quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Vacinação contra vírus do cancro do colo do útero fez desaparecer lesões pré-cancerosas

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 04/02/2014

A vacinação contra o vírus do papiloma humano, principal responsável pelo cancro do colo do útero, parecia não servir para tratar lesões pré-cancerosas já instaladas. Cientistas mostraram agora que não é bem assim.

Células HeLa, derivadas do cancro do colo do útero da norte-americana Henrietta Lacks, hoje utilizadas nos laboratórios de todo o mundo
 Os resultados preliminares de um pequeno ensaio clínico mostram que, nalgumas mulheres com lesões pré-cancerosas do colo do útero, um tratamento à base de vacinas experimentais contra o vírus do papiloma humano – o HPV, responsável pela grande maioria destes cancros – consegue desencadear uma resposta imunitária capaz de fazer regredir totalmente as lesões.

Os autores do estudo, que publicaram os seus resultados na última edição da revista Science Translational Medicine, esperam que a vacinação terapêutica venha um dia a substituir o actual tratamento deste tipo de lesões, que consiste na sua remoção cirúrgica de forma a impedir que evoluam para uma forma maligna.

Actualmente, as vacinas comercializadas contra o HPV destinam-se a prevenir a infecção do organismo humano por este vírus sexualmente transmissível, nomeadamente nos jovens que ainda não iniciaram a sua vida sexual activa. Porém, essas vacinas não funcionam como tratamento nas pessoas que já foram infectadas quando, através de um esfregaço vaginal de rotina, lhes é detectada uma lesão pré-cancerosa.

Até aqui, foram testadas diversas vacinas experimentais destinadas a tratar as lesões pré-cancerosas já instaladas, mas sem resultados convincentes. Em particular, os especialistas não conseguiram detectar, no sangue das pessoas vacinadas, alterações do sistema imunitário que indicassem sequer que o seu organismo estava a ser estimulado a lutar contra o vírus.

Mas agora, no seu ensaio clínico, em vez de se limitar a analisar o sangue, Cornelia Trimble, da Universidade Johns Hopkins (EUA), e colegas optaram por ir ver, mesmo no interior do tecido lesionado, se a vacinação estaria a surtir algum efeito “escondido”. E descobriram pela primeira vez que algo de significativo estava de facto a acontecer.

Os cientistas vacinaram 12 mulheres que apresentavam lesões pré-cancerosas, ditas "de alto grau", do colo do útero. Todas essas lesões estavam associadas à estirpe do vírus HPV16 – que juntamente com a estirpe HPV18, causa a grande maioria dos cancros do colo do útero.

Diga-se de passagem que as lesões pré-cancerosas de grau inferior podem desaparecer espontaneamente, sem cirurgia – e basta, numa primeira fase, vigiá-las. Mas 30% a 50% das lesões de alto grau dão origem a cancros invasivos – e como não há maneira prever quais o irão fazer, é preciso removê-las em todos os casos.

Três injecções
A equipa utilizou duas vacinas. Uma delas, feita à base de moléculas de ADN, provoca a produção pelo organismo de uma proteína específica do vírus HPV16 presente na superfície das células pré-cancerosas – incitando assim, em princípio, o sistema imunitário das participantes a reconhecer essas células como “inimigas”. A outra vacina, feita à base de um vírus vivo, mas não infeccioso, é capaz de detectar e matar as células pré-cancerosas que apresentam à sua superfície quer a já referida proteína do HPV16, quer uma outra, proveniente do HPV18.

Ao longo de oito semanas, a primeira vacina foi utilizada duas vezes (logo no início e a meio do tratamento), enquanto a segunda vacina foi administrada uma única vez no fim. Um grupo de seis participantes recebeu uma dose alta desta segunda vacina, enquanto outros dois grupos, de três participantes cada, receberam doses diferentes mas mais fracas, escrevem os cientistas. Sete semanas a seguir à terceira injecção (com a segunda vacina), todas as lesões foram removidas cirurgicamente e analisadas.

Os cientistas constataram, em primeiro lugar, que em cinco das mulheres – três das seis vacinadas com a dose mais alta da segunda vacina e uma em cada um dos dois grupos tratados com doses inferiores – as lesões tinham desaparecido. E ainda que as mulheres vacinadas a quem fora removido tecido lesionado após essas 15 semanas apresentavam, no interior das lesões, um significativo aumento dos níveis de linfócitos CD8 – as células “assassinas” do sistema imunitário.

Pelo contrário, nas amostras de sangue, também colhidas junto de todas as participantes, essa alteração não foi detectada com a mesma intensidade. Outros indicadores da activação do sistema imunitário também foram observados nas células do colo do útero de três das mulheres vacinadas. Até hoje, nenhuma das mulheres (a primeira foi vacinada em 2008 e a última em 2012) tornou a desenvolver lesões.

“Encontrámos alterações notáveis do sistema imunitário dentro das lesões, que não eram tão óbvias no sangue das doentes”, diz Trimble, citada em comunicado da Universidade Johns Hopkins.

Os cientistas tencionam recrutar mais uma vintena de voluntárias para testar uma combinação das duas vacinas com um creme aplicado directamente nas lesões, destinado a reforçar localmente a resposta imunitária

domingo, 26 de janeiro de 2014

Uma árvore com 2450 anos

Notícia da Sapo, 13/01/2014
Está em boa idade para rumar ao Alentejo e fazer uma visita ao Hotel Rural Horta da Moura, em Monsaraz.
 
Sobretudo, tem de visitar os terrenos do hotel onde sete oliveiras acabam de receber a certidão de idade. Entre elas, está um exemplar com 2450 anos, a segunda árvore certificada mais antiga de Portugal!!

E ainda pode ver oliveiras com 1370, 1330 e 705 anos. Todas continuam a produzir azeite. A datação foi feita por investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Estas árvores vão integrar um novo percurso pelos sete hectares da unidade hoteleira chamado de Rota da Oliveira.

Os golfinhos voltaram ao Tejo ou estão só de passagem?

Texto de Marisa Soares publicado pelo jornal Público em 24/01/2014
Biólogos vão estudar os vários avistamentos destes cetáceos no rio desde meados do século XIX. Número de observações tem aumentado nos últimos anos e os investigadores querem saber porquê.
 

Nos últimos anos têm sido avistados vários golfinhos no estuário
De cada vez que alguém vê e fotografa golfinhos a nadar no estuário do Tejo, o telemóvel da bióloga Cristina Brito toca. São os jornalistas a quererem saber se, afinal, os golfinhos estão de regresso ao estuário e, se sim, o que os traz de volta. A resposta sai com dúvidas. “Não sabemos muito bem o que dizer porque não há dados muito concretos e científicos”, admite a investigadora.
 
Perante esta incerteza, e como os avistamentos destes cetáceos no Tejo se multiplicaram nos últimos anos, os investigadores da empresa Escola de Mar e da Associação para as Ciências do Mar (uma organização sem fins lucrativos que promove a investigação do meio marinho, à qual Cristina Brito preside), decidiram mergulhar na história e procurar respostas. Através do projecto “Conservação e golfinhos no estuário do Tejo: realidade, imaginário ou mito?”, vão tentar perceber se os golfinhos estão a voltar a uma antiga área de residência ou se são visitantes ocasionais numa zona onde há hoje mais comida disponível e melhor qualidade ambiental, em resultado das intervenções ao nível do saneamento na área metropolitana de Lisboa.
 
“Vamos analisar dados históricos desde meados do século XIX, através dos registos dos naturalistas e das notícias de jornais, para perceber se os golfinhos estão a voltar a um ambiente no qual já viveram ou se estão apenas de passagem”, explica Cristina Brito, que coordena o projecto. Numa segunda fase, serão realizadas saídas de campo para “observações de oportunidade”. “Iremos para o estuário com empresas turísticas e que fazem transporte fluvial”, para tentar observar golfinhos, esclarece esta especialista em mamíferos marinhos. Os pescadores e outros utilizadores do estuário também serão ouvidos neste estudo.
 
Os avistamentos mais recentes são de golfinhos-roazes (Tursiops truncatus), da sub-espécie residente no estuário do Sado, e de golfinhos-comuns (Delphinus delphis), mais frequentes nas zonas costeiras. "Mas há registo de avistamentos até em Vila Franca de Xira", nota a bióloga. A especialista lembra que o número de avistamentos, que parece mais significativo nos últimos "dois ou três anos", pode estar simplesmente relacionado com uma maior atenção dada pela população e pelos próprios meios de comunicação a esta espécie.
 
Golfinhos toleram poluição
O objectivo, continua a investigadora, é “compilar os diversos registos [de observações] numa escala temporal e perceber se há um padrão que indique eles estão a voltar”. Se esse regresso se confirmar, depois é preciso saber o motivo: será a melhoria da qualidade da água, motivada pelas obras que permitiram, em Janeiro de 2011, deixar de lançar no rio os esgotos de 120 mil habitantes de Lisboa?
 
“Não é fácil relacionar directamente uma coisa com a outra”, adverte Cristina Brito. Isto porque os golfinhos não são uma espécie indicadora da qualidade da água – toleram facilmente sítios poluídos, já que acumulam a poluição na gordura corporal. No entanto, nota a bióloga, pode haver uma relação indirecta. “Num ecossistema com melhor qualidade há naturalmente mais peixes, o que atrai mais golfinhos.”
 
O estudo, que já começou no ano passado e deverá estar concluído no final de 2015, tem o apoio do Centro de Oceanografia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa. Mas os investigadores querem também envolver os municípios. As câmaras de Almada e Cascais vão apoiar financeiramente o projecto, as de Alcochete e do Seixal disponibilizam apoio logístico, e outros municípios que fazem fronteira com o maior estuário da Europa Ocidental serão ainda contactados.
 
A Câmara de Cascais explica que este apoio está inserido num “esforço” que a autarquia está a fazer desde 2008 com vista à caracterização e monitorização da zona costeira, através do programa Aquasig Cascais.
 
Durante a investigação, serão apresentadas conclusões provisórias em palestras e em actividades de sensibilização ambiental – outro dos objectivos do projecto.

Os genes de um cão pré-histórico perduram nos cães actuais através de um cancro

Artigo publicado pelo jornal Público em 24/01/2014
A análise do ADN de um cancro dos cães permitiu ter uma ideia de como era o primeiro cão a ter padecido a doença, há mais de 10 mil anos.
 

O primeiro cão a padecer de um cancro hoje comum nos cães era provavelmente parecido com um husky
O cancro mais antigo do mundo ainda hoje activo é um cancro canino. Uma equipa internacional de cientistas determinou a sequência genética desse cancro e descobriu que terá surgido pela primeira vez num cão que viveu há uns 11 mil anos. Os seus resultados foram publicados na revista Science com data desta sexta-feira.
 
O cancro em questão é um cancro transmissível por acasalamento que provoca o crescimento de horríveis tumores genitais. Os cancros transmissíveis são raríssimos, sendo o único outro conhecido um cancro facial muito agressivo que afecta os diabos da Tasmânia e que se propaga através das mordidas, explica em comunicado o Instituto Sanger do Wellcome Trust, no Reino Unido.
 
A equipa liderada por Elizabeth Murchison, do Instituto Sanger e da Universidade de Cambridge, que inclui cientistas britânicos e da Austrália, Brasil e Itália, conseguiu – a partir do estudo de um tipo de mutações que se sabe ter-se acumulado nesses tumores caninos de forma progressiva e regular ao longo do tempo – estimar quando apareceu este cancro genital que é hoje uma doença comum dos cães de todo o mundo.
 
E não só: os cientistas constataram ainda que os genes do primeiro cão a ter padecido da doença ainda estavam presentes, hoje em dia, nas células cancerosas dos cães doentes.
Segundo os autores, esse cão pré-histórico terá sido parecido com um husky e tinha provavelmente pêlo curto de cor cinzenta acastanhada ou preta. Não foi contudo possível determinar o seu sexo. “Não sabemos por que é que aquele cão em particular deu origem a um cancro transmissível”, diz Murchison, citada no mesmo comunicado, “mas é fascinante olhar para atrás e reconstituir a identidade de um cão antigo cujo genoma ainda hoje vive nas células cancerosas que começou a espalhar.”
 
A análise genética do cancro também forneceu pistas sobre a evolução geográfica da doença. “Os padrões de variantes genéticas encontrados nos tumores provenientes de diferentes continentes sugerem que durante a maior parte da sua história, o cancro permaneceu confinado a uma população isolada de cães”, salienta a investigadora. “Espalhou-se para o resto do mundo nos últimos 500 anos, tendo provavelmente sido transmitida pelos cães que acompanhavam os exploradores nos navios, no início da era dos Descobrimentos.”

Cientistas descobriram um local onde o som nunca mais morre (ou quase)

Texto de Ana Gerschenfeld publicado pelo jornal Público em 21/01/2014
Numa antiga rede subterrânea de reservatórios de combustível na Escócia, o eco do disparo de uma pistola perdurou durante quase dois minutos.
 

Antiga conduta do complexo subterrâneo de Inchindown, onde era armazenado combustível naval durante a Segunda Guerra Mundial
Um especialista britânico de acústica acaba de pulverizar o recorde de duração de um eco numa estrutura de fabrico humano, anunciou a Universidade de Salford (Reino Unido) em comunicado.
 
O anterior recorde, registado no Guinness de 1970, foram os 15 segundos que o som demora a dissipar-se quando as portas de bronze maciço do Mausoléu de Hamilton, um monumento situado na Escócia, são fechadas com força.
 
Mas agora, Trevor Cox, da Universidade de Salford, visitou uma rede subterrânea de reservatórios de combustível que data de finais do anos 1930: o complexo de Inchindown, perto de Invergordon, também na Escócia. E descobriu a extraordinária acústica das estruturas que o compõem: ali, o som do disparo de uma bala demora 112 segundos a calar-se.
 
Construído em secreto pelas autoridades britânicas durante a Segunda Guerra Mundial, Inchindown foi utilizado para proteger dos bombardeamentos nazis as reservas de combustível necessárias ao abastecimento dos navios militares. Hoje em dia devoluto, pode no entanto, desde 2009, ser visitado pelo público.
 
Para realizar a experiência, Cox teve de penetrar num dos tanques através de uma conduta com menos de meio metro de diâmetro, guiado por Allan Kilpatrick, arqueólogo da Comissão Real dos Monumentos Antigos e Históricos da Escócia.
 
O tanque em que os dois homens entraram tem uma capacidade de 25,5 milhões de litros, paredes com 45 centímetros de espessura, um comprimento equivalente ao de dois campos de futebol, nove metros de largura e 13,5 metros de altura.
 
Uma vez posicionados estrategicamente dentro do tanque, um deles (Kilpatrick) disparou as falsas balas (munições de alarme) enquanto o outro (Cox) registava com microfones a “resposta” do gigantesco espaço aos estrondos. Trata-se de uma técnica habitual, explica ainda o comunicado, para avaliar a acústica das salas de concerto.
 
A primeira reacção de Cox ao eco interminável foi de incredulidade. “Nunca tinha ouvido uma tal catadupa de ecos e reverberações”, disse o cientista citado pela BBC News.
 
Segundo noticiou pelo seu lado o The Independent, o Guinness já certificou os novos resultados. “A reverberação é central à música clássica”, diz ainda Cox, citado por este diário britânico. “Seria interessante escrever uma peça de música para estas instalações.”

Planeta anão Ceres cospe vapor de água por dois lados

Artigo de Nicolau Ferreira publicado pelo jornal Público em 25/01/2014
A cada segundo, seis quilos de água sob forma de vapor são ejectados de Ceres. Investigadores propõem duas origens para este fenómeno.
 

Uma ilustração de Ceres
Há uma cintura de asteróides que divide o Sistema Solar em duas zonas. Esta região, entre Marte e Júpiter, que separa os planetas rochosos (como a Terra e Marte) dos planetas gasosos (como Júpiter e Saturno), tem milhões de objectos, desde pequenas partículas até grandes asteróides. O maior é Ceres, um astro redondo que é considerado um planeta anão tal como Plutão. Agora, os cientistas descobriram duas plumas de vapor de água que se libertam de duas regiões diferentes daquele astro e que dão pistas sobre o seu interior, revela um artigo publicado nesta semana na revista Nature.
 
Ceres está na parte mais exterior da cintura de asteróides. O planeta anão tem 950 quilómetros de diâmetro (a Lua tem 3,6 vezes este diâmetro). A equipa, da Agência Espacial Europeia (ESA) e do Observatório de Paris, analisou o astro com o telescópio espacial Herschel da NASA e da ESA, cuja missão terminou no ano passado.

Em Outubro de 2012, a equipa viu sinais da emissão de água sob o estado gasoso. Mas só em Março de 2013, durante uma observação contínua de dez horas — suficiente para observar uma rotação completa do planeta anão —, é que as lentes que detectam luz no comprimento de onda dos infravermelhos confirmaram a existência de plumas de vapor de água a sair do objecto.

“Esta é a primeira detecção clara de água na cintura de asteróides”, diz Michael Küppers, da ESA, citado pela revista de divulgação científica New Scientist. Uma das causas para a origem desta água é ser proveniente de uma camada de gelo que está à superfície do astro ou logo abaixo. A luz solar faz este gelo sublimar, passando directamente do estado sólido para o gasoso.

“Outra possibilidade é que ainda pode existir alguma energia no interior de Ceres, e esta energia faria com que a água fosse expelida de uma forma semelhante à dos geysers na Terra. Só que, devido à baixa pressão que existe à superfície do asteróide, o que se libertaria seria vapor e não líquido”, explica Michael Küppers, citado pela BBC News.

O resultado deste fenómeno é que seis quilos de água são libertados por segundo em Ceres, o que equivale a cerca de 520 toneladas ao fim do dia. Os cientistas chegaram a estes números através da quantidade de infravermelhos que eram absorvidos pela pluma de vapor de água. Mas em 2015, quando o satélite da NASA Dawn chegar a este grande pedaço de rocha, a origem desta massa de água poderá começar a ser desvendada.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Localizadas mutações em 42 tijolos do ADN associadas à artrite reumatóide

Artigo publicado pelo jornal Público em 26/12/3013.
Análise do genoma de mais de 100 mil pessoas revela novos locais no ADN com influência no desenvolvimento de doença auto-imune. Estudo identifica terapias já existentes para tratar estas variações genéticas.
 

A artrite reumatóide causa a deformação das articulações
Uma análise genética a 103.638 pessoas de origem europeia e asiática encontrou 42 novos locais no ADN que estão fortemente associados ao desenvolvimento da artrite reumatóide. O trabalho, feito por cientistas em 38 instituições de sete países, foi publicado na última edição da revista Nature e pode ajudar a desenvolver terapias personalizadas para quem tem esta doença.
 
A artrite reumatóide é uma doença incapacitante. Uma resposta auto-imune do corpo gera inflamação nas articulações, provocando dores e, a longo prazo, a deformações das articulações, o que dificulta o movimento. Já se conheciam 59 locais no ADN humano em que se tinha sido associada a variação num único tijolo da molécula ao aparecimento desta doença, que surge em cerca de uma em cada 100 pessoas, afectando principalmente as mulheres.
 
O trabalho publicado agora, liderado por Robert Plenge, da Faculdade de Medicina de Harvard, em Boston, nos Estados Unidos, alargou o conhecimento sobre as variações genéticas que podem provocar a doença. A equipa internacional foi analisar 10 milhões de tijolos da molécula de ADN em 103.638 pessoas, 29.880 destas com artrite reumatóide.
 
Os investigadores fizeram um estudo de associação genómica para encontrar variações genéticas, dentro daqueles 10 milhões de tijolos, mais frequentes nas pessoas com a doença. Desta forma, descobriram 42 novos tijolos no ADN em que certas variações estão associadas à artrite reumatóide.
 
“Esta descoberta oferece uma oportunidade de utilizar a genética para descobrir novos fármacos para tratar ou mesmo curar as doenças complexas como a artrite reumatóide”, explica Robert Plenge, citado pela BBC News.
 
Com esta descoberta, conhecem-se agora 101 locais do ADN associados ao desenvolvimento desta doença. O artigo na Nature encontrou ainda 98 genes candidatos onde estão situados estes tijolos, e demonstrou ainda que estes genes são já alvo de tratamento de terapias contra a artrite reumatóide. A equipa identificou ainda terapias usadas noutras doenças, como no cancro, que poderão ser utilizadas na artrite reumatóide.
 
Kathy Siminovitch, outra investigadora envolvida neste trabalho, do Instituto de Investigação Lunenfeld-Tananbaum, do Hospital do Mounte Sinai, em Toronto, Canadá, explica em comunicado que esta descoberta facilita a medicina personalizada: “Podemos utilizar esta informação genética para tratarmos as pessoas de uma forma individualizada, dependendo da via molecular envolvida [na doença] de cada pessoa.”