quarta-feira, 18 de junho de 2014

Pode ter sido descoberto o maior reservatório de água do mundo

Texto publicado pelo jornal Público em 13/06/2014.
Estudo publicado após descoberta de mineral que confirmou haver muita água no interior da Terra.
 
O planeta poderá ter mais água do que vemos à superfície
Um reservatório de água três vezes maior do que o volume de todos os oceanos do mundo terá sido descoberto debaixo dos Estados Unidos, segundo um estudo publicado nesta sexta-feira na revista Science. Apesar de não estar na tradicional forma líquida, foram encontrados poços de magma a cerca de 600 quilómetros de profundidade, o que poderá indicar a presença de água.
 
A descoberta feita por uma equipa liderada pelo geofísico Steve Jacobsen, da Universidade de Northwestern, e pelo sismólogo Brandon Schmandt, da Universidade do Novo México, sugere que a água existente à superfície da Terra pode ter chegado a uma grande profundidade através das placas tectónicas e eventualmente provocar o derretimento parcial das zonas rochosas situadas no manto do planeta, a camada que fica por baixo da crosta superficial.
 
Steve Jacobsen afirma que esta descoberta pode dar algumas explicações sobre o que acontece dentro da Terra. “Os processos geológicos na superfície terrestre, como os sismos ou as erupções de vulcões, são uma expressão do que se passa no interior da Terra, longe da nossa vista”, começa por explicar o geofísico, citado num comunicado divulgado pela sua universidade.
 
Jacobsen acredita que se está “finalmente a ver sinais de todo o ciclo de água da Terra, que pode explicar a enorme quantidade de água líquida na superfície do nosso planeta habitável”. “Os cientistas têm procurado por esta água profunda desaparecida há décadas”, observa. O geofísico refere-se às várias especulações que existem de que há água presa numa camada de rocha no manto da Terra localizada entre o manto inferior e o manto superior, a profundidades entre os 400 e os 650 quilómetros, naquela que é chamada a “zona de transição”.
 
No trabalho liderado pela dupla Schmandt e Jacobsen foram utilizadas as experiências em laboratório em que o geofísico estudou camadas rochosas sob uma alta pressão simulada semelhante à existente a 600 quilómetros debaixo da superfície da Terra, com as observações do sismólogo de dados de actividade sísmica recolhidos no âmbito do projecto USArray, uma enorme rede formada por mais de 2000 sismómetros espalhados pelo território norte-americano.
 
A resposta pode estar no ringwoodite

Com base nestes dados, os investigadores acreditam que o H2O está armazenado na estrutura molecular de minerais no interior do manto rochoso, na sua própria forma (não líquida, gelada ou em vapor), criada pela pressão e calor que existe debaixo da superfície. No manto rochoso existe o mineral ringwoodite, que tem água na sua composição, o mesmo que, segundo um artigo publicado na Nature, em Março, permite inferir a existência de um reservatório de água no manto terrestre equivalente à água de todos os oceanos da Terra.
 
“O ringwoodite é como uma esponja, absorve a água”, explica Jacobsen, acrescentando que na sua composição existe algo que “atrai o hidrogénio e retém a água”. “Este mineral pode conter muita água sob as condições que existem no manto profundo”. O geofísico sublinha que na investigação em que participou foram “encontradas provas de uma fusão extensiva debaixo da América do Norte nas mesmas profundidades que correspondem à desidratação do ringwoodite”, o mesmo que Jacobsen registou nas suas experiências.
 
Ao utilizarem os sismómetros, os investigadores analisaram a velocidade das ondas sísmicas para determinar o que existe debaixo da superfície da Terra. As ondas desaceleraram quando chegaram à camada de ringwoodite. A profundidade a que acontece a fusão é também a que tem melhor temperatura e pressão para que a água saia do ringwoodite, criando um fenómeno que, segundo Jacobsen, parece que está a transpirar.
 
Para já, só existem indícios da presença de ringwoodite debaixo dos Estados Unidos, sendo necessárias outras análises para saber se o mesmo se passa noutras zonas do planeta.

Atrás dos peixes-lua do Algarve, que gostam de apanhar banhos de sol

Texto de Marta Lourenço publicado pelo jornal Público em 17/06/2014.
Equipa liderada por cientistas portugueses aliou a biologia à robótica marinha para conhecer melhor os hábitos de um peixe carismático e ver como é que as alterações climáticas o estão a afectar.
O peixe-lua é facilmente identificável pela ausência de barbatana caudal
O peixe-lua é o maior peixe ósseo do mundo: o seu corpo bastante arredondado pode ter mais de três metros de comprimento, quatro de altura, incluindo as barbatanas, e pesar duas toneladas. Até está no Livro Guinness dos Recordes, porque as fêmeas produzem até 300 milhões de ovos de cada vez. Ora foi atrás de 20 peixes-lua que andou uma equipa liderada por cientistas portugueses: prenderam-lhes marcadores e, durante três semanas, seguiram-nos desde a costa de Olhão em direcção a Espanha.
 
Os peixes-lua, ou Mola mola, vivem no Atlântico e Pacífico, nas zonas temperadas e quentes. Em Portugal, são comuns em toda a costa, sobretudo no Algarve. O seu comportamento pode dar indicações sobre as alterações climáticas, uma vez que a sua distribuição e migração são influenciadas pela temperatura da água. Identificam-se facilmente pela ausência de uma barbatana caudal e presença de uma barbatana dorsal e outra anal, que são simétricas.
 
Neste estudo, que incluiu ainda cientistas norte-americanos, espanhóis e noruegueses, os animais foram observados ao longo da costa de Olhão, durante Maio, para compreender a sua biologia, comportamento e hábitos alimentares (comem zooplâncton gelatinoso e pequenos crustáceos). “Queríamos conhecer melhor o comportamento do peixe-lua e, acima de tudo, através de observações in situ, caracterizar o habitat dos peixes em tempo real”, diz Nuno Queiroz, biólogo no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio), no Porto.
 
Como ao largo de Olhão, a três milhas da costa, há uma rede de captura de atuns, os peixes-lua também acabam por ser apanhados por ela, o que se por um lado pode provocar o declínio das suas populações, por outro facilitou a obtenção de peixes para estudo (apanharam-se os mais pequenos, com 30 ou 40 quilos).
 
“Apanhávamos os peixes-lua e: ou os colocávamos num tanque em terra e posteriormente eram largados no mar, ou eram logo sinalizados com um marcador GPS”, refere o engenheiro electrotécnico e de computadores João Tasso Sousa, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, envolvido na parte da robótica marinha do estudo.
 
Presos aos peixes por um fio, os marcadores ficavam a flutuar e emitiam a sua localização geográfica. “Quando o marcador estava à superfície, começava a emitir a posição GPS via satélite e nós recebíamo-la em terra. Quando os peixes mergulhavam, o marcador desligava-se para não gastar bateria. Basicamente, os peixes fazem este ciclo: vão ao fundo — podem ir até cerca de 600 metros — e depois vêm à superfície.”
 
Uma espécie-modelo
Apesar de ser um migrador de grande profundidade, também passa longos períodos à superfície. “Por que vêm à superfície? É para regular a temperatura. Colocam-se na horizontal para apanhar banhos de sol”, conta João Tasso Sousa, dizendo que têm dados em eles estavam umas horas à superfície. “Os colegas biólogos queriam saber qual é o comportamento dos peixes: quanto tempo passam à superfície e depois, quando mergulhavam, o que faziam.”
 
“O objectivo principal era obter, com elevada precisão e em tempo real, a localização dos peixes marcados. E, através de veículos autónomos, obter simultaneamente informação ambiental, como por exemplo a temperatura e a quantidade de potenciais presas”, explica Nuno Queiroz.
 
“Tal como outros peixes, deslocam-se a distâncias consideráveis e concentram-se em zonas produtivas [com zooplâncton]. É assim uma boa espécie-modelo: ao estudarmos o peixe-lua, podemos inferir características comuns a outras espécies”, conta o investigador do Cibio.
 
Uma vez recebidos os sinais GPS emitidos pelos marcadores nos 20 peixes-lua, eram accionados, em fases diferentes, três veículos robóticos, que iam ao encontro dos peixes-lua, graças à baixa velocidade com que se movimentam.
 
Atrás dos peixes, um veículo autónomo subaquático recolhia primeiramente os dados sobre a água, como a salinidade (obtida pela condutividade eléctrica), a temperatura e a pressão (profundidade). De seguida, um pequeno veículo autónomo aéreo fazia a confirmação visual dos peixes, para verificar se estavam realmente no local assinalado pelos receptores GPS. Por fim, um veículo autónomo de superfície recolhia dados oceanográficos, como a temperatura da água, a concentração de clorofila, a direcção e a força das correntes e dos ventos. O uso destas tecnologias, considera João Tasso Sousa, facilita o estudo da dinâmica dos ecossistemas.
 
“A ideia é tentar relacionar diferenças de temperatura com nutrientes e outros aspectos”, conta João Sousa. “Com uma câmara GoPro que tínhamos num dos veículos, conseguimos identificar, nalgumas zonas, concentrações grandes de zooplâncton.”

Primeira observação da estrutura da água líquida a... 46 graus negativos

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 18/06/2013.
 
As invulgares propriedades físicas da água surgem em todo seu esplendor quando ela é arrefecida de forma extrema sem congelar. Foi agora possível começar a estudá-las a temperaturas mais baixas do que nunca.
Uma gotícula de água super-fria interceptada por um impulso ultra-rápido de raios X (ao centro)
A água é o líquido mais comum do mundo. Para além de ser essencial à vida (nós próprios somos feitos de 65% de água), os oceanos cobrem 70% da superfície da Terra. Mas paradoxalmente, e apesar de ter uma estrutura molecular muito simples – um átomo de oxigénio ligado a dois átomos de hidrogénio –, as suas propriedades físicas são tudo menos vulgares.
 
Sem ir mais longe, a forma sólida da água, o gelo, é mais leve do que a sua forma líquida. É por isso que o gelo flutua na água, formando uma camada protectora, durante o Inverno, que permite a sobrevivência das espécies aquáticas. Por outro lado, a água consegue absorver muito bem o calor, o que lhe permite transportá-lo a grandes distâncias nas correntes marinhas – o que tem um impacto fulcral no clima do nosso planeta.
 
Quando é extremamente pura, a água pode ser “super-arrefecida” – ou seja, pode ser levada a permanecer no estado líquido mesmo a temperaturas muito negativas. Nessas condições, as suas bizarras propriedades, muitas das quais os especialistas continuam a tentar explicar, acentuam-se ainda mais.
 
Só que até aqui, a observação da água no estado super-arrefecido não era possível a temperaturas inferiores aos 41 graus Celsius negativos, porque a sua quase instantânea congelação proibia ver o que se passava.
 
Agora, uma equipa de cientistas nos EUA conseguiu, pela primeira vez, graças a uma nova técnica de arrefecimento rápido e a um laser ultra-rápido de raios X instalado na Universidade de Stanford, observar a estrutura microscópica da água líquida até aos 46 graus Celsius negativos. Os seus resultados foram publicados na revista Nature com data de quinta-feira.
 
“A água não é apenas essencial para a vida tal como a conhecemos, como tem também propriedades muito estranhas comparada com a maioria dos outros líquidos”, diz em comunicado Anders Nilsson, do Laboratório Nacional do Acelerador Linear SLAC do Departamento da Energia norte-americano e da Universidade de Stanford, o líder da equipa.
 
De facto, estes cientistas vislumbraram aquilo a que se tem dado o nome de “terra de ninguém” da água e que corresponde à zona de temperaturas entre os 41 e os 113 graus Celsius negativos. Existem teorias e modelos, ainda controversos, sobre o comportamento da água nessa zona, explica a Nature. E uma delas prevê que a estrutura da água super-líquida se altere por volta dos 45 graus Celsius negativos. Até aqui, porém, tratava-se sobretudo de especulações; a partir de agora, torna-se possível “desempatar” essas teorias.
 
O que Nilsson e a sua equipa fizeram foi desenvolver uma técnica que permite “mergulhar” nesse mundo desconhecido da água. Para isso, começaram por produzir um fluxo contínuo de microscópicas gotas de água numa camara de vácuo.
 
À medida que as gotículas se aproximavam do feixe laser, iam-se evaporando, arrefecendo rapidamente o resto da água líquida tal como a evaporação do suor arrefece a nossa pele, explica o já referido comunicado.
 
A seguir, fazendo variar a distância que as gotículas percorriam até ao feixe laser, os cientistas conseguiram controlar a temperatura dessas gotículas no preciso instante em que se cruzavam com os raios X emitidos pelo laser. Tal e qual uma máquina fotográfica ultra-rápida, o laser capturou então sequências de imagens dos pormenores da estrutura molecular da água super-arrefecida a diferentes temperaturas.
 
“Obtivemos provas experimentais da existência de um estado (…) de água líquida [até aos 46 graus negativos] na ‘terra de ninguém’ previamente quase inexplorada”, escrevem os autores. “Observámos um aumento contínuo e cada vez mais acelerado na ordenação estrutural da água super-arrefecida até perto dos 44 graus negativos.”
 
A partir dessa temperatura, prosseguem, “o número de gotículas que contêm cristais de gelo aumenta rapidamente. Porém, mesmo a essa temperatura, algumas gotículas permanecem no estado líquido durante cerca de um milissegundo.” Tempo mais do que suficiente para que os impulsos de raios X, muitíssimo mais breves do que isso – apenas 50 milésimos de milionésimo de milionésimo de segundo – ainda conseguissem “fotografar” a cena.
 
Os cientistas esperam descer a temperaturas cada vez mais gélidas, para a zona onde a água se torna um sólido não cristalino (como o vidro). “O nosso sonho é analisar estas dinâmicas até ao limite do possível”, diz Nilsson. “Um dia, o facto de percebermos o que se passa na terra de ninguém vai ajudar-nos a adquirir uma compreensão profunda da água em todas as condições.”

Chuva de cálcio e alumínio para explicar diferenças entre os dois lados da Lua

Texto de Nicolau Ferreira publicado pelo jornal Público em 16/06/2014
Há 55 anos, quando foi visto pela primeira vez, o lado oculto da Lua surpreendeu pela ausência dos grandes mares de basalto que existem no lado visível. Uma explicação é avançada agora.
O lado visível da Lua (à esquerda) e o lado oculto da Lua (à direita)
Mais montanhoso, com muitas crateras e uma crosta mais espessa, o lado oculto da Lua tem características geológicas muito diferentes do lado que vemos a partir da Terra. A primeira vez que o lado escondido foi fotografado, pela sonda soviética Luna 3, em 1959, os cientistas ficaram surpreendidos pela ausência dos mares – as grandes e escuras planícies de basalto que se espalham pelo lado visível da Lua. Agora, uma equipa de cientistas explica, na revista The Astrophysical Journal Letters, que a origem deste mistério descoberto há 55 anos remonta ao início da história da Lua.
 
Os mares escuros da Lua são o resultado de actividade vulcânica antiga. Um dos mais conhecidos é o Mar da Tranquilidade, onde o módulo lunar da Apolo 11 pousou, em Julho de 1969, e a humanidade, simbolizada naquele momento por Neil Armstrong, caminhou pela primeira vez na Lua. Estes mares formaram-se depois de o embate de grandes meteoritos ter furado a crosta da Lua e o material magmático, que estava no manto, ter vindo à superfície em forma de lava basáltica.
 
No passado, os cientistas já tinham descoberto que a ausência destes mares no lado escondido estava relacionada com a espessura da crosta. “De forma grosseira, a crosta da Lua tem 20 a 30 quilómetros de espessura no lado mais próximo e 30 a 60 quilómetros no lado mais longínquo”, explica ao PÚBLICO Arpita Roy, autora do artigo com Jason Wright e Steinn Sigurðsson, os três da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos.
 
Esta crosta mais espessa fez com que os impactos dos meteoritos não furassem completamente a crosta, impedindo que a lava se libertasse. Apesar de a questão da ausência dos mares estar explicada, surgiu uma nova pergunta: por que é que existe uma assimetria na espessura da crosta dos dois lados da Lua?
 
Para responder à questão, a equipa analisou os processos iniciais de formação da Lua. É necessário recuar cerca de 4500 milhões de anos, quando o sistema solar tinha apenas 100 milhões de anos. Nessa altura, a Terra já estava quase formada, quando um corpo do tamanho de Marte, chamado Teia, embateu contra o nosso planeta. De acordo com a teoria prevalecente, este embate lançou uma grande quantidade de materiais para o espaço em redor da Terra. E foram esses materiais que originaram a Lua, num período de tempo recorde.
 
“O que se pensa é que a Lua demorou entre um e 100 anos a formar-se. O disco [de material] formou-se imediatamente após o impacto e, quase de imediato, os detritos maiores do disco terão começado a colidir e a colar-se uns aos outros, formando grandes pedaços de rocha completamente rodeada por gás”, descreve Arpita Roy.
 
Ao mesmo tempo, a Lua ficou com a sua órbita presa ao nosso planeta. Isto significa que o tempo que o satélite demora a dar uma volta em torno da Terra é o mesmo tempo que demora a dar uma volta sobre si mesmo. Por isso, a Lua apresenta sempre a mesma face para a Terra.
 
Segundo os cientistas, esta rotação sincronizada da Lua em relação à Terra acabou por definir o que se seguiu. Quando Teia colidiu com a Terra, provocou a vaporização e fusão da crosta e manto do nosso planeta. Aqueceram muito, chegando a alcançar temperaturas de 10.000 graus Celsius. Numa altura em que a Lua estava 10 a 20 vezes mais próxima do nosso planeta do que hoje, esse calor foi um autêntico aquecedor da sua face virada para a Terra. “A quantidade de calor que a Lua recebeu foi centenas de milhares de vezes maior do que a Terra recebe hoje do Sol”, diz a investigadora.
 
Este fenómeno provocou a assimetria geológica descoberta há mais de meio século. Como só um lado da Lua apanhava com este calor, o outro lado, mais distante, arrefeceu mais rapidamente. Ao arrefecer mais depressa no lado oculto, as partículas de cálcio e de alumínio que estavam na atmosfera então densa da Lua solidificaram e caíram em forma de “neve” no magma derretido do satélite natural.
 
Durante alguns milhares de anos, esta “neve” de partículas de cálcio e alumínio foi muito mais intensa do lado frio do que do lado quente da Lua, o que resultou na acumulação de mais minerais no oceano de magma do lado oculto. Até que, finalmente, a Terra arrefeceu e deixou de aquecer a face da Lua que está virada para nós.
 
Mas nesta altura já existia a assimetria geológica. “Muitos milhares de milhões de anos depois, o oceano de magma da Lua arrefeceu e estes minerais formaram a crosta”, explica Arpita Roy. Mas, como havia uma quantidade maior destes minerais no lado distante da Lua, a crosta acabou por se tornar mais grossa, defende a equipa, propondo assim uma explicação para um mistério com 55 anos.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Flora Intestinal: como mantê-la forte e saudável?

Escrito por Carla Mateus, com entrevista a Paula Ravasco e Pedro Neves, investigadores do IMM, e João Ramos de Deus, gastroenterologista, em 10 de março de 2014.
 

 
Um universo de microrganismos vive no interior da sua barriga. Mas não se assuste. Fundamentais para a manutenção da flora intestinal e para o funcionamento do intestino, estas bactérias ajudam a proteger a sua saúde.
 
A simples ideia pode parecer algo bizarra e inacreditável, mas sabia que milhões de bactérias habitam o nosso intestino e desempenham um papel essencial para o organismo? Não, não estamos a mentir. Ao seu conjunto chama-se flora ou microbiótica intestinal e esta é indispensável ao funcionamento do intestino, à manutenção de um trânsito intestinal normal e, consequentemente, da nossa saúde.

De um ponto de vista biológico, os nossos intestinos são a nossa raiz e têm a mesma função no corpo humano que as raízes das plantas têm para a saúde das mesmas. Uma planta com raízes fortes e um bom solo cresce forte e saudável, da mesma forma que uns intestinos saudáveis podem ser o ponto de partida para ajudar a criar seres humanos saudáveis.

Dentro do tubo digestivo humano, por exemplo, existem dez vezes mais bactérias do que as células que formam o corpo – cem biliões. Estes microrganismos não são, ao contrário do que muitas pessoas pensam assim que ouvem falar em bactérias, prejudiciais para a saúde. Muito pelo contrário. Eles mantêm uma convivência pacífica e harmoniosa no nosso organismo, contribuindo para o seu equilíbrio.

João Ramos de Deus, gastroenterologista, explica que as bactérias que constituem a flora intestinal "ajudam na digestão dos alimentos, controlam (por competição) o crescimento de microrganismos patogénicos (outras bactérias, fungos, protozoários, etc.), promovem o bom funcionamento intestinal e reforçam as defesas imunitárias". No fundo, são como um batalhão de pequenos soldados que constituem um escudo protetor e lutam para nos proteger de infeções e outras doenças.

Nos intestinos existem bactérias residentes, responsáveis pelos múltiplos efeitos benéficos da flora intestinal, e bactérias passageiras, compostas por uma grande variedade de estirpes e que, em condições ideais de saúde, devem existir em pequena quantidade.

Paula Ravasco, nutricionista, e Pedro Neves, especialista em Ciências da Nutrição, revelam que "embora se estime que existam entre 300 e 1000 espécies diferentes de bactérias nos nossos intestinos, 99 por cento da nossa flora intestinal é apenas constituída por 30 a 40 espécies", que se nutrem, em parte, dos alimentos que ingerimos.

De acordo com os investigadores da unidade de nutrição do Instituto de Medicina Molecular (IMM), "as principais famílias de bactérias presentes no intestino são Lactobacillus e Bifidobacterium". Estas são as bactérias benéficas para a flora intestinal e também aquelas que evitam as que prejudicam o nosso organismo de se multiplicarem e causarem problemas.
As bactérias amigas da sua saúde

O equilíbrio entre bactérias benéficas e nocivas é fundamental para a manutenção de um estado de boa saúde. Cada uma das bactérias que vive na nossa barriga tem o seu papel na digestão e, como João Ramos de Deus sublinha, "cada individuo tem a sua flora intestinal própria e única, adquirida nos primeiros meses de vida".

A colonização de bactérias começa assim que se nasce. A amamentação e o contacto com o mundo asseguram a formação da flora intestinal, que difere consoante os hábitos alimentares adotados. Isto significa que "uma boa alimentação é importante na manutenção e recuperação da flora intestinal quando desequilibrada", afirmam os investigadores do IMM.

Assim, para manter a microbiótica intestinal ou repô-la, se necessário, é fundamental alimentar estes microrganismos e recrutar novos moradores, dando prioridade à ingestão de alimentos ricos em bactérias como Bifidobacterium e Lactobacillus, pois, como já vimos, são as principais famílias de bactérias que habitam na nossa barriga e reduzem a concentração dos microrganismos nocivos, mantendo a flora intestinal em níveis aceitáveis pelo organismo.

Para preservarmos "a flora intestinal devemos incluir na nossa alimentação alimentos ricos em prebióticos e probióticos, como por exemplo o iogurte", recomendam Paula Ravasco e Pedro Neves. A principal diferença entre ambos é que os alimentos probióticos devem os seus efeitos saudáveis aos microrganismos vivos que contêm, enquanto que nos prebióticos os benefícios advêm da presença de uma fibra que favorece o desenvolvimento de uma flora intestinal benéfica.

Os prebióticos são alguns tipos de fibras alimentares, ou seja, hidratos de carbono, que se encontram naturalmente presentes em fruta e vegetais como por exemplo, a banana, a maçã, a cebola, o alho, o tomate, a alcachofra, mas que também se acrescentam a outro tipo de produtos. Neste caso, estamos a falar de sumos, bebidas de leite e fruta, alguns tipos de bolachas, cereais, e iogurtes, todos eles enriquecidos com fibras solúveis, como a inulina e a oligofrutose.

Por sua vez, os probióticos são uma classe de bactérias "boas" ou benéficas que estão presentes em alguns iogurtes e leite fermentados. Estes alimentos contêm fermentos lácticos (bactérias) vivos, que resistem à digestão no estômago e chegam vivos ao intestino, interagindo com as bactérias da flora intestinal e impedindo a invasão de bactérias nocivas.

Para além do consumo deste tipo de alimentos, é necessário seguir uma regra que já conhecemos bem e da qual a nossa saúde também depende: "é necessário manter uma dieta equilibrada e rica em vegetais hortícolas, frutos, reduzir a quantidade de proteína animal e reduzir o consumo excessivo de açúcares", sublinham Paula Ravasco e Pedro Neves.
 
Existe ainda a possibilidade de recorrer a suplementos alimentares que podem ser usados como complemento de uma dieta variada, no entanto, os investigadores do IMM realçam que ainda não está demonstrada a necessidade ou benefício do uso de suplementação de prebióticos ou probióticos.

Quando a flora intestinal está fragilizada

Na maior parte do tempo, as bactérias benéficas prosperam e conseguem manter uma flora intestinal saudável e equilibrada. No entanto, as bactérias "más" ou patogénicas podem provocar desequilíbrios e levar à doença e mal-estar. Esta situação pode dever-se a vários motivos, nomeadamente à toma de antibióticos e outros medicamentos, a uma alimentação incorreta ou ao stress.

Como resultado destes desequilíbrios "surgem quebras do sistema imunitário, défices de vitaminas e suas consequências, distúrbios intestinais, quer no sentido da diarreia, quer da obstipação [prisão de ventre], doenças de pele, entre outras", alerta o gastroenterologista.

Se a situação não for tratada no sentido de repor o equilíbrio da flora intestinal, os sintomas podem tornar-se crónicos (como no caso do síndroma do cólon irritável) e comprometerem o sistema imunitário, levando a outras doenças mais sérias.

Agora que já sabe que precisa de manter as bactérias benéficas saudáveis e bem nutridas, não deixe de cuidar da sua flora intestinal. Aposte numa alimentação rica em fibras e zele pela integridade e bem-estar do seu intestino. E, claro, pela sua saúde também.

VIH/SIDA: Factos e mitos

Escrito por Carla Mateus com entrevista a Bárbara Flor de Lima e Ricardo Correia de Abreu, médicos infecciologistas, em 11 de fevereiro de 2014.
 

 
A SIDA é uma doença que pode afetar qualquer pessoa. Não é exclusiva de estratos sociais, faixas etárias ou de grupos específicos, mas a sua transmissão está associada a comportamentos considerados de risco. Porque ainda persistem ideias erradas e dúvidas sobre aquela que é uma das principais epidemias do século XXI, vamos esclarecer algumas delas com a ajuda de dois médicos infecciologistas.
Em 1993, o ator Tom Hanks, assumindo a identidade de um homossexual seropositivo, passou para o grande ecrã o estigma que acompanha os doentes infetados por VIH ou com SIDA (na maioria das vezes gerado pelo desconhecimento acerca da doença), no filme "Filadélfia". Cerca de 20 anos depois, a patologia deixou de estar na sombra e foram vários os tratamentos inovadores que surgiram e que conseguiram controlar o vírus dentro do organismo, impedindo a sua replicação.

A palavra SIDA significa Síndroma da Imunodeficiência Adquirida, uma doença resultante da infecção por VIH – Vírus da Imunodeficiência Humana. Este vírus ataca as defesas do organismo, que nos protegem contra bactérias, vírus e outros germes, destruindo-as e deixando a pessoa infectada (seropositiva) vulnerável. Estas infecções são denominadas "oportunistas", uma vez que apenas ocorrem quando o sistema imunitário deixa de ser eficaz.

A infeção por VIH é uma doença para toda a vida. Apesar de não existir uma cura conhecida, os avanços no tratamento alteraram a ideia de que esta era uma doença fatal. Atualmente, os médicos consideram a infecção por VIH como uma doença crónica que pode ser controlada com medicamentos e com opções no que respeita a um estilo de vida saudável.

Ainda assim, importa lembrar que, desde 1981 – altura em que os médicos reconheceram pela primeira vez a infecção por VIH/SIDA como uma nova doença –, a patologia disseminou-se rapidamente por todo o mundo, tornando-se numa epidemia que já causou a morte de mais de 25 milhões de pessoas. Apesar de a situação estar a melhorar ao longo dos anos, atualmente existem, de acordo com os últimos dados publicados em 2012 pela UNAIDS – a agência das Nações Unidas para o VIH/SIDA –, cerca de 35,3 milhões de pessoas infectadas com o vírus VIH/SIDA em todo o mundo. A maioria destes casos ocorre nos países em vias de desenvolvimento e Portugal não é exceção. Segundo o relatório "Portugal Infecção VIH/SIDA e Tuberculose em números – 2013", desde 1983 até 2012 foram diagnosticados mais de 42 mil casos.

Porque está nas mãos de todos nós limitar esta epidemia e porque a prevenção passa pela informação, o MSN Saúde e Bem-Estar pediu a Bárbara Flor de Lima e a Ricardo Correia de Abreu, médicos infecciologistas, que nos esclarecessem 10 factos ou mitos geralmente associados ao VIH/SIDA. Descubra-os na galeria baixo.

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Ressonar: salve o seu sono reparador

Escrito por Pedro F. Pina, com entrevista a Paulo Gonçalves, Otorrinolaringologista, em 14 de dezembro de 2012.
 

Ressonar não é uma doença mas é um problema social
O ressonar em si não é uma doença. Mas o ruído que provoca pode ser ensurdecedor ao ponto de abalar até a mais estável das relações. E pode também ser sinal de algo maior a ter em conta. Antes de desesperar e decidir dormir no sofá, veja o que pode fazer para contrariar a situação.

Pelo consultório de Paulo Gonçalves, otorrinolaringologista, passam vários pacientes para quem a roncopatia tomou conta das noites de sono. Trata-se de um motivo de desassossego entre casais e até entre vizinhos, quando as paredes são finas demais. O especialista explica-nos que "a roncopatia em si não constitui uma doença, mas é um problema social, devido ao ruído que perturba o sono de quem rodeia o ressonador".

Na origem do ressonar podem estar as mais diversas causas. Talvez por isso não seja fácil encontrar estatísticas concretas. Mas o problema existe, pode ser um desafio à estabilidade de um casal, devido às consequências da privação de sono, e pode até ser um sinal de que aquele ronco merece cuidados médicos específicos. Daí ser essencial perceber-se exatamente o que está em causa quando um sono que deveria ser tranquilo se transforma numa espécie de pesadelo.

Por que razão ressonamos

Em Portugal há estimativas que apontam para cerca de dois milhões de pessoas que sofrem de roncopatia. Sabemos que afeta mais adultos do que crianças. Sabemos que é mais comum entre os homens do que entre as mulheres – estimativas recentes apontam para 40 por cento dos homens a partir dos 30, contra 30 por cento das mulheres a partir da menopausa. Mas embora possa ser mais frequente nos homens e haver tendência para agravar com a idade, são muitas as razões por trás do ronco. Algumas mais fáceis de contrariar do que outras.

Em primeiro lugar convém perceber por que razão ressonamos. Paulo Gonçalves explica-nos que isto acontece "porque as paredes das vias respiratórias superiores vibram e fazem ruído com a passagem do ar que respiramos". Se se verificar estreitamentos nessas vias ou tecidos excedentários, a "tendência a ressonar será maior", adianta. Mas também podem existir características anatómicas específicas que contribuem para o problema, como é o caso de uma língua grande, um queixo "recuado" (retrognatismo) ou até da obesidade, tal como circunstâncias pontuais, como o consumo de álcool antes de dormir ou efeitos secundários de anti-histamínicos, por exemplo.

Ressonar não constitui apenas um incómodo do ponto de vista social ou conjugal. Também pode ser o indício de algo mais preocupante. "Quando a roncopatia se acompanha de paragens de respiração, por colapso das paredes das vias aéreas, aí sim começam os problemas, com as chamadas hipopneias e apneias, que são paragens com duração igual ou superior a 10 segundos", conta-nos Paulo Gonçalves, acrescentando que "nessas situações o sono fragmenta-se com várias repercussões nefastas".

Quando surgem paragens respiratórias longas, o esforço sobre o organismo é muito maior. O sono desregula-se e até o coração é sujeito a mudanças de batimento cardíaco. O que quer dizer que as horas de sono na prática parecem ter o efeito contrário, fazendo com que a pessoa acorde tão ou mais cansada do que quando se foi deitar. Percebe-se assim que ressonar pode ser um problema que extravasa as horas de sono. Se acorda da manhã e já sente o cansaço, ou se a memória e a concentração parecem mais debilitadas, pode dar-se o caso de o sono não estar a ser tão reparador quanto deveria. É importante perceber-se nestes casos se o ressonar não é sinal de Síndrome de Apneia Obstrutivo do Sono (SAOS).
"Em regra as apneias são testemunhadas por quem dorme ao lado de quem ressona sendo por vezes assustadoras", esclarece o especialista. Em situações mais graves de SAOS, o doente pode referir adormecimento fácil durante o dia (hipersónia diurna), cansaço persistente". Mas pode haver outros sintomas, como por exemplo a hipertensão ou impotência no homem, que por vezes acabam por acompanhar a SAOS.

Para resolver esta situação, Paulo Gonçalves refere que "a abordagem dum doente com roncopatia e principalmente dum doente com SAOS deve ser multidisciplinar". Para além da área de otorrinolaringologia, a colaboração da pneumologia, e até da nutrição ou de endocrinologia é muitas vezes determinante. Mas atenção: não basta o acompanhamento profissional. "O doente tem de estar motivado para ser tratado", o que quer dizer que não basta ser "empurrado" para o consultório.

Quando a cirurgia é necessária

Paulo Gonçalves alerta para o facto de se poder ter criado a ilusão de que esta "situações se resolvem de uma forma simples". Infelizmente, nem sempre é o caso. Daí o especialista insistir na "necessidade de envolver o doente no seu tratamento e fazê-lo entender bem os prós e contras de cada opção bem como as expectativas quanto aos resultados, que nomeadamente no que diz respeito à cirurgia, têm de ser o mais realistas quanto possível".

São vários os pormenores a que os especialistas estarão atentos, como é o caso de se perceber se o septo nasal, a estrutura de osso e cartilagem que divide as duas fossas nasais, não tem um desvio que possa ser a causa do ronco. Mas além dos hábitos e de vida e da postura durante o sono, há outros pequenos cuidados que a pessoa pode ter, que contribuirão para evitar o ressonar, como por exemplo a importância de uma pessoa se manter hidratada ou o cuidado em verificar se no quarto onde dorme não há elementos que possam provocar alergias, já que o aumento das secreções nasais também pode obstruir a respiração, provocando o ronco.

É importante por isso, quando se trata de roncopatia, recuperar a velha máxima de que "cada caso é um caso". São várias as opções de tratamento existentes, e estas podem funcionar isoladamente ou em conjunto. Paulo Gonçalves refere algumas hipóteses: a correção do peso quando se justifica e melhorar a tonicidade muscular promovendo o exercício físico; correções posturais durante o sono (dormir de lado é melhor opção do que de barriga para cima, por exemplo); o uso de dispositivos intraorais; oxigenoterapia (nomeadamente uso de um técnica denominada Continuous Positive Airway Pressure), "muito útil e eficaz sobretudo em casos de SAOS" e, naturalmente em último caso, a cirurgia.

"As cirurgias mais frequentes são as que incidem sobre o nariz, palato e amígdalas palatinas. E existem de facto alguns procedimentos que podem ser efetuados inclusivamente no gabinete de consulta". Alguns casos mais complexos podem implicar "cirurgias também elas bem mais complexas, como avanços mandibulares e outras, em que muitas vezes há também a necessidade da avaliação e colaboração da cirurgia maxilo-facial". Mas uma eventual decisão pelo bloco operatório deve ser muito bem ponderada e decidida em conjunto com o seu médico. E lembre-se: ressonar não se resolve com culpabilização. Converse e informe-se, sem receios ou preconceitos. Para que o sono lá em casa seja aquilo que deve ser: um prazer reparador.