e do seu efeito no hálito – a verdade é que é muito difícil (para não dizer quase impossível) não ficar com ‘hálito a alho’ depois de o consumir, uma vez que assim que o alho é cortado, o sulfeto de metil-alilo é absorvido pela região gastrointestinal e, depois, entra na corrente sanguínea, sendo apenas expelido por alguns órgãos, como os rins, pulmões e pele (daí a dificuldade em tirar o cheiro a alho das mãos depois de o cortar).
Embora não exista uma fórmula ‘cientificamente provada’ que sugira como eliminar o hálito a alho, a ingestão de leite ou de salsa crua pode ajudar a atenuar o cheiro que sai de dentro da boca. A maçã e o espinafre podem também ser boas alternativas.
 
Estes quatro alimentos possuem enzinas que ajudam a aniquilar os compostos voláteis presentes no alho, em especial o que dá origem ao cheiro e ao sabor intenso.

Uma boa dúzia de motivos para comer mais ovos

msn saúde e bem-estar
Notícias ao Minuto
 
Os ovos são a chave de uma alimentação saudável e equilibrada e um dos principais aliados nutricionais da saúde, sendo uma das fontes de proteína de alta qualidade.
 
O alimento fornece diversos benefícios para a saúde, embora sejam ainda muitas as pessoas que olham com ceticismo para o consumo variado dos ovos.
 
Além de atenuar os efeitos da perda de massa muscular, de fornecer nutrientes fundamenais para o funcionamento do organismo (como as vitaminas A, B2, B12, D e E e os minerais como fósforo, selênio, ferro, iodo e zinco) e de ser uma das melhores fontes de ácido oleico, são doze os principais motivos para se comer mais ovos, lê-se no site ABC.es.
 
Conheça uma boa dúzia de motivos para apostar no ovo:
1. Fortalece os músculos;
2. Ajuda a melhorar a função cerebral e a memória;
3. Ajuda o corpo a produzir a energia necessária;
4. Contribui para manter o bom funcionamento do sistema imunológico;
5. Reduz o risco de doenças coronárias;
6. Ajuda no desenvolvimento saudável do bebê durante a gravidez;
7. Melhora a saúde ocular;
8. Impulsiona a perda de peso;
9. Mantém a aparência saudável;
10. É um dos alimentos mais versáteis;
11. É também fácil e rápido de cozinhar;
12. São uma ótima escolha para qualquer orçamento.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Núcleo interno da Terra formou-se há 1.000 a 1.500 milhões de anos, diz a Nature

  • Tecnologia
  • lusa.sapo.ptLusa - 07/10/2015
  • O núcleo interno da Terra formou-se há 1.000 a 1.500 milhões de anos, defendem cientistas num estudo publicado na revista Nature.
     
    A camada mais profunda do "planeta azul" é uma esfera de ferro sólido, pouco maior do que o planeta-anão Plutão, que está rodeada por um núcleo externo líquido, cuja formação ocorreu há 500 milhões a 2.000 milhões de anos.
     
    Investigadores das universidades de Liverpool (Reino Unido), Helsínquia (Finlândia) e San Diego (Estados Unidos) analisaram dados magnéticos de antigas pedras incandescentes e descobriram que, há 1.000 a 1.500 milhões de anos, se produziu um assinalável aumento da força do campo magnético da Terra.
     
    O aumento do campo magnético é "uma possível indicação" do primeiro aparecimento de ferro sólido no interior da Terra e do momento em que o núcleo interno sólido começou a 'gelar' a partir do arrefecimento da camada mais externa de ferro fundido, segundo o estudo publicado na Nature.
     
    O coordenador do estudo, Andy Biggin, da Universidade de Liverpool, considerou, citado pela agência Efe, que a descoberta "poderá mudar a compreensão do interior da Terra e a sua história".
     
    Os resultados do estudo, adiantou, "sugerem que o núcleo da Terra está a arrefecer mais lentamente do que se pensava, circunstância que tem implicações para todas as ciências terrestres".
     
    Além disso, precisou Biggin, os dados "apontam para uma taxa média de crescimento do núcleo sólido de um milímetro por ano, o que afeta a compreensão do campo magnético terrestre".
     
    O campo magnético da Terra, que atua como um escudo contra a radiação do Sol, é gerado pelo movimento do ferro líquido presente no núcleo exterior, que se situa a três mil quilómetros de profundidade, sob a crosta terrestre. As oscilações acontecem porque o núcleo está a perder calor.
     
    Andy Biggin admite que "o núcleo está a perder calor mais lentamente do que em qualquer outro momento nos últimos 4.500 milhões de anos, e que esse fluxo de energia deverá manter o campo magnético da Terra durante outros mil milhões de anos, ou mais".
     
    O cientista assinalou que esta situação contrasta com a de Marte, "que teve um forte campo magnético no começo da sua história, mas que parece que se extinguiu após 500 milhões de anos".

    Prémio Nobel da Química para "caixa de ferramentas" celular de reparação do ADN

    Ana Gerschenfeld -                 

    Sem a “caixa de ferramentas” que as células possuem para corrigir os erros que vão surgindo no seu ADN, não haveria vida na Terra. Os laureados deste ano fizeram trabalhos pioneiros na área da reparação do genoma.
    O retrato dos três premiados
     
    Um modelo que mostra a estrutura do ADN na conferência de anúncio do Nobel da Química 2015
    O Prémio Nobel da Química 2015 foi atribuído em partes iguais ao sueco Tomas Lindahl, do Instituto Francis Crick (Reino Unido); ao norte-americano Paul Modrich, da Universidade Duke (EUA); e ao turco Aziz Sancar, da Universidade da Carolina do Norte (EUA), pelos seus "estudos mecanísticos da reparação do ADN", anunciou esta quarta-feira em Estocolmo a Real Academia das Ciências Sueca.
     
    Nos anos 1960, pouco mais de uma década depois da descoberta da estrutura do ADN, pensava-se que esta longa molécula, albergada no núcleo de cada uma das células do nosso corpo, era muito estável. Nas divisões celulares, por exemplo, copiava-se a si própria sem falhas. E embora a evolução das espécies exigisse que houvesse algumas mutações pelo caminho, considerava-se que o seu número era bastante limitado de uma geração para a seguinte.
     
    Hoje, sabe-se que a realidade é diametralmente oposta a esta visão das coisas: não só o nosso genoma está sempre a ser agredido e danificado pelos raios ultravioletas (UV) do Sol e por uma pletora de substâncias tóxicas presentes no ambiente, mas o ADN também é, ele próprio, intrinsecamente instável.
     
    Em particular, durante os vários milhões de divisões celulares que decorrem diariamente no nosso corpo, a cópia das “letras” do ADN é um processo sujeito a erros “ortográficos”. E para além disso, milhares de alterações espontâneas do genoma acontecem todos os dias nas nossas células.
     
    “O nosso material genético não se desintegra num total caos químico porque há uma bateria de sistemas moleculares que está constantemente a monitorizar e reparar o ADN”, lê-se num comunicado do comité do Nobel. “O Prémio Nobel da Química 2015 recompensa três cientistas cujos trabalhos pioneiros permitiram mapear em pormenor o funcionamento de alguns destes sistemas ao nível molecular”.
     
    As perguntas que surgiram na cabeça de Tomas Lindahl em finais dos anos 1960 são um bom ponto de partida para relatar estes três percursos científicos paralelos. Durante o pós-doutoramento na Universidade de Princeton (EUA), Lindahl observara que as moléculas de ARN (semelhantes ao ADN) se degradavam facilmente ao serem aquecidas, explica noutro documento o comité do Nobel. Mas então, que dizer do ADN? Seria possível perdurar toda uma vida sem se deteriorar?
     
    Uns anos mais tarde, já a trabalhar no Instituto Karolinska em Estocolmo, Lindahl mostrou que o ADN também se degradava com o tempo, embora mais lentamente que o ARN. A partir daí, tornou-se claro para ele que a nossa própria existência era a prova provada de que as células possuíam mecanismos para preservar o genoma do tal “caos químico” incompatível com a vida.
     
    Utilizando bactérias, Lindahl identificou uma enzima (uma proteína) que removia as moléculas de citosina – uma das quatro bases (ou “letras”) que se encadeiam no ADN – quando elas estavam danificadas. Em 1974, publicou a descoberta deste mecanismo, dito de “reparação por excisão de bases”.
     
    Ao longo de 35 anos, Lindahl descobriu e estudou muitas das proteínas dessa “caixa de ferramentas” celular de reparação do ADN, lê-se ainda no mesmo documento. “Peça a peça, Lindahl construiu uma imagem molecular do funcionamento da reparação por excisão de bases." E em 1996, conseguiu reproduzir, in vitro, o processo correspondente nas células humanas.
     
    Técnico de laboratório
    Entretanto, no início dos anos 1970 na Turquia, Aziz Sancar, um jovem médico, decidiu estudar bioquímica para perceber por que é que as bactérias expostas a doses letais de raios UV recuperavam a saúde, como por magia, quando eram a seguir expostas a luz azul.
     
    Sancar obteve o seu primeiro resultado – a clonagem do gene que comanda o fabrico da fotoliase, a enzima sensível à luz que repara os estragos causados pelos UV – durante o doutoramento numa universidade norte-americana. O trabalho valeu-lhe uma tese, mas quando quis continuar a fazer investigação, defrontou-se com recusas de várias universidades.
     
    Sancar arranjou finalmente emprego como técnico de laboratório na Universidade de Yale – onde havia cientistas a estudar um outro mecanismo celular de reparação (não sensível à luz) dos danos no ADN causado pelos UV.
     
    Participando nessas pesquisas, conseguiu então mostrar, em experiências in vitro, que existia um trio de enzimas capaz de identificar esses estragos feitos pelos UV e de “cortar” a cadeia de ADN que continha o defeito em causa. Tinha assim descoberto um outro mecanismo celular de preservação do ADN, o da “reparação por excisão de nucleótidos” (os nucleótidos são formados pelas bases do ADN acopladas a outras moléculas).
     
    Quando Sancar publicou os seus resultados, em 1983, foi logo convidado a ensinar na Universidade da Carolina do Norte. Continuou a estudar as diversas etapas daquele processo celular e também mostrou que ele existe nas células humanas.
     
    O terceiro laureado, Paul Modrich, descobriu ainda outro mecanismo de reparação do ADN, que intervém para corrigir os erros de cópia do ADN durante a divisão celular.
     
    De cada vez que uma célula se divide em duas células-filhas, tem de criar duas cópias, em princípio idênticas, do seu ADN. Nesse processo, as bases (as “letras” A, T, C e G) das duas novas moléculas em formação não se emparelham ao acaso: um A liga-se sempre a um T e um C a um G. Ou quase sempre: um dos defeitos que podem surgir durante a cópia são precisamente os emparelhamentos incorrectos.
     
    Foi esse mecanismo de “reparação dos desemparelhamentos de bases” que Paul Modrich desvendou, criando para isso, no laboratório, um vírus cujo ADN continha uma série de desemparelhamentos. Também ele descreveu e estudou as enzimas envolvidas no processo, recriando-o in vitro – um trabalho que foi publicado em 1989.
     
    Mas ao contrário dos outros dois mecanismos, ainda não foi esclarecido o funcionamento deste tipo de reparação do ADN no ser humano.
     
    O que acontece quando estes mecanismos não funcionam? O risco de cancro aumenta. Por exemplo, os defeitos congénitos da reparação por excisão de nucleótidos provocam uma doença, a xeroderma pigmentosa, cujas vítimas desenvolvem cancros da pele quando se expõem à luz solar, salienta ainda o já referido documento. E os defeitos da reparação do desemparelhamento de bases fazem aumentar o risco de cancro do cólon hereditário.
     
    “O trabalho dos laureados permitiu perceber a um nível fundamental o funcionamento das células”, conclui o comité do Nobel, “e esse conhecimento poderá ser utilizado para desenvolver novos tratamentos contra o cancro.”

    terça-feira, 6 de outubro de 2015

    Nobel da Medicina recompensa três investigadores por trabalhos sobre parasitas



    Os dois medicamentos descobertos pelos laureados – um vindo do solo japonês e o outro da medicina tradicional chinesa – “revolucionaram o tratamento de algumas das mais devastadoras doenças parasitárias”, segundo o comité do Nobel.
    Urban Lendahl, secretário do comité do Nobel, a anunciar o prémio
     
    Fotografias dos laureados: William Campbell, Satoshi Omura e Tu Youyou
    O prémio Nobel da Medicina de 2015 foi atribuído esta segunda-feira aos investigadores William Campbell e Satoshi Omura "pelas suas descobertas acerca de um tratamento inédito contra as infecções causadas por parasitas nemátodos"; e à cientista Tu Youyou, "pelas suas descobertas acerca de um tratamento inédito contra a malária", anunciou o comité do Nobel no Instituto Karolinska, em Estocolmo (Suécia).
     
    William Campbell nasceu na Irlanda em 1930 e é investigador emérito na Universidade Drew (EUA); Satoshi Omura (nascido em 1933 no Japão), é cidadão japonês e professor emérito na Universidade de Kitasato (Japão). Ambos partilham metade do prémio. A outra metade recompensa a chinesa Tu Youyou (nascida em 1930), da Academia de Medicina Chinesa Tradicional da China. O montante total do prémio é de oito milhões de coroas suecas (mais de 856.000 euros).
     
    Eis alguns números que mostram até que ponto as doenças parasitárias constituem um gravíssimo problema de saúde pública. Por exemplo, estima-se que os chamados parasitas – ou vermes – nemátodos afectam um terço da população mundial, sobretudo na África Subsariana, no Sul da Ásia e nas Américas Central e do Sul. Uma dessas doenças, particularmente incapacitante, é a oncocercose, também chamada “cegueira dos rios”, que provoca uma inflamação crónica da córnea e conduz a perda total da visão. Outra é a filaríase linfática, mais conhecida como elefantíase, que atinge mais de 100 milhões de pessoas e causa inchaços monstruosos e crónicos em diversas partes do corpo.
     
    Também a malária é uma doença parasitária, desta vez causada por parasitas unicelulares que são transmitidos aos seres humanos por mosquitos infectados. Os parasitas invadem os glóbulos vermelhos do sangue, causando febre e, nos casos mais graves, lesões cerebrais e morte. Mais de 3400 milhões de pessoas no mundo estão em risco de contrair a doença, que vitima 450.000 pessoas por ano, sobretudo crianças.
     
    Campbell e Omura descobriram uma nova substância, a avermectina – um derivado da qual, a ivermectina, permitiu reduzir drasticamente a incidência da cegueira dos rios e da elefantíase. “O tratamento tem tido tanto êxito que estas doenças estão à beira da erradicação, o que seria um feito maior da humanidade”, diz o comité do Nobel em comunicado.
     
    Pelo seu lado, Tu Youyou descobriu um outro medicamento, a artemisinina, que tem reduzido de forma substancial as taxas de mortalidade devidas à malária: mais de 20% na população geral e mais de 30% nas crianças, salienta o comunicado.
     
    “Estas duas descobertas deram à humanidade poderosas novas ferramentas para combater estas doenças incapacitantes, que afectam centenas de milhões de pessoas no mundo todos os anos”, lê-se no mesmo documento.
     
    A história das duas descobertas envolve bactérias que vivem enterradas no solo e plantas cujas propriedades terapêuticas estavam também elas “enterradas” em misteriosos e antigos compêndios de medicina tradicional chinesa. E põe assim em evidência o potencial dos compostos presentes na natureza para combater as doenças humanas.
     
    As pesquisas que conduziram ao desenvolvimento da ivermectina partiram de Satoshi Omura, microbiólogo de formação, cuja especialidade era isolar bactérias a partir de amostras de solo. Omura desenvolveu métodos totalmente inéditos para cultivar e estudar bactérias do género Streptomyces, que se sabia produzirem diversas substâncias com qualidades antibacterianas. E isolou uma série de novas estirpes, seleccionando 50 das mais promissoras em termos terapêuticos.
     
    Reza a lenda que Omura, grande adepto de golfe, terá descoberto essas novas estirpes no seu clube de golfe. Numa curta conversa telefónica esta-segunda feira com Adam Smith, da Fundação Nobel – e depois de ter “humildemente” (mas com alegria) aceitado o galardão e quase ter dito que não o merecia – Omura explicou, entre risos, que não foi no relvado do campo de golfe que descobriu aquelas bactérias, mas numa área de floresta que ladeava o terreno.
     
    Seja como for, Campbell adquiriu as culturas bacterianas de Omura e decidiu estudar mais a fundo a sua eficácia. Foi assim que mostrou que uma dessas culturas continha um componente “cuja eficácia contra parasitas dos animais domésticos e de criação era notável”, explica ainda o comunicado Nobel. A seguir, esse composto – a avermectina, que foi entretanto modificada e rebaptizada invermectina – foi testado em seres humanos, mostrando-se capaz de matar as larvas de uma série de parasitas nemátodos.
     
    Basta uma dose anual de ivermectina oral para proteger as pessoas da cegueira dos rios. E desde 1987 que o medicamento, comercializado pelos laboratórios Merck, é distribuído gratuitamente pelo fabricante no mundo inteiro.
     
    Compêndios antigos
    Entretanto, nos anos 1960, a malária costumava ser tratada com quinino, mas o sucesso desse medicamento estava em queda. Foi perante esta situação, relata o comunicado, que Tu Youyou decidiu virar-se para as plantas medicinais utilizadas na medicina tradicional chinesa. Fez um levantamento das ervas medicinais utilizadas para tratar animais infectados pelo parasita da malária e descobriu um composto que parecia interessante: um extracto de Artemisia annua, uma planta autóctone das regiões temperadas da Ásia.
     
    Só que a eficácia desse extracto não era clara. Isso levou a cientista a consultar antigos tratados de literatura médica chinesa. E foi aí que descobriu diversas pistas que lhe permitiram extrair o componente activo daquela planta medicinal, que mais tarde seria baptizado artemisinina. O composto deve a sua alta eficácia contra o parasita da malária, tanto nos animais infectados como nos seres humanos, por matar os parasitas numa fase precoce do seu desenvolvimento, salienta o comunicado. Em combinação com outras terapias anti-malária, é hoje utilizado no mundo inteiro.
     
    “O impacto global [destas] descobertas e o benefício resultante para a humanidade são incomensuráveis”, conclui o comité do Nobel.