terça-feira, 13 de maio de 2014

Snacks saudáveis? Veja as sugestões das nutricionistas

Escrito por Pedro F. Pina com as especialistas em nutrição Ana Rito, Ana Teresa Ramos, Emília Alves e Inês Gil Forte em 13 de novembro de 2013.
 

 
Os especialistas em nutrição aconselham-nos a comer nos intervalos entre as refeições. Há boas razões para tal. Mas é importante que essas escolhas também sejam saudáveis.

É um dia de semana normal. Almoçou em condições mas a meio da tarde já sente alguma "larica". O que fazer? Optar por esperar pela hora de jantar até pode parecer uma boa opção: poupa-se algum dinheiro; é menos uma refeição, o que quer dizer que se calhar até perco algum peso. Até parece ser uma boa ideia, não? Na realidade, não é nada boa ideia.

O ideal mesmo é manter regularidade na hora das refeições – o que quer dizer que não se devem saltar refeições – mas também a frequência. A baliza sugerida por muitos especialistas em nutrição, de comer de três em três horas, é um ponto de referência a ter em conta. E não é à toa.

Ao não comermos nada nos intervalos das grandes refeições, o risco que corremos é de chegar à refeição seguinte com mais fome. O que quer dizer que podemos acabar a comer bem mais do que desejávamos, para nos sentirmos saciados.

A nutricionista Inês Gil Forte explica-nos que comer nos intervalos das principais refeições (pequeno-almoço, almoço e jantar) passa também por manter os níveis da glicémia no organismo, através da ingestão de quantidades adequadas de hidratos de carbono, proteína e fibra (demasiadas vezes esquecida). "Este equilíbrio é essencial para que não haja um pico glicémico, que mais tarde leva a uma fome imensa", alerta a especialista. Mas além de ser importante perceber que se deve comer entre refeições, é também importante ter uma ideia do que devemos comer em particular. E são muitas as soluções que temos ao nosso alcance.

A este propósito, e pensando tanto nos adultos como nos mais pequenos, o MSN Saúde e Bem-estar pediu a alguns especialistas em nutrição sugestões de snacks saudáveis. São opções simples de pôr em prática, saborosas e saudáveis. Inês Gil Forte, Emília Alves e Ana Rito deram-nos sugestões a pensar nos mais crescidos. Enquanto Ana Teresa Ramos nos sugere dois menus diferentes para os mais novos.
 
Queijo fresco com canela, sugestão de Ana Rito, investigadora, e Emília Alves, nutricionista

O queijo fresco é uma fonte de proteína e de minerais (principalmente cálcio e zinco). As proteínas do queijo são consideradas de alto valor biológico, uma vez que fornecem ao organismo os aminoácidos necessários ao seu desenvolvimento, são absorvidas quase integralmente no intestino e ajudam a manter a saciedade. O cálcio, existente no queijo fresco, tem benefícios ao nível da formação dos dentes, ossos e cartilagens e na prevenção da osteoporose. O zinco, iodo e selénio, também presentes, desempenham papel importante ao nível do sistema imunitário, do desenvolvimento cognitivo e como antioxidante.

A canela possui vitamina A, vitaminas do complexo B, magnésio, zinco, iodo e flavonoides que, pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, diminuem a formação de colesterol e os triglicéridos, prevenindo as doenças cardiovasculares. A canela tem ainda propriedades termogénicas, aumenta o metabolismo basal, podendo assim ajudar no processo de controlo de peso.

Maçã com nozes (1 maçã e 4 nozes), sugestão de Ana Rito, investigadora, e Emília Alves, nutricionista

A maçã é rica em água, fibras dietéticas, vitaminas B1, B2, C, E e potássio. A principal fibra solúvel é a pectina que atua na diminuição do colesterol sérico e torna a absorção da glicose mais lenta evitando assim a formação de triglicéridos. A fibra insolúvel, presente na casca, ajuda na regulação do trânsito intestinal. As fibras da maçã dão também uma sensação de saciedade e são um bom auxílio no controle de peso. O alto teor de potássio contido na maçã ajuda a eliminar o sódio excedente e, consequentemente, o excesso de água retida no organismo.

As nozes são um fruto seco rico em ácidos gordos polinsaturados ómega-3, com propriedades anti-inflamatórias importantes na diminuição dos níveis de triglicéridos e de colesterol LDL (mau colesterol). Esses ácidos gordos ajudam também a diminuir a resistência à insulina, contribuindo assim para um menor risco de diabetes tipo 2. As nozes apresentam ainda teores consideráveis de selénio, um antioxidante, que atuando juntamente com a vitamina E, é essencial para o controle da produção hormonal, para a saúde dos cabelos, pele e visão.

Palitos de cenoura e pepino, sugestão de Ana Rito, investigadora, e Emília Alves, nutricionista

A cenoura contém excelentes quantidades de vitamina A, que atua como antioxidante, e tem ação importante na proteção da visão, evitando o aparecimento de doenças como a cegueira noturna e a xeroftalmia. A cenoura contém ainda vitamina C, K, minerais como o potássio e fibras dietéticas (pectina), que ajudam no trânsito intestinal e na redução dos níveis de colesterol do sangue, vitamina E, que tem uma importante ação antioxidante e ácido fólico, fundamental para o bom funcionamento do sistema imunitário, nervoso e cardiovascular.

O pepino é um fruto composto principalmente por água, o que o torna um alimento leve e de baixo valor calórico (17kcal por 100g). Contém quantidades significativas de vitamina C, B5, potássio, magnésio, folato, fibras e antioxidantes como o beta caroteno, alfa caroteno, luteína e zeaxantina, o que lhe confere ação anti-inflamatória, calmante, digestiva, estimulante, remineralizante, diurética e laxativa, sendo recomendado no controlo da pressão arterial, no rejuvenescimento da pele e no fortalecimento do cabelo e unhas.
Iogurte e frutos secos, sugestão de Inês Gil Forte, nutricionista

Em primeiro lugar, nunca esquecer a importância da ingestão de água e tisanas ao longo do dia, para manter uma boa hidratação. Mesmo quem está o dia inteiro com ar condicionado deverá ter cuidados redobrados, uma vez que o ar condicionado desidrata muito.

Uma mistura de iogurte magro ou natural com fruta, meia dúzia de nozes ou avelãs ou um punhado de sementes de girassol ou de abobora, uma fatia de pão centeio ou alemão com queijo fresco ou mozzarela ou uma fatia de salmão ou presunto magro. As variações são várias! Há que evitar no entanto as barras de cereais, muitas vezes demasiado ricas em açúcar e pobres em proteína e fibra, os chocolates, bolos (mesmo sem creme!).
Dois menus para aos mais novos (dos 6 aos 12 anos), sugestões de Ana Teresa Ramos, nutricionista

As opções alimentares e respetivas doses devem ser escolhidas e calculadas de acordo com as necessidades nutricionais de cada criança. Fatores como a idade, percentil e atividade diária devem aqui ser considerados. Como tal, e a estarem o dia fora de casa, devem levar consigo logo de manhã tudo preparado na lancheira.
A meio da manhã:
1 pacote de leite meio gordo simples (200mL)
3 a 6 bolachas Maria [de acordo com a idade]
1 pera ou 1 banana pequena
e ao lanche:
1 iogurte sólido aroma
1 pão de mistura (ou metade, dependendo da idade), com 1 colher de sobremesa de manteiga ou 1 fatia de queijo
meia maçã
Ou então uma segunda opção de snacks saudáveis:
A meio da manhã:
1 iogurte sólido aroma
1 ou 2 fatias de pão de forma integral (de acordo com a idade), com 1 colher de doce de fruta
e ao lanche:
1 pacote de leite meio gordo simples (200mL)
meio pão de centeio com 1 fatia de queijo ou fiambre
9 a 10 uvas ou 5 a 6 morangos
(E atenção: devem ainda levar na lancheira uma garrafa pequena de água!)
 

O alimento visto pelo especialista em nutrição: o pimento

Escrito por Ana Russo e Paula Ravasco, Unidade de Nutrição e Metabolismo, do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em 12 de maio de 2014.
 
Lembra-se da última vez que comprou pimentos? De certeza que os encontrou junto aos legumes. Embora possa ser difícil de acreditar, o pimento é o fruto com mais alto teor de vitamina C e é ainda rico em vitamina A, vitamina B6, vitamina K, fitoquímicos, fibra e folato.
Trazido do Novo Mundo por Cristovão Colombo, o pimento foi um alimento bastante popular na civilização Asteca, mas está longe de o voltar a ser nos dias que correm, sendo mais conhecido como acompanhamento da afamada sardinha durante o mês dos Santos Populares.

Podemos mais facilmente encontrar pimentos de cor vermelha ou verde, porém existem ainda nas cores amarela e laranja. Estas diferentes cores estão associadas às diferentes famílias de fitoquímicos presentes em cada um.

Por ser um alimento particularmente rico em vitamina A e C, o pimento apresenta diversos benefícios para a saúde: a vitamina A é importante para uma visão saudável e sistemas imunitário e reprodutor; e a vitamina C é também importante para o sistema imunitário e necessária para a síntese de colagénio e absorção de ferro. Juntas conferem um grande poder antioxidante ao alimento, contribuindo para a diminuição do risco de doenças cardiovasculares e cancro.

O potássio, também presente neste alimento, é essencial na dieta e regula as funções cardíacas e de contração muscular. A proporção de potássio-sódio que o pimento possui na sua constituição favorece a manutenção do equilibro de fluídos no organismo e previne a retenção de líquidos. Também o magnésio, o fósforo e o cálcio apresentam benefícios para a saúde dos ossos e dentes.

Devido ao seu elevado conteúdo em água e baixo teor energético, o pimento é uma boa opção para integrar dietas de controlo de peso. Além disso, a fibra que contém promove uma maior sensação de saciedade e facilita o trânsito intestinal, o que ajuda a regular o apetite.

Em algumas pessoas, o pimento causa sensação de desconforto no estômago ou azia. Retirar a pele pode ajudar a diminuir ou eliminar estes inconvenientes. Para isto, basta assar o pimento até a pele começar a sair e, então, colocá-lo dentro de água para que possa retirar o resto da pele.

O pimento pode ser consumido cru ou assado e servir de acompanhamento a carne e peixe. Uma chávena de pimento cru aos pedaços (aproximadamente 150g) contém um baixo valor energético (33kcal) e cerca de 2 vezes a dose diária recomendada de vitamina C (aproximadamente 135mg).

segunda-feira, 24 de março de 2014

Vitamina A durante a gravidez é essencial para um sistema imunitário saudável nos filhos

Texto de Nicolau Ferreira publicado pelo jornal Público em 19/03/2014.
Equipa de cientistas liderada por portugueses descobriu que a ausência total de vitamina A impede a formação normal dos gânglios linfáticos, peças importantes do sistema imunitário. Artigo é publicado na revista Nature.
Pode-se ir buscar vitamina A às cenouras. 
 
 
As células indutoras do tecido linfático (a verde) no intestino
Uma equipa internacional liderada por cientistas portugueses descobriu que a ausência de vitamina A durante o desenvolvimento embrionário – neste caso nos ratinhos da experiência – impede a formação normal dos gânglios linfáticos, peças-chave do sistema imunitário. A carência de vitamina A na gravidez põe assim em causa a resposta imunitária. A descoberta, publicada hoje na revista Nature, demonstra como esta vitamina é essencial na alimentação das mulheres, principalmente nos países em desenvolvimento.
 
Pode-se ir buscar a vitamina A a muitos alimentos: cenouras, espinafres ou a batatas-doces. Esta vitamina é necessária para a formação de pigmentos visuais, regulação das células do sistema imunitário nos intestinos ou para o desenvolvimento do próprio embrião.
 
Agora, uma equipa internacional, com cientistas da Holanda e dos Estados Unidos, coordenada por Henrique Veiga Fernandes, líder de um grupo no Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, observou que a vitamina A permitia a maturação das células que, durante o desenvolvimento embrionário dos ratinhos, vão formar os gânglios linfáticos e as placas de Peyer – estruturas do sistema linfático situadas nos intestinos, onde têm uma função imunitária importante.
 
Os gânglios linfáticos têm entre um a dois centímetros e estão distribuídos em locais como as virilhas, as axilas ou na região da garganta. Dentro dos gânglios alojam-se os linfócitos, especializados no combate de bactérias ou vírus. Outras células do sistema imunitário têm a função de levar até aos gânglios pedaços dos organismos patogénicos que infectam o corpo: uma vez aí, mostram estes pedaços ao maior número possível de linfócitos, até encontrarem o linfócito que naturalmente é mais adequado para combater aquele organismo.
 
Quando isso acontece, inicia-se uma resposta imunitária, que pode desencadear o inchaço do gânglio. Se os linfócitos estivessem espalhados pelo corpo, aquela célula imunitária que leva o pedaço do agente patogénico teria muita dificuldade em encontrar o linfócito especializado.
 
Abelhas operárias
Os gânglios formam-se durante o desenvolvimento embrionário, graças a um tipo de células do sistema imunitário – as células indutoras do tecido linfático. Saindo do fígado do feto, estas células viajam pelo sangue até que, em determinados locais do corpo, saltam dos vasos para formar os gânglios linfáticos.
 
“Estas células funcionam como abelhas operárias”, explica Henrique Veiga Fernandes ao PÚBLICO. “Quando saem do sangue, formam pequenos agregadores de células e estão sempre em movimento.”
 
Nesses locais, as células indutoras do tecido linfático sofrem um passo final de maturação. Depois, provocam alterações nas células do tecido conjuntivo e são estas que vão formar “os andaimes” dos gânglios linfáticos. Quando esses “andaimes” ficam construídos, os linfócitos vão habitá-los.
 
A equipa de Henrique Veiga Fernandes tentou descobrir o que desencadeava a maturação final das células indutoras do tecido linfático. Com testes, primeiro in vitro e depois in vivo, os cientistas chegaram à conclusão de que era necessária a presença de ácido retinóico (um composto que o corpo produz a partir da vitamina A). “A metabolização da vitamina A faz com que as células se diferenciem. Este foi o nosso ponto de partida”, diz o cientista.
 
Depois, quiseram encontrar o mecanismo celular que originava esta transição. Já se sabia que nas células indutoras do tecido linfático existem moléculas capazes de receber o ácido retinóico. Agora, a equipa descobriu que esse receptor é responsável por activar um gene no núcleo dessas células e esse gene activa, por sua vez, muitos outros genes que desencadeiam a maturação destas células. A partir daí estão prontas para pôr as células do tecido conjuntivo em acção.
 
Não existe uma ausência total de vitamina A. Devido à sua importância, há sempre uma reserva no corpo. Por isso, para se perceber qual é o efeito no sistema imunitário da inexistência total da vitamina A, os investigadores bloquearam artificialmente, com um fármaco, o gene que inicia a maturação das células.
 
“Tratámos as fêmeas de ratinhos grávidas com este fármaco. Em toda sua descendência, os gânglios eram muito pequenos ou nem sequer existiam”, explica Henrique Veiga Fernandes. Assim, menos vitamina A significa a existência de menos células indutoras do tecido linfático a amadurecerem, o que se traduz na formação de menos andaimes nos gânglios linfáticos. Este efeito é irreversível na vida dos ratinhos.
 
Apesar de estes gânglios serem normais a nível dos seus tecidos, crescem muito menos: são minigânglios, o que compromete a imunidade. Para chegar a esta conclusão, a equipa testou a resposta imunitária de ratinhos cujas mães tiveram uma dieta sem vitamina A, infectando-os com um vírus que causa infecções pulmonares. Nos ratinhos normais, a infecção foi debelada ao fim de sete a dez dias. Mas nos ratinhos com gânglios pequenos, o vírus continuava a multiplicar-se ao final de duas semanas.
 
Implicações na vacinação
Embora não seja possível fazer estas experiências em seres humanos, Henrique Veiga Fernandes explica que o sistema imunitário do ratinho e do humano são “muito semelhantes”: “Tal como no ratinho, também existem células indutoras do tecido linfático no humano.”
 
Por isso, estes resultados são importantes, principalmente em países “onde há ausência crónica de vitamina A”. Há até a possibilidade de as carências de vitamina A “minarem a eficácia das campanhas de vacinação de crianças”, alerta, por sua vez, Gérard Eberl, do Instituto Pasteur, num comentário à descoberta também na Nature. As vacinas “enganam” o sistema imunitário, levando-o a produzir substâncias específicas para combater cada invasor, o que poderá ficar em causa com os gânglios pequenos.
 
A novidade obriga ainda a uma mudança de paradigma sobre a forma como se olha para o desenvolvimento do sistema imunitário. Pensava-se que esse desenvolvimento durante a gravidez decorria sem interferências do exterior: era só carregar no play – a fusão do espermatozóide com o óvulo – e deixar o filme correr.
 
“Pela primeira vez, demonstrou-se que esse desenvolvimento está dependente de factores ambientais”, refere o cientista. “É extraordinariamente surpreendente que num ambiente, aparentemente tão protegido, a dieta materna possa ter um papel tão crítico.”
 
Para Henrique Veiga Fernandes, isto é “uma ruptura completa” que abre um campo de investigação novo, para perceber “de que forma o sistema imunitário consegue percepcionar o meio externo”. As questões sucedem-se agora: qual é o regime alimentar mais benéfico ligado a uma doença ou a uma vacina? Os comportamentos de uma pessoa têm influência na resposta do sistema imunitário?
 

 

Novo método pode permitir diagnosticar precocemente o cancro do pâncreas

Artigo publicado pelo jornal Público em 21/03/2014.
Os cientistas que desenvolveram a técnica acreditam que ela poderá estar disponível nos hospitais dentro de cinco anos.
 

O actor norte-americano Patrick Swayze morreu em 2009, aos 57 anos, dois anos depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro do pâncreas
O cancro do pâncreas é um dos mais temíveis: é muitas vezes detectado numa fase avançada, quando já se espalhou para outros órgãos – o que faz com que apenas 5% dos doentes sobrevivam cinco anos ou mais após o diagnóstico. Mas agora, essa situação poderá estar prestes a mudar. Uma equipa de cientistas da Universidade de Gotemburgo (Suécia) acaba de anunciar, na revista Journal of the National Cancer Institute, o desenvolvimento de uma técnica que permitiu detectar, com 97% de certeza, certos precursores do cancro do pâncreas, tornando possível, no futuro, a sua prevenção ou tratamento.
 
Sabe-se hoje que a presença de quistos no pâncreas – tumores cheios de fluido – pode ser um sinal precursor desse cancro, explica a universidade sueca em comunicado.
 
Estes quistos costumam ser descobertos acidentalmente na realização de exames com técnicas de imagiologia tais como a tomografia axial computadorizada (TAC) ou a ressonância magnética. Nem todos têm potencial canceroso, mas como não é possível prever a sua evolução com base nas imagens, isso conduz a análises desnecessárias – e pouco fiáveis – do líquido contido nos quistos, bem como a cirurgias invasivas que apresentam riscos para as pessoas.
 
O novo método agora desenvolvido por Karolina Jabbar e colegas consiste em utilizar a técnica dita de espectrometria de massa para detectar com precisão, nos quistos, a presença de proteínas chamadas mucinas, cuja produção aumenta nos tumores malignos. E permitiu aos cientistas diagnosticarem correctamente que, entre 79 quistos, 77 eram efectivamente precursores de cancros.
 
“Trata-se de um resultado espectacularmente bom para um teste de diagnóstico, e esperamos que o nosso método permita descobrir precocemente um maior número de cancros do pâncreas, numa fase em que ainda é possível tratá-los ou preveni-los”, diz Karolina Jabbar, citada no mesmo documento.
 
Os autores também conseguiram analisar diferentes quistos e identificar, com 90% de certeza, os que já tinham evoluído para um cancro. Isto significa que também poderá ser possível saber, em caso de detecção de um quisto potencialmente maligno no pâncreas, se o doente precisa logo de cirurgia para o remover ou se convém, pelo contrário, esperar e monitorizar o seu crescimento .
 
“O método existe e permite-nos medir os marcadores biológicos [do cancro do pâncreas] rapidamente e com precisão”, diz Gunnar Hansson, um dos líderes do estudo. Para mais, “requer uma amostra 25 vezes mais pequena de fluido do quisto que as análises convencionais [do conteúdo dos quistos]”. E conclui: “Tenho a certeza de que dentro de cinco anos, vai haver espectrómetros de massa nos corredores dos hospitais.”

Cientistas identificam mais um mecanismo que acelera crescimento e formação de tumores

Artigo publicado na SAPO Saúde em 25/02/2014.
Cientistas identificam mais um mecanismo que acelera crescimento e formação de tumores.
 

O estudo sugere que uma proteína descontrola as moléculas do ácido ribonucleico, vulgarmente conhecido pela sigla RNA, e estimula a formação e multiplicação das células cancerígenas.

Cientistas do Instituto de Investigação em Biomedicina de Barcelona (IRB), em Espanha, descobriram um mecanismo controlado pela proteína CPEB1 que afeta mais de 200 genes relacionados com a proliferação celular e com a progressão de tumores.

O mecanismo foi identificado a partir da utilização de células de linfoma de Hodgkin. O estudo, publicado no domingo na revista Nature, mostrou que a CPEB1 altera uma região específica de um tipo de molécula de RNA. Segundo um dos autores, Raúl Méndez, a CPEB1 descontrola centenas de moléculas de RNA que estimulam a desdiferenciação celular, quando a célula adulta passa a agir como embrionária, e a sua proliferação, promovendo o alastramento do cancro.

"As proteínas CPEB são necessárias durante o desenvolvimento e também durante a regeneração do tecido, mas se ficam continuamente ligadas, as células dividem-se em momentos errados e formam o tumor", explica Méndez.

"Esta descoberta é positiva do ponto de vista terapêutico, pois significa que se removermos a CPEB1 de células saudáveis, a sua função pode ser assumida por qualquer outra proteína CPEB. Em contraste, em tumores, apenas a CPEB1 tem a capacidade de encurtar essas regiões, afetando apenas as células tumorais", explicou Felice Alessio Bava, investigador principal.

O laboratório desenvolveu um sistema de rastreio de moléculas terapêuticas para criar um medicamento que pode inibir a ação da CPEB em tumores, com poucos efeitos secundários nas células saudáveis.

"Não há drogas atualmente disponíveis que influenciam a regulação da expressão do gene, a este nível. As nossas descobertas abrem uma janela terapêutica pioneira. Estamos otimistas com o potencial de proteínas CPEB como alvos", conclui Méndez.

Cientistas australianos descobrem como as células cancerígenas enganam organismo

Artigo da LUSA publicado em 24/03/2014 pela Sapo na rubrica Saúde.
Células cancerígenas emitem molécula que impede sistema imunitário de combater o cancro.

Uma equipa de cientistas australianos acredita ter descoberto a forma como as células cancerígenas enganam o sistema imunológico do organismo, levando-o a pensar que são inofensivas, noticiou hoje a cadeia australiana SBS.

A descoberta permite uma maior compreensão da forma como os glóbulos brancos, também conhecidos por "células assassinas", distinguem as células inofensivas das doentes e poderá levar ao desenvolvimento de novos tratamentos para os cancros mais agressivos e avançados, segundo o investigador principal do projeto, Mark Smyth.

"Diz-nos algo que não sabíamos antes. E tem também implicações nos vírus", disse Smyth, do Instituto Berghofer de Investigação Médica de Queensland (QIMR/Queensland Institute of Medical Research - Berghofer), na Austrália.

"Essencialmente mostra que o cancro 'sequestra' o sistema de reconhecimento e ativação imunológica, o que lhe permite espalhar-se pelo corpo", acrescentou, considerando a descoberta "muito entusiasmante".

"Passei grande parte da minha carreira a tentar convencer as pessoas de que o sistema imunológico reage ao cancro", sublinhou, acrescentando: "O nosso trabalho é importante, mas apenas uma pequena parte do retrato completo".

Os investigadores identificaram uma proteína conhecida como CD96, que se encontra nos glóbulos brancos e que tem como função evitar que as "células assassinas" ataquem os tecidos saudáveis.

Molécula inibe sistema imunitário

Contudo, os cientistas descobriram que as células cancerígenas emitem uma molécula, reconhecida pela CD96, que impede as 'células assassinas' de reagirem.

A equipa conseguiu provar a sua teoria com experiências em laboratório. O próximo passo é fazer testes em células humanas.

"Se resultar, faz sentido desenvolver anticorpos para bloquear a proteína CD96", disse Smyth, cuja descoberta foi publicada no jornal Nature Immunology.
"A imunoterapia revolucionou o tratamento do cancro. Algumas pessoas estão a sair dos tratamentos curadas", sublinhou.

O diretor do QIMR Berghofer Research Institute, Frank Gannon, adiantou que este progresso é o resultado de muitos anos de trabalho.

"É a coisa mais entusiasmante que vi nos últimos 20 anos", disse, adiantando que, dentro de cinco anos, será possível fazer testes em humanos.

 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Álcool, tabaco e obesidade alimentam subida crescente de casos de cancro

Artigo publicado pelo jornal Público no Dia Mundial da Luta Contra o Cancro.
 Peritos da Organização Mundial de Saúde defendem que a única solução é a prevenção, sugerindo a criação de um imposto para bebidas açucaradas.


O número de casos de cancros no mundo poderá subir 70% nos próximos 20 anos, alertou esta segunda-feira a Organização Mundial de Saúde (OMS) no Relatório Mundial sobre Cancro 2014. Os peritos dizem que a forma de travar a epidemia não passa apenas pela cura, mas sobretudo pela prevenção, e propõem, por exemplo, a criação de um impostos especial para bebidas açucaradas. Entre as causas da subida estão o consumo de álcool, de açúcar e a obesidade, cita o jornal britânico The Guardian.

Por ano, prevê-se que surjam no mundo cerca de 25 milhões de novos casos de cancro. Metade destes podem ser prevenidos, já que estão ligados a estilos de vida, refere o documento produzido pela Agência Internacional para a Pesquisa em Cancro, uma unidade da OMS especializada na patologia. Não é realista travar a subida pensando apenas nas formas de curar a doença, defendem os seus autores, notando que é essencial o enfoque na prevenção. Até para os países mais ricos o fardo vai tornar-se insustentável em termos de custos, refere o documento, citado pelo The Guardian.

Mas a doença está cada vez mais presente também em países mais pobres, onde os cancros mais frequentes têm origem em infecções, como é o caso do cancro do colo do útero, muito prevalecente nestes países, onde não existe rastreio e muito menos acesso à vacina.

Nos países mais ricos, os cancros que estão a aumentar estão sobretudo ligados a estilos de vida, associados “ao uso crescente do tabaco, consumo de álcool, ingestão de alimentos transformados e falta de exercício físico”, escreve na introdução ao relatório Margaret Chan, directora da OMS.

Prevenção e detecção precoce
Christopher Wild, director da Agência Internacional para a Pesquisa em Cancro e um dos autores do documento, disse que, apesar dos avanços no lado da cura, “o problema não se resolve apenas deste lado. É preciso mais prevenção e a detecção precoce é essencial.”

Bernard Stewart, investigador da University of New South Wales e outro dos autores, apelou à discussão de medidas como a criação de um imposto especial para as bebidas açucaradas, como uma possível forma de fazer diminuir cancros que têm origem na obesidade e na falta de exercício físico.

Em relação ao álcool, lembrou que o seu consumo esteve na origem de 337,400 milhões de mortes no mundo em 2010, sobretudo entre homens. A maioria são mortes por cancro do fígado, mas o álcool também aumenta o risco de cancro da boca, esófago, intestino, pâncreas, mama e outros. “A sua rotulagem, os locais onde é comercializado e os preços de venda ao público devem ser questões a debater”, disse Stewart. Propõe também a criação de um imposto para bebidas açucaradas. O relatório refere que todos os esforços para reduzir a percentagem de refrigerantes que têm adição de açúcar deviam ser prioritários.