quinta-feira, 17 de julho de 2014

Espinhas de bacalhau estão a ser usadas para criar um protector solar

Texto de Marta Lourenço publicado pelo jornal Público em 15/07/2014.

As espinhas do peixe que os portugueses tanto gostam podem ser muito mais do que os restos que ficam no prato. No Porto, uma equipa de cientistas procura dar-lhes uma roupagem completamente nova.
 

 
O pó de hidroxiapatite, que é um fosfato de cálcio, o principal composto dos ossos

Das espinhas do bacalhau obtém-se hidroxiapatite

 


O creme protector solar com diferentes percentagens de pó de hidroxiapatite
 
Nos dias de grande calor, não nos contentamos com uma bebida fresca ou um belo gelado. De chinelo no pé, quer vamos até à praia ou à piscina, todos gostamos de estender a toalha e apanhar banhos de sol e o protector solar não pode ficar em casa. E se lhe disserem agora que as espinhas de bacalhau o podem proteger dos raios ultravioletas? Ora é isso que está a fazer uma equipa de investigadores da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica do Porto.
 
Por ano, produzem-se milhares de toneladas de espinhas, que costumam ser aproveitadas no fabrico de rações e farinha de peixe. A ideia de valorizar ainda mais as espinhas de bacalhau remonta a 2010, quando a equipa coordenada por Manuela Pintado, da Escola Superior de Biotecnologia do Porto, começou a tentar obter um composto de cálcio a partir de espinhas de bacalhau. Esse composto é a hidroxiapatite e poderia servir, por exemplo, para fabricar próteses ósseas e dentárias.
 
Agora, utilizando esse mesmo composto, surgiu uma possível nova aplicação: obter um produto que tivesse a capacidade de proteger dos raios ultravioleta (UV).
 
Antes de mais, uma breve explicação sobre a radiação ultravioleta. Está dividida em três regiões, consoante o seu comprimento de onda: os raios UVC (200-290 nanómetros), os UVB (290-320 nanómetros) e os UVA (320-400 nanómetros). Enquanto a radiação UVC é essencialmente bloqueada pela camada de ozono, na atmosfera superior, isso não acontece com os raios UVB e UVA. Por isso, estes dois tipos de raios ultravioletas podem ser perigosos para a saúde humana, causando grandes danos na pele, como eritemas e queimaduras solares, e cancros de pele a longo prazo.
 
Os protectores solares são uma das maneiras mais fáceis e eficazes de evitar os problemas na saúde provocados pelas radiações UVA e UVB. Idealmente, devem proteger a pele tanto dos UVA como UVB. E os UVC, tendo em conta que a camada de ozono não tem estado na sua melhor forma? “Este não é um parâmetro muito importante, porque estes raios são bloqueados pela camada de ozono na alta atmosfera. Quase não chegam aqui à superfície da Terra, por isso não é preciso os protectores solares terem efeito com raios UVC”, responde ao PÚBLICO Clara Piccirillo, cientista de materiais na Escola Superior de Biotecnologia do Porto e que está a trabalhar no desenvolvimento destes novos protectores solares.
 
O que foi feito então para que as espinhas de bacalhau tivessem capacidade de absorção da radiação ultravioleta? “Basicamente, modificámos a composição das espinhas, que foram deixadas numa solução de ferro. Com esse tratamento, o ferro entrou na estrutura das espinhas”, explica Clara Piccirillo. E é o ferro que lhes confere as propriedades de absorção dos raios ultravioletas.
 
“Depois, as espinhas foram aquecidas a temperaturas elevadas: a 700 graus Celsius. Desta maneira, foram eliminadas todas as partes orgânicas presentes nas espinhas e o que ficou foi a parte mineral”, continua Clara Piccirillo.
 
Restou então o principal material constituinte das espinhas em forma de pó: a hidroxiapatite, que é um fosfato de cálcio. Este pó castanho-avermelhado é, aliás, o principal componente dos ossos humanos e dos animais.
 
“A hidroxiapatite sozinha não é um produto que pode ser usado como filtro solar, porque não absorve a luz ultravioleta. Mas, introduzindo o ferro, há uma modificação na estrutura. Portanto, o material torna-se um protector solar”, explica a investigadora italiana, há cinco anos em Portugal. “Esse pó é o material-base e pode ser usado de muitas maneiras.”
 
Uma das maneiras é precisamente desenvolver um creme que funcione como protector solar. Numa primeira fase, este pó de hidroxiapatite foi testado sozinho, em laboratório, e os resultados foram positivos, segundo a investigadora. Posteriormente, o pó foi incorporado num creme e também submetido a testes em laboratório. Consoante a percentagem de pó introduzida, o creme adquiriu um tom mais ou menos castanho-avermelhado.
 
Mais tarde, o creme com 15% de pó foi testado em 20 pessoas sem problemas de saúde e de pele. Esses resultados foram publicados pela equipa na revista Journal of Materials Chemistry B, no início de Julho. “Este material mostrou boa absorção a toda a gama de UV”, diz o artigo científico, acrescentando-se que “cremes criados com este material podem ser usados como um protector solar de largo espectro”. “O creme também é fotoestável e não causa irritação ou eritemas em contacto com a pele humana”, lê-se ainda.
 
“Estes resultados mostram como o subproduto de um alimento como as espinhas de peixe pode ser convertido em produto valioso, com potencial para tratamentos na área da saúde e na cosmética. Esta é a primeira vez que um protector solar à base de hidroxiapatite é desenvolvido e a prova do seu conceito é validada”, conclui o artigo.
 
Clara Piccirillo conta que o creme foi testado em voluntários para averiguar se produzia reacções negativas na pele. “O que fizemos foi colocar um pouco de creme em contacto com a pele durante 48 horas e verificar, ao fim deste período, a presença de irritações. Isto foi feito com creme ‘normal’, ou seja, sem pó, e com creme com pó. Em nenhum voluntário houve reacções negativas. Deste ponto de vista, é um produto que tem potencial e pode ser usado sem causar problemas na saúde”, sublinha a investigadora.
 
“É a primeira vez que estamos a tentar desenvolver protectores solares com um material diferente que não seja bióxido de titânio ou óxido de zinco”, diz ainda Clara Piccirillo, referindo-se aos produtos já existentes no mercado. “Claramente, a vantagem deste material [hidroxiapatite] é ser menos tóxico. Já temos todos os seus componentes no nosso organismo, que são fosfato de cálcio e ferro.”
 
Na opinião da cientista, este produto natural pode vir a atrair um grande número de interessados. Apesar de os protectores solares no mercado terem qualidade, o novo produto é apresentado como vantajoso por não ter bióxido de titânio e óxido de zinco, que, em quantidades muito elevadas, podem ser tóxicos.
 
Um protector solar que bloqueie tanto os raios UVA como UVB pode ser classificado como sendo de espectro amplo, como é o caso do protector à base de espinhas de bacalhau: “Pode ser classificado como protector 5 estrelas, o que corresponde à protecção máxima numa das escalas internacionais. Esta é uma das características mais importantes para um protector solar”, explica a cientista.
 
No início, as próteses
Para já, o novo protector está patenteado a nível nacional. A equipa espera agora continuar os seus trabalhos, procurando melhorar tanto as propriedades da hidroxiapatite como a formulação do próprio creme.
 
Ainda com a função de protector solar, o pó de hidroxiapatite irá ser testado noutros produtos. “Por exemplo, no futuro queremos incluir este pó num tecido e esse tecido pode ser usado para protecção solar”, avança Clara Piccirillo.
 
Por enquanto, a comercialização deste protector ainda não é uma preocupação para os cientistas. “Ainda é demasiado cedo para isso.”
 
Mas o pó de hidroxiapatite já estava a ser investigado para aplicações médicas: em próteses ósseas e dentárias, cujos resultados foram divulgados em 2012. Já nessa altura, tal como agora, as investigações tiveram a parceria da empresa Pascoal & Filhos, que pesca e transforma principalmente bacalhau, para poder aproveitar-se como matéria-prima um subproduto abundante em Portugal. Precisamente porque os portugueses são grandes consumidores de bacalhau, os cientistas estão a usar as espinhas deste peixe e não de outros.
 
Deste 2012, os investigadores prosseguiram os estudos em laboratório sobre as próteses e agora a equipa está em contacto com empresas para que sejam fabricadas. “Estamos em conversação com empresas de próteses para avaliar o potencial da nossa hidroxiapatite em aplicações. Isso terá sempre de ser feito com a indústria das próteses ósseas”, conta Manuela Pintado.
 
“Durante este período, também estivemos a fazer vários estudos com o objectivo de validar as propriedades de biocompatibilidade em vários tecidos [humanos], de maneira a prever se são seguros e ver se a hidroxiapatite é compatível com as nossas células e se realmente evidencia a capacidade regenerativa”, explica ainda Manuela Pintado.
 
Feitos em culturas de células, esses estudos mostraram que a hidroxiapatite pode ser aplicável a próteses ósseas e dentárias e, além disso, é segura.
 
Agora, já sabe que as espinhas do bacalhau que come podem ser mais do que um desperdício e estar mesmo na base de inovações científicas. Da próxima vez que for à praia, pode lembrar-se que há cientistas que procuram desenvolver protectores solares à base de espinhas.
Texto editado por Teresa Firmino

Os bebés treinam mentalmente a fala meses antes de começarem a falar

Texto de Ana Gerschenfeld pubicado pelo jornal Público em 16/07/2014.

Ao longo do primeiro ano de vida, o cérebro humano prepara-se para conseguir coordenar os movimentos que irão permitir ao bebé articular os sons da sua língua, concluem cientistas.
 

Um bebé de um ano sentado no aparelho de medição da actividade cerebral
Sabe-se que, até mais ou menos aos oito meses de idade, os bebés prestam igualmente atenção aos sons de todas as línguas que ouvem. Mas, por volta dos 12 meses, passam a reconhecer claramente a sua língua materna – ou seja, aquela que é, normalmente, a mais falada à sua volta – em detrimento de qualquer outra. Ainda não se sabe bem como é que esta transição da percepção da fala se opera, mas agora uma equipa de cientistas nos Estados Unidos descobriu o que consideram ser uma base biológica dessa radical transformação.
 
Segundo eles, mesmo quando os bebés ainda são incapazes de articular qualquer palavra, o seu cérebro já está a tentar imitar, mentalmente, os sons que eles ouvem. E assim fazendo, está a construir, em silêncio, as bases neuronais motoras que irão possibilitar a locução pelo bebé, a partir do segundo ano de vida, das palavras da sua língua mãe. Os resultados foram publicados na edição desta semana da revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
 
O que Patricia Kuhl, da Universidade de Washington (em Seattle), e colegas essencialmente mostraram é que as palavras que os bebés com sete meses de idade ouvem à sua volta estimulam as áreas motoras do cérebro que estão encarregadas de coordenar e planificar os movimentos que irão permitir, uns meses depois, a articulação efectiva da fala.
 
Os cientistas analisaram a actividade cerebral de 57 bebés, respectivamente com sete meses e 11 a 12 meses de idade. Para isso, sentaram-nos debaixo de um aparelho parecido “com um secador de cabelo à moda antiga” – mas que é de facto um capacete high-tech que mede a actividade cerebral através de uma técnica não invasiva dita de magnetoencefalografia, totalmente inócua para os bebés, lê-se no mesmo documento. Os bebés ouviam sílabas derivadas do inglês ou do espanhol, como “da” e “ta”, enquanto os cientistas registavam a resposta do cérebro dos bebés a esses sons.
 
Mais precisamente, a equipa registou uma activação neuronal numa área auditiva do córtex chamada "giro temporal superior" bem como em duas outras áreas – a área de Broca e o cerebelo – que se sabe serem responsáveis pela planificação dos movimentos necessários para articular as palavras. E constataram que, aos sete meses, todas essas áreas se activavam com igual intensidade fosse qual fosse a língua que os bebés ouviam.
 
“A maioria dos bebés de sete meses consegue palrar, mas apenas irá pronunciar as primeiras palavras a seguir ao primeiro aniversário”, diz Kuhl, citada em comunicado da sua universidade. “O facto de termos detectado uma activação cerebral em áreas cerebrais motoras numa altura em que os bebés estão simplesmente a ouvir os outros a falar é significativo, porque quer dizer que o cérebro do bebé tenta, logo de início, responder verbalmente. E também sugere que o cérebro dos bebés de sete meses já está a tentar descobrir os movimentos certos para produzir palavras.”
 
Já nos bebés com 11-12 meses, esse padrão de activação alterava-se: as áreas auditivas passavam a responder mais fortemente à língua materna do que à língua estrangeira, enquanto as áreas motoras passavam a responder mais fortemente à língua estrangeira do que à língua materna. Para os cientistas, isso não só confirma que, nesta fase do seu desenvolvimento, os bebés já adquiriram uma experiência auditiva suficiente para distinguirem a língua materna das outras, como também sugere que já é preciso um maior esforço por parte das suas áreas cerebrais motoras para descobrirem como articular os sons da língua estrangeira do que para articular as palavras da sua própria língua. A transição da percepção da fala apanhada ao vivo e em directo, por assim dizer.
 
“A experiência da língua [ouvida durante os primeiros meses de vida] serviria assim para reforçar o conhecimento da língua nativa, tanto perceptual como motor. Ao fim do primeiro ano, (…) tornar-se-ia portanto mais difícil e menos eficiente gerar modelos [motores] internos para uma língua estrangeira”, escrevem os cientistas.
 
Os resultados têm várias implicações sociais, segundo os autores. Por um lado, mostram que é preciso falar “a sério” com os bebés, mesmo sabendo que não percebem o que estamos a dizer-lhes, porque esse é precisamente o “catalisador” da sua aprendizagem da língua, a chave que lhes vai permitir gerar os tais “modelos cerebrais internos” para mais tarde conseguirem falar essa língua.
 
Por outro, sugerem que a forma como os pais costumam falar com os seus filhos recém-nascidos, articulando muito bem e esticando as vogais de forma exagerada (“oooohhh, meu liiiindoooo bebéééééé”) – e que nada tem a ver com dizer palavras que não fazem sentido – poderá ajudar os bebés na construção desses modelos motores cerebrais logo nos primeiros meses de vida. “Essa forma de falar dos pais é muito exagerada e é possível que, quando os bebés a ouvem, o seu cérebro consiga modelar mais facilmente os movimentos necessários à fala”, diz Kuhl.

Vírus da sida ressurgiu no organismo do “bebé do Mississippi”

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 16/07/2014.

Um bebé norte-americano que nascera já infectado pelo VIH, que fora tratado com altas doses de antirretrovirais logo à nascença – e que desde então era considerado “curado” – tornou a apresentar sinais de infecção activa pelo vírus da sida.
Um dos bebés tratados com antirretrovirais voltou a apresentar sinais do VIH
Os médicos que trataram uma menina contra o VIH apenas horas após ter nascido anunciaram há dias que, ao contrário do que acreditavam até agora, a menina já não se encontra em remissão.
 
A menina, que não recebia tratamento há cerca de dois anos, aparentava ainda recentemente ter ficado livre da infecção.
 
O resultado é “obviamente uma desilusão”, declarou aos jornalistas Anthony Fauci, director do Instituto Nacional das Alergias e das Doenças Infecciosas norte-americano, citado pela BBCNews.
 
Os médicos, liderados por Deborah Persaud, da Universidade Johns Hopkins (EUA), tinham tratado o bebé, que nascera no Mississippi já infectado pelo vírus, com altas doses de um cocktail de medicamentos antirretrovirais, habitualmente utilizado nos adultos infectados. Mas a dada altura, tinham perdido contacto com a mãe do bebé – e o tratamento fora interrompido. Quando o contacto foi retomado, os médicos constataram que os testes habituais não revelavam qualquer presença do VIH no organismo da criança, o que suscitou esperanças de que o tratamento antirretroviral fosse particularmente eficaz quando administrado muito precocemente aos bebés.
 
Aliás, um estudo financiado com dinheiros públicos estava previsto nos EUA para testar este método de tratamento e determinar se ele poderia ser aplicado a todos os recém-nascidos infectados pelo VIH. Mas agora, acrescentou Fauci, “vamos ter de olhar muito bem para esse estudo para ver se é preciso alterá-lo”.
 
Este desfecho vai ao encontro de outros resultados recentes, que também apontam para o facto de os reservatórios de VIH – os locais do organismo onde o vírus se esconde e fica em estado latente – serem muito maiores e portanto mais difíceis de erradicar do que se pensava.
 
Entretanto, um segundo bebé igualmente tratado, mas desta vez na Califórnia, ainda permanece livre do vírus. Porém, esta criança continua a tomar antirretrovirais, ao contrário da primeira – não sendo agora nada provável que os médicos arrisquem interromper o tratamento.
 
Até aqui, apenas um doente no mundo parece ter conseguido expulsar totalmente o vírus VIH – e isso após um transplante de medula óssea. Mas o caso deste homem, conhecido como o “doente de Berlim”, é diferente do dos bebés na medida em que o transplante que recebeu provinha de um dador que apresentava uma mutação, num gene chamado CCR5, que torna as células sanguíneas imunes ao vírus da sida.

O que o nosso cérebro faz quando queremos virar para um lado ou para o outro

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 08/07/2014.

Quando viramos o corpo para a esquerda ou a direita, é o nosso hemisfério cerebral do lado oposto que controla a operação. Uma equipa portuguesa descobriu que esse controlo é mais complexo do que se pensava.
 

O cérebro humano consegue orquestrar os mais espectaculares movimentos corporais
A coordenação dos movimentos voluntários do corpo é uma complexa “sinfonia” orquestrada pelo nosso cérebro. E os seres humanos, sem sequer darem por isso, são excelentes “músicos” do movimento. Provam-no de cada vez que se levantam e andam.
 
Nos casos extremos – um dançarino a executar uma coreografia quase impossível ou um doente neurológico que mal consegue por um pé à frente do outro –, a potência dessa orquestração e os estragos causados pelas suas patologias tornam-se ainda mais aparentes.
 
Mas como é que o cérebro faz para controlar séries complexas de movimentos corporais? E sem ir tão longe, como faz para, simplesmente, nos permitir virar o corpo para a esquerda ou a direita? Novos resultados, publicados esta terça-feira por uma equipa da Fundação Champalimaud de Lisboa na revista Nature Communications, põem em causa uma das teorias mais geralmente aceites do funcionamento dos circuitos neuronais envolvidos.
 
Antes de mais, e de forma muito resumida: quando queremos virar para a esquerda, por exemplo, é a metade (hemisfério) direita do nosso cérebro que está aos comandos – e vice-versa. Neurónios do nosso córtex motor direito dão a ordem, que passa por uma espécie de “placa giratória” neuronal, chamada “corpo estriado” (um em cada hemisfério), que por sua vez transmite os sinais cerebrais ao lado esquerdo do corpo, fazendo-o mexer.
 
Na realidade, o corpo estriado transmite os estímulos motores às fibras musculares através de dois circuitos diferentes – um deles designado “via directa”, o outro “via indirecta”. Ora, até aqui, pensava-se que, para virarmos por exemplo para a esquerda, a via directa do corpo estriado do hemisfério direito devia activar-se, enquanto a sua via indirecta permanecia inactiva – e que, para pôr fim ao movimento, a via indirecta devia activar-se, enquanto a directa ficava inactiva.
 
Agora, uma equipa de neurocientistas liderada por Rui Costa “dissecou” estes processos no ratinho graças a uma técnica dita de “optogenética”, que permite não só observar, mas também controlar a actividade de cada um desses circuitos cerebrais. Por um lado, graças a uma manipulação genética dos neurónios que se pretende estudar, consegue-se que eles emitam luz quando são iluminados com luz; por outro, uma outra manipulação genética permite, também com impulsos de luz, “ligar” ou “desligar” à vontade um dado circuito.
 
A técnica é tão precisa que os autores estimam ter manipulado “uns 4601 a 5813 neurónios de cada corpo estriado [esquerdo e direito]”, lê-se no seu artigo.
 
Os autores observaram assim ratinhos colocados em ambientes onde tinham a possibilidade de se deslocarem livremente. E, graças a software especializado, registaram em tempo real os movimentos dos animais e a actividade neuronal dos circuitos em causa. Também analisaram os movimentos da cabeça.
 
E o que concluíram foi que os circuitos de cada corpo estriado (direito e esquerdo) funcionam de forma concertada – e que ambos têm de estar activos ao mesmo tempo para que o hemisfério cerebral produza movimento do lado oposto do corpo (neste caso, para virar o corpo e bifurcar).
 
Em particular, os cientistas mostraram que se a via directa de um lado do cérebro estiver activa mas não a indirecta – ou se as duas forem inactivadas –, os animais deixam de conseguir virar-se para o lado oposto.
 
“Conseguimos perceber que, inibindo a actividade de um ou de outro circuito [de um lado do cérebro], de forma independente, os animais deixavam de controlar os movimentos espontâneos contralaterais [movimentos do lado oposto do corpo]”, diz Rui Costa em comunicado da Fundação Champalimaud. “Por outro lado, a activação simultânea dos dois circuitos resultava na produção deste tipo de movimentos.”
 
Porém, dizem os autores, o facto de ambos os circuitos de um mesmo hemisfério cerebral estarem activados não chega: tem de existir um equilíbrio entre os seus níveis de actividade para produzir movimentos contralaterais.
 
“Os nossos resultados sugerem que, embora a actividade simultânea em ambas as vias esteja normalmente envolvida nos movimentos contralaterais, uma actividade desequilibrada [dessas vias] pode produzir efeitos motores opostos, o que poderia ser relevante para certas patologias”, escrevem ainda.
 
Patologias tais como lesões vasculares cerebrais ou ainda as doenças de Parkinson ou de Huntington, onde a coordenação motora é afectada.
 
"Uma pessoa que teve um AVC no hemisfério direito [do cérebro] não consegue mexer o braço esquerdo e vice-versa", disse Rui Costa à agência Lusa.
 
“Há muito que o controlo dos movimentos contralaterais espontâneos é alvo de estudos em doentes neurológicos, mas ainda há muito por desvendar quanto aos circuitos neuronais na base destes movimentos”, salienta, por seu lado, Fatuel Tecuapetla, autor principal do estudo.

O ADN humano pode ter apenas 19 mil genes e talvez só mais dez do que o do ratinho

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 10/07/2014.
Pensava-se que o nosso ADN continha uns 100 mil genes, mas esse número foi descendo drasticamente. A mais recente análise aponta para apenas 19 mil genes, 99% dos quais já existiam antes do aparecimento dos primatas.
 

O número de genes que distinguem os ratinhos dos humanos poderá ser inferior a dez
Uma equipa de cientistas em Espanha “contou” literalmente o número de genes presentes no ADN humano – ou seja, as sequências genéticas que codificam proteínas – e chegou à conclusão de que são provavelmente cerca de 19 mil, o que reduz em mais de 1500 o número anteriormente avançado. Os seus resultados foram publicados há dias na revista Human Molecular Genetics.
 
A molécula de ADN dos seres vivos, das bactérias aos primatas, é composta por quatro pequenas moléculas de base. No caso dos seres humanos, o ADN tem cerca de 3000 milhões de pares destas moléculas, encadeadas numa dupla hélice.
 
Apenas determinados fragmentos do genoma são genes, ou seja instruções de fabrico das proteínas que formam as células, os tecidos e os órgãos do nosso corpo. O resto das sequências que compõem o ADN não codifica qualquer proteína – os cientistas falam em “ADN não codificante” –, mas sabe-se hoje que tem um papel importante no controlo da actividade dos genes.
 
Há pouco mais de dez anos, “antes de o primeiro rascunho [da sequência total] do genoma humano ser publicado, os especialistas pensavam que o número de genes rondava os 40 mil a 100 mil”, escreve no seu artigo a equipa de Alfonso Valencia e Michael Tress, do Centro Nacional de Investigações Oncológicas (CNIO) espanhol. “A sequenciação inicial reduziu drasticamente esse número, sugerindo que o número final se situaria entre 26 mil e 30 mil genes. E com a publicação da versão final do genoma, em 2004, o número de genes que codificam proteínas foi revisto mais uma vez em baixa, para 20 mil a 25 mil.” E em 2007, um estudo apontara para a existência apenas uns 20.500 genes humanos.
 
Entretanto, os especialistas começaram a analisar as proteínas fabricadas pelo corpo humano, para daí remontar até às sequências, no ADN, dos genes que as codificam, construindo desta forma, passo a passo, um catálogo das proteínas humanas ou “proteoma”.É esta abordagem, baseada numa técnica dita de espectrometria de massa, que está no centro do novo estudo.
 
Estes cientistas começaram por criar uma nova versão do catálogo das proteínas integrando resultados de sete estudos em grande escala de espectrometria de massa, obtidos a partir da análise de mais de 50 tecidos diferentes do corpo humano, explica em comunicado o CNIO. Identificaram assim um pouco mais de 12 mil proteínas humanas diferentes.
 
Porém, quando foram ver quais eram os genes que codificavam essas 12 mil proteínas, aperceberam-se de que, para as codificar todas, eram precisas menos de 60% das sequências de ADN humano até agora consideradas como sendo genes codificantes.
 
“Embora as limitações técnicas das análises do proteoma sejam uma das causas mais prováveis para termos detectado as proteínas de menos de 60% [da lista actual de] genes, pode haver outra razão para isso ter acontecido”, escrevem ainda os autores. A saber, é possível que algumas das sequências que se pensava codificarem proteínas não codifiquem, afinal, proteína nenhuma.
 
Para aprofundar esta questão, a equipa considerou a seguir um conjunto de 2001 (supostos) genes potencialmente não codificantes. E de facto, quando analisaram as suas sequências, apenas detectaram capacidade de comandar o fabrico de proteínas em menos de 6% desses genes. “Os nossos resultados sugerem que muitos desses genes não codificam proteínas em circunstância alguma”, lê-se ainda no artigo.
 
Segundo os autores, é possível que “até 1800 sequências actualmente consideradas como sendo genes não codifiquem proteínas e que o número de genes funcionais no genoma (…) esteja mais próximo de 19 mil do que de 20 mil”.
 
E mais: por incrível que pareça, mais de 90% desses 19 mil genes que produzem proteínas surgiram há centenas de milhões de anos – e mais de 99% já existiam antes da emergência dos primatas, há uns 50 milhões de anos.
 
“O número de genes novos que separa os seres humanos dos ratinhos [ou seja, os genes que evoluíram depois da emergência dos primatas] poderá mesmo ser inferior a dez”, diz o co-autor David Juan no mesmo comunicado. Uma estimativa que contrasta fortemente com os cerca de 500 genes específicos dos primatas actualmente catalogados – e que faz dizer aos autores que esses genes “vão ter de ser reavaliados”.
 
A confirmarem-se estes resultados, o número dos nossos genes será semelhante ao do de espécies como Caenorhabditis elegans, um verme com apenas um milímetro de comprimento – e muito menos complexo do que nós.
 
“Ninguém teria imaginado, há uns anos, que um conjunto tão pequeno de genes pudesse fabricar algo de tão complexo” como o corpo humano, diz Valencia. De facto, pensa-se hoje que a complexidade poderá residir, não nos genes em si, mas na forma como eles funcionam sob o controlo dos 90% de ADN não codificante que existe no nosso genoma.

Seja como for, os resultados, concluem os autores, deverão ter um grande impacto na interpretação dos estudos biomédicos (na área do cancro, por exemplo), onde actualmente se incluem como genes sequências que poderão ser não codificantes.

Alimento visto por um especialista em nutrição: as cerejas

Texto escrito pela dietista  Andreia Rua em 04 de junho de 2014.

De forma redonda, cor vermelho vivo, doces, refrescantes e deliciosas, assim chegam até à mesa dos portugueses, as cerejas.
 

  
Encontram-se disponíveis desde meados de Maio até Julho e, são várias as variedades que se podem encontrar, merecendo especial destaque as doces e as ácidas, também conhecidas por ginjas.
No que toca à composição nutricional, este pequeno fruto é uma verdadeira caixinha de surpresas! Fornece ao organismo compostos fenólicos, fibra alimentar, flavonóides, hidratos de carbono, minerais - cálcio, ferro, fósforo e potássio -, proteínas e vitaminas, nomeadamente vitamina A e C. Apresenta também uma quantidade considerável de melatonina - hormona responsável pela regulação dos nossos ritmos circadianos. Assim, a sua ingestão, surge como uma alternativa para a melhoria da qualidade do sono.

A riqueza em vitamina C aliada ao bom teor em ferro , fazem da cereja uma fruta interessante no combate à anemia. O ferro presente, tem ainda como função o armazenamento e transporte de oxigénio para as células.

O seu excelente teor de fibra permite considerá-la como um suave laxante para quem tem problemas de obstipação. São-lhe também propriedades atribuídas drenantes e diuréticas possibilitando, desta forma, a eliminação de toxinas e evitando a retenção de líquidos. Podem integrar qualquer dieta, incluindo a dos hipertensos e a de portadores de problemas cardíacos e renais.

As cerejas são poderosos antioxidantes, ajudam a retardar o envelhecimento da pele - devido à presença de betacaroteno que defende o tecido cutâneo de agressões externas, nomeadamente das radiações solares - e a prevenir o cancro.

A todas estas propriedades, acrescenta-se o baixo valor energético, ou seja, as poucas calorias que este pequeno fruto apresenta - 100g de cerejas
oferecem, em média, 60 kcal - e a rentabilidade deste fruto, onde tudo se aproveita, à exceção do caroço. Até os caules ou pés da cereja depois de
secos, servem para fazer chá que, de entre várias funções, é um aliado no combate às infeções urinárias.

Na hora de escolher lembre-se que, as cerejas devem ser apanhadas o mais maduras possível porque, se forem apanhadas verdes, não vão ficar mais doces, como acontece com outras frutas. Assim, as mais carnudas, pesadas e maiores são sempre as melhores. Escolha aquelas que se apresentem brilhantes, de pele firme, limpas e sem golpes e/ou manchas. Os caules ou pés devem ser verdes, frescos e bem presos ao fruto.

Em casa, guarde-as no frigorífico sem lavar nem tapar. Assim, conseguirá conservá-las até duas semanas. Quando as consumir, lave-as bem, por
baixo da água da torneira, só assim será possível remover todos os vestígios de produtos químicos.

São várias as formas de as consumir, desde tartes, compotas ou até mesmo cristalizadas, no entanto, o ideal será a ingestão da cereja ao natural para que possa tirar proveito de todos os benefícios. Contudo, quando consumida em quantidades excessivas, a cereja pode propiciar o aparecimento de problemas digestivos, uma vez que a própria cereja é estimulante das glândulas digestivas. Assim, a quantidade diária recomendada são 50g, aproximadamente 10 cerejas.

Não é ao acaso que por cá se usas muitas vezes o provérbio popular "As conversas são como as cerejas, quanto mais se tem, mais se quer"!

Delícia de Cereja

Ingredientes (4 pessoas):
- 2 iogurtes magros e sem pedaços, 250g
- 200g de cerejas
- 8 bolachas Maria ou torrada,64g
- 1 colher de sopa de Edulcorante, 10g

Modo de preparação e confeção:

- Corte as cerejas em pedaços pequenos e lave.
- Coloque-as numa panela e cozinhe-as, durante 5 minutos, juntamente com o edulcorante. Decorrido o tempo de confeção, deixe arrefecer.
- Triture as bolachas.
- Coloque, em taças individuais, as bolachas, por cima o iogurte e finalize com as cerejas. Repita, novamente, este procedimento e termine a
sobremesa com raspas de bolacha.
 
Valor Nutricional:
 
Macronutrientes:
- Energia: 504,04 Kcal
- Água: 390,2g
- Hidratos de Carbono: 85,68g
- Proteína: 18,47g
- Total Lípidos (Gordura): 9,70g
- Fibra Dietética: 4,54g

Lípidos:
- Ácidos gordos saturados: 4,42g
- Ácidos gordos monoinsaturados: 2,82g
- Ácidos gordos polinsaturados: 1,23g
- Ácidos gordos trans: 0,06g
- Colesterol: 24,2mg

Vitaminas:
- Vitamina A: 90,5ug
- Vitamina C: 12mg

Minerais:
- Cálcio: 452,32mg
- Ferro: 2mg
- Fósforo: 424,42mg
- Potássio: 1028,68mg

Depois desta receita, mais que nunca, a expressão "Sabe que nem ginjas" fará sentido!

O alimento visto pelo especialista em nutrição: a sardinha

Texto escrito pela dietista Andreia Rua em 19 de maio de 2014.

Diz o ditado popular que a Mulher quer-se como a sardinha, pequenina! Eu diria, pequenina, elegante e altamente nutritiva.
 

 
Aproximam-se os meses de calor e, com eles, vêm também as festas populares onde a pequena, popular e saborosa sardinha assada é a rainha da mesa. O nome sardinha deriva do nome de uma ilha situada no Mediterrâneo, a Sardenha, onde há muitos anos grandes cardumes deste peixe costumavam nadar. Contudo, a sardinha é conhecida por todo o Mundo, pois os cardumes não se limitavam apenas ao mar Mediterrâneo, viajavam por todos os mares.

A sardinha é, conjuntamente com o bacalhau, o peixe de eleição dos portugueses. O seu valor nutricional, principalmente os níveis de gordura, varia ao longo do ano pelo que, a melhor época para o seu consumo é o verão, estação em que a sardinha apresenta teores de gordura mais elevados e, consequentemente, mais sabor.

Qualquer peixe tem um papel distinto e importante na alimentação contudo, a sardinha destaca-se pelo seu elevado conteúdo em proteínas, minerais e gordura polinsaturada, nomeadamente o ómega 3. Desta forma, a sardinha adquire a designação de peixe gordo, sendo a sua gordura polinsaturada importante para a proteção do sistema cardiovascular - redução dos níveis de colesterol e triglicerídeos no sangue; controlo da pressão arterial - e para o desenvolvimento e manutenção cerebral.

No que diz respeito aos micronutrientes (constituintes presentes nos alimentos em pequenas quantidades - vitaminas e minerais) a sardinha apresenta-se como uma excelente fonte de vitaminas A, B3, B6, B12, D, E e K e minerais como o cálcio, ferro, fósforo e selénio. O selénio tem uma importante ação antioxidante, contribuindo assim para a proteção de doenças crônicas. O cálcio, fósforo e ferro presentes apresentam, respetivamente, 1 importante papel ao nível da manutenção da massa óssea, na saúde dos dentes e ossos e no transporte de oxigênio e formação de glóbulos vermelhos.

Para garantir todos estes benefícios nutricionais é necessário algum cuidado aquando da confeção da sardinha, especialmente ao assar: utilize um grelhador elétrico adequado, ou no caso de utilizar carvão, mantenha a sardinha a uma distância das brasas de, pelo menos, 20 centímetros, de modo a permitir uma confeção lenta, a temperaturas moderadas e sem a formação de compostos cancerígenos.

Ao comprar sardinhas, seja exigente! Saiba que a sua qualidade está estritamente ligada à frescura pelo que, sardinhas frescas apresentarão uma qualidade superior!
Verifique se os olhos se encontram brilhantes, as guelras avermelhadas, o corpo firme, a carne vermelha e macia ao toque dos dedos e a pele firme e de cor viva. Quanto às escamas, é normal, na sardinha, encontrar algumas soltas.

Sardinha assada com puré de abóbora

Ingredientes (4 pessoas)
- 4 sardinhas, 300g
- 400g de abóbora
- 3 dentes de alho
- 1 cebola, 60g
- 1 colher de sopa de azeite
- Sal e pimenta preta moída q.b.

Modo de preparação e confeção:

- Coloque, num tacho, o azeite, a cebola e os alhos picados e deixe alourar.
- Adicione, de seguida, a abóbora cortada aos cubos, o sal e a pimenta e refogue durante 7 minutos. Cubra com água e deixe cozer.
- Depois de cozida, escorra a abóbora, reduza-a a puré e reserve.
- Asse, numa grelha, as sardinhas já temperadas com sal, cerca de 10 minutos.
- Sirva as sardinhas com o puré de abóbora.
 
Valor Nutricional:

Macroconstituintes:

- Energia: 618,24 Kcal
- Água: 658,96g
- Hidratos de Carbono: 10,01g
- Proteína: 58,9g
- Total Lípidos (Gordura): 38,28
- Fibra Dietética: 3,94g

Lípidos:

- Ácidos gordos saturados: 9,35g
- Ácidos gordos monoinsaturados: 14,46g
- Ácidos gordos polinsaturados: 10,74g
- Ácidos gordos trans: 0,9g
- Colesterol: 84mg

Vitaminas:

- Vitamina A: 676ug
- Vitamina B3: 21,43mg
- Vitamina B6: 1,55mg
- Vitamina B12: 30ug
- Vitamina D: 51ug

Minerais:

- Cálcio: 330,64mg
- Ferro: 5,89mg
- Fósforo: 936,32mg